SOL

PROCURA-SE PRESIDENTE DA REPÚBLICA...

...Que saiba respeitar os seus poderes e o cargo


A campanha eleitoral para as próximas Presidenciais (que terão lugar no início de 2011) está “rolando”, como diriam os nossos irmãos brasileiros.

 

Alimentada desde já pelos dois mais prováveis putativos candidatos que vão engordando os respectivos tabus sobre as intenções de se candidatarem ou não. Tabus em que poucos acreditarão, tão evidentes são os sinais de que ambos estão mortinhos por avançar, esperando apenas a altura mais propícia para o assumirem.

 

 

 

Cavaco Silva, tenta desesperadamente apagar das lembranças colectivas, a desastrada e escandalosa actuação durante o verão de 2009, que culminaria na “inventona” das alegadas escutas a Belém… Fá-lo de forma atabalhoada, como lhe é já peculiar. E não consegue evitar que o discurso descarrile para o plano partidário de onde nunca soube sair… O último discurso de “ano novo” foi apenas mais uma peça deste “teatro” já visto e revisto!

 

Manuel Alegre, vai aparecendo em várias reuniões com apoiantes (que assumem normalmente a forma de comezaina pública, que isto não está para comícios), na tentativa de marcar território à esquerda. Louçã já fez saber que Alegre deverá contar com o apoio do Bloco e o PS - pesem embora algumas vozes gradas que têm sugerido nomes alternativos(?) -, não deverá repetir o erro de há 5 anos. Resta saber a posição do PCP – sempre dado a fretes objectivos à direita e a posições muito dúbias nas eleições presidenciais – para se aquilatar se a esquerda irá ou não ter uma candidatura potencialmente ganhadora.

 

Na blogosfera, a conversa vai animada. Dou como exemplo um artigo brilhante no Regra do Jogo, onde o Professor de Economia da Universidade Católica do Porto, Carlos Santos desmonta com a análise de dados do BP, a argumentação dos alegados “défices gémeos” com que Cavaco (e muitos dos comentadores de direita) tentam iludir-nos a todos… fazendo crer que o défice público aumenta necessariamente o défice externo! O que pode ser verdade conjunturalmente, mas está longe de ser um axioma como Cavaco faz questão de fazer "passar", apenas para desvalorizar as medidas Keynesianas que o Governo pretende adoptar como resposta à crise, nomeadamente os investimentos públicos…  

 

Com uma análise dinâmica da evolução dos dados, Carlos Santos conclui (entre outras coisas) que neste início do século XXI não há uma correlação entre o défice externo e o défice público. Comprova ainda o que quase todos já sabemos (a excepção parece ser mesmo Cavaco Silva, o professor que disse que usaria os seus “vastos” conhecimentos de economia para “ajudar” o Governo…): que o peso dos combustíveis no total das nossas importações (52%), é determinante em períodos de alta de preço do petróleo, para fazer disparar o endividamento. Avalie o leitor por si próprio, lendo todo o artigo e vendo os gráficos que ilustram as conclusões do mesmo…

 

Este é apenas mais um sinal de que é necessário alguém que ocupe a cadeira do Palácio de Belém, com verdadeira noção da responsabilidade que a mais elevada função do Estado acarreta. Sem truques e golpes baixos. Sabendo separar os planos institucionais e partidário, alheando-se deste último! Se estes 5 anos serviram de algo, foi para provarem que Cavaco não nasceu para esta função.

 

Por isso, urge que Manuel Alegre mande às urtigas o timing que Cavaco considere apropriado para anunciar a sua candidatura e diga ao país que “vai a jogo”, em definitivo! Abriria uma janela de esperança a todo o país e mostraria não ter receios em marcar a agenda das Presidenciais. O apoio do PS e do Bloco teriam de ser imediatos e o PCP teria de clarificar a sua posição, dizendo se mais uma vez lançaria uma candidatura “fantasma” como tantas outras vezes fez, apenas para estender a passadeira vermelha a Cavaco… ou se desta vez estava disponível para se opor com eficácia à direita!

 

É a este propósito o segundo texto que recomendo hoje: publicado no “A Nossa Candeia”, por Ana Paula Fitas e intitulado “Quem tem medo de Manuel Alegre”, onde se pode ler: «o papel intervencionista do Presidente da República durante o ciclo eleitoral que terminou em Outubro, em defesa - ainda que mais ou menos velada - de um PSD sem programa e sem estratégia, e a actual vitimização de Cavaco Silva que, através da comunicação social, se tem procurado fazer nos últimos dias, conduz-nos a uma reflexão importante sobre as estratégias em curso relativamente às eleições presidenciais que nos vão ficando, cada vez, mais próximas. (…) a vitimização e a frieza de Cavaco Silva face ao Governo e à Assembleia da República denotam o receio do apoio do PS à candidatura de Manuel Alegre à Belém... atitude que será, na verdade, a única atitude inteligente e estrategicamente eficaz, para assegurar a estabilidade indispensável ao repensar e reformar das políticas sociais e económicas de que o país, indiscutivelmente, precisa.».

