CAVACO NÃO ?SAFOU A PELE?, NÃO ESCLARECEU E LEVANTOU MAIS DÚVIDAS
Está difícil ajudar Cavaco a sair
com dignidade... “foram ultrapassados os limites do tolerável e da decência”
Cavaco
falou. Tanto
tempo depois de o “caso” ter sido espoletado, depois de ter sido incapaz de
“matar” o assunto à nascença. E que fácil teria sido... bastava alguma
capacidade de visão política e de savoir-faire (tudo afinal o que Cavaco
nunca demonstrou ter! Desde sempre.
Logo em 20 de Agosto, em artigo que intitulei de AS
ESCUTAS E OS SILÊNCIOS, me referi de forma crítica ao silêncio de
Cavaco, alvitrando a possibilidade de aquele silêncio poder vir a transformar a
“imaginativa inventona” numa “arma que, qual boomerangue, retorne às mãos que a
arremessaram com alguma inabilidade, aì rebentando com estrondo…” Os acontecimentos que se sucederam deram
razão a estas palavras, como se sabe.
Depois de ser conhecido o afastamento de Fernando Lima do seu cargo
na presidência, a 22 de Setembro, num outro artigo intitulado O
QUE “ASFIXIOU” CAVACO? juntei a minha voz à de todos os que
entendiam que o P.R. devia uma explicação ao país. Vejamos o que disse Cavaco
hoje relativamente às questões sobre as quais era imperioso que se conhecesse a
sua versão dos factos e a justificação da sua actuação:
1 Se partiu de si a “encomenda” da
notícia e com que objectivos.
Cavaco hoje referiu que “não existe em nenhuma declaração ou escrito do Presidente
qualquer referência a escutas ou a algo com significado semelhante.
Desafio
qualquer um a verificar o que acabo de dizer (...) as interrogações atribuídas
a um membro da minha Casa Civil, de que não tive conhecimento prévio e que
tenho algumas dúvidas quanto aos termos exactos em que possam ter sido
produzidas.”
2 Não tendo partido de si, como foi possível não ter demitido no
imediato o seu autor, deixando que as suspeições sobre um partido e sobre si
próprio, se instalassem na opinião pública durante mais de um mês?
Cavaco foi completamente omisso quanto a esta questão, iludindo-a
na sua comunicação.
3 Como dizia hoje [na data do artigo] o editorial do Diário de Notícias: «Cavaco Silva demitiu Fernando
Lima porque este actuou à sua revelia, ou apenas porque foi inábil e o colocou
numa posição de fragilidade política?»
Cavaco, relativamente a este ponto foi suficientemente ambíguo,
para em vez de esclarecer ter acrescentado dúvidas face ao que disse. Vejamos:
se por um lado começa por dizer que “pessoalmente, confesso que não consigo ver bem onde está o crime
de um cidadão, mesmo que seja membro do staff da casa civil do Presidente, ter
sentimentos de desconfiança ou de outra natureza em relação a atitudes de
outras pessoas.” para de
seguida justificar o que fez dizendo que “o e-mail publicado deixava a dúvida na opinião pública
sobre se teria sido violada uma regra básica que vigora na Presidência da
República: ninguém está autorizado a falar em nome do Presidente da República,
a não ser os seus chefes da Casa Civil e da Casa Militar. E embora me tenha
sido garantido que tal não aconteceu, eu não podia deixar que a dúvida
permanecesse. Foi por isso, e só por isso, que procedi a alterações na minha
Casa Civil.”
Confuso com o arrazoado pretensamente explicativo? Também eu! O que
Cavaco diz afinal é que acha normal que um seu assessor tenha desconfianças relativamente
a outras pessoas... Mas omite que a “outra pessoa” era o PM de Portugal e que
os “sentimentos de desconfiança” foram expressos a jornalistas escolhidos a
dedo para o efeito, com a incumbência de ser arquitectada uma pretensa notícia
(supostamente encomendada pelo próprio P.R.) que insinuasse essas mesmas
suspeições e, já agora, que fosse sugerida outra “fonte” que não a presidência!
