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AS RELAÇÕES ENTRE TRABALHO E SAÚDE MENTAL.

AS RELAÇÕES ENTRE TRABALHO E SAÚDE MENTAL.

Na relação do homem com o trabalho, não somente se "ganha" como também se constrói a vida, estabelecendo-se um status social que não se restringe ao ambiente físico do trabalho. Pelo contrário, a actividade profissional é parte inextricável do universo individual e social de cada um, podendo ser traduzida tanto como meio de equilíbrio e de desenvolvimento quanto como factor directamente responsável por danos à saúde.  

Nos estudos sobre as condições de trabalho, tem-se reconhecido cada vez mais a existência de factores de agressão à saúde relacionados com o trabalho. Deterioração, desgaste, envelhecimento precoce são implicações das diferentes relações do homem com o seu trabalho (DEJOURS et Al, 1993) .

 

Inúmeras têm sido as ocorrências de agravos à saúde mental relacionadas com o trabalho, cujas causas básicas repousam nos factores subjectivos e psicossociais. A morbidade psiquiátrica tem se revelado um importante dado a compor as estatísticas de auxílio-doença no Brasil, podendo-se atribuir tal fato - pelo menos em parte - às situações de tensão vivenciadas colectivamente no trabalho, as quais se traduzem em adoecimentos individualizados (SELIGMANN SILVA, 1992). 

Observados a partir de uma perspectiva epidemiológica, os cruzamentos dos registros de absenteísmo com as observações clínicas e os registros dos serviços médicos permitem identificar duas situações distintas:

 

.: Ocorrência elevada de crises desencadeadas por situações no interior das empresas e caracterizadas por episódios clínicos agudos: “crises nervosas”, taquicardia, “distonia neurovegetativa”, hipertensão arterial e até infartos cardíacos. Tais períodos de crise são verificáveis justamente em situações de trabalho que exacerbam o cansaço e a tensão emocional. São, portanto, reacções à ansiedade causada por determinadas circunstâncias de trabalho.  

.:Situações em que há maior prevalência de distúrbios da esfera psíquica. Dizem respeito a certos sectores de actividades, profissões ou formas de organização do trabalho em que os riscos mentais se evidenciam em função de factores de risco que interagem na situação de trabalho.

 

É necessário considerar que tais problemas de morbidade têm carácter cumulativo e atuam tanto no nível individual quanto em termos de colectivos de trabalho.

A conexão entre a instância psíquica e os vários âmbitos das esferas sociais é assim sintetizada por SELIGMANN SILVA (1992):  

.: Há uma interacção dinâmica e contínua entre instância psíquica (individual) e experiência laboral (colectivo micro-social),  

.: As dinâmicas que se processam articulam vivências individuais que, pela via da intersubjetividade (grifo da autora), atingem a instância colectiva;  

.: O sofrimento vivenciado pelos trabalhadores devido a essas conexões dá ensejo para que, no nível colectivo, duas formações tenham lugar: o chamado sistema colectivo de defesa contra o sofrimento e o sistema de resistência emancipatória e de compromisso ético.  

 

Esses dois sistemas colectivos são objecto de estudo de CHRISTOPHE DEJOURS, para quem a organização do trabalho se encontra sobredeterminada pelas relações sociais de trabalho. Em decorrência, os fenómenos intrapsíquicos, os intrasubjetivos e as configurações assumidas no nível “micro” pelos colectivos de trabalho devem ser pesquisados através de uma abordagem qualitativa, que também considere o contexto macrossocial, de forma a articular os registros do singular e do colectivo. Ante essa perspectiva ampla defendida pelo pesquisador, há que se considerar sobretudo a diversidade de componentes da instância trabalho e os níveis que ela alcança, do individual ao macrossocial. Em linha gerais, podem ser apontados alguns dos aspectos envolvidos, os quais vêm sendo estudados sob várias abordagens teóricas:  

 

·     O sistema colectivo de defesas contra o sofrimento. É a linha de estudos encabeçada por DEJOURS, segundo a qual os trabalhadores criam defesas colectivas a fim de tornar suportável a permanência em situações de perigo no trabalho. É o caso, por exemplo, da ridicularização do perigo verificada em situações de trabalho que põem em risco o trabalhador.