Concordo em absoluto! E Resumo o que disse antes: a hora é de Manuel Alegre e Cavaco que fique entregue ao seu próprio tabu e a ruminar na melhor forma de sair do lodaçal fedorento em que transformou a sua presidência!

Publicação: terça-feira, 5 de Janeiro de 2010 15:54 por xadrezismo

Comentários

# re: PROCURA-SE PRESIDENTE DA REPÚBLICA...

terça-feira, 5 de Janeiro de 2010 18:21 by joaocrm

Olá Xadrez.

Bom Ano.

Partidarismos à parte, diga-me só se acha realmente que o Manuel Alegre (que é uma pessoa pela qual até nutro alguma simpatia) tem o "arcaboiço" político de um Ramalho Eanes, Mário Soares ou de Cavaco Silva?

Abraço.

# re: PROCURA-SE PRESIDENTE DA REPÚBLICA...

terça-feira, 5 de Janeiro de 2010 21:13 by xadrezismo

Viva Caro Joao

E um igualmente bom ano, para si e para os seus.

Não acho que a questão esteja em comparar Alegre com Presidentes passados. Parece-me que o que se colocará à escolha de cada um, será a comparação entre os possíveis Presidentes futuros. Essa será a realidade que teremos pela frente.

A análise histórica será outro tipo de exercício que aqui não fiz.

E colocando a hipótese da dupla Alegre vs. Cavaco, não tenho dúvidas quanto ao tal "arcaboiço" de ambos: de Cavaco, está visto o que se espera. Independentemente de alguns gostarem, parece-me inegável que é preciso muita flexibilidade para ver nele as capacidades mínimas que o cargo exige (a bem do país, claro).

Quanto a Alegre, tenho até lido (e acredito plenamente) que Sócrates não teria  a vida "facilitada" com Alegre a Presidente. O que talvez responda também à questão que coloca.

Já agora acrescento que não sou particular "adepto" de muito da actuação de Alegre. Não votei nele há 4 anos porque achei que devia ter procedido de forma diferente daquela que fez. Acabou por também ter a sua quota parte de responsabilidade na divisão da esquerda que conduziu Cavaco a Belém.

Espero que desta vez a lição tenha sido aprendida por toda a esquerda, mas tenho algumas dúvidas...

Um abraço.

# re: PROCURA-SE PRESIDENTE DA REPÚBLICA...

quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010 0:22 by joaocrm

Reparou que eu não me referi ao Jorge Sampaio? É que só agora é que vi. Será que é só de mim, ou realmente foi um que por lá passou e não deixou saudades?

Abraço.

# re: PROCURA-SE PRESIDENTE DA REPÚBLICA...

quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010 1:41 by xadrezismo

Não sei, meu caro João, as razões porque se terá "esquecido" de Sampaio.

Lhe garanto que eu, não me esquecerei nunca de Cavaco! E olhe que não será por ficar com boas recordações do homem...

Como já lhe disse anteriormente, não estabeleço comparações neste texto com outras figuras históricas. Até porque considero ofensivo para qualquer dos nomes que referiu compará-los ao actual inquilino do Palácio de Belém.

Um abraço

# re: PROCURA-SE PRESIDENTE DA REPÚBLICA...

quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010 20:18 by joaocrm

Porquê é que considera ofensivo?

# re: PROCURA-SE PRESIDENTE DA REPÚBLICA...

quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010 22:56 by xadrezismo

Oh caro Joao, temos uma pergunta de retórica? Ok, eu respondo...

Porque apesar de os tempos de cada um serem obviamente diferentes, qualquer um dos outros conseguiu respeitar as funções presidenciais e não desceu ao terreno partidário (apesar do episódio PRD...), tentando respeitar quer os que neles votaram quer os restantes portugueses... coisas que Cavaco não consegue efectivamente fazer. O fato de presidente fica-lhe mal, não lhe serve dê ele as voltas que der.

"Farol" de referência? Fazer cumprir a constituição? Garante do funcionamento das instituições? Tudo isto soa a oco, a estranho, quase anedótico se pensarmos no que Cavaco disse e fez ao longo deste tempo em belém...  

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