Forclusão do feminino na organização do trabalho: um assédio de gênero
Forclusão do feminino na organização
do trabalho: um assédio de gênero
Female foreclusion in work organization: gender harassment
Marie-Grenier Pezé, dra.
Hôpital Max Forestier. 303, Av. De la République, 92200 Nanterre França. E-mail:
mariepeze@free.fr
RESUMO
Neste
artigo é proposta uma discussão para ajudar a compreender a temível
eficácia do assédio moral no trabalho. Para tanto é discutida a questão
da construção "identitária", que depende do reconhecimento que se
dirige sobre o fazer, a identidade é inseparável dos gestos técnicos
efetuados pelo sujeito. Esta também é uma questão de gênero de
pertencimento a um sexo. Em psicodinâmica do trabalho, uma atenção
particular é dada à construção dos coletivos de trabalho que soldam um
grupo em torno de regras da profissão. A cooperação necessita um
ajustamento dos procedimentos singulares de execução da tarefa, mas
também uma confrontação de posições éticas de cada um, sobre a base de
uma confiança partilhada e, portanto, de uma cooperação possível.
Entretanto o assédio moral se tornou uma verdadeira estratégia de
gerenciamento, baseada na radicalização das novas formas de organização
do trabalho que favorecem a virilidade defensiva, que parecem ter
transformado profundamente as relações nos grupos de trabalho e
radicalizado os sistemas de defesa construídos para resistir.
Palavras-chave: Psicodinâmica do trabalho, organização do trabalho,
assédio moral, gênero, construção "identitária"
ABSTRACT
This
paper proposes a discussion to help understand the fierce efficacy of
moral harassment in the workplace. For this, the issue discussed is
that of identitary construction, which depends on the acknowledgement
directed on doing, since identity is inseparable of the technical
gestures conducted by the subject. This is also a gender issue, of
belonging to a sex. In work psychodynamics, a special attention is
given to the construction of work collectives which weld a team to
professional rules. Cooperation needs an adjustment of particular
procedures for carrying out a task, but it is also a confrontation of
each individual's ethical positions, based on shared trust and,
therefore, of possible cooperation. Nevertheless, moral harassment
became a real management strategy, based on the radicalization of the
new forms of work organization which favor defensive virility, which
seem to have deeply transformed the relationships within the work teams
and radicalized the defense systems built to resist it.
Key words: Workplace psychodynamics, work organization, moral harassment,
gender, identitary construction.
É habitualmente a construção de um corpo erótico no
entrelaçado das identificações que apaixona o psicanalista. Mas limitar seu olhar terapêutico
à construção do corpo erótico através dos acasos da história infantil enquanto
que o trabalho (sua regulamentação, seu custo, seus efeitos psíquicos e orgânicos) penetra
fortemente o material clínico é manter uma postura ilusória.
Uma
psicanalista durante uma consulta «Sofrimento e trabalho» pode esperar
ver o assédio moral evocado na prática clínica. A presença na mídia
desta nova denominação deu uma forte força às queixas das vítimas, a
criação de uma rede especializada de escuta e de cuidados, lhes deu
doravante uma legitimidade social. Do que se trata essa legitimidade
psicopatológica? É necessário lembrar-se que o assédio moral
(Hirigoyen, 1998) é um procedimento técnico de destruição e não uma
síndrome clínica.
Nós privilegiaremos aqui a definição de Michèle Drida :
"O assédio é um sofrimento infligido no local de trabalho de maneira durável, repetitiva e/ou sistemática
por uma ou várias pessoas a uma outra pessoa, por todos os meios relativos às relações,
à organização, aos conteúdos ou às condições de trabalho, mudando a
sua finalidade, manifestando assim uma intenção de prejudicar ou mesmo de destruir." (DRIDA, et al.
1999).
Como
compreender a temível eficácia do assédio moral sem compreender o jogo
identitário ligado à situação de trabalho? O que confere ao trabalho
sua dimensão propriamente dramática é sua ligação com a construção
"identitária". Quando a escolha da profissão está de acordo às
necessidades psicossomáticas de um sujeito, quando as modalidades do
seu exercício permitem o livre jogo de funcionamento mental e da
construção pulsional individual, o trabalho ocupa um lugar central na
manutenção de uma economia psicossomática durável (DAVEZIES 1993).
