?CASO BPN? - OS ?HOMENS IMPOLUTOS?, AS ?VIRGENS OFENDIDAS? E OS SEUS AVALISTAS
O paralelo com o
passado impõe-se, para analisar o presente
Na última
edição do suplemento de economia do semanário Expresso, replico de
seguida, na íntegra, duas crónicas que abordam a questão BPN, o papel de Dias
Loureiro e a posição do actual P.R. (destaco a cor diferente, as partes que
considero mais relevantes, mas recomendo vivamente a leitura integral de ambas
as prosas).


O primeiro
texto ocupa a habitual coluna de Nicolau Santos, “Cem
por cento” e o segundo, a igualmente habitual coluna de opinião
do fiscalista Saldanha Sanches.
Em minha
opinião, os dois textos acabam por se compleTAR.
Já aqui
tinha dito que “por
baixo daquela ponte (caso
BPN)
ainda muito mais água vai passar nos próximos tempos, guardo comentários mais
extensos para depois da enxurrada. Ou muito me engano, ou com o furacão que por
ali vai passar, o verdadeiro escândalo ainda nem sequer começou” e a actualidade
confirma-o:
Aconteceu a detenção
do “desaparecido” Oliveira Costa,
Souberam-se
uma série de pormenores mais ou menos sórdidos da actuação deste senhor e de
outras individualidades desde sempre ligadas ao Banco. Aqui destaco a
“deliciosa” artimanha utilizada pelo agora detido, na tentativa de blindagem do
seu património pessoal: salvaguardando ocorrências futuras, existiu uma
oportuna “desavença matrimonial”, que rapidamente se concluiu com a separação
judicial do casal e correspondente “partilha” de bens, ficando a esposa do
personagem com os bens de valor real do casal e o pobre senhor com… as acções
do BPN e cerca de € 20.000. Pormenor curioso foi ter sido a esposa desavinda
quem abriu a porta à policia, no momento da detenção, “ainda em roupão, pouco
depois da 8h00”, segundo relatos da imprensa. Reconciliação à vista? O amor
tem coisas tão bonitas…
E apareceu qual “virgem
ofendida”, Dias Loureiro,
desdobrando-se em entrevistas e declarações em canais televisivos, jornais e
rádios deste País, dando-nos conta de que já nada o relacionava com o Banco
“maldito”, nem sequer lá tinha ainda qualquer dinheiro (pudera!), que fora
surpreendido pelas irregularidades, que garantiu desconhecer, para uns dias
depois, referir que já há tempos avisara pessoalmente o Banco de Portugal para
o facto de coisas esquisitas se passarem no Banco (foi de imediato desmentido
pelo interlocutor de então), enfim, teve todo o ar de quem se tentava a todo o
custo demarcar de algo. Até aí tudo bem, tem todo o direito a querer defender
publicamente o seu bom nome! Só que, a meio do percurso, pediu uma audiência ao
P.R. e foi…de imediato recebido. Ok, sendo um Conselheiro de Estado, quis lá ir
explicar-se, pensou-se. E de seguida, Cavaco declarou publicamente toda a sua
confiança no amigo pessoal (vídeo mais abaixo) e, não contente em transformar-se
assim no “avalista da honestidade”
do seu ex-ministro, emitiu um comunicado (que só tem paralelo na recente
declaração ao País, sobre o Estatuto dos Açores) onde afasta “rumores” sobre o
seu envolvimento no caso BPN e chega mesmo a declarar que não tem conta naquele
Banco e… não deve nada aquele ou a qualquer outra instituição Bancária!!!
Bom, aqui começa tudo a parecer um quadro de Dali:
A
que rumores se referia Cavaco? Nada se ouviu ou leu que o relacionasse com as ilegalidades
cometidas no BPN. Apenas se referiu que muitos dos principais envolvidos nos crimes
cometidos e suspeitos dos mesmos, eram gente que sempre integrou a corrente de interesses a que
vulgarmente se chama “cavaquismo”. Isso, apesar de muito incómodo, o P.R. não
desmentiu (nem o podia fazer). Limitou-se assim a descer do seu pedestal Presidencial,
para se declarar (qual D. Quixote) contra moinhos de rumores que nunca
existiram…
Com isso, abriu as portas a que todas as dúvidas passassem a ser legítimas
e possíveis: será que o homem, que como se sabe há anos, é avesso a
jornalistas e à leitura das suas prosas, dispensa pouco mais de 5 minutos do
seu precioso e ocupado tempo, acabou por confundir receios e temores, com o que
estava efectivamente escrito nos jornais da praça? Mas a carrada de assessores
que existe em Belém não serve também para informar o Presidente do que de
relevante se publica?
