O OPTIMISMO QUE VALE A PENA
Como o discurso da desgraça, se
aproxima da astróloga
Maya...
Anda em circulação nas caixas de correio electrónico, um e-mail que
reproduz um texto notável que Nicolau Santos publicou na Revista
Exportar, do ICEP (Instituto do Comércio Externo de Portugal), em...
2006!!!
Na linha da sua habitual postura de “puxar” pelo que é positivo,
Nicolau intitulou o artigo com um sugestivo “PORTUGAL VALE A PENA” que deve ter
feito arrepiar os pêlos capilares a tantos dos pessimistas de serviço que vão
(sobre)vivendo à custa do “desporto nacional” que é sem dúvida o derrotismo
ancestral que nos atravessa as entranhas colectivas, enquanto povo...
Prepare-se pois o leitor que ainda não conheça o texto, para uma
viagem ao muito de bom que existe no “Mundo” português, mas que diariamente é
escamoteado pela comunicação social catastrofista que temos e merecemos ter! Na
íntegra, o texto reza assim:
«Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de
mortalidade de recém-nascidos do mundo, melhor que a média da União Europeia.
Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial
de tecnologia de transformadores. Mas onde outra é líder mundial na produção de
feltros para chapéus.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para
telemóveis e os vende para mais de meia centena de mercados. E que tem também
outra empresa que concebeu um sistema através do qual você pode escolher, pelo
seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filme que quer ver e a cadeira
onde se quer sentar.
Eu conheço um país que inventou um sistema biométrico de
pagamentos nas bombas de gasolina e uma bilha de gás muito leve que já ganhou
vários prémios internacionais. E que tem um dos melhores sistemas de Multibanco
a nível mundial, onde se fazem operações que não é possível fazer na Alemanha,
Inglaterra ou Estados Unidos. Que fez mesmo uma revolução no sistema financeiro
e tem as melhores agências bancárias da Europa (três bancos nos cinco
primeiros).
Eu conheço um país que está avançadíssimo na investigação da
produção de energia através das ondas do mar. E que tem uma empresa que analisa
o ADN de plantas e animais e envia os resultados para os clientes de toda a
Europa por via informática.
Eu conheço um país que tem um conjunto de empresas que
desenvolveram sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos
a pequenas e médias empresas.
Eu conheço um país que conta com várias empresas a trabalhar para
a NASA ou para outros clientes internacionais com o mesmo grau de exigência.
Ou que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas
portagens das auto-estradas.
Ou que vai lançar um medicamento anti-epiléptico no mercado
mundial. Ou que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça.
Ou que produz um vinho que "bateu" em duas provas
vários dos melhores vinhos espanhóis.
E que conta já com um núcleo de várias empresas a trabalhar para
a Agência Espacial Europeia.
Ou que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de
pagamentos de cartões pré-pagos para telemóveis. E que está a construir ou já
construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade um pouco
por todo o mundo.
O leitor, possivelmente, não reconhece neste País aquele em que
vive - Portugal.
Mas é verdade. Tudo o que leu acima foi feito por empresas
fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por
portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores
portugueses.
Chamam-se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams,
Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta,
BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, Primavera
Software, Critical Software, Out Systems, WeDo, Brisa,
Bial, Grupo Amorim, Quinta do Monte d'Oiro, Activespace
Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Space
Services. E, obviamente, Portugal Telecom Inovação.
Mas também dos grupos Pestana, Vila Galé, Porto
Bay, BES Turismo e Amorim Turismo.
E depois há ainda grandes empresas multinacionais instaladas no
País, mas dirigidas por portugueses, trabalhando com técnicos portugueses, que
há anos e anos obtêm grande sucesso junto das casas mãe, como a Siemens
Portugal, Bosch, Vulcano, Alcatel, BP Portugal,
McDonalds (que desenvolveu em Portugal um sistema em tempo real que
permite saber quantas refeições e de que tipo são vendidas em cada
estabelecimento da cadeia norte-americana).