Porque o reconhecimento do trabalho se dirige sobre o fazer, a
identidade é inseparável dos gestos técnicos efetuados pelo sujeito.
Atos de expressão da postura psíquica e social do sujeito dirigido ao
próximo (DEJOURS, DESSORS, MOLINIER, 1994), eles se ancoram na nossa
infância pela cópia, pois a identificação aos modelos amados e
admirados, na tradição das profissões transmitidas pelo aprendizado,
entrelaçando as ligações estreitas entre atividade do corpo e o
pertencimento a um coletivo de trabalho. Enfim, eles traduzem nossa
identidade de gênero, nosso pertencimento a um sexo.
O ASSÉDIO
MORAL, UMA ESTRATÉGIA DE GERENCIAMENTO SEXUADO
"Enquanto você não parar de escalar, os degraus não cessarão de
subir ao mesmo tempo que seus passos avançam" Kafka, O processo
Os
gestos de uma profissão são a fonte fundamental de estabilização da
economia psicossomática, oferecendo à excitação pulsional uma saída
socialmente positiva ao valor da sublimação. Tornar sua execução
aleatória, paradoxal, humilhante, dia após dia, tem efeitos traumáticos
sobre a psique. A subordinação própria à definição jurídica de contrato
de trabalho prende o assalariado numa toxicidade contextual
experimental. Com efeito, o aparelho psíquico só pode se afrontar a uma
situação excessiva fonte de excitação graças a duas grandes vias de
expressão: o pensamento, que permite trabalhar o "excesso" intrapsíquico,
o movimento,
que descarrega o corpo do excesso de tensão. Numa situação de assédio,
a repetição das humilhações aos novatos, os vexames e as ***ções
paradoxais têm valor de destruição psíquica e suspendem todo trabalho
do pensamento. A impossibilidade de demitir-se sob pena de perder seus
direitos sociais barra a descarga sensório-motora. O impasse criado
nestas duas grandes vias de escoamento das excitações traumáticas
convoca fatalmente a ruína depressiva e a via somática mais ou menos a
longo termo. Nós veremos mais adiante como, tocando os gestos da
profissão, nós ferimos fatalmente as pessoas na sua identidade.
A
situação do assédio, quando interrompida a tempo, pode manter um
parêntese obscuro na vida do sujeito. Quando ocorre por um tempo
excessivo, as seqüelas psíquicas (neurose traumática, ruína
ansio-depressiva, acessos delirantes), acometimentos orgânicos
(amenorréias, câncer de seio, de ovário entre as mulheres) podem ser
definitivos e constituem um problema de sobrevivência individual e de
saúde pública maior.
Em
psicodinâmica do trabalho, uma atenção particular é dada à construção
dos coletivos de trabalho que soldam um grupo em torno de regras da
profissão. A cooperação necessita um ajustamento dos procedimentos
singulares de execução da tarefa, mas também uma confrontação de
posições éticas de cada um, sobre a base de uma confiança partilhada e,
portanto, de uma cooperação possível. Uma análise aprofundada da
situação de impasse descrita pelos pacientes assediados coloca em
evidência o isolamento do sujeito. Isolamento de fato num posto sem
equipe, isolamento subjetivo num posto onde o coletivo de trabalho não
existe verdadeiramente, onde falta cooperação, e mais ainda a
solidariedade. Suportar o trabalho deixa o sujeito sozinho com seus
mecanismos de defesa individuais, privando-o do recurso das estratégias
coletivas de defesa. Estas últimas, destinadas a fazer frente ao
sofrimento no trabalho, são específicas a cada local profissional,
produzidas, estabilizadas e construídas coletivamente. Se o sujeito
isolado não pode beneficiar-se delas, ele pode ser atingido, ou servir,
pelo seu estado, de bode expiatório dos outros.
A
precariedade tende a neutralizar a mobilização coletiva, a produzir o
silêncio e o "cada um por si". O medo de perder seu emprego induz as
condutas de dominação e de submissão. É necessário constatar que a
manipulação deliberada da ameaça, da chantagem, do assédio tem sido
utilizada como um método de gerenciamento para desestabilizar, incitar
o erro e permitir o afastamento por uma falta ou incitar a demissão.
Alguns se queixam do assédio que alguns meses antes eles viram ser
exercido sobre outro sem intervir ou, muito pior, para guardar seu
lugar e contribuindo para que isso acontecesse.
