Á IGREJA O QUE É DA IGREJA?
...e ao Estado o que é do Estado
«O grupo dos militantes socialistas
católicos quer promover um referendo sobre o casamento homossexual se a
proposta do PS passar na Assembleia da República e propõe-se participar na
recolha de 75 mil assinaturas para o conseguir.
O porta-voz desta tendência dentro do
PS, Cláudio Anaia, disse à Agência Lusa que os socialistas católicos pensam que
é "uma questão de justiça" haver um referendo para que "todos os
portugueses se possam pronunciar sobre esta matéria".» (em Jornal
de Notícias)
«Bispos vão reunir-se entre 9 e 12 de
Novembro e deverão tomar posição sobre o facto de o Governo querer avançar com
o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo. Alguns mostram-se indignados por o
assunto ser prioritário.
A notícia de que José Sócrates vai
avançar já para a legalização do casamento gay abriu nova polémica com a
Igreja. "É triste e lamento que o Governo se vá ocupar de temas que não
fazem parte dos problemas fundamentais das pessoas", critica o bispo de
Viseu, D. Ilídio Leandro, considerando que o tema "não é de relevo para o
País", (…) "Não é uma prioridade. Há outras
bem mais importantes, tanto mais que estamos num momento em que há uma
diminuição dos casamentos e uma baixa de natalidade", avisa Manuel Pelino [Bispo de Viseu] Já o bispo de Lamego, Jacinto Botelho, mostra-se
indignado por existirem "tantos problemas em Portugal" e o Governo
escolher os casamentos homossexuais. (…) "Tem de
se fazer uma análise cuidadosa e ver se tomamos alguma posição", diz o
bispo do Porto, D. Manuel Clemente. Já D. Tomaz, bispo auxiliar de Lisboa,
adianta que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) deverá assumir posição
sobre a medida governativa (…). O
porta-voz da CEP, Manuel Morujão, admite que, apesar de o tema não estar na
agenda oficial da reunião, poderá ser discutido no "contexto de um ponto
agendado sobre um olhar para a realidade social que vivemos".
No entanto, todos os bispos recordam
que já há seis meses a Igreja tomou uma posição explicando o que entende como
"verdadeiro casamento". Uma posição tomada depois de José Sócrates
ter prometido em Janeiro que, se ganhasse as eleições, levaria o casamento
entre pessoas do mesmo sexo ao Parlamento. "As pessoas que votaram sabiam
a posição dos partidos. Agora quero é saber o que pensam os juristas sobre o
casamento civil entre pessoas do mesmo sexo", desafia D. Januário Torgal
Ferreira, bispo das Forças Armadas.» (em Diário
de Notícias)
Parece-me que anda por aí uma confusão a germinar. Não deixa de ser
um mau hábito da Igreja, a sua intromissão em assuntos de Estado.
Interrogo-me sobre duas questões:
1.- O que estará em discussão não é o “casamento” religioso, mas
sim o verdadeiro casamento, perante a lei: o civil. A que propósito pois estas
opiniões eclesiásticas, num Estado laico e onde a liberdade religiosa é um
facto consagrado constitucionalmente? Alguém até agora pretendeu celebrar
casamentos entre pessoas do mesmo sexo em algum altar do país?
2.- O designado “grupo dos militantes socialistas católicos”, ao
proporem um referendo, pretenderão ignorar que no programa eleitoral
recentemente sufragado pela maioria do eleitorado, esta questão estava incluída,
tendo sido alvo de debate público, quer antes quer depois das eleições?
E deixo os
seguintes comentários:
a) Pretender a
Igreja Católica pronunciar-se (leia-se, “pressionar as forças políticas e a
opinião pública”) sobre esta matéria, tem um carácter tão absurdo, como se o
Governo ou alguma força política pretende-se pressionar a Igreja no sentido de
esta terminar com o celibato dos sacerdotes, ou permitir a ordenação de
mulheres…
b) Pedir um
referendo sobre a matéria, num país onde os níveis de abstenção em vários tipos
de eleições, variam entre os 35% e os 70%, e com o grau de desinteresse que até
hoje os Portugueses demonstraram pelos referendos já efectuados, apenas pode
ser utilizado por quem quer negar a vontade maioritária expressa nas urnas
recentemente (recorde-se que não era apenas o PS a incluir a matéria no seu
programa) e por quem pretenda criar um problema, onde ele não existe de facto.
c) Que a
hierarquia da Igreja se resumisse às questões eclesiásticas, seria um bom sinal
para que alguns católicos mais “confusos” não se movimentassem da forma disparatada
que este “grupo dos
militantes socialistas católicos”, aparentemente pretende fazer.
d) Seria igualmente bom que a Igreja Católica e alguns dos seus
seguidores, deixassem de uma vez por todas de pretender impor a toda a
sociedade, os seus “valores” e a sua fé.
Depois,
admiram-se que proliferem os Saramagos a dizerem coisas desagradáveis sobre os
malefícios do fundamentalismo católico…
Note o caro
leitor que não emiti qualquer comentário, para já, sobre a essência da questão
que estará em discussão: se devem ou não duas pessoas do mesmo sexo poder casar-se,
ou se o contrato civil que as une deve assumir esta designação ou outra
distinta da utilizada para pessoas de sexos diferentes. Isso, serão matérias a
discutir daqui a algum tempo. Sem fanatismos descabidos e sem “religiosidades” (completamente
descabidas) à mistura. Pelo menos é o que espero, para uma discussão séria e de
onde possamos todos sair esclarecidos.