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A duplicidade de Passos Coelho

Publicação: 09 Julho 10 10:00

As últimas sondagens têm vindo a apontar, com maior ou menor expressão, para um significativo crescimento eleitoral do PSD em detrimento do PS (com reflexos também numa queda do CDS e do BE). Em si mesmo, o facto nada tem de surpreendente, considerando a actual situação do país e a já tradicional bipolarização verificada em ocasiões anteriores, embora sem a gravidade daquela que enfrentamos.

 

Tendências idênticas registam-se um pouco por toda a Europa – nomeadamente em Espanha, França ou até na Alemanha –, com as oposições a capitalizarem a impopularidade dos governos que adoptaram duras medidas de austeridade para enfrentar a crise, mesmo quando as condições internas e as pressões externas não os obrigavam a isso (daí a queda abrupta da chanceler Merkel, recentemente humilhada por uma votação parlamentar em que uma parte relevante da maioria recusou apoiar o seu candidato à Presidência da República).

 

Se há alguma surpresa em Portugal é, talvez, a de o PSD e o seu aliado ‘natural’, o CDS, não terem conseguido, nalgumas sondagens, reunir ainda uma maioria absoluta, enquanto os comunistas ultrapassam claramente, apesar do tom repetitivo do seu discurso, os bloquistas e os populares.

 

Nestes tempos de ansiedade, angústia e confusão, a crueza ideológica rudimentar e a força sindical do PCP – que retoma transitoriamente a posição simbólica de terceiro maior partido – apresenta-se mais protectora dos interesses do eleitorado tradicional de esquerda do que o canto de sereias irreverente e juvenil do Bloco (cujo défice de implantação nas estruturas sindicais continua a penalizá-lo em momentos mais propensos à ‘guerra social’).

 

Entretanto, o CDS sofre, como  sempre  sofreu,  quando vê esticar-se a corda do voto útil à direita – e quando esse  voto  é  hoje  encarnado por  um  líder  em  crescendo de popularidade, com uma atitude  que  rompe  com  o cinzentismo azedo da presidência anterior e lhe tem valido a domesticação da crónica conflitualidade interna. Face à novidade Passos Coelho, a pose provocadora de Portas corre o risco de confundir-se  com  um  retrato  envelhecido.

 

Passos Coelho rompeu com a tradição da animosidade pessoal que opunha Ferreira Leite a José Sócrates e tem apostado em manter uma ‘atitude de Estado’ na sua relação com o chefe do Governo, negociando, colaborando e pressionando até conseguir os ganhos políticos possíveis.

 

Por outro lado, a exibição desse sentido de responsabilidade é acompanhada por uma pose contrastante com aquela que caracterizou José Sócrates: à arrogância, autoritarismo e infalibilidade cultivados pelo primeiro-ministro, o novo líder do PSD opõe um perfil ostensivamente mais pacífico, brando e dialogante – o que lhe permite desenhar um perfil verosímil de primeiro-ministro alternativo. O sucesso deste estilo de actuação pode medir-se, aliás, pela tentativa recente de Sócrates em responder, num tom idêntico, aos avanços do seu interlocutor.

 

O problema é que há em Passos Coelho uma duplicidade que não pode prolongar-se indefinidamente, tal como acontece com as relações amorosas inconclusivas e ambíguas.

Apostando simultaneamente na colaboração possível com Sócrates – ou no propósito declarado de não querer abrir uma crise política prematura – e na recusa insistente de reeditar o Bloco Central  ou  de  participar num qualquer Governo de Salvação Nacional, Passos Coelho tem pela frente uma margem de manobra cada vez   mais   estreita.   Uma  margem que ameaça romper-se perante um desenlace inesperado  e  dramático  da actual   situação   económica  e política do país.

 

Passos joga com o tempo – e propõe-se aproveitar a corrida já iniciada em direcção às presidenciais, cujo resultado final é, apesar de tudo, ainda incerto – para chegar ao poder com maioria absoluta (absorvendo ou não posteriormente o CDS, num ‘beijo da morte’ como aquele que Mitterrand deu aos comunistas franceses na União de Esquerda, um acto de vampirização política que ficou para a História).

Mas os timings da crise nacional tendem a não coincidir forçosamente com os timings da estratégia de Passos Coelho, revelando prematuramente  a  nudez  da  sua  duplicidade  e  das  suas   fragilidades.

 

Para já, Passos Coelho não passou incólume no imbróglio das SCUT: as concessões obtidas a Sócrates tiveram como contrapartida o renascer de velhos conflitos com alguns barões autárquicos do partido (designadamente no Algarve).

Depois, as duas declarações do seu braço direito, Miguel Relvas, sobre a aliança com o CDS ou o veto do Governo à venda da Vivo à Telefónica, mostraram uma falta de sintonia ou uma clara incongruência nas posições do PSD.

 

Finalmente, as assembleias de notáveis para rever a Constituição e reformar o programa do partido – no primeiro caso, encabeçada por um destacado militante monárquico; no segundo, reunindo personalidades ‘independentes’, algumas com ligações anteriores ao PS – não só parecem golpes oportunistas decalcados do socratismo mais retinto como mostram apetência para seduzir os eternos ressentidos e órfãos do poder.

 

Adeclaração de Relvas sobre o negócio da Vivo é um exemplo consumado de inconsequência e hipocrisia política. Segundo o secretário-geral do partido, o PSD é contra as golden shares e o Estado não deveria ter-se oposto aos interesses privados no negócio, embora este, como afirmou, não fosse bom para a PT. Solução: «o sinal que o Estado devia dar era o da votação da Caixa Geral de Depósitos» (contrário à operação). Não servia para nada, mas a honra do Estado – deduz-se – ficava salva.

Se é assim – com esta duplicidade, esta displicência e este novo-riquismo liberal – que  o  PSD  pretende  governar o país, urge que estejamos prevenidos contra o ‘sentido de Estado’ de Pedro Passos Coelho.

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