SOL

ENTREVISTA COM ANTÓNIO FERNANDES (3)

“Sim, em algumas ocasiões já me senti o mal-amado do xadrez Nacional!”


Concluo hoje a publicação da entrevista com António Fernandes, após o seu regresso do Europeu Individual, disputado no Montenegro.

 

Chamo a atenção para um comentário que o Presidente do Conselho Juridiscional da AX Porto,  Tiago Brandão de Pinho, colocou na caixa de comentários do artigo correspondente à segunda parte desta entrevista. Em virtude de o conteúdo do mesmo acrescentar mais elementos ao polémico “caso” da não inclusão de António Fernandes na última Selecção Olímpica, publico de seguida na íntegra o teor desse comentário: Reitero aqui o agradecimento ao autor, por ter contribuído desta forma para um maior esclarecimento dos leitores, sobre o assunto, permitindo-me ainda relevar a forma clara e directa que assumem as palavras de Tiago Brandão de Pinho.

 

“Na sua primeira resposta, terceiro parágrafo, desta segunda parte da entrevista, o GM António Fernandes afirma que a sua associação apresentou um comunicado "baseado num parecer da autoria do actual Presidente do Conselho Jurisdicional da AXP, que posteriormente reconheceu que esse mesmo parecer que elaborara, não estava de todo correcto".

 

Há que clarificar:

 

- Desde logo, o dito "parecer da autoria do actual presidente do conselho jurisdicional" é, na verdade, como aliás se pode ler no último parágrafo do documento que o Xadrezismo disponibiliza, uma «opinião» primária - «até atentar melhor na questão ou encontrar novos contributos» - sobre «esta matéria em que a AXP solicita o comentário dos dirigentes dos clubes».

 

Ou seja, o comentário solicitado a um dirigente de um clube (que não um parecer do actual presidente do conselho jurisdicional) acabou em adenda num comunicado da AXP.

 

Note-se que, àquela data, em não pertencia a qualquer órgão social da AXP, muito menos presidia ao seu conselho jurisdicional que, como é de conhecimento geral, tem competência no âmbito da interpretação de regulamentos.

 

- É verdade que aquele comentário não está inteiramente correcto, desde logo quanto à questão do vício que geraria a nulidade do acto. Bastou-me uma viagem de metro para dele me aperceber mas, quando cheguei de novo a um computador e avisei a axp do erro, já o comentário tinha sido utilizado.

 

No entanto, mantinha-se erecto o vício de anulabilidade de que padeceria o acto convocatório.

 

- Aliás, sublinhe-se que, então como agora, e passo a citar logo o primeiro parágrafo da opinião em causa, «creio que o GM António Fernandes interpreta bem os critérios da FPX. No momento da participação da selecção nas Olimpíadas e na data limite para a entrega da constituição das equipas era ele o Campeão Nacional, título que, nos termos dos critérios de participação na Selecção, garante um lugar na equipa nacional, por inerência.»

 

- Mais: penso não cometer nenhuma inconfidência se disser que comunicámos via email e por telefone e lhe deixei a sugestão de contactar um advogado uma vez que, tendo passado o prazo para reagir administrativamente, a única forma que me surgiu como passível de repor a legalidade e alterar a convocatória seria a interposição, no tribunal, de uma acção de condenação à prática de acto devido. (decisão que teria que ser do próprio lesado e que, por esse motivo, não consta do mail enviado à axp)

 

Isto para que não se pense que estive envolvido em qualquer decisão politiqueira. Limitei-me a responder rapidamente, dada a urgência manifestada, a um email enviado para todos os dirigentes de clubes e advoguei que a razão estava com o GM António Fernandes.

 

E, quando contactado por este, algum tempo depois e com maior reflexão sobre o caso, sugeri-lhe o único caminho que me pareceu ainda viável para repor a justiça na convocatória.

 

Para que nenhum leitor mais apressado retire da entrevista o que lá não se encontra, deixo estes elementos, enquanto aguardo pela terceira parte da entrevista que tenho vindo a seguir, pela sua pertinência.” 

