A FACE DESCOBERTA DO SOL
Tendencioso, mas... tão tosco!
O semanário SOL, quando surgiu prometia muito: ameaçar a
liderança do Expresso, era objectivo assumido. E fá-lo-ia sem ter de “vender”
DVD’s ou qualquer outro tipo de brindes, prometiam convictos os seus
fundadores! Pensou-se então, num projecto credível, veiculando informação
isenta, plural e independente, pois só assim se vislumbrava (ainda que com
alguma dificuldade) alcançável tão ambicioso desiderato. No fundo, seria
necessário quebrar uma liderança de mais de três décadas de um semanário de
referência com uma imagem de pluralismo bem arreigada no mercado.
Poucos meses passados e perante a inevitabilidade do rotundo
falhanço do objectivo definido, o director do Sol, honra lhe seja feita, teve a
humildade de “descer à terra” e reconhecer que o sonho não passara disso! E lá
passou o sol a vender mais algumas coisas para além das notícias e opinião...
E cada vez mais o Sol se parece hoje com uma espécie de versão
requentada do “Independente” de Paulo Portas, do tempo do Cavaquismo...
sucedem-se semana a semana os artigos de pretensa “investigação”, que mais
parecem argumentos para telenovelas de 3º mundo, ou de pura ficção. A linha
editorial é claramente tendenciosa e sempre em favor da corrente neo-liberal
(quer ideológica, quer economicamente), a opinião é quase completamente
“alaranjada” a fazer jus à cor solarenga do seu logotipo. A excepção fica a
cargo de dois dos habituais colunistas (Miguel Portas e Vicente Jorge Silva) a
quem parece atribuído o papel de garantir a “pluralidade” do jornal...
Da última edição em papel, darei dois exemplos do que digo. Um com
direito a chamada à 1ª página e outro... à última.

Foi notícia do dia na manhã da última sexta-feira! Abre-se o
jornal, chega-se à página do “sumo” da dita “cacha” e lá está o habitual artigo
de Felícia Cabrita, com as revelações bombásticas: Sócrates que já se
sabe falava várias vezes com Armando Vara, «passou a recorrer a outros telefones» para continuar a fazê-lo na altura em
que «suspeita-se de uma
fuga de informação» que
terá tido como resultado alguns dos principais arguidos terem sabido que
estavam a ser escutados.
Ou seja, a notícia diz-nos que o PM agiu como qualquer um de nós
agiria se um amigo nos dissesse que andava a ser alvo de escutas... quem
continuaria - por mais inocente que estivesse, fosse em relação ao que fosse –
a utilizar o mesmo telefone, sabendo que podia ele próprio ser alvo de escutas
depois de repetidamente ter utilizado aquele aparelho nas conversas com esse
mesmo amigo!? Num país onde a legalidade é violada todos os dias por quem é
pago para a cumprir e perseguir quem a não cumpre!? Será que a jornalista
Felícia Cabrita não faria exactamente o mesmo que alegadamente nos diz que fez
José Sócrates? Se não o fizesse, no mínimo, seria imprevidente e descuidada...
A partir daqui, a “notícia” perde-se em insinuações tendentes a um
único objectivo: induzir o leitor de que a «troca de telemóveis» é indício da culpabilidade de Sócrates! De forma tosca e
pouco habilidosa! Veja-se como Cabrita tenta estabelecer a relação entre as
conversas Vara-Sócrates e o negócio TVI-PT: «Até aí, nas conversas com Armando Vara, José Sócrates
surgia como tendo tratado da compra da estação televisiva directamente com a
administração da PT. A partir do dia 25 [de Junho] – e depois de no dia seguinte ter garantido no Parlamento que
desconhecia o caso -, passou a assumir que não concordava com a transacção». Cabrita, “esquece” a intervenção
estapafúrdia de Cavaco que esteve na origem da decisão governamental! E não
esclarece o leitor de como “sabe” aquilo que afirma: conhece o teor das
escutas? Então deveria escrevê-lo claramente e não de forma ínvia com estas
declarações insinuantes! Ou estaria a referir-se às pretensas escutas que
circulam na net e que se suspeitava já serem falsas? No mínimo terá sido um
“investigação jornalística” pouco prudente... Até final, o tom mantém-se até um
final rematado com duas frases só possíveis a quem conhece todas as escutas e
não só as que envolvem Vara e Sócrates: «Resultava das conversas que Sócrates estava a par de
tudo. Vara invocava isso mesmo quando falava com os outros arguidos» ! Assim, sem tirar nem pôr! Felícia
Cabrita foi uma das jornalistas que escreveu “preto no branco” que haviam
escutas e gravações efectuadas com tecnologia de ponta, que incriminavam
Armando Vara a pedir € 10.000 ao principal arguido! Agora, que se sabe que tudo
isso é falso, Cabrita fechou-se em copas sobre o assunto e “continuou para
Bingo” com mais “novidades bombásticas”!
Mas quanto a afirmações que indiciam saberes inconfessos, Cabrita
está nesta edição do Sol, em ilustre companhia. O director Saraiva, termina a
sua coluna com um post scriptum na mesma linha da sua jornalista: «P.S.
- O PGR, Pinto Monteiro, teve há semanas um desabafo que um jornal transformou
em manchete onde dizia mais ou menos isto: «Se for necessário para acalmar os
ânimos, eu divulgo as escutas todas do 1.º-ministro». Ora essa divulgação é
impossível, como o PGR sabe, por uma razão inultrapassável: as conversas contêm
linguagem imprópria, com insultos e referências desprimorosas a figuras
públicas, pelo que não podem ser divulgadas. Se isso acontecesse, Sócrates
seria forçado a renunciar – ou o PR teria de o demitir.».
Tudo isto tem tanto de tosco, como de tendencioso. Será que no Sol,
a imagem dos leitores é tão baixa que ninguém faz um esforço para tentar pelo
menos, camuflar a coisa? Ou julgarão apenas que os compradores dos DVD’s e dos
livros nem se dão ao trabalho de abrir o papel de jornal que acompanha os
mesmos?
O segundo exemplo foi-me
“recomendado” por um dos habituais comentadores deste espaço no
próprio dia. Respondi-lhe na caixa de comentários, que a credibilidade do
jornal, aconselhava que se aguardasse por mais pormenores...

