LEGISLATIVAS/2009: HUMILDADE E RESPONSABILIDADE, SERÃO CHAVE DA GOVERNABILIDADE
Sócrates triunfou, Louçã e Portas exultaram, Jerónimo
resistiu. As insinuações perderam.

O grande vencedor das eleições de ontem, chama-se José Sócrates.
Mais do que o próprio partido que lidera. Sem dúvida, a campanha centrou-se nos
ataques constantes à figura do Secretário Geral do PS, muito mais do que ao
programa ou ideias que o próprio e o partido apresentavam para o país.

E não foi só durante a campanha que tal sucedeu, como se sabe.
Durante quase 4 anos e meio, todos os partidos da oposição sem excepção, se
centraram na pessoa do 1º ministro para desferirem os seus ataques, focados na
maioria das vezes, em ataques cujo alvo era o caracter e a pessoa do PM. Ontem
mais uma vez, provou-se que até hoje, nunca o eleitorado português premiou quem
baseia a sua actividade política em ataques de caracter aos seus adversários. O
exemplo maior até aqui, tinham sido as campanhas que o PCP em momentos
diferentes orquestrara contra Francisco Sá Carneiro e contra Mário
Soares. Também então o eleitorado respondeu nas urnas, derrotando essas
“campanhas negras”.
A novidade em 2009, foi o facto de a táctica habitualmente
utilizada pelo PCP de outrora, ter sido adoptada pela generalidade das forças
políticas com assento parlamentar, tendo mesmo sido levada ao extremo pelo PSD,
desde a “campanha de verdade” até à “asfixia democrática”, passando pelo sem
número de insinuações que são conhecidas. Para mim, a grande derrota da noite
de ontem, foi averbada por essa forma de fazer política.
Se Sócrates foi o grande vencedor pessoal da noite, o Partido
Socialista foi a força política que pôde “cantar vitória” com propriedade. Do
lado dos derrotados, claramente se encontra o PSD, sendo que todos os restantes
partidos conseguiram encontrar motivos de regozijo (que tentaram empolar, como
sempre sucede) e motivos de tristeza (que calaram como também se compreende).
Parece-me que os resultados de ontem, trarão a
todos os agentes políticos das várias forças partidárias, uma exigência, que
devia ser de sempre mas que resulta acrescida num cenário de maioria relativa: o eleitorado disse claramente que exige as
necessárias “humildade” e “responsabilidade” pois só assim o país será
governável! Ao negar claramente à direita o caminho do
poder, entregando aos partidos de esquerda, perto de 55% dos votos expressos,
os eleitores foram claros em duas coisas: não renovarem uma maioria absoluta ao
PS e indicarem um caminho político pretendido, com soluções governativas de
esquerda. Tal, só será possível se o PS souber assumir as suas
responsabilidades de partido mais votado (e para tal a humildade será factor
essencial), o que se aplicará também aos outros dois partidos de esquerda. A
arrogância do discurso de Louçã e a tradicional apetência do PCP pela política
de “contestação”, terão de ser abandonadas. A não ser que estes partidos
pretendam que o PS se entenda com o sector ideológico derrotado ontem... E aí,
estará Portas pronto a aparecer como o “salvador” da estabilidade que de facto,
nunca foi! O momento é
pois difícil politicamente. Mas não só para o PS. BE e PCP terão de saber
negociar (o que significa sempre “ceder”, o que exige
humildade e responsabilidade), terão de saber
encontrar os caminhos necessários para soluções daquilo que é verdadeiramente
importante para todo o eleitorado de esquerda: o SNS, a Segurança Social pública, as políticas que permitam a criação
de emprego, as políticas de integração social dos mais desfavorecidos, a
utilização do investimento público como motor da economia que permita a saída
da crise e alguma retoma económica. Tudo isto serão áreas de governação
essenciais a quem ontem votou à esquerda. E será incompreensível para o
eleitorado, se o PS for afastado das mesmas pela irredutibilidade de BE e
PCP...
Sócrates já afirmou o óbvio: que falará com todos
os restantes partidos. Veremos quem
saberá ser responsável, com humildade! Ou quem optará pelo simples calculismo
político, tentando empurrar o PS para a direita e apostar em novas eleições
daqui a 2 anos...
Quanto ao detalhe dos resultados, começarei pela
abordagem ao vencedor das eleições, olhando de seguida as restantes formações
partidárias, as quais não deixo de considerar como derrotadas, apesar de
reconhecer que alguns motivos terão para regozijo como já referi.