 

Na parte final desta entrevista, Fernandes referiu-se ao xadrez de Cabo Verde, onde se deslocou recentemente numa acção de promoção da modalidade naquele País Lusófono. Entendi por isso, como singela homenagem a todos os que por lá se esforçam por fazer renascer o interesse pela modalidade, colocar neste artigo alguns links alusivos à passagem do Campeão Nacional no referido Festival de Xadrez, oriundos de alguma imprensa local, bem como reproduzir algumas das fotos que documentam esse evento, o qual foi acompanhado em alguns blogues Nacionais. Pelo que vi, as coberturas que me pareceram mais completas, foram efectuadas pelo Casa do Xadrez logo seguido do Xadrezices (blog que no ultimo artigo, por lapso omiti, quando referi as “fontes” das imagens utilizadas para ilustrarem esta entrevista).

 

Imprensa de Cabo Verde, sobre o Festival de Xadrez de S. Vicente, no Mindelo:

 

Associação de Xadrez de S. Vicente (promotora do Festival)

 

Jornal Notícias de Cabo Verde

 

Jornal A Nação, de 21/Novembro/2008

 

Jornal A Semana, de 28/Novembro/2008 (ver páginas 3 e 4)

 

Jornal Expresso das Ilhas de 06/Dezembro/2008

 

Jornal Expresso das Ilhas de 12/Dezembro/2008

 

Primeira página do Jornal "A Semana"

Feita esta introdução, passemos à ultima parte da entrevista:

 

Se eu te pedir que de uma forma sintética, te auto avalies como jogador de xadrez, enumerando alguns dos teus principais pontos fortes e fracos?    

 

(risos) Não gosto nada de o fazer. Até porque podemos ser sempre mal interpretados por quem ouve ou lê. É muito fácil nessas auto críticas ser-se tomado por arrogante e convencido, ou hipócrita e falso modesto... mas posso apenas referir alguns dos que poderão ser os meus pontos fortes: a análise, os finais e sem dúvida a combatividade. Quanto a algumas das fraquezas, posso referir o excessivo perfeccionismo que me tem saído caro em algumas situações pois com alguma frequência, conduziu-me a apuros de tempo.       

 

Pois essa era precisamente a questão que te ia colocar de seguida! Peço-te pois que expliques (se bem que tenhas acabado de o fazer, um pouco) qual o “mecanismo” que explica o teu conhecido problema dos frequentes apuros de tempo em que “cais” em muitas das tuas partidas.    

 

É como disse anteriormente. Busco sempre aquilo a que se pode chamar a “variante perfeita” e faço-o muitas das vezes, reconheço, exaustivamente. E isso paga-se no relógio, algumas vezes. As constantes alterações do ritmo das “partidas lentas” também não me tem ajudado muito, nesse aspecto.

Embora, logo que tenha oportunidade, com algum estudo, espero ultrapassar rapidamente esse problema.       

 

Utilizando aquilo a que habitualmente se chama “senso comum” (erradamente na minha opinião, pois raramente, quando se utiliza esta expressão, existe algum... senso), muita gente acha que o jogador de xadrez é uma espécie de “nerd”  com uma vida limitada, que não pensa em nada mais que não seja o tabuleiro, as combinações, as variantes, etc... Nós sabemos que não tem de ser necessariamente assim, apesar de a alta competição, seja em que modalidade for, ter sempre algo de absorvente.

No teu caso, com uma vida cheia para lá do xadrez, o que podes dizer desta “ideia feita”?     

 

Bom, quem não é profissional de xadrez, tem necessariamente de se dedicar e ocupar o seu tempo com outras coisas. Mesmo que não o quisesse fazer, seria a isso obrigado.

Depois há o plano familiar, o plano do lazer, com todas as outras coisas que me dão prazer, para lá do xadrez. Como qualquer pessoa faz, no fundo.

Acho que as generalizações são sempre perigosas e neste aspecto, tudo depende e varia de pessoa para pessoa, do seu empenhamento, das suas capacidades, dos seus interesses e objectivos. Uma coisa é certa, quem queira ser Campeão do Mundo ou da Europa ou pelo menos um sério aspirante a isso, terá que dedicar-se em exclusivo à modalidade e ser profissional. O que não significa que se deixe alienar por isso...    

 

Tu ainda estudas xadrez e treinas com regularidade?    

 

Não. Com muita pena, não tenho qualquer disponibilidade para o fazer. Actualmente a minha preparação é feita muito “em cima” de cada prova e de forma muito acelerada, infelizmente.     

