O QUE ?ASFIXIOU? CAVACO?
Há muitas explicações para dar aos Portugueses
Um mês e três dias! Foi o tempo que Cavaco levou para agir sobre o caricato “caso” das
escutas!
Fazendo uma breve cronologia do mesmo, recordo que
Dia 18 de
Agosto, o Público
afirma que um membro da Casa Civil de de Belém (que mantive o anonimato)
desconfiam que para saberem deste assunto, os socialistas e/ou o governo
andariam a “escutar” o Palácio de Belém, ou se haveria alguma “fuga” de
informação a partir do Palácio: "Como é que os dirigentes do PS sabem o que fazem ou não
fazem os assessores do Presidente? Será que estão a ser observados, vigiados?
Estamos sob escuta ou há alguém na Presidência a passar informações? Será que
Belém está sob vigilância?" (em Público).
A este facto, Cavaco respondeu com um prolongado silêncio,
entretido que estava a despachar a papelada que lhe atafulhava o célebre jipe
onde transportara os TPC para as suas férias algarvias…
Regressado de férias, quando interrogado sobre o assunto pelos jornalistas, foi
sibilino e dúbio como lhe é peculiar referindo que não contribuiria para “desviar as atenções dos reais problemas do
país”, para de seguida referir que iria após as eleições informar-se melhor
sobre “questões de segurança”!!! Com
isto, alimentou as dúvidas e suspeições sobre o comportamento alegadamente
imputável ao governo, permitindo que Manuela Ferreira Leite, interessada em
tudo o que lhe permitisse não discutir ideias para o futuro do país (as quais
manifestamente parece não ter, ou serem tão frágeis ou perigosas para se
ocultarem num programa “minimalista” e de “linhas gerais”), cavalgasse a onda
do disparatado e contraditório slogan da “asfixia
democrática”… verdadeiramente a única ideia forte da campanha do PSD, para
lá da hilariante “ameaça Espanhola”,
a propósito do TGV…
Dia 18 de
Setembro, o Diário de
Notícias revelava um e-mail trocado entre 2 jornalistas do Público,
onde se ficava a conhecer o nome do “garganta funda” (ou “toupeira”, como se
preferir) de Belém. Que se insinuara junto de um jornalista para lhe transmitir
um recado do próprio Cavaco (a acreditar no teor do email) acerca da tal
“bomba” das alegadas escutas. Juntara mais “dados” ao ramalhete, nomeadamente
um dossier sobre um assessor de Sócrates que numa visita oficial à Madeira,
cometera o “crime” de se sentar na mesma mesa dos assessores de Belém (!!!),
transformando-se assim aos argutos olhos presidenciais no principal suspeito da
“vigia” a que Sócrates submetia todos os que “cheiravam” a pastéis de Belém!
No mesmo dia,
Cavaco disse que nada diria sobre o assunto até às eleições, para não
interferir nas mesmas… perante uma plêiade de jornalistas “pés de microfone”,
incapazes de o confrontar com a óbvia pergunta: “Não estão em causa os partidos apenas. Está em causa o facto de no
email constar que o seu assessor se reuniu com um jornalista para lhe
encomendar uma notícia e ainda por cima, disse que ia a seu mando. Isto é
verdade, ou mentira?” Quando uma das jornalistas tentou confrontá-lo ao de
leve com isto Cavaco foi o insinuante de sempre, afirmando “não ser ingénuo” e
perguntando à jornalista se o era… Acabou pois a fazer o mesmo que já fizera
com o seu silêncio estival: deu corda ao boato e à suspeição. Que já se sabe a
quem servia!
A 21 de
Setembro, Cavaco fazia
afinal o que negara anteriormente, “desviar
as atenções dos reais problemas do país”.e, a 7 dias das eleições, demitia o que foi o seu principal assessor
nos últimos 24 anos, Fernando Lima, identificado no email como o
“garganta funda” que fizera chegar a “encomenda” presidencial ao jornalista do
jornal que Cavaco já noutras ocasiões escolhera como veículo privilegiado de
alguns dos seus “recados” (recorde-se o caso do anúncio “exclusivo e em 1ª mão”
da comunicação ao país sobre o Estatuto dos Açores).

O que sucedeu nos 3 dias anteriores para fazer Cavaco dar o dito
por não dito e “cortar a cabeça” ao seu fiel seguidor?
1 Uma “chuva” de comentários
e notícias a condenar o absurdo e inexplicável silêncio de Cavaco que o
colocavam no olho do furacão que ele próprio semeara! O seu silêncio –
mesmo agora – só pode ser interpretado como tendo sido de facto Cavaco a urdir
toda a inventona, com objectivos partidários óbvios
2 A exposição a que Cavaco
foi sujeito perante a opinião pública, cada vez mais comprometido com a
campanha laranja e empenhado em fornecer munições (mesmo que artificiais) à
líder que, segundo o Expresso noticiou há meses, ajudou a ganhar o
partido (tenham ou não havido votos “comprados” por alguns capangas de Ferreira
Leite – mas isso será outra história). Uma coincidência assaz curiosa: o
encontro onde Fernando Lima encomendou ao jornalista, o “serviço” pretendido,
aconteceu em 23 de Abril de 2008. Um dia antes, Manuela Ferreira Leite
anunciara a sua candidatura à liderança do PSD! No meio de tantos “fait
divers” este será apenas mais um. Mas engraçado...