Cavaco
não deveria ter utilizado uma táctica que já muito lhe rendeu (a ele e a
outros políticos) em campanhas eleitorais; se de facto tivesse existido algum
dos aludidos rumores, seria legítima a defesa da honra do Presidente e do
homem. Mas assim, apenas cheira à lamentável táctica da vitimização, a qual
acaba por ser um desprestigio para quem a usa, enquanto P.R., e
precisamente porque deve haver qualquer
coisinha a distinguir um politico em campanha de outro a ocupar o Palácio de
Belém…
O post
scriptum de Nicolau Santos, só é possível porque Cavaco se expôs, com a
inabilidade política que demonstrou ao fazer aquela proclamação: seria
sempre irrelevante ter o PR e algum familiar seu, sido accionista do BPN.
Deixou de o ser quando, entendendo fazer a inusitada declaração, Cavaco omitiu
tal facto.
Se entendeu relevante, que o País
soubesse que não tinha dívidas a qualquer Banco, porque omitiu a ex-relação
accionista?
[Youtube:JzkpX6CHrj8]
Voltando a Dias Loureiro,
estranha-se (ou talvez não) que o homem que “tudo quer esclarecer”, não comece de imediato por suspender ou mesmo
demitir-se do Conselho de Estado, abdicando assim da imunidade que acaba por ser impeditiva desse desejado esclarecimento…
acaba assim por parecer um daqueles autarcas de que todos nos lembramos, que
por um lado declaram-se publicamente muito satisfeitos por poderem ir a
julgamento “esclarecer tudo”, enquanto os seus advogados manobram, tentando
encontrar na letra da lei as lacunas processuais para que os casos nunca possam
ser julgados ou sejam apenas dados como prescritos!
Mais uma vez, neste caso, ocupar uma das cadeiras do Conselho de
Estado, deveria exigir aos seus titulares um respeito por eles próprios (e pelo
órgão) maior do que merece a alguns dos que ocupam as cadeiras de uma
autarquia… Além disso, Loureiro acaba
por arrastar consigo o amigo que o veio avalizar publicamente, ao deixar
instalar-se a dúvida do porquê da sua persistência em manter a imunidade do
cargo, põe igualmente em causa a credibilidade do seu amigo “avalista”. Pode
Loureiro argumentar que não percebe nada de contabilidade mas… não perceber os princípios básicos da
política e… da amizade, fica muito mal a quem foi um dos principais
“arquitectos” políticos do Cavaquismo!
E a propósito do que de pior deu ao Pais esse Cavaquismo, o artigo
de Saldanha Sanches transporta-nos aos tempos dos Governos de “vacas gordas” de
Cavaco, faz o paralelo com a actualidade, relembrando as declarações indignadas
que Cavaco proferia na altura quando algum dos seus “homens impolutos”
conseguia escapar à justiça, mesmo que apenas por “falta de provas”, mandando
tantas vezes às urtigas, o princípio da separação de poderes, não se coibindo
de referir de forma menos própria à competência dos juízes envolvidos …
E quem não se lembra do impune “fartar-vilanagem” daqueles
subsídios? Quem não conheceu as empresas de formação de então (com os cursos
subsidiados para formação profissional, que muitas as vezes, não passavam do papel?)
Quem já se esqueceu das empresas de Turismo rural (que fizeram surgir tantas
propriedades rústicas com piscinas e outros sumptuosos luxos por esse país
fora?) Quem ainda recorda os “jovens empresários” que iniciavam a “modernização”
das empresas que criavam (com subsídios a fundo perdido), pela compra do
Ferrarizito ou do todo-o-terreno” topo de gama? E quem consegue explicar porque
nada disso nunca foi fiscalizado, investigado, muito menos punido, quando os
casos eram conhecidos e estavam à vista de todos? Não foi isso afinal que fez
nascer a designação de “Governo da oportunidade perdida”? Pois a todo este
passado doloroso (que estamos ainda a pagar) nos transporta o artigo de
Saldanha Sanches.
Vamos continuar a aguardar pois este assunto BPN terá, já todos
percebemos uma “vida” muito longa e continuará a proporcionar revelações
inusitadas. Quais serão as próximas? Entretanto ficam as referidas crónicas:
“Carta a
um homem inteligente, meticuloso e cuidadoso
Por Nicolau Santos
Manuel Dias Loureiro é,
indiscutivelmente, um homem inteligente, trabalhador e competente. Por isso se
tornou um dos mais importantes militantes do PSD, chegando a secretário-geral
dos sociais-democratas. Por isso se tornou um pilar do chamado cavaquismo,
exercendo bem os cargos político-ministeriais que ocupou. Por isso, após ter
abandonado a política, se tornou num homem de negócios de sucesso. Rico, no
dizer de alguns. Com uma vida confortável, segundo o próprio.
