Eu tenho um sonho...
Eu tenho um sonho...
Scheilla Regina
Brevidelli
académica de Direito
na USP, servidora da Justiça do Trabalho, psicóloga
"I have a dream"
(Martin Luther King)
"Só o homem é o arquitecto de seu próprio destino"
(William James)
Há os que estudam direito e que têm como objectivo o
sucesso profissional... Há os que estudam direito porque têm um sonho...Sim,
eu tenho um sonho...
E nesse sonho está o Direito e a Justiça do
Trabalho. Essa "justicinha", que simplesmente regula a relação
capital-trabalho, relação esta sobre as quais se assentam tantas outras, tantas
aspirações e que para muitas pessoas é sinónimo de "sobrevivência".
Christophe Dejours in A loucura do trabalho
chama a atenção para o fato de que o trabalho contribui para a formação da
personalidade, através da construção da auto-imagem, mostrando que ele não é
fonte apenas de satisfação patrimonial, mas pode ser fonte de satisfação
simbólica e emocional do trabalhador.
Num momento em que se discute o desmanche de
direitos sociais e principalmente do direito do trabalho, que até hoje tem a
marca da protecção patrimonialista do empregado na relação desigual que este
mantém com o empregador, falar da ampliação da tutela do direito do trabalho
para que ela possa abarcar o aspecto emocional e mental do trabalhador soa a
utopia. Sim, eu tenho um sonho...
Um pronunciamento sobre o Dia do Trabalho dos
Trabalhadores das Comunicações dos Estados Unidos deu ênfase à preocupação
quanto a trabalhos significativos: "...as pessoas com menos de 30 anos de
idade desejam trabalho que tenha significação e ofereça uma chance de
crescimento pessoal..."
A melhoria do trabalho e a humanização do local de
trabalho foram integradas na filosofia de administração de muitas companhias.
Equipes de trabalho semi-autônomo foram formadas. Salários mais altos foram
concedidos com base em testes de eficiência e não de descrição de trabalho.
Livros de ponto substituíram os relógios de ponto, símbolos infernais de
desumanização e de falta de confiança. Linhas de montagem foram divididas em
grupos menores. Muitas empresas estavam fazendo experiências com "horário
flexível", um procedimento que permite aos empregados escolherem seu
horário de trabalho, dentro de certos limites.
Há a necessidade de um novo paradigma, em que o
trabalho seja um veículo para a transformação. Através do trabalho estamos
plenamente engajados na vida. O trabalho pode ser aquilo a que Milton Mayerhoff
chamou "o outro eu apropriado", o que nos exige, o que nos preocupa.
Ao atender à vocação - a chamada, o apelo daquilo que necessitamos fazer -
criamos e descobrimos significado, único para cada um de nós e sempre em
mutação.
A significação pode ser descoberta e expressa em
qualquer actividade humana: limpeza, ensino, jardinagem, carpintaria, negócios,
cuidados com crianças, direcção de táxis. E dentro dessa perspectiva o
trabalhador cria uma nova atitude que modifica a própria experiência do
trabalho quotidiano. O trabalho se torna um ritual, um jogo, uma disciplina,
uma aventura, um aprendizado, até uma arte, à medida que nossa percepção se
modifica. A tensão do tédio e a tensão do desconhecido, as duas causas de
sofrimento relacionadas com o trabalho, são transformadas. Uma qualidade mais
fluente de atenção nos permite a realização de tarefas que antes nos pareciam
repetitivas ou desagradáveis. A monotonia diminui, do mesmo modo que a dor se
aplaca quando abandonamos uma resistência fútil a ela.
Sim, eu tenho um sonho...Um sonho em que os estudos
da psicologia na área do trabalho possam mostrar os caminhos a serem seguidos
na implantação de meios que possam tornar o local de trabalho em fonte de
satisfação simbólica e emocional, diminuindo o sofrimento, a carga de medo e
ansiedade relacionada a algumas tarefas e a falta de "sentido" que
permeia hoje o mundo do trabalho. Um sonho em que o direito busque a tutela de
outros aspectos implicados na relação de trabalho e force a realização desse
"sonho".
Christophe Dejours in A loucura do trabalho
aponta as causas da insatisfação e de desestruturação psíquica do trabalhador.
Há a insatisfação em relação ao conteúdo significativo da tarefa e quanto ao
conteúdo ergonómico desta (as exigências da tarefa, ou a "carga de
trabalho" é o que se denomina conteúdo ergonómico). A organização do
trabalho, concebida por um serviço especializado da empresa, estranho aos
trabalhadores, choca-se frontalmente com a vida mental, e mais precisamente,
com a esfera das aspirações, das motivações e dos desejos. Via de regra, quanto
mais a organização do trabalho é rígida, mais a divisão do trabalho é
acentuada, menor é o conteúdo significativo do trabalho e menores são as
possibilidades de mudá-lo. Correlativamente, o sofrimento aumenta. A
insatisfação proveniente de um conteúdo ergonómico (este entendido como
adaptação homem-máquina) inadaptado à estrutura da personalidade também é fonte
de sofrimento. Os efeitos desta carga e o sofrimento estão no registro mental e
se ocasionam desordens no corpo, não são equivalentes às doenças directamente
infligidas ao organismo pelas condições de trabalho. O conflito não é outro
senão o que opõe o homem à organização do trabalho (na medida em que o conteúdo
ergonómico do trabalho resulta da divisão do trabalho).
