DO QUE VIVEM ALGUNS VAMPIROS DA IMPRENSA NACIONAL
Ou de como se criam casos, que alimentem o ”voyeurismo” nacional
A coincidência do tema escolhido por dois cronistas
de diferentes jornais, e a sintonia da opinião de ambos, fazem-me chamar aqui a
atenção para o escabroso aproveitamento que muita da nossa comunicação social
faz de casos que envolvem crianças. Como noutros casos sucede, na voragem das
audiências e do título de caixa alta “fácil”, não há quaisquer escrúpulos em
espremer o assunto até à
exaustão, em alimentar artificialmente directos
televisivos onde novos factos não são relatados, antes servindo apenas a
especulação pura e dura.
Mas antes que se atirem todas as pedras aos
“jornalistas” que se prestam a estas tarefas e aos chefes de redacção que lhas
impõem, há que colocarmos todos a mão na nossa consciência colectiva e
assumirmos que, tal só é possível porque rende audiências, as quais se devem ao
nosso “voyeurismo” e tendência para a nacional-lamechice fácil… Sem
esta aliança vampírica, entre nós e a imprensa, nada disto seria de facto
possível!
Arvorados em justiceiros, depois de “consumida” uma
Maddie, deitada fora uma Esmeralda, estamos sempre prontos para uma Alexandra…
até que chegue a época dos incêndios que sempre nos propiciarão mais umas
imagens de desgraça e aflição para que nos possamos revoltar com os
responsáveis (sejam eles os políticos, os incendiários ou os madeireiros),
quando chegamos a casa, vindos de uma praia que deixamos conspurcada pelos
restos do arroz de frango ou de um picnic domingueiro naquele pinhal cheio de
sacos de lixo abandonados por outros como nós.
É uma triste conclusão a que retiro de tudo isto:
temos a imprensa que merecemos, da mesma forma que não merecemos melhores
políticos (pois se até preferimos “não votar nos gajos, que são todos
iguais”…).
Por isso, penso que a sugestão de concurso
televisivo com que Alberto Gonçalves, em tom irónico, encerra a sua
crónica, seria por certo um
sucesso de audiências se fosse levada à prática por
qualquer SIC ou TVI! Que já produziram lixo semelhante com níveis de share
de audiências que permitem ilações deste tipo.
Ficam pois as duas crónicas:
“Com uma regularidade extraordinária sucedem-se os casos: o 'caso
Joana', o 'caso Maddie', o 'caso Esmeralda', o 'caso Alexandra'. O sofrimento
de menores é o último grito na indignação voyeurista. O país, agarrado ao
comando, está preocupado com as suas crianças. Indignado com o que o tribunal
fez à Alexandra. Indignado com o que a mãe biológica lhe está a fazer.
Indignado com a televisão russa, que a filma 24 horas por dia, transformando
uma menina de 5 anos num boneco para entretenimento. Indignado com o telelixo
que tenta transformar o sofrimento dos pais num espectáculo degradante.
E o que faz o país com tanta indignação? Populares aos urros plantam-se
à porta do Centro Regional da Segurança Social para garantir que o momento em
que a criança é entregue à mãe biológica é ainda mais traumático. Jornalistas
organizam julgamentos de rua. Violando todas as regras deontológicas e de
decência, televisões e jornais exibem a cara da criança para garantir as
devidas audiências e vendas. Mostram a mãe a bater-lhe, para que ela mais tarde
o possa recordar. O país não está indignado. Está entretido com a sua própria
indignação. Estamos a transformarmo-nos em vampiros da desgraça dos outros. Sem
limites, sem responsabilidade, sem pudor. Nada de novo. Mas podíamos deixar as
crianças fora do nosso circo.”
Crónica de Daniel Oliveira, publicada no Expresso,
sob o título “Vampiros”.

“A pequena Maddie. A pequena
Joana. A pequena Esmeralda. Agora, a pequena Alexandra. Independentemente das
histórias, algumas trágicas, os portugueses deram em se apaixonar por
"casos" do género. O último envolve uma menina russa, que um juiz
retirou dos pais de criação (nacionais) e devolveu à mãe verdadeira
("biológica", no jargão da moda).
Fez bem? Fez mal?
Evidentemente não tenho, nem poderia ter, qualquer opinião na matéria. Por
feliz coincidência, o resto do país opina por mim, e opina com particular
virulência sobretudo desde que um vídeo mostrou a mãe ("biológica") a
desferir umas palmadas na filha. Ao que parece, em Portugal acha-se escandaloso
que a educação de uma criança possa incluir o ocasional tabefe, atitude que
explica o nível educativo das nossas crianças mas que não é o ponto.
O ponto é que coisas
assim constituem um inegável abono para as audiências das televisões, que
farejam cada "caso" a fim de o transformar numa prolongada novela, e
para as consciências dos cidadãos, que se aliviam de uma curiosa vocação
justiceira. Problemáticos são os tempos mortos, já que as televisões e os
cidadãos ainda se restringem aos "casos" arrancados (literalmente) à
realidade.
A alternativa é inventar
"casos" a partir do nada. Sugiro um concurso. Escolhe-se uma criança
órfã, por exemplo a pequena Maria, e seleccionam-se, num casting, os diversos
casais concorrentes à paternidade (incluindo um par gay para evitar acusações
de discriminação). Dentro de casas distintas e simuladas em estúdio, a pequena
Maria vai sendo criada por um casal à vez durante períodos fixos e em regime
rotativo. Através de chamadas de valor acrescentado, sms e e-mails, os
espectadores votam no casal que desejam eliminar, guiados pelos consensos contemporâneos
em volta do "amor", da "compreensão" e do
"voyeurismo". Depois de uns anos nisto, ganha o casal que escapar às
sucessivas eliminações, presumivelmente aquele que mais estimulou a
"criatividade" da pequena Maria e melhor a ensinou a espatifar um
telemóvel no crânio de uma docente.
Naturalmente, a pequena e
criativa Maria será o prémio dos vencedores. O gozo de decidir vidas alheias
será o nosso.”
Crónica de Alberto Gonçalves,
publicada no Diário de Notícias, sob o título “Criar casos”.