A duplicidade de Passos Coelho
As últimas sondagens têm vindo a apontar, com maior ou menor expressão, para um significativo crescimento eleitoral do PSD em detrimento do PS (com reflexos também numa queda do CDS e do BE). Em si mesmo, o facto nada tem de surpreendente, considerando a actual situação do país e a já tradicional bipolarização verificada em ocasiões anteriores, embora sem a gravidade daquela que enfrentamos.
Tendências idênticas registam-se um pouco por toda a Europa – nomeadamente em Espanha, França ou até na Alemanha –, com as oposições a capitalizarem a impopularidade dos governos que adoptaram duras medidas de austeridade para enfrentar a crise, mesmo quando as condições internas e as pressões externas não os obrigavam a isso (daí a queda abrupta da chanceler Merkel, recentemente humilhada por uma votação parlamentar em que uma parte relevante da maioria recusou apoiar o seu candidato à Presidência da República).
Se há alguma surpresa em Portugal é, talvez, a de o PSD e o seu aliado ‘natural’, o CDS, não terem conseguido, nalgumas sondagens, reunir ainda uma maioria absoluta, enquanto os comunistas ultrapassam claramente, apesar do tom repetitivo do seu discurso, os bloquistas e os populares.
Nestes tempos de ansiedade, angústia e confusão, a crueza ideológica rudimentar e a força sindical do PCP – que retoma transitoriamente a posição simbólica de terceiro maior partido – apresenta-se mais protectora dos interesses do eleitorado tradicional de esquerda do que o canto de sereias irreverente e juvenil do Bloco (cujo défice de implantação nas estruturas sindicais continua a penalizá-lo em momentos mais propensos à ‘guerra social’).
Entretanto, o CDS sofre, como sempre sofreu, quando vê esticar-se a corda do voto útil à direita – e quando esse voto é hoje encarnado por um líder em crescendo de popularidade, com uma atitude que rompe com o cinzentismo azedo da presidência anterior e lhe tem valido a domesticação da crónica conflitualidade interna. Face à novidade Passos Coelho, a pose provocadora de Portas corre o risco de confundir-se com um retrato envelhecido.
Passos Coelho rompeu com a tradição da animosidade pessoal que opunha Ferreira Leite a José Sócrates e tem apostado em manter uma ‘atitude de Estado’ na sua relação com o chefe do Governo, negociando, colaborando e pressionando até conseguir os ganhos políticos possíveis.
Por outro lado, a exibição desse sentido de responsabilidade é acompanhada por uma pose contrastante com aquela que caracterizou José Sócrates: à arrogância, autoritarismo e infalibilidade cultivados pelo primeiro-ministro, o novo líder do PSD opõe um perfil ostensivamente mais pacífico, brando e dialogante – o que lhe permite desenhar um perfil verosímil de primeiro-ministro alternativo. O sucesso deste estilo de actuação pode medir-se, aliás, pela tentativa recente de Sócrates em responder, num tom idêntico, aos avanços do seu interlocutor.
O problema é que há em Passos Coelho uma duplicidade que não pode prolongar-se indefinidamente, tal como acontece com as relações amorosas inconclusivas e ambíguas.
Apostando simultaneamente na colaboração possível com Sócrates – ou no propósito declarado de não querer abrir uma crise política prematura – e na recusa insistente de reeditar o Bloco Central ou de participar num qualquer Governo de Salvação Nacional, Passos Coelho tem pela frente uma margem de manobra cada vez mais estreita. Uma margem que ameaça romper-se perante um desenlace inesperado e dramático da actual situação económica e política do país.
Passos joga com o tempo – e propõe-se aproveitar a corrida já iniciada em direcção às presidenciais, cujo resultado final é, apesar de tudo, ainda incerto – para chegar ao poder com maioria absoluta (absorvendo ou não posteriormente o CDS, num ‘beijo da morte’ como aquele que Mitterrand deu aos comunistas franceses na União de Esquerda, um acto de vampirização política que ficou para a História).
Mas os timings da crise nacional tendem a não coincidir forçosamente com os timings da estratégia de Passos Coelho, revelando prematuramente a nudez da sua duplicidade e das suas fragilidades.
Para já, Passos Coelho não passou incólume no imbróglio das SCUT: as concessões obtidas a Sócrates tiveram como contrapartida o renascer de velhos conflitos com alguns barões autárquicos do partido (designadamente no Algarve).
Depois, as duas declarações do seu braço direito, Miguel Relvas, sobre a aliança com o CDS ou o veto do Governo à venda da Vivo à Telefónica, mostraram uma falta de sintonia ou uma clara incongruência nas posições do PSD.
Finalmente, as assembleias de notáveis para rever a Constituição e reformar o programa do partido – no primeiro caso, encabeçada por um destacado militante monárquico; no segundo, reunindo personalidades ‘independentes’, algumas com ligações anteriores ao PS – não só parecem golpes oportunistas decalcados do socratismo mais retinto como mostram apetência para seduzir os eternos ressentidos e órfãos do poder.
Adeclaração de Relvas sobre o negócio da Vivo é um exemplo consumado de inconsequência e hipocrisia política. Segundo o secretário-geral do partido, o PSD é contra as golden shares e o Estado não deveria ter-se oposto aos interesses privados no negócio, embora este, como afirmou, não fosse bom para a PT. Solução: «o sinal que o Estado devia dar era o da votação da Caixa Geral de Depósitos» (contrário à operação). Não servia para nada, mas a honra do Estado – deduz-se – ficava salva.
Se é assim – com esta duplicidade, esta displicência e este novo-riquismo liberal – que o PSD pretende governar o país, urge que estejamos prevenidos contra o ‘sentido de Estado’ de Pedro Passos Coelho.