Nestas situações, o sofrimento ético resulta, de um lado, da
pulverização da auto-estima, e ainda da culpabilização às avessas do outro sem que
ele tenha sido defendido.
Para
conjurar o risco de descompensação psíquica, a maior parte dos sujeitos
constrói defesas específicas. A vergonha é superada pela interiorização
dos valores propostos, pela banalização do mal no seu exercício dos
atos civis comuns (DEJOURS 1999). O cinismo no mundo do trabalho é
então considerado equivalente à coragem, à força de caráter. A
tolerância à injustiça e ao sofrimento infligido ao outro é construída
em valores viris, em ideologias defensivas da profissão. Um homem, um
verdadeiro homem, deve para ter sucesso chegar a ignorar o medo e o
sofrimento, o seu e o do outro. A virilidade social se mede pela
capacidade de exercer sobre os outros violências anunciadas como
necessárias, num sistema de construção social do masculino que desperta
o medo de ser castrado, submetido, passivo, afastado, privado de seus
atributos. Quanto mais as condições de trabalho se endurecem, mais as
defesas se enrijecem, chegando a haver uma exacerbação das atitudes
viris.
O machismo induzido pela organização do trabalho não fica no vestiário quando se
deixa o local de trabalho. Para mantê-lo a postos é necessário, por vezes, colocar um impasse sobre
sua vida afetiva. A organização do trabalho, quando ela exige defesas adaptativas, pode afetar a organização
mental do sujeito até mesmo na sua construção erótica, nas suas relações afetivas.
A falta de reciprocidade nas relações intersubjetivas entre os homens e as mulheres no trabalho é
levada para a vida no lar. O "fora do trabalho" traz também marcas de deformações de comportamentos
sexuais no trabalho. "(...) pelas suas observações, suas condutas, as mulheres fragilizam a negação
do medo colocando em perigo sua base principal :o prestígio viril" (MOLINIER, 1997).
DELPHES OU « A CONFUSÃO
ORGANIZADA » :
O primeiro
encontro com o sujeito assediado é carregado de olhares múltiplos: encontro com o sujeito, sua estrutura
psíquica, sua organização do trabalho, sua forma de descompensação. Estes níveis
de escuta intrincados exigem concentração, formação especifica sobre a organização
psíquica individual e a organização do trabalho. Esta investigação psicodinâmica
é um momento privilegiado, podendo conduzir o sujeito à compreensão dos mecanismos específicos
utilizados contra ele, ao descolamento da história do trabalho e da história singular, à verbalização
e à perlaboração dos afetos reprimidos. O paciente passa por uma provação porque a entrevista
é longa, o retorno a uma cronologia de acontecimentos laborais, a catarses dolorosas.
Delphes
cai sobre ela mesma, hesitante, conta sua historia sem cronologia, sem
lógica ao ponto que eu mesma me perco pouco a pouco. Um grande
sofrimento surdo do corpo e a palavra aleatória desta mulher, mas eu
não chego a nada com o material que ela traz. Eu tento algumas questões
para inserir alguns pontos de sinalização precisos sobre este
itinerário profissional. Eu custo a acreditar que o funcionamento
intelectual e imaginário desta jovem mulher engenheira poderia estar
tão alterado. A descompensação ansioso-depressiva é grave. Há alguma
coisa a mais, da ordem do verdadeiro e do falso, do real e do irreal,
do justo e do injusto que ela não sabe mais situar. Ela está no limite
da perda da realidade, desorganizada psiquicamente. O tempo passa e o
sentimento de visco psíquico persiste ao ponto que eu decido terminar a
entrevista que durou duas horas. Duas horas!
Nos dias
que se seguem, chega uma primeira carta, depois outras. Começa então uma correspondência unilateral,
uma vez que eu não respondo. Eu recebo páginas numeradas que se acumulam. Eu me torno a depositária
de um espaço psíquico onde se anuncia uma reconstrução identitária. Da massa disforme
inicial emergem pouco a pouco os contornos de uma vida de mulher. Delphes se extrai, diz ela, da "confusão
organizada"
onde ela estava perdida. Observando o fio condutor das cartas desde o
início, o desaparecimento das faltas de acordo, de gênero, a aparição
de espaço entre palavras onde elas estavam coladas, o retorno de uma
cronologia dos acontecimentos. No fundo, Delphes descreve o trabalho
com a minúcia de uma verdadeira profissional e a impecável
representação de mulher que lhe é imposta. Esta correspondência de
vários meses permitirá a elaboração multidisciplinar2
de um atestado argumentando o assédio de gênero e suas conseqüências psicopatológicas, apoiando
o médico do trabalho na sua diligência de colocar restrições à paciente "todas as tarefas
na empresa que podem trazer perigo imediato" (artigo R 241-51-1 do código do trabalho francês).