 

É comum na modalidade, o “actor” desempenhar vários “papéis”. Jogador, dirigente e árbitro, serão os mais frequentes. No teu caso, que sempre foste tão crítico  do “status quo”, nunca te atraiu o dirigismo? Alguma vez te imaginaste à frente de uma FPX ou mesmo de uma Associação Distrital?     

 

Não digo que não possa acontecer no futuro. . Neste momento, o que posso dizer é que, com o pouco tempo disponível que tenho e não conseguindo jogar tanto como gostaria de fazer, outras funções não estão para já no meu horizonte. De facto neste momento quero reservar esse pouco tempo para aquilo que acho que ainda sou: jogador de xadrez de alto nível.    

 

Apesar de toda essa ocupação, de vez em quando lá aparece a oportunidade de promoveres a modalidade, como aconteceu recentemente com a tua deslocação a Cabo Verde, a convite de responsáveis locais precisamente com o objectivo de divulgar e promover o xadrez nesse país. Como é a fotografia do actual xadrez Caboverdiano?     

 

Fui com muito prazer e gosto e as acções decorreram na Ilha de S. Vicente. O xadrez está a retomar um percurso de alguma projecção a nível local, o que já sucedeu no passado. Houve muito entusiasmo e participação activa em torno das actividades em que colaborei, por parte de toda a gente. E há vários entusiastas que, estou certo, tudo farão para não deixar esmorecer esse interesse. Permito-me destacar três deles (sem esquecer os restantes que os acompanham diariamente): Francisco Carapinha, Carlos Mões e Éder Márcio. Passa muito por eles o futuro do xadrez de Cabo Verde. Vários torneios e diversas acções em prol da modalidade foram efectuados posteriormente à minha ida a Cabo Verde o que prova que valeu a pena essa iniciativa e nesse aspecto no que toca a esta modalidade Cabo Verde está no bom caminho. Não me espantaria se começássemos a ver surgir jogadores de bom nível por aquelas bandas.     

 

[N.R.: Caso o leitor pretenda conhecer mais detalhes sobre esta deslocação recente de Amtónio Fernandes a Cabo Verde, sugiro os links para a melhor cobertura que vi em Portugal, feita como digo antes, pelo Blog “Casa do Xadrez”: por ordem cronológica: antes-1, antes-2 e antes-3, a chegada, o 1º dia, o 2º dia, o 3º dia, o 4º dia, o 5º dia e o regresso.

 

Fernandes conduz uma simultânea nas ruas do Mindelo, perante o olhar atento de alguns populares

Tendo tu uma carreira Informática e vivendo nós na era das novas tecnologias e das revoluções constantes nessa área, como vês o papel da web e das novas tecnologias, na modalidade?      

 

Sem dúvida que possibilitam que a evolução dos jogadores possa ser muito mais rápida e sustentada, com maior facilidade.

Hoje há bases de dados com milhares de partidas disponíveis ali mesmo ao alcance de um clique do rato... Podemos acompanhar as mais importantes provas mundiais em directo. Deixou de se esperar pelos dias seguintes para ter as partidas disponíveis.

Enfim, é um manancial de possibilidades das quais não há paralelo. A única questão a acautelar é saber gerir a quantidade de dados disponíveis. No fundo não deixar que o excesso de informação não nos permita rentabilizá-la e tirar proveito dela.

Por outro lado e verifica-se com alguma frequência em jogadores de muito bom nível “fabricados a partir das novas tecnologias”, que pecam muitas vezes por falta de alicerces, quero com isto dizer que houve uma aprendizagem muito rápida em torno do jogo a nível de aberturas… mas poucos ou rudimentares conhecimentos a nível dos finais, faltando-lhes alguma maturação nesse sentido.      

 

Para terminar, há uma pergunta que tenho que colocar-te. Sem rodeios e de forma directa: sentes-te o “mal-amado” do xadrez Nacional?    

 

Em alguns momentos, já senti. Mas acho que estou longe de ser caso único, nesse aspecto.

Penso que no desporto isso acaba por ser normal. Há muita competitividade e por vezes as rivalidades exacerbam-se. Quando alguém se destaca em alguma actividade desportiva, essas coisas tendem a agudizar-se. E mesmo a nível internacional isso se verifica. E quanto mais próximo se está do topo, mais frequentes são algumas dessas situações...

Mas também há o reverso da medalha. E explica-se da mesma forma: também existem sempre aqueles que nos inundam de simpatias, os nossos “adeptos”, “admiradores” ou como se queira chamar.