É este o País em que também vivemos.
É este o País de sucesso que convive com o País estatisticamente
sempre na cauda da Europa, sempre com péssimos índices na educação, e com
problemas na saúde, no ambiente, etc.
Mas nós só falamos do País que está mal. Daquele que não
acompanhou o progresso. Do que se atrasou em relação à média europeia.
Está na altura de olharmos para o que de muito bom temos feito.
De nos orgulharmos disso. De mostrarmos ao mundo os nossos sucessos - e não
invariavelmente o que não corre bem, acompanhado por uma fotografia de uma
velhinha vestida de preto, puxando pela arreata um burro que, por sua vez, puxa
uma carroça cheia de palha.
E ao mostrarmos ao mundo os nossos sucessos, não só
futebolísticos, colocamo-nos também na situação de levar muitos outros
portugueses a tentarem replicar o que de bom se tem feito.
Porque, na verdade, se os maus exemplos são imitados, porque não
hão-de os bons serem também seguidos?»
Surpreendente, não é? Para quem vive a realidade que diariamente
nos é vendida pelos Medinas Careiras, Antónios Barretos e Vascos Pulidos
Valentes da nossa praça, esta realidade soará a... ficção científica!
Curiosamente, no dia em que recebi o terceiro e-mail com este texto
(que lera na altura da sua publicação original), leio um artigo de um Professor
universitário de Teoria Política, que cruza na perfeição, com o pensamento
positivo de Nicolau Santos! O seu autor, João Cardoso Rosas, centra-se
no actual momento tão propício ao «discurso apocalíptico» e à «profecia
do fim»... Vale a
pena ler todo, mas destaco algumas das passagens menos empolgantes para os
nossos “profetas da desgraça”. Ou, como suger o Professor Rosas, não passarão
apenas de aprendizes de astróloga Maya!?
«Há uma série de novos profetas, enquanto os mais velhos e
respeitados - Vasco Pulido Valente,
António Barreto - batem recordes de
audiências. O último declarou solenemente ao i, na semana passada, que
"Portugal está à beira da irrelevância, talvez do desaparecimento".
Mas esqueceu-se de substanciar pelo menos a segunda parte da sua afirmação: o
que significa tal "desaparecimento"? Desaparecer do mapa? Deixar de
ser um estado independente? Mas de que forma? (...)
Na América e na Europa gostamos das profecias do fim, talvez
porque isso está inscrito na nossa cultura cristã e milenarista. (...)
As ditaduras tendem a esconder ou anular o pessimismo histórico.
Conferem uma falsa segurança baseada na repressão das opiniões que perturbem a
tranquilidade social. Pelo contrário, as democracias, ao protegerem a liberdade
de expressão, estendem o tapete vermelho aos profetas teleológicos. (...)
qual a relação entre esta obsessão e a história recente do país?
Se olharmos para os indicadores económicos, de saúde, de educação, etc., do
Portugal das últimas três ou quatro décadas, parece óbvio que houve uma
evolução muito positiva. (...)
Objectivamente, portanto,
não parece haver razões para um pessimismo hiperbólico, e ainda menos para o
discurso do fim.
Porém, este discurso nada tem de objectivo. Não se inscreve
no domínio do racional mas antes na esfera do emotivo. Há aqui uma
perversão que convém assinalar. Quem protagoniza este discurso usa a sua
respeitabilidade académica para fazer profecias que apelam à emoção e não à
razão - mas ao saltar da análise sociológica para o registo profético, o seu
discurso passa a valer tanto como o da astróloga Maya.» (em Jornal i)
Faz pensar, ao ler estas vozes “contra a corrente” da moda
publicada, que ainda haverá alguma esperança para o futuro do país. Claro que
os ecos que estes escritos conseguem, nunca serão comparáveis aos do esvoaçar
diletante das nossas “abelhas” Maya da opinião... derrotista! Será por esse motivo que o e-mail com o texto de 2006 (!) do Nicolau Santos, voltou a circular, com tanta acuidade e actualidade?