Cinzas de incêndios
Quando entrei no hospital para uma cirurgia delicada, era o estado da Justiça e alguns dos seus protagonistas que incendiavam o país (ou, pelo menos, o país da imprensa e dos telejornais). Quando saí, uma semana depois, o metafórico fogo judiciário passara a fogo real, com um déjà-_-vu de imagens que podiam ter sido recolhidas em situações passadas há meia dúzia de anos.
Abria-se o televisor e, ao fazer zap de canal para canal, não havia lugar para surpresas: todos à uma repetiam incansavelmente o mesmo filme envelhecido como se se tratasse de uma novidade. E era, de facto, uma novidade. O filme envelhecido estava a repetir-se, como novidade, uma outra vez.
Florestas e parques naturais devorados pelas chamas, povoações em risco de desaparecerem do mapa, bombeiros mortos, vítimas a queixarem-se do azar que lhes batera à porta, responsáveis oficiais a reivindicar o empenho posto no combate ou a lamentar a persistência das mesmas causas que continuam a produzir idênticos efeitos, como se a lição dos fogos anteriores não tivesse servido para (quase) nada, apesar da maior eficácia dos meios operacionais.
Entretanto, há ainda quem se console com o facto de nada podermos fazer sozinhos contra as consequências do aquecimento global – que os Grandes deste mundo continuam a não levar a sério. Porque estamos, talvez, muito longe de constituir um caso singular em matéria de grandes incêndios florestais: que dizer então de países ou regiões como a Califórnia, a Austrália, o Sul de França, a Espanha ou a Rússia? Mas os males dos outros não deveriam servir-nos de desculpa ou consolação quando se sabe que os nossos males próprios e crónicos – prevenção inadequada, ausência de regras e rigor punitivo, cadastro e estrutura das propriedades, falta de limpeza das matas, etc, etc… –, não constituem irremediáveis fatalidades sem solução.
Os incêndios nas florestas e nas serras (confesso que me doeram, sobretudo, as imagens da cordilheira central da Madeira, esse fabuloso monumento da natureza, que ainda escapava ao massacre do betão turístico e está agora reduzido, durante anos, à desolação das cinzas) são um reflexo do laxismo e da irresponsabilidade que marcam a forma como o país (não) funciona – e com isso se compraz.
É isso, de resto, o que explica também a deriva suicidária na qual mergulhou o sistema de Justiça, cujo corporativismo opaco e decrépito vem protegendo a incompetência de tantos dos seus agentes e a recusa dos principais protagonistas do mundo judicial – a começar pelo procurador-geral da República – em assumir as responsabilidades que lhes cabem. E é também isso que torna possível, num momento de crise tão grave da vida portuguesa, a incapacidade dos dirigentes políticos – em especial o primeiro-ministro e o líder do maior partido da oposição, mas sem esquecer o impávido e silencioso Presidente da República – em pensar noutra coisa senão nos seus mesquinhos interesses imediatos de sobrevivência e necessidade de afirmação.
Enquanto tudo ameaça arder à nossa volta – o património florestal, a confiança na Justiça – essa Justiça cega, surda e (quase) muda –, as perspectivas de regeneração económica, a capacidade de decisão política –, mais se evidencia a falta de fibra e elevação dos que têm nas mãos os destinos do país, entretidos nos seus pequenos cálculos e jogos de poder, procurando a todo o custo não perder a face ou dissimular a sua face verdadeira. É uma mascarada envolta em fumo.
Os incêndios reais e virtuais vão-se sucedendo uns aos outros, e mesmo que os primeiros acabem finalmente por ser extintos – até uma próxima vaga de fogos –, para os segundos não parece haver bombeiros que cheguem a tempo e horas para apagá-los. Restam, pois, as cinzas.
Já tudo ou quase tudo foi dito sobre o grau de absurdo absoluto que atingiu o funcionamento da Justiça com o caso Freeport e chego tarde para adiantar qualquer tese original. Mas permaneço absolutamente atónito ao verificar que, num Estado de Direito, tudo se possa ter passado às avessas das regras mais elementares de investigação e decisão judicial e em que todos, rigorosamente todos – desde um Procurador-Rainha de Inglaterra aos seus comparsas mais próximos e distantes –, aparecem do lado contrário do bom senso e da razão.
Que ‘confiança institucional’ pode merecer quem assim procede, num qualquer país normal, quando é a própria credibilidade da Justiça que é devorada pelo fogo? Como se chegou ao despacho final negociado pela directora do DCIAP, Cândida Almeida, e os dois procuradores encarregados do caso, em que a ‘absolvição’ do primeiro-ministro é compensada com a publicação de um questionário que lança ostensivamente sobre ele a sombra da suspeita? E como é que o procurador-geral mantém a confiança na directora do DCIAP por ele nomeada – e de quem é amigo – quando confessa que em toda a sua vida nunca vira um despacho como aquele? Como é possível que, em tudo isto, não exista o menor indício de compreensão ou explicação lógica? Serão os magistrados definitivamente inimputáveis?
P. S. – Entrei no hospital para ser operado no mesmo dia em que morria Mário Bettencourt Resendes e, por isso, cheguei tarde para juntar a minha voz a um adeus comovido. Foi uma coincidência muito triste nas nossas vidas entre tantos acasos felizes como camaradas de imprensa ao longo de décadas, desde que nos conhecemos nos Açores, ainda em tempos de activismo separatista sobre os quais ambos escrevemos. Apesar da rivalidade entre o Diário de Notícias e o Público, que ele e eu dirigíamos no início dos anos 90, a nossa relação foi sempre afectuosa, directa e franca, mesmo quando mutuamente nos ‘picávamos’. E não esqueço que foi ele quem me convidou, depois da minha saída do Público, para colaborar no DN, onde me acolheu com a sua genuína generosidade e galhardia de verdadeiro gentleman do jornalismo.