Mas é isto que Cavaco acha normal!? Pode ser, ou... pode não ser! Pois Cavaco
de seguida culmina a ambiguidade dizendo que afinal lhe foi garantido que o
nome do P.R. não fora utilizado... Ou seja, Cavaco apenas terá “sacrificado” o
seu fiel braço direito de há mais de 24 anos, para que não houvesse dúvidas
sobre quem manda em Belém!!! Mas mesmo este “sacrifício” não foi explicado nem
de perto, nem de longe: para lá de subsistirem as dúvidas sobre o porquê da
“coisa”, continua sem se saber em que se traduziu na realidade a “coisa”:
Fernando Lima foi demitido (parece que ainda não pois a acontecer, teria de ter
sido publico em D.R.), ou apenas foi transferido para outras funções? Mas
afinal Cavaco não ia falar para esclarecer os contornos escabrosos em que se
envolveu ou (no mínimo) se deixou envolver?...
4 Na hipótese da actuação autónoma do seu assessor (pouco credível,
tratando-se de um fiel seguidor dos últimos 24 anos, bem conhecedor de Cavaco e
da sua forma de actuar), que garantias nos pode dar Cavaco de não existirem
mais “gargantas fundas” entre os seus colaboradores, conhecida que é a fraca
qualidade que Cavaco evidencia nas escolhas da gente que o rodeia: Fernando
Lima não é um caso isolado, pois Cavaco escolheu em diversos momentos gente
pouco recomendável como Dias Loureiro e Oliveira Costa (para não especular
sobre outras das suas escolhas passadas…)
Claro que se Cavaco nem a questão de Fernando Lima foi capaz de
esclarecer, quanto mais dar este tipo de garantias...
5 Se é verdade que Fernando Lima entregou ao jornalista do
Público o tal dossier sobre um assessor de Sócrates, significa isso que Belém
anda a espiar o Governo (e de forma estruturada, pois elabora dossiers até
sobre meros assessores)!? Esta questão, não é despicienda e uma vez que Cavaco
trouxe À liça as “questões de segurança”, sabendo-se o que se sabe hoje, é
legítimo exigir de Cavaco este esclarecimento.
Obviamente cavaco não iria falar sobre isto... podemos pois
legitimamente, continuar na dúvida...
6 Se acredita que estava de facto em curso um processo de escuta
e vigilância sobre os homens de Belém. E o que fez nesse caso (para lá de tentar
manipular um jornal), no plano dos mecanismos institucionais e democráticos que
o P.R. tem ao seu dispor.
Ficamos sem resposta pois Cavaco não foi capaz de nos dizer de
forma clara se acreditava ou não que era alvo de algum tipo de vigilância,
escutas ou lá o que fosse! Se o fizesse, teria de forma afirmativa, teria de
explicar o que fez para resolver o assunto! Limitou-se pois, a dizer que nunca
fizera declarações ou escrevera sobre esse assunto. Escusando-se a dizer se
mandou ou não alguém fazê-lo por ele...
Mas para lá destas questões que me pareciam ser essenciais, Cavaco
tentou alterar a história! Ao marcar o início da mesma no momento das “declarações de destacadas
personalidades do partido do Governo exigindo ao Presidente da República que
interrompesse as férias e viesse falar sobre a participação de membros da sua
casa civil na elaboração do programa do PSD”.
“Esqueceu-se” Cavaco de que a história começou 15 dias antes, em 7
de Agosto último, quando o Semanário, publicou um artigo, intitulado “Ferreira
Leite faz o programa com Catroga e assessores de Belém”. No foi secundado
pelo semanário SOL, que publicava também uma notícia sobre o assunto.
Mas o “esquecimento” de Cavaco foi mais longe, pois omitiu ainda o facto de o
site da candidatura de Manuela Ferreira Leite, ter incluido com destaque, a notícia do Semanário...
e que foi precisamente na sequência dessas notícias e da ausência do qualquer
desmentido a esse respeito por parte dos visados (presidência incluída) que
dois dirigentes do PS (Vitalino Canas e José Junqueiro) vieram a público questionando precisamente esse
silêncio estranho de Belém! Há uma ligeira diferença na “estória” que o P.R.
hoje contou...
