O ESTADO LAICO NÃO PASSA DE UM MITO!? (actualizado em 12 de Maio de 2010)
Para receber Ratzinger, não era necessária a vassalagem do Estado
Para aqueles que acham que os preceitos constitucionais não deviam
ser feitos tábua rasa pelos poderes instituídos, hoje será o primeiro de 3 dias
negros no que respeita à laicidade do estado Português!
Ratzinger, a quem a Igreja Católica denomina por Bento
XVI, inicia hoje uma visita a Portugal. Estado
que se diz laico. Isto é, que não dá tratamento preferencial a nenhuma religião
e – não menos importante – que não deve permitir qualquer promiscuidade entre
os planos civil e religioso.
E a que
assistimos? À total negação deste princípio! Desde a aberrante tolerância de
ponto decretada pelo Governo para os funcionários públicos, até ao mais pequeno
pormenor, passando pela forma como por exemplo, em comunicado a PSP refere
Ratzinger como... “Sua
Santidade”!!! Ou como houve o “cuidado” de referir que
os profissionais do Corpo de Segurança Pessoal (da mesma PSP, que conduzirão o
Papa são... “católicos e
casados”!!!
Importaria
também saber quanto custa ao erário público a pompa e circunstância faustosa
que rodearão os 3 momentos eucarísticos da visita Papal... em Lisboa, Porto e
Fátima. Estas e outras questões em torno da visita de Ratzinger, têm sido
discutidas pelos cibernautas lusos e podem-se ver reflexos no Facebook curiosos.
Destaco os 4 “campeões” de adesões:
Aqueles
que acham um absurdo o país parar porque o papa vem visitar o país.
EU
NAO VOU VER O PAPA, ELE SE QUISER QUE ME VENHA VER A MIM...
Preservativos
"ao" Papa em Portugal
NÃO
QUERO PAGAR A VISITA DO PAPA A PORTUGAL
Outro sinal
dos tempos, são as petições electrónicas. Valem o que valem (pouco, claro). Mas
não deixam de ser um exteriorizar alguns sentimentos e de posturas cívicas. Por
isso, dou a conhecer a Petição
Cidadãos pela Laicidade. Ainda é
possível assiná-la.
Sendo
Ratzinger equiparado a chefe de Estado – e
importa lembrar que a designação de “Estado” é muito polémica quando aplicada
ao Vaticano, desde logo por o conceito não se aplicar a territórios que não
tenham cidadãos -, deveria ser recebido
com toda a dignidade de qualquer outro dos seus pares. Mas não mais do que
isso! O que se anuncia para os 3 dias que se seguem é a submissão do Estado
Português. Um prestar de vassalagem, natural na Europa medieval, mas repugnante
no Mundo actual! A começar no Governo e no Presidente da República – que devia
pugnar pelo cumprimento da Constituição!!! - e a terminar em algumas das
autarquias envolvidas.
Enquanto
muitos (a
acreditar nas sondagens, a maioria) se envergonharão dos poderes que os deviam representar e cumprir a
Constituição, lembremos também “a outra face da Lua” acerca do pretexto que
traz de novo um Papa a Portugal... para muitos não mais do que um embuste comercial!
[youtube:
ZKYaq-CsaUI]
E porque um
dos temas da actualidade Mundial é o escândalo do encobrimento por parte de
Ratzinger e da cúpula do Vaticano, de abusos cometidos por padres pedófilos há
dezenas de anos, deixo um documento absolutamente ridículo promulgado em 1517
pelo Papa Leão X (que pretendia a obtenção de fundos para iniciar a
construção da Basílica de S. Pedro). Onde se prova que a hipocrisia sempre foi
apanágio da Igreja Católica (se o pecador
puder pagar, “limpa” o pecado...) e que a
pedofilia está longe de ser na hierarquia da mesma, um problema contemporâneo.
Ou não fossem já necessárias há quinhentos anos, multas aplicadas aos
pecaminosos da hierarquia:
«2.
Se o eclesiástico, além do pecado de fornicação, quiser ser absolvido do pecado
contra a natureza ou de bestialidade, deve pagar 219 libras, 15 soldos. Mas se
tiver apenas cometido pecado contra a natureza com meninos ou com
animais e não com mulheres, somente pagará 131 libras, 15 soldos.» (o segundo dos 35 artigos da Taxa
Camarae).
A leitura integral é altamente
recomendável para que se perceba quão fácil sempre foi comprar a virtude e o
reino dos céus... Assim a bolsa o permitisse! E este tarifário é também prova
cabal de que desde sempre, os representantes do clero foram dados a práticas
pecaminosas as mais diversas...
Actualização em 12 de Maio de 2010:
Um dia depois
de publicado o texto, deparo-me com um artigo do Historiador José Reis
Santos, de onde selecciono algumas passagens, em sintonia absoluta com o
que escrevi:
«Tudo dentro
da normalidade esperada, se não fosse a intromissão do Estado nestas
celebrações, apoiando financeiramente as mesmas (em quantidades estranhamente
não divulgadas) e decretando várias tolerâncias de ponto (que custarão
directamente, segundo estudos desenvolvidos, qualquer coisa como 37 milhões de
euros por dia); numa altura em que em Portugal se conta e aponta publicamente
todo o consumo dos nossos tostões.
Esta dupla
intromissão - do Civil no Religioso e no nosso quotidiano - é inadmissível num
Estado laico, que se secularizou há quase 100 anos; e que demonstra que pouco
se aprendeu, neste último século, acerca da noção de laicidade do Estado e da
consagração do direito à liberdade religiosa. O Estado tem, obviamente, que
tratar diferenciadamente o religioso do político; com o risco de - se o não
fizer - entrar num terreno pantanoso pouco dignificante para um regime
civilista e dificilmente associado ao progresso social e civilizacional
alcançado nos últimos 35 anos.
A missa que
hoje se celebra no Terreiro do Paço transporta-nos também inevitavelmente para
outros tempos, onde a mesma Praça consagrava um regime com características
assumidamente autoritárias, aclamando um brando ditador católico. Nesse tempo,
o regime organizava-se de forma a produzir um espectáculo legitimador com
sucesso garantido: decretava tolerância de ponto à função pública, manipulava
as suas organizações para que - de forma peregrina - marcassem presença, e
requisitava todos os meios de transporte disponíveis (de comboios especiais, a
autocarros e barcos) de forma a garantir uma entusiasta presença maciça.» (por José Reis Santos em Diário Económico).
Curioso o
paralelo estabelecido com as manipulações de massas de outros tempos… e se o
leitor tiver curiosidade, sugiro-lhe a leitura integral para ver como termina
esta analogia. É só seguir o link…