Medo
Tenho frio. Agora tenho calor. Estou doente. Deitado na cama que tantas doenças me ajudou a curar. Enrosco-me nos lençóis, cúmplices da minha solidão, responsável pela minha loucura.
Volto a ter calor, um arrepio de frio. Estou doente. O quarto está escuro, não preciso de luz, a luminosidade fere-me os olhos ressecados que denunciam as duas noites passadas em claro.
Estou a constipar-me, constipação não é doença. Contínuo doente porque sinto o gelo a derreter no meu corpo. Não é tarde. Se ligar a televisão ainda passam anúncios de iogurtes no intervalo da novela.
Estendo a mão no escuro e pego no telefone, estou doente. Procuro a cura numa mensagem tua. Fico pior.
Ontem não estava doente. Não recebia mensagens tuas antes de adormecer. Não estendia a mão à procura do telefone, estava abraçado a ti.
Não dormi, nem fiquei doente. Hoje posso dormir mas não consigo, nem quero. Tenho medo de acordar doente e não te poder voltar a abraçar.