SOL

Duelos ibéricos e falta de estratégia

Publicação: 02 Julho 10 10:00

 

A derrota de Portugal frente à Espanha no Mundial de futebol era, afinal, extremamente previsível. E vistas as coisas à luz do que se passou em campo, a insensatez do nosso ‘sonho africano’ acabou por revelar-se quase patética. Depois de uma qualificação arrancada a ferros, até onde poderíamos de facto ter chegado, com aquele treinador temeroso perante qualquer risco ou ousadia e aquela equipa que apenas conseguiu brilhar – e consolar-nos – num jogo com a selecção mais frágil do torneio?

Que o único verdadeiro ‘herói’ dos ‘navegadores’ tenha sido o guarda-redes Eduardo reflecte bem a pálida imagem que, como equipa, deixámos na África do Sul. E não por acaso foi apenas ele que chorou durante a nossa saída de cena, enquanto o treinador se refugiava no seu conformismo justificativo habitual e a estrela da companhia demonstrava, uma vez mais, a displicência e o egocentrismo que uma subida vertiginosa ao Olimpo futebolístico e à riqueza fácil pode provocar em personalidades imaturas.

 

Na manhã seguinte ao desaire desportivo, seguiu-se uma révanche simbólica contra Espanha, quando o Governo decidiu recorrer à golden share na PT para inviabilizar a compra da Vivo pela Telefónica. Mas se pensarmos que a grande maioria dos accionistas, nomeadamente portugueses, cuidou mais dos seus interesses financeiros imediatos do que da importância estratégica do que estava em jogo para a irradiação internacional da empresa, encontramos aí um exemplo paralelo ao estado de espírito revelado pela Selecção.

Tal como Cristiano Ronaldo parece encadeado pelo brilho dos milhões e se esteve nas tintas para representar condignamente o país, os accionistas nacionais da PT também se mostraram mais empenhados em encaixar um suculento rendimento a curto prazo do que em apostar no futuro das telecomunicações portuguesas a uma escala global.

Evidentemente, a dimensão da crise que consome as energias do país não favorece actos de filantropia patriótica ou apostas estratégicas de largo alcance e convida a proteger as carteiras particulares dos accionistas – em especial daqueles que se limitam a aproveitar as melhores oportunidades conjunturais de negócio para as suas aplicações financeiras. Mais vale um pássaro na mão do que dez a voar…

 

Perante o contraste entre a votação dos accionistas a favor da venda da jóia da coroa da PT à Telefónica e o veto oposto pelo Governo à operação, Henrique Granadeiro e Zeinal Bava – que antes haviam prometido, tal como Carlos Queiroz, quase uma reedição de Aljubarrota frente às tropas espanholas – acabaram por não saber a que santo se votar, lavando as mãos como Pilatos de um confronto que, afinal, os transcendia.

Os supostamente todo-poderosos administradores revelaram-se pequenos figurantes apanhados entre os fogos das suas dependências (que, no que se refere ao poder político, tinham sido particularmente visíveis durante a tentativa de compra da TVI pela PT). Só que, desta vez, deviam obediência a dois senhores e colocaram-se de fora da contenda que os dividiu.

Enquanto Queiroz só por pouco não transformava a derrota da Selecção em vitória moral, Granadeiro e Bava não foram capazes de extrair uma moral da história épica que pretenderam protagonizar no duelo com a Telefónica. Afinal, a recusa da venda da Vivo era uma questão de princípio e interesse estratégico para o futuro da PT ou apenas uma litigação para sacar mais uns milhões que seduzissem os accionistas e confortassem os cofres da empresa? A derradeira jogada de póquer da Telefónica, a poucas horas da assembleia geral da PT, foi o golpe de teatro que fez soçobrar princípios férreos e intransigências guerreiras?

 

Há quem suspeite que o recurso à golden share foi decidido por Sócrates apenas depois da derrota da Selecção, para compensar a auto-estima ferida dos portugueses. Ora, tanto quanto se sabe, Bava e Granadeiro foram também aí apanhados de surpresa, já que, em declarações anteriores, o primeiro-ministro evitara clarificar a posição governamental e parecia mais inclinado para uma atitude não interventiva.

O Governo tem-nos habituado, nos últimos tempos, a um comportamento extremamente errático – de que os últimos episódios são os avanços e recuos nas SCUT e o volte-face no encerramento das escolas (que agora passará a ser concertado com as autarquias). Ora, este desnorte pode também reflectir--se na evolução do caso Vivo e na própria controvérsia que, a nível europeu, suscita a existência de golden shares estatais.

Para já, a turbulência na relação entre o Estado e a maioria dos accionistas não deixará de causar um clima de profunda instabilidade na PT, pondo definitivamente em xeque a autoridade da actual administração. E é de prever que esta nova guerra ibérica venha a agravar-se com a hipótese, várias vezes agitada, de uma OPA hostil por parte da Telefónica sobre a sua congénere portuguesa. Numa conjuntura em que o Estado português se encontra tão fragilizado perante as instâncias europeias, a capacidade de resistência da sua golden share na PT não pode deixar de ressentir-se fortemente.

 

Por outro lado, a preocupação do Governo com a defesa do papel estratégico da PT é claramente contraditória com os anunciados planos de privatização de empresas públicas ou com participação pública cuja importância estratégica é fundamental, como os Correios, a EDP ou a Galp. Recorde-se que o calcanhar de Aquiles da PT reside na forma precipitada como se procedeu à sua privatização, reduzindo-se o Estado a uma insular golden share rodeada de uma enorme nebulosa de interesses privados por todos os lados. Era isso que lembrava o ex-presidente dos Correios, Luís Nazaré, no Público da passada quarta-feira.

Comentários

# surpreso said on Julho 3, 2010 14:55:

O Nazaré diz isso porque cria o tacho do puto Soares.É para isso que tem servido a "golden share".Nepotismo...

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