Vencedor
José Sócrates e
Partido Socialista
Classificou como “extraordinário”, o resultado
obtido. Fez bem, a meu ver, em não exagerar em “triunfalismos” os quais, quer
pelo período difícil que se atravessa, quer pela própria dimensão da vitória,
se dispensam em absoluto.
Nesse sentido a ausência da habitual festa no largo
do Rato, foi um sinal de saber estar que Sócrates e o PS deram. Se aqui
critiquei os festejos do PSD perante a exígua vitória das últimas “Europeias”,
com declarações de vitória arrogantes e descabidas, não posso deixar de notar
com satisfação, a frugalidade com que no PS se soube comemorar esta vitória:
com satisfação natural mas sem exageros!
Nas condições em que foi obtida, este resultado não deixa de ser
notável. Resta agora ao PS, não se desviar da postura responsável que deu
provas nas mais variáveis situações da nossa história democrática, sendo que os
consensos devem ser tentados e negociados com clareza, a bem do interesse
nacional. E, quando não forem possíveis, o PS não pode esquecer que recebeu
ontem um mandato do povo para governar. Ainda que sozinho e com o apoio
parlamentar minoritário. E depois cada um ficará com as suas responsabilidades
perante o eleitorado.

Derrotados
Manuela Ferreira
Leite e PSD
Foi a grande derrota da noite de ontem.
Querer conquistar o poder sem apresentar e defender ideias
concretas para o país, mas meras “linhas gerais” e fazer toda uma campanha
assente em pretensos casos e insinuações, foi fatal para MFL e para o PSD! O
agitar do papão do “medo” não resultou e MFL saiu do processo eleitoral,
“asfixiada” por um resultado onde conseguiu a proeza de obter menos 7.000 votos
do que Santana Lopes conseguira há 4 anos! Parece que o eleitorado se sentiu
tocado afinal por algum medo: pelo menos, o de passar o tal cheque em branco a
que aqui aludi por várias vezes.
Registo com agrado que na declaração de ontem, MFL soube “estar” na
derrota. Esteve aliás muito melhor na derrota do que estivera na vitória de
Pirro de há 2 meses... O que, a nível da tal “responsabilidade” necessária
poderia ser um bom indício. Não fosse o facto de me parecer que, daqui a 15
dias, após as autárquicas, o destino de MFL no interior do PSD, ser de previsão
muito negra.

Paulo
Portas e CDS
Portas apareceu como o vencedor à direita, na noite eleitoral. Terá
algumas razões para isso pois soube recolher os benefícios dos erros
estratégicos da campanha do PSD e registou uma subida de 170.000 votos face a
2005, recuperando o lugar de 3º partido mais votado.
O ar arrogante de Portas não pode no entanto deixar de ser
descabido pois foi completamente desmentido ontem um dos argumentos que
esgrimiu nos últimos 15 dias (e que aparentemente frutificou, levando algum
eleitorado laranja a dar-lhe o seu voto), segundo o qual “seria indiferente à
direita, votar PSD ou CDS pois desde que ambos somados tivessem mais deputados
do que o PS, Sócrates não seria 1º Ministro... Como se vê agora, esse absurdo,
por ter sido repetido com insistência, não se transformou em verdade, o que
apenas aumenta o erro estratégico do PSD (Pacheco Pereira?) ao não apelar ao
voto útil à direita!
A arrogância de Portas contraria ainda a necessidade de humildade e
responsabilidade que referi anteriormente. A única esperança de Portas
residirá precisamente no não entendimento à esquerda quanto a uma solução
governativa...

Bloco de Esquerda
Conseguiu crescer em 190.000 votos, conseguiu eleger o dobro dos
deputados que tinha (de 8, passa a 16) e assistiu à perda da maioria absoluta
do que elegeu como seu principal adversário, o PS, para lá de ficar à frente do
PCP.
Mas não deixa de ser uma derrota ser o 4º partido (ultrapassado
pelo CDS), quando se marcou o objectivo de ser 3º...
Louçã partilhou com Portas, a arrogância da noite eleitoral. Quem
ouvisse qualquer um deles sem saber o que sucedera, pelo tom e pelo “ar” de
cada um pensaria que qualquer deles seria o futuro 1º ministro!
Vamos ver se Louçã se vai demonstrar merecedor da aposta que parte
significativa do eleitorado fez nele ou se irá comportar-se como se fosse ele o
vencedor das eleições e querer que as cedências sejam todas feitas pelo PS.
Tenho uma opinião mas não quero avançar já com ela para não ser acusado de
qualquer tipo de má-fé quanto ao sentido de responsabilidade dos dirigentes do
Bloco...