Ninguém consegue uma carreira assim sem
ser meticuloso e cuidadoso: no primeiro caso tomando nota de todos os factos
que possam vir a ser relevantes para esclarecer o passado ou iluminar o futuro;
no segundo escolhendo as companhias que permitam chegar ao topo da montanha.
No caso do Banco Português de Negócios,
Dias Loureiro diz certamente a verdade - a sua verdade. Mas há factos que, pelo
menos, a contraditam. Vejamos.
Em Março de 2001, a revista ‘Exame’, dirigida pelo
jornalista Camilo Lourenço, publica em manchete a notícia de que o Banco de
Portugal tinha passado um cartão amarelo ao BPN. Dias Loureiro diz ter ficado
muito incomodado e pedido explicações ao presidente da instituição, Oliveira
Costa. Este terá respondido que eram notícias infundadas, originadas por
invejas. Mas, se ficou incomodado,
Dias Loureiro não o disse a Camilo Lourenço. Pelo contrário, segundo a versão
do jornalista,, telefonou-lhe a dar conta do seu desagrado pelo forma como o
BPN tinha sido tratado; a dizer-lhe que o assunto tinha
criado um problema de imagem ao banco; que Oliveira Costa estava muito
“incomodado” e pensava processar a revista (o que fez, tendo esta de pagar
milhares de euros num acordo extrajudicial). Primeira contradição.
Na sequência do artigo, Dias Loureiro
insiste que ficou
tão preocupado que decidiu ir ao Banco de Portugal em 29 de Abril de 2001
(notável precisão!), num encontro intermediado por Miguel
Beleza, para falar com o vice-governador António Marta, responsável pela
supervisão. Objectivo: pedir-lhe que, embora sem ter conhecimento de nada,
“tivesse uma atenção especial ao BPN”, já que o modelo de gestão do banco não
lhe inspirava confiança e havia accionistas que sentia que faziam negócios com
a instituição.
Como é conhecido, António Marta
desmente de forma peremptória (“ou está a fazer confusão com a pessoa ou a
mentir”), sustentando que o
que Dias Loureiro lhe foi perguntar é porque o Banco de Portugal andava tão
atento ao BPN, além de afirmar que as pessoas à frente do banco eram tudo “boa
gente”. Segunda contradição.
Mas para quem estava tão preocupado com
a falta de transparência da gestão do banco (queixa-se que Oliveira Costa fazia
poucas reuniões, não falava com ele e não havia actas), Dias Loureiro fez
pouco. Como jurista, sabe que as
sociedades são obrigadas a reunir o conselho de administração e a fazer actas
das suas reuniões. Desses factos concretos, que se saiba, não apresentou queixa
ao Banco de Portugal. Terceira contradição.
Mais extraordinário é que nesse mesmo
ano da graça de 2001 o
próprio Dias Loureiro tenha apresentado a Oliveira Costa o empresário
porto-riquenho Hector Hoyos; que tenha sido o próprio Dias
Loureiro a sugerir a Oliveira Costa a aquisição de duas empresas tecnológicas
de Porto Rico, pertença daquele empresário; que as negociações tenham decorrido na casa de Dias Loureiro, no
Estoril; que após o acordo sobre o negócio,
envolvendo 71,25 milhões, Dias
Loureiro e Oliveira Costa se tenham deslocado a Porto Rico para o concretizar;
que os dois tenham constatado que nenhuma das empresa tinha activos tangíveis,
a não ser um escritório em San Juan de Porto Rico, que fechou poucos meses
depois; e que o dinheiro em causa
se evaporou, perdendo-se em contas «offshore».
Sabendo
de tudo isto, a cereja em cima do bolo é que Dias Loureiro tomou como boas as
explicações de Oliveira Costa para o facto da operação não constar nas contas
do banco de 2001 - e assinou-as. Quarta contradição.
Ora
um homem inteligente, meticuloso e cuidadoso não se dá com pessoas como o
senhor Hoyos; muito menos propõe negócios com tais pessoas; e ainda menos
através de zonas «offshore». Dias Loureiro tem, pois, de se
esforçar um pouco mais nas suas explicações para nos provar que merece
continuar a ocupar o alto cargo de conselheiro do Estado da República
Portuguesa. Ou que passou a ter uma vida confortável, nas suas palavras,
exclusivamente como resultado do seu enorme talento e do seu inusitado esforço.