Passo por cima da verdadeira anedota que é ouvir Cavaco a
declarar-se por mais de uma vez como “rigoroso na isenção em relação a todas as forças partidárias” ou a sentir-se puxado “para a luta político-partidária” e
“encostado ao PSD”...
Já não posso deixar passar em claro a pergunta que Cavaco confessa
ter feito a ele mesmo: “porque
é que é publicado agora
[o e-mail que o Diário de Notícias trouxe a público], a uma semana do acto eleitoral, quando
já passaram 17 meses?”.
A resposta é óbvia e encerra uma outra questão que Cavaco deveria ter-se
colocado, mas que não referiu: porque é que o Público congelou durante 17
meses a “notícia” que o seu assessor lhe confiou, para a publicar a 5 semanas
do acto eleitoral, servindo de sustentáculo ao slogan de Manuela Ferreira
Leite, da “asfixia democrática”, perante o silêncio cúmplice de Belém?!?!
Até agora, como se viu as explicações de Cavaco, explicam... nada!
Ou talvez expliquem muito, afinal!
Mas colocam uma série enorme de novas dúvidas e reticências cada
vez maiores, sobre o papel do Presidente em toda este ardiloso esquema...
Mas o mais extraordinário estava para vir! Ficamos a saber que
Cavaco descobriu apenas hoje que não existem servidores de e-mail seguros!!! E
para tal, necessitou de ouvir... “várias entidades com responsabilidades na área da segurança”!!! Para lá da manifesta ignorância que
demonstra a este nível, pois qualquer jovem adolescente, lho poderia ter
explicado, o mais preocupante é não se perceber a que propósito vem agora
isto!!! Até hoje, no âmbito da paranóica inventona, ouvira-se falar em escutas
e vigilâncias. Cavaco acabou por não dizer se, em sua opinião as mesmas
tinham fundamento ou não, mas em simultâneo pretendeu insinuar que os seus
próprios e-mails seriam interceptados por alguém a mando do Governo ou do
“partido do Governo”!? Ou quis apenas insinuar que se o e-mail do Público foi
alvo de alguma espionagem informática, o seu também poderia ser!? É que a
tentativa já fora feita pelo director do Público que, poucas horas depois de o
ter feito, se cobriu de ridículo ao vir reconhecer que o e-mail saíra do
Público pela mão de alguém da “casa”, que o imprimira em papel... Mas que
alguém como José Manuel Fernandes se cubra de ridículo, é algo que de tão
vulgar, não chocará ninguém! Que o P.R. (não pela pessoa que ocupa o cargo,
mas pelo próprio cargo em si) persista em fazer figuras tristes como aquela a
que hoje, mais uma vez, se prestou, é algo de confrangedor até para aqueles que
como eu, acham que o conhecem de ginjeira e nada esperam de positivo vindo
dali...
Conclusão
Cavaco ensaiou uma
tentativa (vã) de falar sem dizer nada (ou pelo menos iludindo as questões
centrais) e permitindo-se mesmo alterar a história a seu belo prazer por forma
a satisfazer os seus desígnios. Tentou “safar a pele” que saiu muito chamuscada
aos olhos da opinião pública, de toda a inventona! Não o conseguiu!
Desta forma, será muito difícil ajudar Cavaco a terminar o seu mandato
com alguma dignidade... Pois, nesta trapalhada monumental em que Cavaco se
meteu, foram (parafraseando o próprio) “ultrapassados os limites do tolerável e da decência”.
Parece evidente com este comportamento, que Cavaco fará todos os
possíveis por se recandidatar... O que já é mais difícil de antever é o que
podem os portugueses esperar de Cavaco num momento em que terá de conviver com
um Governo minoritário do PS, num cenário de crise internacional grave... Mas
isso não era já do conhecimento geral?
Afinal, Cavaco hoje acabou por esclareceu algo que ontem eu não quis
escrever (precisamente por estar anunciada a “converseta” que hoje teve lugar):
assumiu-se como tocado pelo desespero da derrota eleitoral de domingo! Que
claro que também foi dele! Até talvez mais do que de uma Manuela Ferreira Leite
que deixou desamparada quando percebeu que a mesma lhe deixara de ser útil! De
uma coisa estou convencido: não terá sido esta a última derrota eleitoral de Cavaco
Silva! Aceito apostas.