PCP
Foi penoso ouvir o discurso da noite de Jerónimo. Pretender-se
vitorioso por conseguir mais um deputado e apenas mais 10.000 votos do que há 4
anos, quando desceu de 3º para 5º e não conseguiu (tal como o Bloco) ser
“charneira” governativa à esquerda, foi verdadeiramente patético. A seu
crédito, Jerónimo tem o facto de ter sabido resistir em termos absolutos e
relativos. E também soube resistir à tentação que possa ter tido de fazer um
discurso de arrogância, face à perda da maioria absoluta socialista.
Também no caso do PCP, vamos ver para que servirão os votos (e
respectivos deputados) que o eleitorado lhe conferiu.
Nota final
A generalidade dos comentadores da nossa praça, apontavam para o
reforço do papel do Presidente da República caso o PS perdesse a maioria
absoluta, como se previa.
Cavaco Silva já anunciou que vai falar amanhã, presumindo-se que o
tema possa ser o caso das alegadas escutas e tudo o que o rodeia e que culminou
no afastamento de funções do principal dos assessores de Cavaco.
Por esse motivo, seria extemporâneo avançar já com comentários
sobre o papel que Cavaco poderá vir a ter nos cenários de governabilidade do
país. No entanto não deixarei de referir que em situação normal, caso Cavaco
não tivesse sido um dos principais intervenientes em toda a campanha eleitoral
e período que a antecedeu, o seu papel seria fundamental. Veremos como se sai
Cavaco na sua comunicação de amanhã, pois a situação em que o P.R. se envolveu,
é-lhe muito desfavorável e fragilizante... E o facto de PSD e CDS juntos, não
oferecerem uma solução estável em nada melhora essa situação.
Deixo de seguida o quadro comparativo das ultimas 4 eleições legislativas:
|
|
|
Nº de
|
Votos
|
|
|
%
|
|
|
|
Man
|
datos
|
|
|
|
1999
|
2002
|
2005
|
2009
|
1999
|
2002
|
2005
|
2009
|
1999
|
2002
|
2005
|
2009
|
|
Eleitores
Inscritos
|
8.864.604
|
8.902.713
|
8.944.508
|
9.347.315
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Votos
Brancos
|
56.964
|
55.121
|
103.537
|
98.991
|
1,05%
|
1,01%
|
1,80%
|
1,75%
|
|
|
|
|
|
Votos
Nulos
|
51.230
|
52.653
|
65.515
|
74.273
|
0,95%
|
0,96%
|
1,14%
|
1,31%
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
PS
|
2.385.922
|
2.068.584
|
2.588.312
|
2.068.560
|
44,06%
|
37,79%
|
45,03%
|
36,56%
|
115
|
96
|
121
|
96
|
|
PPD/PSD
|
1.750.158
|
2.200.765
|
1.653.425
|
1.646.071
|
32,32%
|
40,21%
|
28,77%
|
29,09%
|
81
|
105
|
75
|
78
|
|
CDS-PP
|
451.643
|
477.350
|
416.415
|
591.938
|
8,34%
|
8,72%
|
7,24%
|
10,46%
|
15
|
14
|
12
|
21
|
|
B.E.
|
132.333
|
149.966
|
364.971
|
557.091
|
2,44%
|
2,74%
|
6,35%
|
9,85%
|
2
|
3
|
8
|
16
|
|
PCP-PEV
|
487.058
|
379.870
|
433.369
|
446.172
|
8,99%
|
6,94%
|
7,54%
|
7,88%
|
17
|
12
|
14
|
15
|
|
Outros
|
99.842
|
88.542
|
122.127
|
175.399
|
1,84%
|
1,61%
|
2,12%
|
3,10%
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Nº de
deputados
|
|
|
|
|
|
|
|
|
230
|
230
|
230
|
226
|
|
Total
votantes
|
5.415.102
|
5.473.655
|
5.747.834
|
5.658.495
|
61,09%
|
61,48%
|
64,26%
|
60,54%
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Abstenção
|
3.449.502
|
3.429.058
|
3.196.674
|
3.688.820
|
38,91%
|
38,52%
|
35,74%
|
39,46%
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
Quando
faltam contar os votos dos círculos "Europa" e "Fora da
Europa", que elegem 4 deputados
|