·     A natureza e o conteúdo das tarefas, envolvendo a esfera psicoafetiva, como as que exigem intenso autocontrole emocional.

·      A densidade do trabalho, em especial a densidade das actividades cognitivas.

·      A estrutura temporal do trabalho, destacando a nocividade do sistema de turnos alternados no que concerne à saúde psicossocial e também à saúde física.

 

·      O controle, que tanto incide na subjectividade (a dominação e a negação da autonomia) quanto no nível colectivo — a cooperação pela “felicidade dissimulada”, tão bem analisada por PAGÈS e colaboradores (1987).

·     O ambiente físico, químico e biológico onde decorre o trabalho, ou seja, condições desfavoráveis repercutindo na saúde mental.

·      As necessidades psicológicas fortemente vinculadas à preservação da identidade social.

·      A singularidade individual.

 

A ABORDAGEM DE DEJOURS - A PSICOPATOLOGIA DO TRABALHO.

Do choque entre história individual, com projectos, esperanças e desejos, e uma organização do trabalho que os ignora, resulta um sofrimento, que se traduz em insatisfação, medo, angústia do trabalho, enfim (DEJOURS, 1988).

Explicitando a relação entre o aparelho psíquico e o trabalho, DEJOURS afirma que o bem estar psíquico provém de um livre funcionamento em relação ao conteúdo da tarefa. Assim, se o trabalho é favorável a esse livre funcionamento, existe o equilíbrio; se a ele se opõe, será factor de sofrimento e de doença.

Nesse âmbito é que se insere a psicopatologia do trabalho: o sofrimento está no centro da relação psíquica do homem com o trabalho. Não se trata de eliminar esse sofrimento da situação de trabalho nem tampouco eliminar o trabalho. Dentre outras directrizes, a psicopatologia trata das consequências mentais do trabalho mesmo na ausência de doenças. Especificamente, trata do impacto da organização científica do trabalho sobre a saúde mental do trabalhador. Segundo o autor, psicopatologia do trabalho é a análise dinâmica de processos psíquicos mobilizados pela confrontação do sujeito com a situação de trabalho (DEJOURS, 1986).

 

O autor aponta como principal factor determinante da psicopatologia do trabalho a própria organização do trabalho, geradora de conflito na medida em que opõe o desejo do trabalhador à realidade limitada do trabalho. A destruição desse desejo se dá em função de dois pontos cruciais, o conteúdo das tarefas e as relações humanas.

 

Sob o domínio do modelo taylorista de produção, o trabalhador é submetido a um tipo de trabalho de tarefas fragmentadas, com modo operatório e ritmo preestabelecidos por outra pessoa. É um trabalho repetitivo e sob pressão, no qual não sobra lugar para a actividade fantasiosa. Como consequência, acumula-se a energia psíquica, transformada em fonte de tensão, astenia e, posteriormente, patologia.

“Submetido a excitações vindas do exterior (informações visuais, auditivas, tácteis, etc.) ou do interior (excitações instituais ou pulsionais, inveja, desejo), o trabalhador retém energia. A excitação, quando se acumula, torna-se a origem de uma tensão psíquica, popularmente chamada tensão nervosa. Para liberar esta energia, o trabalhador dispõe de muitas vias de descargas que são, esquematicamente: via psíquica, via motórica e via visceral” (DEJOURS, 1993).

