loucura
A linha que me separa da loucura é tão ténua quanto a quesepara o rio do mar, às vezes não consigo resistir e a loucura toma conta demim mais cedo que o normal e não consigo acordar porque não me deixei adormecer.
Se conseguisse projectar aquilo que sou agora ao longo do tempo, diria que sou dos que acaba sozinho no final da vida, com os olhos abrilhar e um leve sorriso ao fazer a soma dos momentos que ficam gravados na memória como riscos em pedras da montanha. Os cheiros e os locais fazem-me continuar com o ar de quem sozinho, mas feliz, deixa tudo num último suspiro.
Recordo os teus lábios a falar-me ao ouvido e as tuas palavras a sussurrar um tímido quero voltar a sentir o teu corpo no meu, quero acordar nos teus braços e voltar a ouvir a tua voz.
Era apenas mais uma noite como tantas outras em que me perdiao sabor do malte que percorre o meu sangue e se apodera da razão. Ao baixar ocopo e com o ácido ainda fresco olhei-te nos olhos. Fugiste, mas eu não e voltei a levantar o olhar e a procurar o teu brilho. Nessa noite fui ao balcão mais vezes que as que devia só para me cruzar contigo e poder sentir o teu corpo que com elegância movias.
Fiquei a ver-te partir com a sensação de que fugia parte demim, desisti.
Mais tarde o teu olhar já era diferente. Não esperavas voltar a encontrar-me mas algo nos uniu por entre a noite que já ia longa. Não resistimos e ficámos sozinhos no bar. Depois ficou o vazio da tua ausência. Osdias passaram e não parecia passar de mais uma de muitas conversas que a noite nos traz.
A distância está para as relações como o deserto para os exploradores, começamos com muita vontade de vencer mas quando olhamos em volta e toda a areia se apodera de nós, decidimos voltar ao ponto de partida eprocurar uma nova e mais aliciante aventura.
Mas nós seguimos a aventura e apesar da areia que ameaçava criar uma tempestade e não nos deixar avançar, levámos a loucura até ao fim, eas luzes que mantinham a cidade acordada em noite de chuva foram testemunhas do que sentimos e toda a gente que percorria a cidade olhava para nós como quem vê a chama da felicidade. Houve ainda tempo para voltar à poesia, voltar a sentir, voltar a amar e partir perdendo parte de nós nas mãos de quem fica.
Talvez encontre a explicação na voz cigana do flamenco cantado e dançado à nossa frente, almas abertas a chamar por sentidos escondidos por entre capas negras de problemas vulgares e distantes. O canto da raça cigana desperta-me paixões, os rituais e movimentos seduzem-me, sinto-me enganado mas feliz e acredito nas estórias de homens que foram abandonados e demulheres que morrem por amor es impossíveis.
A noite terminou. A loucura percorreu os nossos corpos e adormecemos. O cigano deixou o tablao e terminou a função, mas vai voltar a subir com a mesma paixão para contar outras histórias e incendiar outros corações.