A notícia que a imagem ilustra, referia-se ao Código Contributivo
que toda a oposição impedira de entrar de imediato em vigor, dias antes. E
aparentemente, pretenderia “responder” ao coro de críticas que foram feitas
face à inerente impunidade de que continuará a gozar a contratação precária.
Dava-se então conta de que «segundo uma simulação feita para o SOL pelo escritório de
advogados Miranda, os trabalhadores poderiam pagar até mais 25% e as empresas
mais 40% de descontos».
Chegado ao interior do Suplemento de Economia (página 8), confirmei a razão que
tive em recomendar prudência sobre o tema:
Sem pretender pôr em causa a idoneidade do tal “escritório de
advogados Miranda” (referenciado aliás de forma tão vaga que não
possibilita que se identifique claramente de que escritório de advogados se
trata...), percebe-se que as conclusões do estudo até poderão ser sérias e
verdadeiras! A forma como a notícia é dada é que omite o seu real sentido: o
que se fica a saber é que se o código entrasse em vigor, «as diferenciações da Taxa Social Única
(TSU) (...) implicará mais encargos, para as
empresas que mais recorram a trabalhadores a prazo» !
Ou seja, o que as contas do escritório de advogados confirmam (como
se pode ver na imagem abaixo) é o que já se sabia: se uma empresa que tem um
contratado a prazo, não alterasse nada e pretendesse manter esse precário após
a entrada em vigor do Código agora adiado, era penalizada por isso! Mas esse
era um objectivo assumido do tal Código! O que o título e a chamada ao caderno
principal insinuam é que afinal, ao contrário do que se dizia, o código trazia
mais impostos e taxas para as empresas! Tosco, outra vez! E pouco honesto,
desta feita, apesar do oportuno tempo verbal condicional, utilizado no título e
no excerto colocado online...

Quanto à penalização anunciada para os trabalhadores, percebe-se ao
ler que ela resulta para aqueles que continuassem a receber «remunerações acessórias» que até agora não eram taxados para a
Segurança Social. Em causa estão as «ajudas de custo, as senhas de refeição, prémios, despesas de
transporte ou de representação» acima do limite permitiddo. O que constitui hoje uma completa
injustiça para as empresas que não recorrem a esse subterfúgio e para os
trabalhadores que dele não “beneficiam”... ou seja, seria corrigido este
“buraco legal” que abre porta à mais descarada fuga fiscal... e sabe-se como é
fácil uma empresa pagar salário mínimo e dar “por fora”, a título de prémio,
outro tanto que não é alvo da TSU! Este aspecto, é completamente escamoteado e
a coisa é apresentada do avesso, como se o objectivo fosse outro o de impor uma
taxa injusta...
Para a letra miúda do texto da notícia, é remetida a honestidade
dos autores do estudo que reconhecem a vantagem «para quem empregue trabalhadores sem
termo e não ofereça suplementos remuneratórios acima do limite. Neste caso e
com base no cenário das simulações, haveria uma descida de 4% nas
contribuições». O único reparo que faço a este nível é que o salário escolhido para as simulações (€ 1.000) é bem acima do salário médio português (e então se pensarmos em precários...) mas aceito que possa ter sido escolhido para facilitar as contas a partir de um número "redondo". de qualquer modo, é pouco rigoroso.
Com estes exemplos se vê que o SOL, tem a face bem descoberta de um
jornalismo tendencioso, mas feita de forma tão rudimentar e tosca! Quão longe
deve estar o tal objectivo inicial de destronar o Expresso! Nem ao fantasma do
Independente conseguirá este SOL, fazer... sombra!