Mundial: eclipse (quase) total
Desde a infância que adoro futebol – uma paixão de família – e, por isso, tenho tentado seguir com regularidade os jogos do Mundial, mesmo alguns a que se atribui menor importância. Por outro lado, gostaria que Portugal fosse tão longe quanto possível e, naturalmente, que ganhasse o título, mas esse objectivo converteu-se num sonho longínquo para a generalidade dos portugueses (a começar pelos jogadores e o treinador da Selecção, cujo estado de espírito, engenho e arte se têm mostrado pouco compatíveis com voos ambiciosos).
Este desencanto antecipado com os nossos ‘navegadores’ tornou-se uma metáfora da depressão nacional em que vivemos – e se tem vindo a acentuar todos os dias. Esta semana, a Comissão Europeia decretou que Portugal teria de efectuar um corte suplementar de 2.500 milhões de euros na despesa, já em 2011, e não se sabe o que ainda está para vir.
Presumo que nenhum outro país europeu com lugar destacado no ranking da FIFA – porventura à excepção da França e talvez da Espanha, depois da surpreendente derrota com a Suíça – se apresenta tão pouco moralizado como o nosso para fazer boa figura na África do Sul e encontrar aí um bálsamo, embora ilusório, para as suas maleitas domésticas.
Mesmo que possamos ser ainda surpreendidos por um golpe de asa que contrarie a decepção da estreia, o sentimento geral é sombrio, derrotista – como se o fado da Selecção estivesse intimamente ligado ao fado do país. Além disso, o facto de a actualidade noticiosa ser dominada esmagadoramente pelo Mundial – faz-se zapping de um jogo para a abertura dos telejornais e é sempre o Mundial que encontramos – acentua ainda mais essa sintonia de fados.
Deixamos de desfrutar a festa do futebol para nos embrenharmos nas tristes intrigas do balneário da Selecção. Os casos Nani ou Deco, Queiroz e a sua ansiedade e falta de ousadia, remetem-_-nos, afinal, para aquilo que o (quase) eclipse das outras notícias não faz esquecer e acaba por potenciar: a depressão futebolística é um reflexo da depressão nacional que aflora através dela.
Neste eclipse que não esconde mas, pelo contrário, agudiza doentiamente a relação com o quotidiano português, são chamados a participar alguns dos mais influentes comentadores da actualidade política, como Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares (além do regressado Pedro Santana Lopes, em busca de compensação para uma notoriedade em baixa ou um impossível e inconfessado sonho presidencial). Como se não bastassem os eternos treinadores de bancada que ocupam intermináveis horas da programação televisiva ao longo do ano, agora não faltam sequer as estrelas político-_-mediáticas para animar esta festa (ou feira, como diria O’Neill) cabisbaixa.
Já era conhecida a compulsão futebolística de Marcelo, que o leva a falar como se fosse uma réplica de Rui Santos, mas o seu incurável optimismo nas conjecturas sobre os feitos da Selecção foi logo cruelmente desmentido pelo empate com a Costa do Marfim – resultado que nem ele nem nenhum dos participantes num painel da TVI se mostrou capaz de antecipar, embora fosse, no fundo, um dos mais…previsíveis.
Evidentemente, a tentação dos políticos para assumirem este papel episódico (com Marcelo é quase permanente) está longe de ser apenas portuguesa. A chanceler Merkel e a líder do PS francês, Martine Aubry, por exemplo, não quiseram ficar fora da fotografia. A segunda a torcer pela Espanha, talvez para consolar o seu camarada Zapatero, no caso de a França não chegar ao fim (coisa em que ninguém acredita, a começar pelos franceses). E a primeira a prever uma vitória da Alemanha por 2-0 contra a Austrália (ficou aquém dos 4-0 finais, mas isso deve-se, porventura, ao seu espírito de contenção orçamental que já a levou a impor uma cura de austeridade sem precedentes – e altamente controversa do ponto de vista económico – à população alemã).
O Mundial só eclipsou ilusoriamente, apesar de o eclipse ser total e global, as notícias que agora surgem sempre em segundo plano, como o já referido aperto das contas públicas imposto pela Comissão Euro- peia para 2011. Quem irá pagar a renda destas medidas que asfixiam a vida económica e tendem a acentuar ainda mais as desigualdades e a exclusão social? Até que ponto o Governo será capaz de cortar mais nos privilégios e mordomias – nos muitos desperdícios intocados do Estado e nas regalias de que continuam a usufruir os mais ricos e poderosos –, para poupar os menos favorecidos a um agravamento insuportável das suas condições de vida?
A lógica monetarista regressou cegamente e com toda a força, mesmo que o resultado inevitável de uma política de austeridade cada vez mais sufocante e sem fim à vista seja uma recessão generalizada na Europa, como tem sido sublinhado por economistas de vários quadrantes. Mas, agora, até o director do FMI, Dominique Strauss-Khan, um dos putativos candidatos socialistas às próximas presidenciais francesas, parece ter-se convertido à doutrina monetarista protagonizada pela Alemanha e que, aparentemente, contestava há ainda poucos meses.
A confusão instalou-_-se. Afinal, uma política económica e financeira puramente restritiva terá ou não efeitos recessivos devastadores para o espaço europeu (e não apenas para ele)? O doente não corre o risco de morrer por excesso de medicação ou dieta?
É verdade que nós, portugueses, levámos demasiado tempo a fazer de cigarra com os dinheiros dessa Europa a que aderimos há 25 anos – e cuja celebração foi duplamente eclipsada: por causa do Mundial e também por causa do infinito desencanto que essa Europa mítica hoje nos suscita. É que a Europa, sob o diktat germânico, está transformada num colete-de-forças que paralisa qualquer veleidade de regeneração.