O autor analisa ainda o impacto da "ansiedade"
no local de trabalho, agrupando-a sob diferentes itens:
1. Ansiedade relativa à degradação do equilíbrio
psicoafetivo e do funcionamento mental: a primeira resulta da
desestruturação das relações psico-afetivas espontâneas com os colegas de
trabalho, de seu envenenamento pela discriminação e suspeita, ou de sua
implicação forçada nas relações de violência e de agressividade com a
hierarquia. A necessidade de descarregar a agressividade provoca a contaminação
das relações fora da fábrica, e em particular, das relações familiares. O
segundo tipo de ansiedade diz respeito à desorganização do funcionamento
mental: é o sentimento de esclerose mental, de paralisia da imaginação, de
regressão intelectual, de despersonalização, proveniente de um esforço para manter
os comportamentos condicionados.
2. Ansiedade relativa à degradação do organismo:
as más condições de trabalho colocam o corpo em perigo de duas maneiras: risco
de acidente de carácter súbito e de grave amplitude (queimaduras, ferimentos,
morte), doenças profissionais ou de carácter profissional, aumento do índice de
morbidade, doenças psicossomáticas. Nas condições de trabalho é o corpo que
recebe o impacto, enquanto na organização do trabalho o alvo é o funcionamento
mental. A ansiedade é a sequela psíquica do risco que a nocividade das
condições de trabalho impõe ao corpo.
3. Ansiedade gerada pela "disciplina da
fome": apesar do sofrimento mental que não pode mais ser ignorado, os
trabalhadores continuam em seus postos de trabalho expondo seu equilíbrio e seu
funcionamento mental à ameaça contida no trabalho, para enfrentar uma exigência
ainda mais imperiosa: sobreviver. Ansiedade da morte a que alguns autores deram
o nome de "disciplina da fome".
Sim, eu tenho um sonho...Um sonho em que o Direito
do Trabalho desça o seu olhar para esses outros aspectos da relação de trabalho
e possa contribuir para a formação de um mundo do trabalho mais humano,
o que significará um mundo mais humano, tal a força e o significado da
relação de emprego.
Eu sonho com um mundo onde a "prevenção"
seja a palavra de ordem, onde a humanização seja um objectivo em si mesmo e em
que não apenas o aspecto patrimonialista seja o foco de tutela do Direito do
Trabalho, e não apenas a indemnização seja o objecto de acções trabalhistas, e
não apenas a remuneração e seus desdobramentos sejam o conteúdo principal de
uma norma colectiva de trabalho. Eu sonho com um mundo onde o trabalho seja o
espaço para a criatividade, para a superação de desafios, para o
autodesenvolvimento e a criação pelo trabalhador de uma auto-imagem mais
satisfatória. Eu sonho com um mundo onde a cooperação e a sinergia substituam a
mortal competitividade, que envenena todos os relacionamentos, contaminando-os
e despersonalizando-os. Eu sonho com um mundo onde o trabalho tenha
significação e não seja apenas sinónimo de alienação, de desconexão e
desconforto.
E agora até mesmo essa singela tutela
patrimonialista do Direito do Trabalho é alvo do desmanche neoliberal...Estamos
voltando ao tempo da barbárie? A barbárie evoca sempre o desenfreado, a
ultrapassagem de um limite, ou seja, o gozo às custas do outro: a escravidão, o
assassinato, o estupro, a segregação...Não precisamos de mais polícia, mas
talvez apenas de uma nova organização social. Não precisamos de mais Códigos ou
de mais uma Declaração de Direitos do Homem, mas apenas de pessoas que ousem
concretizá-la...Talvez a Magistratura Trabalhista não tenha ainda percebido o
alcance de seu papel e de sua tarefa. Talvez ela não tenha percebido que também
pode e deve acalentar esse sonho, uma vez que seu saber é ao mesmo tempo
um saber técnico e um saber político...Sim, eu tenho um sonho... "Vejo
através dos olhos e não com eles", disse William Blake.
BIBLIOGRAFIA
DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de
psicopatologia do trabalho. Tradução de Ana Isabel Paraguay e Lucia Leal
Ferreira. São Paulo: Cortez-Oboré, 1987.
FERGUSON, Marilyn. A
conspiração aquariana. Tradução de Carlos Evaristo M.Costa. Rio de Janeiro:
Record, 3ª edição.