Há que saber lidar com ambas as situações sem dar a nenhuma delas mais importância do que efectivamente têm.     

 

Poderá ver a entrevista completa, consultando as suas primeira e segunda partes.
Publicação: quinta-feira, 2 de Abril de 2009 17:01 por xadrezismo

Comentários

# Ala de Rei » Xadrezismo entrevistou o GM Ant??nio Fernandes (parte III)

# re: ENTREVISTA COM ANTÓNIO FERNANDES (3)

sexta-feira, 3 de Abril de 2009 1:40 by exterminador

Xadrezismo

Um Blogue didáctico e muito interessante.

Gostei de o ler. Parabéns!

Um abraço

Johnny

# re: ENTREVISTA COM ANTÓNIO FERNANDES (3)

sexta-feira, 3 de Abril de 2009 2:33 by xadrezismo

Exterminador

Agradeço as suas simpáticas palavras. Será sempre bem-vindo.

Sem "batotas"... LOL

# re: ENTREVISTA COM ANTÓNIO FERNANDES (3)

sexta-feira, 3 de Abril de 2009 14:54 by fcarapinha

Tenho pena que o n/país não premeie e incentive aqueles que têm mais capacidades, acabando por esses ?troféus? serem entregues aos medíocres. Não é por acaso que Portugal se encontra com está: sem projecto de país, acabando por tomar algumas medidas avulsas e alguns projectos duvidosos e sem viabilidade futura.

O desporto em geral e o xadrez em particular não fogem à regra. Mesmo que se reme contra a maré, há sempre alguém que coloca o tal grão de areia para emperrar a máquina, deitando borda fora o ?remador? atrevido que veio destabilizar o que já está consagrado e assim poder continuar na sua normal marcha: lenta e parada.

Se assim não fosse, como se explicaria que aquele que foi em tempos considerado um prodígio do xadrez esteja afastado dos grandes palcos do xadrez? Se assim não fosse como se consegue explicar que o Campeão de Portugal não tenha representado o seu país na mais importante competição de selecções? Parece realmente absurdo, mas infelizmente é isso que o meu país tem.

Quero aqui deixar uma palavra de agradecimento ao António Fernandes, pela sua disponibilidade e entrega que demonstrou nos poucos dias que aqui permaneceu no Mindelo, tornando possível o sucesso do nosso pequeno Festival.

Eu que o convidei e fui responsável pela sua vinda a Cabo Verde, devo-lhe um agradecimento muito especial, pois a sua presença permitiu que o xadrez, aqui em Cabo Verde, fosse catapultado para a ribalta tornando-me um pouco o rosto desse mesmo xadrez. Mas a verdade é que depois do Festival nova era se iniciou no xadrez cabo-verdiano, tanto que a Associação de Xadrez de Santo Antão, que também estava desactivada, voltou ao activo, tendo já organizado um pequeno torneio e participado num match com a n/Associação e na ilha do Sal, um Núcleo Dinamizador está a organizar um torneio e pretende constituir-se formalmente em Associação. Estão assim lançadas as bases para a criação da Federação Cabo-verdiana de Xadrez, tão necessária para um maior desenvolvimento da modalidade e um dos objectivos a que me propus.

Um agradecimento a todos que aí de Portugal, de uma forma ou de outra, me têm ajudado, ou melhor, têm ajudado o xadrez em Cabo Verde.

Ao António Fernandes, mais uma vez o meu grande agradecimento e espero que brevemente nos encontremos para celebrar a ?morabeza? crioula.

Francisco Carapinha

(vice-presidente da AXSV)

# re: ENTREVISTA COM ANTÓNIO FERNANDES (3)

sexta-feira, 3 de Abril de 2009 17:59 by xadrezismo

Caro fcarapinha

Ainda bem que as coisas se encaminham em Cabo Verde, no sentido que aqui nos conta.

Neste blog, foi ponto de honra acompanhar diariamentenão só o desempenho das Selecções Portuguesas em Dresden, na ultima Olimpíada, mas também das restantes Selecções Lusófonas (Angola, Brasil, Moçambique e Timor). Pode ser que na próxima já Cabo verde se faça representar.

O xadrezismo estará sempre à disposição para divulgar as noticias sobre o desenvolvimento da modalidade nesse País. Assim nos chegue a informação.

Cumprimentos, parabéns e sucessos futuros.

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