Contratada
numa grande empresa com um diploma universitário técnico em engenharia
elétrica e informática, a paciente descreve um percurso profissional
satisfatório no seio da empresa antes de 1990. Ela é autônoma na gestão
da sua tarefa, sua hierarquia direta confia nela. Ela gosta muito de
aprender. No contrato, seu chefe de serviço lhe precisou, entretanto,
que como era uma mulher, e portanto uma mãe em potencial, ela não teria
o mesmo salário que os homens.
Desde
1990, as ameaças de afastamento foram freqüentes. A organização do
trabalho se radicaliza. De "nós trabalhamos para a pátria-mãe" passaram
a "nos iremos trabalhar como os japoneses". O ambiente de trabalho foi
ficando mais duro. As horas de trabalho aumentaram, ela precisava
freqüentemente se mudar. Ela era, entretanto, a única que possuía um
antigo contrato tratado diretamente. Cedo ela deve gerir dois tipos de
contrato de trabalho ao mesmo tempo. A necessidade de adaptação ao
trabalho é constante. Em 1983, ela trabalha à mão, sobre papel vegetal,
com lápis HB, caneta Rotring®; em 1999, ela trabalha diretamente com o computador, olhar sobre a tela, com o mouse.
Cada contrato demanda uma reflexão, sobre evolução, a utilização e a proteção
do material vendido. Os tempos de realização só diminuem. Trabalhar rápido com as pessoas que
nem sempre tem a competência necessária se torna uma ilusão.
Ela nunca teve a escolha da tarefa que deveria realizar. O trabalho era aquele que
os homens não haviam escolhido. Delphes deve conceber um sistema automático em seis meses. O sistema a
ser realizado é aquele que ninguém quis fazer, previam, conforme lhe disseram, que seriam necessárias
no máximo, 600 linhas de cálculo. Ela fez uma avaliação e totalizou de fato 1.400 linhas
de cálculo. Isto significa encomendar o material para dois sistemas e não para um só, 12 meses de
trabalho. Ela coloca em questão a prescrição da hierarquia, sua tarefa de trabalho parece sempre
mais importante que a dos homens porque ela não esconde as dificuldades reais. Ela tem que se virar.
RADICALIZAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO
DO TRABALHO E A VIRILIDADE DEFENSIVA
Delphes
assume há muito tempo as funções de um cargo superior, mas com um salário inferior, ela
precisou esperar cerca de seis anos para receber a promoção. Ela não tem o diploma universitário
de engenheira plena e enquanto mulher não tinha apoio da hierarquia. Os outros que não tem o mesmo cargo
à sua volta lhe dizem "é porque você dorme com o chefe que você passou para este cargo!".
A partir da promoção, ela
precisa se afirmar, ter um perfil de autoridade. "Na empresa, eles consideram o estresse como um estimulante. O estresse
é então vivamente estimulado para que cada executivo o provoque afim de obter melhores resultados."
Os executivos masculinos lhe transmitem esta filosofia que ela deve doravante aplicar: "Você está lá
para incitá-lo. Quando nós estamos na casta superior, é para obedecer". Seu chefe direto a
incita a práticas gerenciais: "Nós iremos dar alguém para você treinar diretamente. Você
tem a proteção da hierarquia". Se afirmar em cima de qualquer um consiste em "fazer pressão" sobre
alguém que ocupa um nível hierárquico inferior, lhe dar metas irrealizáveis, sem meios e
com pouco tempo para realizá-las e lhe dizer que é uma competição. Fazer também a pressão
quando as pessoas entram em férias. Afirmar sua autoridade sobre os outros passa por este tipo de relações
"viris" enquanto que "meu conceito de autoridade enquanto mulher passa pela relação",
afirma a paciente, "pela cooperação, por considerar o outro e suas competências profissionais".