3 Cavaco, talvez sentindo-se “asfixiado” por tanta pressão e, estando
já convencido da inevitabilidade da derrota laranja, foi coerente com o que
sempre fez na sua vida política: após transportar ao colo MFL, deixou-a cair
com estrépito assim que se convenceu que a mesma já não serve o seu projecto
pessoal de poder, podendo mesmo pôr em causa a sua reeleição… Como fez a Balsemão, após a morte de Sá
Carneiro, virando as costas ao país e ao partido num momento dramático,
aguardando pela altura da “fruta madura” para então reaparecer para a
“colheita” dos seus próprios interesses; como
fez a Fernando Nogueira, deixando que se imolasse sozinho no fogo final da
derrocada do Cavaquismo; como fez agora
mesmo a Fernando Lima, que aparece sem mais explicações para lá de um email
da Lusa e das alterações no site presidencial. Sempre que Cavaco se serve de um “idiota útil”, descarta-o sem
escrúpulos assim que o mesmo perde essa mesma utilidade para os seus desígnios.
Fosse Cavaco um xadrezista e MFL não teria sido mais do que um mero peão que se
sacrifica quando se acha que está “perdido”…

Faço aqui um parêntesis para referir que Cavaco dificilmente seria
um mestre do “jogo-ciência”, desconfio que nem mesmo um jogador de nível
mediano pois desconhece a máxima absolutamente verdadeira de acordo com a qual “os peões são a alma do xadrez”! Por
outro lado, no xadrez é quase impossível fazer-se batota! O árbitro no xadrez
não pega nas peças dos jogadores e não as move sobre o tabuleiro. Cavaco não
passaria (como este escriba, aliás) de um jogador fraquinho que na gíria se
designa por “piço”… Não consigo mesmo ver Cavaco com perfil para ser
desportista de eleição, em qualquer modalidade desportiva digna desse nome. A
sua inépcia, inabilidade, apetência em não cumprir as regras e o não saber
perder, não me deixam vê-lo como mais que um jogador de… cartas, talvez póquer
onde a batota parece ser apanágio de alguns praticantes e o bluff é rei… ou então do infantil jogo
do “burro em pé” onde algumas das cartas estão equilibradas em cima da mesa e
quem as derrubar, perde. Aí imagino Cavaco mestre! A pontapear a mesa, de cada
vez que o seu adversário fosse retirar uma carta… na tentativa de ganhar
facilmente!
Acontece que Cavaco não poderá apenas ficar-se por esta tentativa
de “lavar as mãos” do assunto, esperando que o mesmo morra sem mais nada ter de
explicar sobre o mesmo.
Seja antes, seja depois das eleições (e independentemente do
resultado das mesmas) Cavaco terá de explicar ao país:
1 Se partiu de si a “encomenda” da notícia e com que objectivos.
2 Não tendo partido de si, como foi possível não ter demitido no
imediato o seu autor, deixando que as suspeições sobre um partido e sobre si
próprio, se instalassem na opinião pública durante mais de um mês?
3 Como dizia hoje o editorial do Diário de Notícias: «Cavaco Silva demitiu Fernando Lima
porque este actuou à sua revelia, ou apenas porque foi inábil e o colocou numa
posição de fragilidade política?»
4 Na hipótese da actuação
autónoma do seu assessor (pouco credível, tratando-se de um fiel seguidor dos
últimos 24 anos, bem conhecedor de Cavaco e da sua forma de actuar), que
garantias nos pode dar Cavaco de não existirem mais “gargantas fundas” entre os
seus colaboradores, conhecida que é a fraca qualidade que Cavaco evidencia nas
escolhas da gente que o rodeia: Fernando Lima não é um caso isolado, pois
Cavaco escolheu em diversos momentos gente pouco recomendável como Dias
Loureiro e Oliveira Costa (para não especular sobre outras das suas escolhas
passadas…)
5 Se é verdade que Fernando Lima entregou ao jornalista do Público
o tal dossier sobre um assessor de Sócrates, significa isso que Belém anda a
espiar o Governo (e de forma estruturada, pois elabora dossiers até sobre meros
assessores)!? Esta questão, não é despicienda e uma vez que Cavaco trouxe À
liça as “questões de segurança”, sabendo-se o que se sabe hoje, é legítimo
exigir de Cavaco este esclarecimento.
6 Se acredita que estava de facto em curso um processo de escuta e
vigilância sobre os homens de Belém. E o que fez nesse caso (para lá de tentar
manipular um jornal), no plano dos mecanismos institucionais e democráticos que
o P.R. tem ao seu dispor.
Pelo menos sobre estas questões, os portugueses devem ser
esclarecidos pelo P.R. de forma cabal.
