Como escapar da loucura
Como escapar da loucura
Wanderley Codo
É fato. O trabalho enlouquece. Mas o que fazer para não
enlouquecer com o trabalho? Antes de responder a essa pergunta é preciso
entender por que o trabalho pode levar a problemas de saúde mental. A resposta
é curta: porque o trabalho nos causa muito prazer. A nossa vida é assim, a
sexualidade enlouquece, as relações como pai e mãe enlouquecem. Tudo aquilo que
é portador de muito prazer enlouquece.
Fácil de entender se atentarmos para o fato de que o prazer é um
modo de continuar sendo. O que dá prazer a um animal, inclusive aos humanos,
são as actividades que lhes permitem continuar sendo animais – comer, beber e
fornicar. A loucura é fruto da impossibilidade de continuar sendo, o risco de
ser eliminado.
Trabalho e linguagem são os dois modos que os humanos têm de
continuar sendo humanos, ou seja, de gerar e gerir significados. Significar é
humanecer. Por isso é prazerosa a lida com o verbo e o trabalho. Por isso são
portadores da loucura.
O oposto do prazer é o sofrimento. A loucura é um modo perverso
de se evitar o sofrimento. Assim, o histérico é histérico porque ama e o
objecto de seu amor desaparece, ao invés de viver o luto e desviar sua energia
afectiva para outro objecto, redirecciona a energia afectiva para si mesmo sob
a forma de sofrimento. O exemplo é sucinto, mas basta para lançar luz sobre o
que dizemos. Na busca por continuar sendo (a busca pelo prazer), somos
impedidos e, com isso, sofremos, iludimos o sofrimento com o adoecimento
mental.
O único prazer especificamente humano é significar, e
significamos por meio do verbo e do trabalho. Outros prazeres sentimos, é
claro, mas são os que os animais também sentem; como sexo, comer, beber,
dormir. Impedir o homem de significar é levá-lo ao sofrimento, é aumentar o
risco de doença mental.
Agora, fica claro por que o trabalho é prazeroso. Como portador
do sofrimento, pode enlouquecer. Outra vez um exemplo: ao fazer uma mesa, o
marceneiro preenche de significados o outro, a ele mesmo e ao mundo inteiro,
imprime seu modo de ser ao planeta, se reconhece, é marceneiro porque opera
como marceneiro. O operário de uma marcenaria, encarregado de bater um prego na
madeira perde de vista o significado de seu trabalho, o gesto criativo se
transforma em mero cansaço da repetição, tédio, enfim, sofrimento. Escapar
desse sofrimento pode implicar problemas de saúde mental, como ocorre com a
histeria em professores, a paranóia em digitadores, a depressão entre os
bancários.
A resposta à pergunta desse artigo está embutida na compreensão
que acumulamos sobre o trabalho, sumariada rapidamente. Evitar a loucura no
trabalho é evitar o trabalho que implica sofrimento. Evitar o sofrimento é
recuperar o prazer que o trabalho porta, sua capacidade de significar para o
mundo e para os homens.
Onde quer que o significado se aloje, ali estará uma chance de
prazer, de onde quer que seja expulso, implicará sofrimento.
“Meu trabalho é importante para mim mesmo. Com ele me sinto
útil, com ele minha vida ganha sentido.”
“Meu trabalho é importante para os meus. Com ele, minha família
se reconhece, se exerce.”
“Meu trabalho é importante para a sociedade. Com ele, os homens
e mulheres vivem melhor.”
“Meu trabalho transforma o mundo em que vivemos.”
Todos os significados se tornam possíveis no trabalho, assim
como o são para a linguagem. Por isso, as fontes de prazer são inesgotáveis
quando se trabalha. Por isso também o sofrimento pode assumir tantas formas, a
ponto de espantar o olhar menos atento.
- Esse trabalho é tão fácil, por que você não gosta?
- Por isso mesmo.
Ou então,
- Este trabalho exige tanto esforço, por que você gosta?
- Por isso mesmo.
A vida dos homens sempre foi assim. A diferença é que a
Psicologia do trabalho descobriu, tardiamente é verdade, que o válido para a
vida dos homens também vale para seu trabalho. Até porque trabalhar é o modo de
os homens viverem.
O capitalismo, por meio principalmente do taylor-fordismo,
transformou o trabalho em força de trabalho. A diferença entre coisa e outra é
que a força de trabalho é o trabalho sem o seu significado. O gesto se
transformou em tarefa. A missão de todos nós é a de recuperar o trabalho e
afastar a força de trabalho. Dar sentido ao nosso suor.
O taylor-fordismo já provou que é ineficiente para o
aumento da produtividade e da qualidade, abrindo espaço para outras formas de
organizar o trabalho que permitem a expressão e a participação do trabalhador.
Agora, sabemos também que é insalubre para a saúde mental de quem trabalha. Na
medida em que expulsa do trabalho o que ele tem de humano, impede que cada um
de nós se reconheça. Assim, afasta o homem do humano. Temos todos o direito de
ser.
Wanderley Codo é Coordenador do
Laboratório de Psicologia do Trabalho do Instituto de Psicologia da
Universidade de Brasília (UnB). Tem pós-doutorado na Universidade de Havana
(Cuba) e na London School of Economics (Inglaterra) na área de Psicologia do
Trabalho e Organizacional. É autor dos livros O trabalho enlouquece?, Saúde
mental e trabalho: Leituras e Educação: carinho e trabalho. Todos eles
editados pela Vozes.