A
nova organização do trabalho parece ter transformado profundamente as
relações nos grupos de trabalho e radicalizado os sistemas de defesa
construídos para resistir. Os homens encontram certamente as mesmas
dificuldades que Delphes em termos de constrangimento de tempo, de
trabalho feito sem os meios adequados. No entanto, eles parecem
suportar "esta confusão organizada" pela interiorização massiva dos
novos valores da empresa e a adesão a uma ideologia defensiva da
profissão baseada sobre o cinismo. Sabemos que "são as
ideologias defensivas da profissão que produzem a expressão especifica
da virilidade no trabalho, no inicio essencialmente voltadas à defesa
contra o sofrimento, se mostraram num segundo tempo utilizáveis para
aumentar a produtividade." (DEJOURS 1988). Podemos então fazer
a hipótese que a oscilação da estratégia defensiva em ideologia, passe por um programa de ação
coletiva específica. Além disso, uma técnica de interrogatório pesado sobre o assalariado é
introduzida como método específico de gerenciamento. Praticada a dois, ela responde aos métodos de
desestabilização do interrogatório policial: nível verbal elevado e ameaças, chuva
de questões sem possibilidade de serem respondidas, clima de acusação sistemática, falsas saídas,
duração prolongada da entrevista, porta deixada aberta para todos ouvirem. Isso é feito para se
obter o rebaixamento emocional do assalariado e de todos aqueles que escutaram.
Estas
técnicas pesadas são valorizadas pelos homens. O exercício autorizado
da agressividade é um sistema de governo dos homens que solda o
coletivo de trabalho em torno de uma radicalização defensiva. "A defesa transformada em um fim em si, a luta contra o sofrimento se transforma
em alienação, impedindo todas as possibilidades de expressão individual, em proveito de uma indiferenciação
dos membros do coletivo" (MOLINIER 1997). O perigo é projetado fora do grupo sobre um bode expiatório,
no ataque exterior da diferença: "o deficiente", "o negro", "a mulher". Sendo a única mulher na
equipe, o assédio de Delphes se torna inexoravelmente sexista.
A REPRESÃO DE SI
Pede-se a Delphes que se ocupe dos clientes estrangeiros que têm reconhecidamente
posições machistas diante das mulheres. Sua percepção do trabalho é fina : "Trata-se
de contratos feitos pelo pessoal de venda, é traduzi-los em trabalho real, para os técnicos onde a técnica
evolui sem parar, para satisfazer os clientes de raízes e de expressões socioculturais diferentes". É
então a ela que são confiadas as mediações difíceis porque ela se desdobra nas suas
qualidades relacionais de antecipação, de mediação, de empatia. Em resumo, suas qualidades
"femininas" inerentes à condição de mulher. Um dos chefes lhe afirma sarcasticamente que ela foi
escolhida para colocá-la em situações delicadas com os homens que vêm de países onde
as mulheres são maltratadas. De fato, os clientes indianos, paquistaneses, indonésios, egípcios,
chineses se dizem todos honrados de trabalhar com uma mulher ocidental. Os homens estrangeiros em situação
de aprendizado se preocupam, sobretudo em não decepcioná-la. Desde o início, as competências
de formadora que ela utiliza são invisíveis porque são ligadas à "natureza feminina" e não
originadas de seu trabalho e de suas competências pessoais.
A ideologia defensiva da profissão enaltece diante das mulheres uma posição de
poder e de conhecimento. "(...) o desprezo das mulheres, o machismo, encontram assim uma potente alavanca na contribuição
que traz à negação da vulnerabilidade dos homens"
(MOLINIER 1997). A mulher é por natureza inferior, psicologicamente e
intelectualmente. Esta afirmação é confirmada por afirmações picantes,
que Delphes escuta dia após dia: "Somente uma mulher perguntaria estas
coisas!", "Se isso acontece, é por culpa da mulher", "para uma mulher
você é muito bem paga !", "Corte seus cabelos, é como se fazia com as
há sistematicamente problemas...", "De todas as maneiras, não é
necessário procurar, tem somente uma mulher na parada...". Ela está
esgotada, não pesa mais do que 45 kg. Uma tecnóloga em plena atividade,
a menos adaptada, uma demanda incessante para assumir horas extras são
ainda fatores agravantes do seu esgotamento. Não é mais informada das
reuniões: reunião de lançamento, reunião sobre o desenvolvimento dos
negócios, reunião com os mecânicos. Contrariamente aos outros chefes,
ela não tem um computador exclusivo, ela trabalha no de qualquer outro
colega. Ela é colocada como invisível, excluída pelo boicote
subterrâneo presente.
