Carta aberta a Mário Soares
Meu caro amigo,
Nutro por si, como sabe, uma admiração e um afecto que resistiram ao tempo e às diferenças de opinião. Devo-lhe, além disso, uma parte importante da minha formação democrática e cívica, especialmente quando eu, ainda jovem jornalista do Expresso, fazia as reportagens das suas primeiras campanhas eleitorais logo a seguir ao 25 de Abril e você, generosamente, me dava boleia no carro que o transportava.
Eu registava livremente as minhas impressões de repórter sem me sentir condicionado por uma proximidade que, aos olhos de outros, poderia afigurar-se deontologicamente duvidosa. A verdade é que você, dr. Soares, mesmo quando se sentia alvo de alguma observação mais ácida ou impertinente nos textos que eu publicava, nunca me recriminou por causa disso ou pôs em causa o prazer da nossa companhia e o gosto genuíno da discussão tolerante e democrática.
Nunca confundimos os nossos papéis respectivos. E é com saudade que recordo esses anos já longínquos, em que gostava de rever-me como uma espécie de sombra crítica do grande actor político que você era, pai-fundador da nossa democracia.
Desde então, muita água foi passando sob as pontes, e os nossos destinos conheceram acidentes variadíssimos até convergirmos numa actividade quase paralela como comentadores nos meios de comunicação. Com uma diferença essencial, porém: o dr. Mário Soares nunca abandonou de facto a nostalgia da vida política activa, enquanto eu fui apenas um passageiro em trânsito e equivocado dentro dela (como aconteceu durante a minha experiência de deputado do PS).
Curiosamente, eu que, nos meus verdes anos, me habituara a criticar as suas cedências à direita ou ao chamado realismo político, surpreendeu-me vê-lo, em tem- pos recentes, a subscrever tomadas de posição com uma veemência que, antes, se qualificaria de ‘esquerdista’: contra o neoliberalismo de Bush e Blair, as invasões do Afeganistão e do Iraque, os atentados ambientais (é o caso da actual catástrofe petrolífera no Golfo do México, a pior já sofrida pelos Estados Unidos), a deriva do capitalismo financeiro que precipitou o mundo na maior crise do último meio século, a falta de projecto e liderança numa Europa cada vez mais ameaçada de irrelevância política.
Ainda agora, no seu último texto no DN, era esse o assunto que absorvia o essencial da sua atenção, antes de chegar ao quase post-_-scriptum dedicado à candidatura presidencial de Manuel Alegre. E arrisco apostar que a aventura louca – e politicamente suicidária – do governo israelita contra a frota humanitária que se deslocava para a Faixa de Gaza constituirá um tema obrigatório da sua próxima crónica.
Eis decerto um ponto onde amplamente convergiremos: o complexo de cerco em que o Estado judaico se deixou aprisionar e o conduziu a uma escalada cega de violência e intolerância contra os seus vizinhos tornou-se a maior ameaça à própria existência de Israel e à paz internacional, favorecendo a expansão cada vez mais incontrolável dos fanatismos religiosos.
Dito isto, tenho divergido de si, em várias ocasiões, sobre o que me pareceu ser uma condescendência excessiva da sua parte em relação às motivações profundas que animam os movimentos terroristas islâmicos, como a Al Qaeda. Eles não são, quanto a mim, um mero efeito perverso das agressões imperialistas ocidentais, mas um produto da própria crise identitária do mundo islâmico.
Colocando as coisas em perspectiva, a guerra contra os talibãs, por exemplo, foi uma inevitável consequência do atentado contra as Torres Gémeas. Ora, não pode haver compromissos com os que visam destruir os fundamentos da nossa civilização e desejam estender sobre todo o mundo uma nova idade das trevas.
Mas vejo-me obrigado a reconhecer que, quando Israel faz o que faz na Faixa de Gaza e inviabiliza sistematicamente a paz no Médio Oriente, são os extremistas e fanáticos que se tornam vencedores ‘morais’ desta guerra infernal.
Gostaria de continuar a dialogar consigo sobre estes temas, mas vejo-me obrigado a retomar o quase post-scriptum da sua última crónica, onde faz questão de dizer que se opôs à candidatura de Alegre «por razões exclusivamente políticas». É, permita-me, uma confissão com sabor freudiano – ou, como está na moda dizer-se, que reflecte um ‘estado de negação’.
A verdade é que o dr. Mário Soares – tal como, aliás, outros opositores socialistas a essa candidatura – não avança uma única «razão política» para explicar a sua atitude. Se elas existem – e é naturalíssimo que existam –, então é fundamental explicitá-las, a não ser que sejam o que efectivamente parecem: razões pessoais e não políticas.
Não sou, de todo, um indefectível de Manuel Alegre, mas votei nele nas eleições que disputou consigo e Cavaco Silva, porque me pareceu ser a candidatura que correspondia ao pulsar novo e transversal de um movimento cívico da esquerda, apesar da retórica por vezes grandiloquente a que Alegre não consegue resistir.
Se então não votei em si, caro dr. Mário Soares, como fizera em eleições anteriores, foi porque achei que o seu regresso a Belém não fazia sentido depois de 10 anos de Presidência e tinha uma marca de soberba majestática que me desagradava – precisamente por não corresponder à imagem mais grata que guardo de si.
Alegre não tem culpa de ser o único candidato da área socialista a disponibilizar-se para este combate político. Nenhum dos seus detractores apresentou alternativas ou arriscou apostar declaradamente na nebulosa ideológica e um tanto patética de Fernando Nobre.
Percebo que, numa inconfessada guerra de egos, haja razões pessoais insuperáveis para o dr. Mário Soares não poder apoiar Manuel Alegre. Mas digo-lhe, como amigo verdadeiro, que não o enobrece confundir ostensivas razões pessoais com omissas razões políticas.