ENTREVISTA COM ANTÓNIO FERNANDES NO RESCALDO DO EUROPEU (1)
“Só consegui jogar a um nível normal, a partir da 7ª
sessão” diz o Campeão Nacional, que foi vítima de virose
.
Recentemente,
como aqui
se deu nota, terminou em Buvda, na Republica
do Montenegro, o 10º
Campeonato da Europa Individual de Xadrez, onde
Portugal esteve representado pelo Campeão Nacional, António Fernandes.
Impunha-se
falar com o nosso Campeão, cuja prova fora bastante irregular, marcada por
alguns resultados negativos contra adversários inferiores nas primeiras
sessões, o que não é habitual. Foi uma conversa franca e aberta que durou mais
de 3 horas, onde António Fernandes respondeu a todas as perguntas, sem se
furtar a abordar qualquer dos temas propostos. Sempre directo e por vezes polémico, o Campeão Nacional nunca hesitou em nenhuma das perguntas.
Falou-se, claro, do Europeu mas também de muitos outros temas do xadrez Nacional: da formação e do fimde alguns Planos de Desenvolvimento autárquicos, do papel do treinador no xadrez actual, do profissionalismo do jogador de xadrez, mas também de alguns casos polémicos recentes em que António Fernandes esteve envolvido (o "caso" selecção Olímpica, a saída inesperada da Academia de Xadrez de Gaia), numa breve viagem ao passado, Fernandes recordou alguns episódios dos seus primeiros tempos na modalidade. Isto e muito mais poderá aqui encontrar a partir de hoje. Dada a extensão da entrevista, irei reparti-la por três artigos. O primeiro é este, estando prevista a publicação das duas restantes partesdurante a próxima semana, muito provavelmente terça, 1 de Abril e quinta, 3 de Abril, caso a disponibilidade pessoal e a "agenda da actualidade" o permitam.
Segue-se pois, a 1ª parte da entrevisata:

Não se pode fugir do tema "Europeu", para início de conversa. A que se deveu aquele começo, com duas derrotas e um empate, contra adversários ao teu alcance, à partida?
Aconteceu-me que comecei a ter febre,
dores de cabeça e um enorme mal-estar. Contra o Mamedov [Nota do
Redactor: Rauf Mamedov GM do Azerbeijão com quem Fernandes perdeu
“normalmente” na 1ª sessão] aliás, já me senti “estranho” e com dificuldades em
me concentrar, mas quando chegou a febre, tudo piorou.
Recorri
aos médicos da organização, que me diagnosticaram uma virose, medicaram-me e
avisaram-me logo que a duração nunca deveria ser inferior a sete dias, o
que se veio a comprovar pois só me senti completamente bem durante a 7ª sessão.
Houve partidas em que...
Apeteceu-te abandonar tudo e sair dali...
Não, isso nunca. Tratava-se de um
Europeu e há sempre a esperança de que amanhã nos vamos sentir melhor... sabia
que na pior das hipóteses contava com aqueles 7 dias de sofrimento, mas
abandonar a prova, de facto foi hipótese que nunca coloquei. Só que como dizia,
houve partidas em que ao fim de 10 minutos, já não me conseguia concentrar e só
tentava encontrar uma conclusão rápida da partida. Fosse quem fosse o
adversário do outro lado do tabuleiro, as minhas capacidades estavam
efectivamente muito reduzidas e as dificuldades pareciam-me enormes, pois até
pensar era difícil quanto mais analisar uma posição de jogo. Não foi a primeira
vez que me aconteceu. Há uns anos atrás, em Capelle-la-Grande [N. R.:
Torneio internacional em França] passei uma vez por um mal-estar muito
semelhante durante todo o torneio.
De
qualquer modo, as coisas acabaram por se recompor e o teu final de prova acabou
por valer uma classificação que não deslustrou com a obtenção de um lugar 50
posições acima da tua posição inicial. Foi uma classificação...
...Boa, sem dúvida. Quando parti para uma
prova com o grau de dificuldade de um Europeu, e estando entre os... 190
primeiros, se alguém me garantisse que sairia de lá em 134º, teria ficado
satisfeito e consideraria positivo. Atendendo às circunstâncias, considero que
ter sido 134º foi excepcional. Basta olhar a tabela final e ver a quantidade de
jogadores mais cotados que, apesar de tudo, ficaram atrás de mim. Claro que não
posso lamentar o facto de não ter estado desde o início da prova nas condições
em que estive a partir da sua metade, pois aí talvez pudesse ter conseguido algo
de diferente.
Já
em boas condições, viria a perder contra um jogador bastante forte na a partida
da 8ª ronda com o Cvitan [N. R.: Ognjen Cvitan, GM Croata] onde perdi
numa posição bastante confortável, por ter jogado demasiado rápido ao lance 25,
trocando os lances.
O
Europeu é, como já referiste, uma prova muito dura com adversários de
elevadíssimo valor. Imagino que nessa situação inicial, acrescida pelo facto de
não se tratar de uma prova colectiva e sendo mesmo tu o único português
presente, a recuperação psicológica deve ter sido complicada.
Reconheço que estar integrado numa
selecção ou equipa, ou mesmo num grupo de jogadores portugueses, seria bem
diferente para melhor e seria mais fácil de superar algum desânimo. Por outro
lado não me deixo “ir abaixo” com facilidade e estando consciente de qual era o
mal, sabendo que era um problema que se resolveria em poucos dias, nem foi
assim tão difícil conseguir o necessário: reagir.

Num
balanço final, com todos essas vicissitudes, qual é o sentimento que prevalece?
A frustração face ao que sucedeu? A satisfação por teres superado e terminado
“por cima”?
Não lhe chamaria frustração, diria
antes que se o campeonato tivesse começado a meio teria sido o ideal (risos).
Afinal, só consegui jogar a um nível digamos... normal a partir da 7ª sessão!
Só aí me sentia bem e em igualdade de circunstâncias com os demais. De
positivo, como disse anteriormente, fica a classificação obtida e, nestes
torneios, por mais experiência que se possa pensar já ter, aprende-se sempre
mais qualquer coisa.
Quem
acompanhou à distância a tua “performance” e nada sabia das causas daquele mau
início, interrogava-se sobre a que se deveriam os resultados a que se assistia.
E especulou-se um pouco sobre isso. Ouvi alguns comentários acerca de uma
“tese” segundo a qual ainda deverias não estar refeito da tua não integração na
selecção que disputou a Olimpíada em Dresden. De alguma forma isso pesou
(negativa ou positivamente) na tua prestação?
Não. Não teve reflexos de qualquer
tipo. Percebo e aceito que alguém pudesse pensar isso mas sei separar as coisas
e nem faria sentido ser afectado por uma situação à qual já nada acrescentaria.
Quem me conhece bem sabe que – repito - sei separar as coisas para que não
existam impactos desse tipo. Afinal, iria disputar uma prova bastante difícil,
não ia necessitar de mais dificuldades artificiais (risos).
(CONTINUA...)