A solidão fica maior sobre os planos intelectual e intersubjetivo. O mecanismo de defesa que ela desenvolve
para resistir é a repressão.
Ao contrário do recalque que permite, num processo inconsciente, não
considerar nossos desejos e os conflitos que eles suscitam em nós, a
repressão é um trabalho consciente e constante do ego, um esforço
voluntário e deliberado para deixar de lado as representações
conflituosas e os afetos correspondentes. A repressão educativa é um
exemplo perfeito: pelo gesto, palavra, olhar, trata-se de pesar sobre
as expressões motoras e verbais de uma criança, de indagar sua
espontaneidade e seus ímpetos pulsionais. Ainda mais longe, de pesar
sobre o pensamento e as fantasias desenvolvendo então as limitações
funcionais do ego (PARAT, 1991). Delphes tenta se fazer pequenina, se
apagar. A única mulher num coletivo de homens, ela não pode partilhar
sua feminilidade. Ela só usa calças, ela suprime as bijuterias, seu
cabelo é neutro. Os bloqueios à formação, a falta de estabilidade dos
cargos propostos, a desqualificação constante de seu trabalho a impedem
de encontrar uma saída que valorize seu funcionamento pessoal.
Em
paralelo, as regras da empresa estipulam que não se pratique nenhuma
discriminação em relação aos empregados em razão da sua raça, sua
religião, suas opiniões políticas ou de seu sexo, que todos se engajem
e tratem os outros com dignidade, respeitando plenamente a vida privada
dos colegas.
Pela
falta de referencias para pensar o que vem do exterior, do campo
social, Delphes acredita que a causa de seu sofrimento seja
intrapsíquica e se responsabiliza, portanto. Ela começa uma
psicoterapia e encontra um espaço para pensar suas dificuldades.
Passado um certo tempo, ela encontra um esquema explicativo. Eles, os
homens, têm uma lógica que ela não compreende. Ela fica então
enfraquecida, não confiável, insuficiente, impotente. Por esta posição
feminina defeituosa, confrontando a hipótese de um masoquismo
inconsciente, ela se convence da legitimidade do poder dos homens. Esta
aceitação da interiorização de uma posição enfraquecida tem efeitos
positivos em termos de benefícios secundários pois ela autoriza um
"deixa disso". Ela decide pedir tempo parcial porque a sobrecarga
crônica de trabalho deixou marcas na sua vida privada. Seus dois filhos
têm dificuldades. Ela faz também um pedido de utilização de bônus,
previsto no contrato. Ela é convocada pelo seu diretor de recursos
humanos que lhe assinala que ela é a primeira a reclamar seus bônus,
mesmo que isto esteja previsto no contrato, que isto não deveria ser
sabido, que ele "não tem que gerenciar ainda
mais os dias para recuperação dos bônus destas damas".
A não convergência na prática social dos homens e das mulheres sobre o
tempo fora do trabalho fica caricatural diante do pedido de tempo
parcial e de utilização dos bônus. O pedido é incompreensível para seu
chefe, que lhe faz doravante críticas cotidianas.
A partir desta
data, seu trabalho é desqualificado. Ela faz os trabalhos que ninguém quer fazer. A descompensação
está presente sob a forma do esgotamento profissional, mas combatida sem trégua para manter o trabalho
e não desabar. O estado geral se agrava. Os sintomas físicos começam sempre pelas vertigens: "Tudo
gira em torno de mim, eu me torno transparente, eu não escuto mais nada
de fora, eu não sinto mais minhas pernas e a vontade de chorar está lá.
Eu vejo grandes buracos negros diante de mim. Eu tenho a forte sensação
de estar em perigo, eu não tenho mais forças, mais vontade de comer e
às vezes tenho idéias suicidas".