O segundo elemento, as relações humanas, materializa-se na divisão dos homens. As pessoas são divididas hierarquicamente pela organização do trabalho, sendo comandadas e supervisionadas, tendo suas relações definidas e reguladas pelo modelo de organização do trabalho. Nessa abordagem, DEJOURS ( 1986) aponta a necessidade de flexibilizar a organização do trabalho de modo a conceder maior liberdade de operação ao trabalhador, o qual passaria a atender seus desejos, as necessidades do seu corpo e as variações de seu estado de espírito.

OUTRA ABORDAGEM DA RELAÇÃO ENTRE SAÚDE MENTAL E TRABALHO  

Coordenando um grupo interdisciplinar de pesquisa das relações entre saúde mental e trabalho, WANDERLEY CODO aborda a questão sob um outro prisma no Brasil. Segundo ele, tais relações são mais difíceis de detectar do que se poderia supor e, nesse sentido, é um crítico mordaz de DEJOURS, na sua opinião um pesquisador que desistiu de procurar os nexos entre saúde mental e trabalho, substituindo a busca por um obscuro conceito de ideologia defensiva, que não é ideologia, e muito menos capaz de defender alguém de qualquer coisa. (CODO, 1992)

 

Na sua visão, o trabalho e seus efeitos são difíceis de detectar devido à omnipresença do primeiro. Suas definições fundamentais são encobertas pelo modo como o trabalho se organiza na sociedade. Além disso, as relações entre saúde mental e trabalho se manifestam num plano individual estrito, apesar de determinadas pela estrutura social. 

O autor chama a atenção para o papel do trabalho na produção da identidade. Ele determina o tipo de troca que o homem estabelece com o seu meio (CODO, 1992). Assim, o produto do trabalho tem papel importante nas relações entre saúde mental e trabalho.

 

importante nas relações entre saúde mental e trabalho.

Para o autor, uma das poucas coisas que se sabe sobre saúde mental e trabalho é o fato de que a consciência do risco é factor ansiogênico que potência o próprio risco. A tónica da sua abordagem é a ruptura entre trabalho e afecto, exacerbada pela organização científica do trabalho.

A possibilidade da doença no trabalho surge no confronto do trabalho como valor de uso e de troca. Esse carácter fica evidenciado numa pesquisa realizada com bancários, cujos resultados permitiram relacionar estatisticamente a presença de histeria e depressão com a ausência de produto de trabalho em alguns grupos de função.

Cada um na sua vertente, os autores aqui relacionados demonstram a existência de uma intrincada relação entre saúde mental e trabalho. “É quando o trabalho inventa o sofrimento que podemos entender sua lógica. Tarefa árdua [...] tarefa promotora de cidadania, na medida em que transformaria os estudos sobre saúde mental e trabalho em um instrumento de recuperação da dignidade do trabalho” (CODO, 1992).

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CODO, W. Cidadania, trabalho e saúde mental: notas para um debate. Encontro Nacional da ABRAPSO. São Paulo: Psicologia e Cidadania, 1993 (Conferência).

CODO, W., SAMPAIO, J.J.C., HITOMI, A.H., BAUER, M. O “mal estar do trabalho vazio” em bancários. São Paulo: Vozes, 1992.

DEJOURS, C. A loucura do trabalho. 3. ed. São Paulo: Cortez, 1988.

DEJOURS, C. Por um novo conceito de saúde. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional. São Paulo, v. 14, n. 54, Abr./Mai./Jun. 1986.

DEJOURS, C., DESSORS, D., DESRIAUX, F. Por um trabalho, factor de equilíbrio. Revista de Administração de Empresas. São Paulo, v. 33, n. 3, Mai/Jun. 1993.

PAGÈS, C., BONETTI, M., GAULEJAC, V., DESCENDRE, D. O poder das organizações. São Paulo: Atlas, 1987.

SELIGMANN SILVA, E. A inter-relação trabalho—saúde mental: um estudo de caso. Revista de Administração de Empresas. São Paulo, v. 32, n.4, Set./Out. 1992.

José Armando Ansaloni

Publicação: 11 Fevereiro 07 05:24 por xing

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