tempestade na areia
Caminho na rua sem pressa de chegar. O destino não é certo, foge à velocidade do vento em dia de tempestade. Olho para cima e o negro é pressagio de dor e solidão.
Continuo com um natural desejo de encontrar sempre o caminho mais doloroso. O tempo ainda não apagou as marcas de um mau inverno e já procuro uma má primavera, com raios de sol seguidos de trovoada, dias nublados e tardes de praia a rebolar na areia ao som do mar que parece afinado numa eterna melodia para nós. Encontro depois uma lágrima na areia e uma turbulenta tempestade volta a lembrar-me que ainda é cedo para amar.
O melhor dos pecados foi ter-te conhecido. Ter que cuidar das estrelas parece-me um bom castigo, sempre foi na noite que encontrei resposta e energia para novas viagens ao fim do mundo e ao principio da vida.
Não sei onde estás, talvez à distância de um olhar ou na proximidade do abraço que te faz feliz, um aroma que não o meu, uma praia onde não vou, uma música que não ouço.
O teu Mundo está longe do meu.
Entraste sem pedir e conseguiste baralhar a minha existência. Hibernado no meu estado líquido de quem navega num rio sem ondas sem querer chegar ao mar, os naufrágios de outrora afastam-me de ondas perigosas e que não controlo. Numa sequência lógica de vida repetir será um erro. Não repito, vivo novos sentimentos que me afastam as tormentas e me alimentam o ego em direcção ao futuro.
A explicação para este estado que me impede renovar o ar que me mantém vivo é simples, tão simples como o teu sorriso, tão cúmplice como aquele olhar que me desconcentrou e me enlouquece, hoje, muitas noites depois. É sempre mais difícil quando só a ilusão nos permite caminhar é mais fácil quando a realidade nos magoa e nos impede de continuar.
Gostava de chorar, as lágrimas libertam a dor que carregamos, os gritos são levados pelo vento e aterram noutro qualquer lugar, inflamam almas mais puras que a minha capazes de decifrar as chamas de a mim me consomem, existem almas que transformam estas chamas em paixão e vivem com intensidade esse calor. Existem.
É tão estranho este meu regresso. Não controlo o que me motiva, desde aquele final de tarde com o rio como fundo onde o sol parecia sorrir com ar de quem sabia o que estava a acontecer, que transporto a dor de te perder sem nunca te ter tido.