Comédias de Verão
Há cerca de quinze dias, telefonaram-me de um dos principais portais portugueses da internet – que, pelos vistos, tem um serviço de informação com pretensões jornalísticas – colocando-me uma questão que me deixou perplexo: «Que importância tem o Chão da Lagoa?». Indaguei se se tratava da festa do PSD/Madeira (que se realizou no passado domingo) e, perante a confirmação, confessei a minha estranheza com a substância da pergunta.
«Que importância?...», insisti para desfazer dúvidas. Sim, exactamente, era isso mesmo. Ora, eu não via que importância poderia ter um ritual partidário que se repete há anos sem fim e de que constam invariavelmente as mesmas rábulas folclóricas e boçais contra a classe política de Lisboa, inflamadas pelo consumo frenético de ponchas, cervejas e vinho seco.
A diferença estaria em que, desta vez, Alberto João Jardim iria poupar, certamente, o seu antigo inimigo de estimação, convertido em amigo do peito desde o temporal que há meses assolou a ilha, deixando a outros comparsas menores a velha ladainha de má-criação mais ou menos separatista. Claro que foi exactamente isso o que aconteceu.
O RRAIAL do Chão da Lagoa – que agora se realiza num recinto comprado pela Fundação do PSD/M, cujos amplos rendimentos e património parecem ter despertado, por fim, a curiosidade judicial – reduz-se, pois, a não ter importância rigorosamente nenhuma, por mais que Jardim e os seus apaniguados queiram fingir o contrário. Talvez por suspeitar disso e para não dar parte de fraco, o líder supremo lá se lembrou de clamar pelo levantamento popular nas ruas, praças, escolas e fábricas contra a mediocridade da classe política portuguesa (mas omitindo, obviamente, o outrora terrífico Sócrates). Estaria a pensar em Passos Coelho?
Afinal, era tudo absolutamente previsível, uma repetição enfadonha e grotesca do que já não passava de uma caricatura, apesar de haver neófitos dos portais da internet que ali ainda julgam encontrar matéria de importância jornalística.
O Chão da Lagoa talvez seja, simplesmente, um símbolo em registo burlesco e endoidecido do que ocorre num país onde parece estarmos condenados a assistir a comédias estafadas e infinitamente previsíveis.
QUEM acreditava, no fundo, que a golden share do Estado na PT era mesmo para valer enquanto princípio de interesse estratégico nacional e não como um expediente de leiloeiro para regatear o preço das acções até torná-lo irrecusável? Agora, os ávidos accionistas que já estavam dispostos a vender os seus activos por menos umas centenas de milhões de euros à Telefónica vêem-se obrigados a celebrar o fino instinto negocial de José Sócrates.
Mas se o negócio se revelou materialmente suculento para os accionistas e a PT já arranjou um novo parceiro para prosseguir a sua odisseia brasileira, a verdade nua e crua é que a ofensiva imperial da espanhola Telefónica acabou por triunfar sobre o engenho criativo português – que fez expandir e valorizar a Vivo como um tesouro irresistível.
Por uma vez e contrariando utopias quixotescas ou bíblicas, Golias ganhou a David, embora pagando um preço invejável e sem precedentes neste domínio. De qualquer modo – e como já foi lembrado – se a Oi, o novo parceiro da PT, era assim tão atractiva como oportunidade de negócio aos olhos da PT e do próprio Estado – que assim pôde abdicar alegremente das prerrogativas de veto da golden share –, porque é que a Telefónica não se interessou por ela e insistiu tão sofregamente em devorar a Vivo?
A PT terá na Oi um peso claramente inferior àquele que tinha na Vivo e não serão as metáforas épicas de Henrique Granadeiro – talvez influenciado pelo imaginário da ganadaria alentejana, a evocar precisamente Quixote – que transformam a realidade e as proporções das coisas: aquilo que separa um tubarão das telecomunicações como a Telefónica de um ainda golfinho como a PT.
Aliás, foi quase enternecedora a forma como Zeinal Bava despendeu tanto tempo, durante a apresentação pública do negócio, com a evocação nostálgica da saga que constituiu a criação e expansão da Vivo. Como se a empresa conquistada pela Telefónica fosse um filho sacrificado à tirania implacável dos cifrões.
DEPOIS de tantas contrariedades e stress acumulados ao longo dos últimos meses, José Sócrates pôde saborear uma espectacular révanche: acabou por ser o herói principal do negócio possível da PT e viu-se definitivamente ilibado de suspeitas no caso Freeport.
Mas por mais inquestionável que seja a inocência do antigo ministro do Ambiente no processo enviesado que envolveu o caso do complexo comercial de Alcochete, a redução de todo esse imbróglio a uma simples «tentativa de extorsão», protagonizada pela dupla Smith e Pedro, desafia a verosimilhança mais rudimentar e põe em xeque, uma vez mais, a credibilidade da Justiça portuguesa. Afinal, a polémica construção do empreendimento numa área ambientalmente protegida resumiu-se ao simples aproveitamento do facto por dois vigaristas solitários…
OS IMBRÓLIOS nunca esclarecidos do caso ficarão enterrados para sempre, alimentando uma atmosfera de suspeição irrespirável sobre o comportamento não só de alguns actores políticos e administrativos como dos próprios agentes judiciais? Mas não foi isso que acaba também de suceder com o tão publicitado ‘Apito Dourado’, em que, afinal, a Justiça foi incapaz de penetrar nas malhas da impunidade e promiscuidade que rodeiam os bastidores do futebol português? A montanha judicial continuará condenada a parir pequenos ratos?
Agora, depois do terceiro adiamento da sentença do caso Casa Pia, pode dizer-se que nada amplifica mais a depressão em que o país vive do que o estado insustentável da nossa Justiça. E isso não é apenas uma comédia de Verão.