Porque, como escreveu Pacheco
Pereira na ‘Sábado’, “ficar milionário do nada, tornar-se um grande capitão de
negócios «ex nihilo», um superadvogado de grandes negócios, um dono de empresas
valendo milhões, isso é impossível acontecer com um salário de deputado ou de
ministro”.
P.S. - O Presidente da República
resolveu divulgar um comunicado, esclarecendo que não tem qualquer envolvimento
no caso BPN. Não exerceu funções, não recebeu remunerações, nunca comprou ou
vendeu nada ao BPN e às suas empresas, nem contraiu nenhum empréstimo junto
desta instituição. Cavaco Silva é um homem íntegro, de uma honestidade acima de
qualquer suspeita. Por
isso mais se estranha que, no comunicado que publicou, não tenha esclarecido
que foi accionista da Sociedade Lusa de Negócios por um curto período até 2003,
assim como a sua filha. Para quem queria acabar com todas as dúvidas, faltou
lamentavelmente esta referência.”
Passemos ao segundo texto:
Por Saldanha Sanches
“O
REGRESSO DE "O INDEPENDENTE"
«O
Independente’ era um jornal malcheiroso com um significado que o ultrapassava:
as primeiras páginas que o tornaram famoso eram o sinal mais expressivo do
período em que os enriquecimentos ilícitos foram a questão central da política
portuguesa.
No Governo estava Cavaco Silva e o
dinheiro jorrava de Bruxelas: era preciso gastá-lo depressa e tolerar algumas
irregularidades -
constava ser esta a posição de Cavaco - senão o direito de o receber caducava.
Foi assim que tudo começou.
‘O
Independente’ com as suas indignações fulminantes reflectia muito bem o
despeito de quem já estava instalado perante a rapidez com que políticos, que
vinham para Lisboa com carros a cair aos bocados, passavam para BMW topo-de-gama.
De
vez em quando um deles tinha um processo-crime, apesar de a justiça desse tempo
ainda funcionar pior do que a de hoje. Então, quando
o processo era arquivado por falta de provas, Cavaco Silva mostrava a sua
indignação pelo modo como jornalistas sem escrúpulos e magistrados
incompetentes manchavam a reputação de homens impolutos.
Não
é que os jornalistas de ‘O Independente’ fossem muito escrupulosos ou que os
magistrados fossem muito competentes. Que os tais homens fossem
impolutos é que era mais duvidoso.
É isso que dá um imperdível odor a «déjà
vu» ao caso BPN.
A única diferença é que aqui a conta que vamos pagar por causa das ilicitudes
está devidamente contabilizada e temos o caso extraordinário do crime ser
cometido à vista de toda a gente: ao que parece o BPN funcionava sem reuniões
do conselho de administração e sem actas. Um pormenor insignificante do qual o
Banco de Portugal, apesar da aturada vigilância a que submetia o BPN, nunca deu
conta.
Conselho
de administração havia: ainda que nos últimos anos (segundo as informações que
obtivemos no sítio institucional do BPN) estivesse muito reduzido. Actas, é que
não. Um estilo de governação societária rodeado de cuidados conspirativos e
aprendido na Palermo Business School. Um estilo que em Lisboa pode durar por
tempo indefinido: ainda no ano passado o banco anunciava um lucro muito
confortável, e como diziam os últimos auditores (que revelaram uma excelente
adaptação à cultura peculiar da instituição) num relatório assinado em Abril de
2008, as suas demonstrações financeiras apresentavam de forma verdadeira e
apropriada a posição financeira do BPN.
Tudo isto é um pouco mais desconfortável
para Cavaco Silva que as tais primeiras páginas de ‘O Independente’, mas o seu
modo de reagir é mais ou menos o mesmo: não se pode dar demasiada atenção ao
que se publica nos jornais, nada está provado, ainda ninguém foi condenado.
Provavelmente o dr. Dias Loureiro anda demasiado agitado para o seu gosto, mas
não é fácil passar de repente de «king maker» do PSD (lembram-se do tom
paternal com que ele nos contava as suas conversas com o Pedro para explicar
porque não tinha dado mais apoio a Santana Lopes?) para o estado de
radioactivo.
Mesmo assim Cavaco Silva vai continuar a
apoiá-lo, a menos que ele vá ao Palácio de Belém para confessar que é culpado,
o que nos não parece muito provável. Afinal de contas a respeito de má moeda e de boa moeda, a
situação (para mal dos nossos pecados) não é tão clara como parecia há alguns
anos.»