Quando
voltou de férias, em setembro, ela tinha seu novo contrato, mas ela não
aparecia mais no organograma. O chefe não era um executivo e lhe
exprime além disso seu incômodo diante dela. Os membros da equipe se
dirigem, no entanto, a ela quando surge alguma dificuldade. O mau
funcionamento do coletivo de homens deve ser suportado pelas mulheres. "30 homens diante
de uma mulher deve ser uma situação muito tranqüilizadora para escapar do conflito" diz Delphes,
que deve gerir psiquicamente esta contradição: suportar as imagens de vaginas de mulheres peladas em destaque
na tela de descanso dos computadores de seus colegas e permanecer como mediadora compreensiva.
Ela é sem trégua o centro das atenções
diante da equipe. O chefe vem lhe falar se encostando nela e lhe dizendo a 25 cm de sua boca. "Este
homem que se encosta quando fala, é o horror tanto que cheira mal. Isto
ocorre diversas vezes, quanto mais eu me afasto mais ele se aproxima de
novo. Ele cheira mal, ele é grosseiro, ele não escuta. Eu lhe digo que
não sou surda, que desejo mais distância entre nós." Seu chefe de serviço, a quem ela se queixa das telas
pornográficas e do gestual fora de lugar do chefe direto, lhe responde: "Isto é sempre assim e eu não
posso mudar nada".
Ela
se concentra sobre a tarefa que lhe é prescrita. Ela começa a avaliar o
volume de trabalho, o cronograma de tarefas, o programa de computador
necessário, os colegas que podem ajudá-la. O colega ocupado de estudos
se recusa a lhe comunicar as informações. A ela é imposto um novo prazo
muito curto. O planejamento e a gestão deveriam ser assumidos pelo
chefe direto. Nada foi feito. Uma vez mais, lhe é confiada uma tarefa
que ela não pode executar, lhe é fixado um objetivo impossível de
atingir. O assédio é manifesto: desqualificação do cargo, sobrecarga de
trabalho, ***ções paradoxais, fracassos pelos objetivos
irrealizáveis. As conseqüências da alteração de sua relação com o real
do trabalho são maiores sobre seu equilíbrio psicossomático. No dia
seguinte, as dificuldades graves fazem seu médico decidir afastá-la por
tempo prolongado.
FORCLUSÃO DO FEMININO E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO:
Vários meses se passaram. Novamente ela vem me ver porque eu devo lhe dar
um certificado de apoio à ação do médico do trabalho atestando sua incapacidade devido ao
perigo imediato. Ela diz que se sente melhor desde que está em licença médica, que seus transtornos
desapareceram, que seu corpo se recuperou: "até minha menstruação voltou!". Eu lhe pergunto:
"Você não tinha mais menstruação?".– Sim. "Desde quando?". Ela fica perturbada,
precisa refletir longamente para lembrar o começo da amenorréia, suas interrogações para
sua ginecologista que lhe repetia "isto pode voltar" . Ela encontra a data no seu prontuário médico:
1989. Nós nos remetemos ao período da radicalização na organização do trabalho,
a acentuação das ideologias defensivas viris tinham começado com a designação de um
bode expiatório, sobre o ataque sistemático ao feminino.
Para
ter uma chance de encontrar as condições propicias ao reconhecimento de
suas qualidades profissionais e à realização de si no trabalho, Delphes
deveria compor com a economia erótica de seus colegas homens. Muitas
mulheres fracassam nesta luta que as dilacera interiormente entre sua
identidade de mulher e sua identidade no campo social. O problema é
quando isto faz perder sua feminilidade. A descompensação depressiva e
somática de Delphes resulta deste conflito. Ela recusou endossar o
arsenal machista, não demonstrou sua capacidade de trazer uma
contribuição entusiasta ao funcionamento da estratégia viril e se viu
excluída. O desaparecimento da sua menstruação assinala o assédio de
gênero ao nível somático, pontuando a função erótica reprimida. À
virilidade anexada pelo vocabulário agressivo e sumoso, o gestual
invasivo, os comportamentos agressivos, as telas pornô que solicitam a
economia erótica masculina nas suas pulsões parciais, Delphes parece
responder pela neutralização de sua identidade sexuada até no nível
somático.
Na perspectiva psicossomática, a descompensação testemunha geralmente a fragilidades
das possibilidades de representação, do transbordamento das capacidades de ligação da psique,
de uma situação de impasse para o sujeito. "A somatização é um processo pelo qual
o conflito que não pode encontrar saída mental vai desencadear no corpo desordens endócrino-metabólicas,
ponto de partida de uma doença orgânica" (DEJOURS 1993).
Sabemos que as rela&c