Outras questões que o caso levantou:
1 Sobre o papel dos 2 jornais envolvidos, registo pela positiva o
teor dos dois artigos de Joaquim Vieira,
o provedor do leitor do Público, que
apontou uma a uma as violações das regras de deontologia da profissão na
condução do assunto e questionou se não existiria uma agenda política por
detrás da linha editorial do jornal. É de coragem!
2 Haver uma fonte que passa uma informação a um jornalista que a guarda
durante 17 meses para a publicar apenas num momento politicamente oportuno e
mesmo assim sem cumprir todos os procedimentos que o bom jornalismo aconselha,
é elucidativo no que se presume ser um jornal de referência…
3 Em contraponto ao que referi a crédito de Joaquim Vieira, o ainda
director do Público, José Manuel Fernandes, teve uma
actuação desastrosa e reprovável ao pactuar com a forma como o assunto foi
gerido e tratado pelo jornal. E nas declarações precipitadas e contraditórias
que foi produzindo desde que o email chegou ao conhecimento de todos.
Fernandes, que ao que consta deixará após as eleições (claro!) a direcção do
jornal, indo assessorar Durão Barroso, termina da pior forma esta fase da sua
vida. Admiro porém a escolha de Barroso: tendo conhecimento desta forma de
actuar de alguns assessores de imprensa, quem melhor que José Manuel Fernandes, poderia ter escolhido para o cargo?
4 O dono do Público, Belmiro de Azevedo, disse que só
mandava no público “quem punha lá dinheiro”! Fico perplexo. Será que os
assessores de Cavaco (ou o próprio) são accionistas de referência da Sonae!? E
por isso podem lá colocar as notícias que pretendem?
5 A publicação num jornal, de um email trocado entre jornalistas de
um jornal concorrente, onde se divulga uma fonte, é condenável à partida. No
caso presente, e dada a gravidade do assunto e o embuste colectivo em que a
generalidade da opinião pública estava a ser induzida, o que o Diário de
Notícias fez, compreende-se pois a dimensão da canalhice era tal que
servirá (no mínimo) de atenuante. Foi afinal um mal menor para todos nós,
pois permitiu saber-se a dimensão da marosca e a desfaçatez dos seus autores.
6 A menos de uma semana do acto eleitoral, este caso teve um
mérito evidente: pôr partidos à esquerda do PS (PCP e BE) a criticar a direita,
o que sucedeu o pela 1ª vez nesta campanha! Foi preciso uma atitude
canalha, para os dirigentes da extrema esquerda se lembrarem do que a direita é
capaz! Pode ser que do mesmo se apercebam os eleitores de esquerda, ainda a
tempo de fazerem uma opção de voto que impeça por completo que num país onde
entre 50 e 60 por cento do eleitorado, vota à esquerda, possa vir a ter um
governo de direita, pelas mesmas razões que levaram a que tivesse um Presidente
do calibre de Cavaco Silva: a dispersão dos votos em várias soluções de
esquerda que se degladiam entre si, enquanto a direita se apresenta mais ou
menos unida (ou pelo menos sem guerras fratricidas)!
7 Espero para ver o que desencantará agora o PSD para tentar
fazer esquecer o episódio canalha nos dias que restam da campanha eleitoral.
Que tal, se parassem com as insinuações e as suspeitas e falassem de uma vez
por todas do que querem para o país, com seriedade?
8 Cavaco perdeu toda a
dignidade que pudesse ainda ter: ou encomendou a notícia por interposta
pessoa (o que parece ser o mais provável até pelo facto de o “garganta funda”
que agora é conhecido, ser quem é), ou demonstrou ser completamente incapaz de
ter mão nos seus colaboradores que se dariam ao luxo de “navegar à deriva”, sem
qualquer coordenação do P.R.
E demonstrou mais uma vez, que não tem qualquer perfil para o cargo
que ocupa, não
respeitando sequer a dignidade que o mesmo deveria conter e muito menos, quem o
elegeu e preza os valores éticos da democracia.
A leitura que faço neste momento é que, Cavaco deveria pedir
desculpa a todos nós pelo que já se sabe: na versão mais “benevolente” para
Cavaco, ninguém terá hoje dúvidas que à sua revelia, um seu assessor forjou uma
notícia tentando beneficiar o seu partido (PSD) em prejuízo de outro (PS), em
vésperas de eleições. E o presidente nada fez durante um mês, transformando-se
pelo menos em cúmplice da manobra. Por isso, Cavaco devia pedir desculpas aos
portugueses! Acontece que Cavaco não é um qualquer presidente de Junta de
Freguesia (caso em que o procedimento seria de igual modo condenável). Ocupa o
mais elevado cargo da Nação. É a 1ª figura do Estado Português. Num assunto
desta gravidade, só há uma forma de o Presidente pedir desculpas: demitir-se!
Veremos o que faz Cavaco, agora que demonstrou que, para ele estas eleições são
umas verdadeiras primárias das... presidenciais!? E vamos assistir a mais um
dos famosos tabus: saber se Cavaco se irá recandidatar, ou se não terá coragem
para tanto.
Sobre este tema, já publiquei, a seu tempo:
Hipóteses
possíveis de um devaneio de verão
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Manuela,
por uma vez, falou verdade
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As
verdadeiras razões do veto da Lei das Uniões de Facto…
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