SARAMAGO E OUTRAS POLÉMICAS
Ou de como o marketing se alimenta da
histeria colectiva
A excitação
vivida com as campanhas eleitorais sucessivas e com alguns casos rocambolescos que
atravessaram as mesmas, parecem ter agitado grande parte das “boas almas” Lusas
e, à falta de melhor, o êxtase do histerismo colectivo, lá foi procurando
motivos para continuar com a adrenalina em alta por mais uns tempos.
Primeiro, o
sentimento de indignação foi saciado com um episódio velho de dois anos, onde
uma tal Dona Proença, brasileira de nascimento, actriz de novelas,
autora de alguns escritos ligeiros e ex-modelo de algumas revistas, também elas
com objectivos “estimulantes”, tentava ironizar num curto e medíocre sketch,
pretensamente humorístico, com alguns aspectos da nossa realidade nacional… O
maior índice de humor que a pobre senhora conseguia no seu sketch,
resultava dos erros grosseiros que debitava (a própria confessava que o seu
“assessor” histórico, era afinal o “câmara” português que a filmava…) como
aquele de considerar que Salazar fora ditador por mais de… 20 anos! A coisa
terminava com o que parecia ser o apropriado vómito que a Dona Proença não
conseguia conter, qual imagem ilustrativa das pérolas que dissera na meia dúzia
de minutos por que se prolongava a peça…
Foi o bom e o
bonito. De abaixo-assinados a invasões do site da tal Proença, passando por
artigos de opinião vários, a indignação nacional fez-se sentir de forma
absolutamente desmedida e saloia, dando tamanha projecção à protagonista, que
ela deve estar já a pensar num remake da peça… ou em internacionalizar a sua carreira, pois se conseguisse
idêntica promoção em países de maior dimensão (Estados Unidos, Alemanha,
França, Austrália ?), teria notoriedade garantida até à reforma…
Andávamos
todos nesta azáfama “anti-Maité”, quando o nosso Nobelizado Saramago, a
propósito do lançamento do seu mais recente livro (Caim, de seu nome), fez esquecer a Proença. O que disse o homem? Falou da
Bíblia em tom de pouca admiração e de nenhuma devoção. Falou cruamente dos
crimes repetidamente praticados durante séculos pela Igreja Católica e da
violência que perpassa pelo livro sagrado do judaísmo e do cristianismo. Falou
das más influências que a Igreja exerce junto de espíritos fracos e pouco
esclarecidos. Enfim, exerceu a sua liberdade de expressão e exprimiu a sua
opinião de ateu assumido. Sem no entanto pôr em causa a crença de ninguém,
limitou-se a explicar algumas razões da sua… descrença!

A indignação
rebentou de novo. Os artigos de opinião, as declarações várias, a exigência de
que fosse retirada ao “herege” a nacionalidade portuguesa (!!!) feita por um
deputado Europeu ainda com a eleição fresquinha (que ninguém conhecia até
então…), os chorrilhos de insultos ameaçadores que inundaram a net e a
blogostera em particular.
Saramago,
vende por norma muito bem os seus livros - traduzidos por todo o Mundo – não
necessitando por isso deste tipo de marketing? Talvez, mas as regras de mercado
não deixam de funcionar e será sempre difícil resistir-lhes... a prová-lo,
todos aqueles que se uniram em coro, ampliando os ecos das declarações de
Saramago e tornando-se assim seus aliados na promoção do novo livro. Em futuras
edições (parece que a 1ª, esgotou rapidamente...) Saramago devia incluir na
página 2 (uma vez que a 1ª costuma ser reservada aos seus agradecimentos à
esposa Pilar) um agradecimento à colaboração das comunidades judaica e católica,
dos inúmeros autores de blogues e de um cinzento euro-deputado anónimo (que
também ele tentou um golpe de marketing, para ter os seus 15 minutos de
fama...), que auxiliaram a sua editora a promover o livro, em tempos de crise,
com uma redução de custos assinalável.
Aplaudo a
iniciativa de Saramago, num pormenor muito significativo: o facto de ter sabido
utilizar as regras do mercado, sem necessidade de recorrer a
publicidade... enganosa! E terá mesmo
contribuído para o aumento do número de leitores da... Bíblia! A este
propósito, deixo a sugestão para um novo blogue colectivo (A Regra do Jogo) onde recolhi um pequeno texto, a propósito das declarações de
Saramago, que fugia à histeria generalizada:
«Com
efeito, o Deus do Antigo Testamento é vingativo, caprichoso, ciumento e
mesquinho. Que jeito é que tem o coitado do Moisés andar a aturar uma camada de
ingratos durante 40 anos, deixar de ser Faraó e ser condenado a não entrar na
Terra Prometida só por causa que quando bateu com o bastão na pedra para sair
água não ter mencionado o «nome de Deus»?
E
o desgraçado do Jó que só não morreu com tanta tragédia, manipulado entre Deus
e o Diabo como um jogo de playstation?
E
também há sexo proibido e morte com fartura: é o incesto das filhas de Ló que
embebedam o pai, é o genocídio dos cananeus perpetrado pelos judeus, é o
Salomão com 900 mulheres, são as orgias cíclicas dos israelitas que se afastam
do Deus verdadeiro, são as mortes por apedrejamento por causa do adultério, são
as mais de 600 leis que até regulavam a forma como se fazia sexo... enfim.... E
não há que esquecer o quase-sacrifício do filho único de Abrãao, porque Deus
disse assim para o fazer...
Até
Jesus entrou no Templo e expulsou o pessoal ao pontapé e à chicotada!
Pois
é, a Bíblia é o espelho da humanidade e das suas contradições, das suas
ilusões, medos e esperanças. É tudo menos um livro coerente, mas sim uma
narrativa da essência da imperfeição humana» (por Ruben Ribeiro Eiras, no Blogue A Regra
do Jogo)
Como nota
final, e para desanuviar, a fé no catolicismo e no respectivo Deus, parece
continuar firme, apesar da polémica que Saramago provocou: na senda de Alexandra Solnado, que
depois de ter escrito livros sobre as suas conversas com Deus, e de ter mesmo “leccionado” sobre as formas de comunicar com a entidade
divina, agora foi Rui Costa a declarar-se surpreendentemente... visionário:

«Estou a gostar muito de ver Jesus» (Rui Costa, director de futebol do Benfica, em declaração
pública). Bom, e neste caso, até eu que concordo com o que disse Saramago, "comungo" (salvo seja) do prazer que as "visões" de Rui Costa provocam...