- Que comece o jogo, Empresa de sucesso
-
Deus não julga Nós também não
Como a diferença entre os diversostipos de assédio e consentimento pode ser muito ténue ou mesmoconsentida vamos fazer um jogo muito simples.
E tem por base a Empresa de sucesso.
Foi emitida uma lista com os nomes dasvitimas e dos predadores, que será distribuída nas localidades dasdiversas figuras, nos mais variados pontos, e das mais variadasformas, desde autarquias, postos de abastecimento, padarias,mercados, nas empresas do distrito, bancos, cafés, lojas, e partidospolíticos, isto porque temos figuras filiadas e que se fazem passarpor bons chefes de família e pessoas de exemplo nas suas terras.
O objectivo deste jogo vais ser qual adesculpa ou razão que subsiste a cada um dos conjugues tanto dospredadores como das “vitimas”.
Como brinde será a comunidade ajulgar-vos
No final do jogo será enviada umaprova a cada conjugue e à comunidade.
Que comece o jogo
PS: havia maridos a fazer jogo duplo
- Empresa de sucesso
-
Característicasde uma actual empresa de sucesso,: assédio sexual e assédio moralem larga escala,no primeiro caso de preferência que os maridos das senhorastrabalhem na mesma, as outras é bem mais fácil no contexto actual,serve a presente crise económica e o baixo índice de formaçãoescolar de pretexto para a manipulação
Naturalmente esteesquema de actuação é traçado a régua e esquadro.
Entreelas reina o ciúme, cientes de serem amadas únicas, as mestras, quesão as mais antigas negam um beijo aos maridos e se o dono mandarmatar, assim fazem.
Ora como o ciúme é coisa de tirarproveito dão cabo do trabalho umas das outras, por outro lado depoisde desmontadas no travesseiro são o ouvido e os olhos deste grupo deproxenetas, os maridos transportam de igual modo informação, até amais banal, às mulheres e assim por diante
Dentro desteesquema estão engenheiros como grupo de pressão, mais a baixosurgem os encarregados a fazerem sacanagem, entre este o grande“homem” o salvador das senhoras, pessoa sem carácter semescrúpulos protegido do que não tem rosto.
Ora dentrodeste esquema senhoras montadas naturalmente estão caladas, osmaridos não sabem de que lado chove ou faz sol, são unidades em quenão se fala de política de futebol, nem do tempo nem se fazsol.
Qualquer palavra que se possa dizer são se sabe quesusceptibilidades se está a ferir, os pertences por mais banais quesejam são esquadrinhados, mexem em tudo, manipulam toda a suaactividade para que possa parecer aos olhos dos seus superioreshierárquicos e colegas de trabalho indivíduo que rouba que mexe quesubtrai informação, inclusive basculham as sacas de comida que osfuncionários transportam para dentro, há casos que já foramrelatados a esferas superiores, traduzindo-se em aumentos de pressãoàs descaradas, suspeita-se que já tenha havido envenenamentos defuncionários, enfim, unidas abandonadas à vigilância das redesinformáticas, aos telefones, às câmaras e a este grupo de guardasprisionais e às grades.
Numa empresa não muito longe de si
- Eu tenho um sonho...
-
Eu tenho um sonho...
Scheilla Regina
Brevidelli
académica de Direito
na USP, servidora da Justiça do Trabalho, psicóloga
"I have a dream"
(Martin Luther King)
"Só o homem é o arquitecto de seu próprio destino"
(William James)
Há os que estudam direito e que têm como objectivo o
sucesso profissional... Há os que estudam direito porque têm um sonho...Sim,
eu tenho um sonho...
E nesse sonho está o Direito e a Justiça do
Trabalho. Essa "justicinha", que simplesmente regula a relação
capital-trabalho, relação esta sobre as quais se assentam tantas outras, tantas
aspirações e que para muitas pessoas é sinónimo de "sobrevivência".
Christophe Dejours in A loucura do trabalho
chama a atenção para o fato de que o trabalho contribui para a formação da
personalidade, através da construção da auto-imagem, mostrando que ele não é
fonte apenas de satisfação patrimonial, mas pode ser fonte de satisfação
simbólica e emocional do trabalhador.
Num momento em que se discute o desmanche de
direitos sociais e principalmente do direito do trabalho, que até hoje tem a
marca da protecção patrimonialista do empregado na relação desigual que este
mantém com o empregador, falar da ampliação da tutela do direito do trabalho
para que ela possa abarcar o aspecto emocional e mental do trabalhador soa a
utopia. Sim, eu tenho um sonho...
Um pronunciamento sobre o Dia do Trabalho dos
Trabalhadores das Comunicações dos Estados Unidos deu ênfase à preocupação
quanto a trabalhos significativos: "...as pessoas com menos de 30 anos de
idade desejam trabalho que tenha significação e ofereça uma chance de
crescimento pessoal..."
A melhoria do trabalho e a humanização do local de
trabalho foram integradas na filosofia de administração de muitas companhias.
Equipes de trabalho semi-autônomo foram formadas. Salários mais altos foram
concedidos com base em testes de eficiência e não de descrição de trabalho.
Livros de ponto substituíram os relógios de ponto, símbolos infernais de
desumanização e de falta de confiança. Linhas de montagem foram divididas em
grupos menores. Muitas empresas estavam fazendo experiências com "horário
flexível", um procedimento que permite aos empregados escolherem seu
horário de trabalho, dentro de certos limites.
Há a necessidade de um novo paradigma, em que o
trabalho seja um veículo para a transformação. Através do trabalho estamos
plenamente engajados na vida. O trabalho pode ser aquilo a que Milton Mayerhoff
chamou "o outro eu apropriado", o que nos exige, o que nos preocupa.
Ao atender à vocação - a chamada, o apelo daquilo que necessitamos fazer -
criamos e descobrimos significado, único para cada um de nós e sempre em
mutação.
A significação pode ser descoberta e expressa em
qualquer actividade humana: limpeza, ensino, jardinagem, carpintaria, negócios,
cuidados com crianças, direcção de táxis. E dentro dessa perspectiva o
trabalhador cria uma nova atitude que modifica a própria experiência do
trabalho quotidiano. O trabalho se torna um ritual, um jogo, uma disciplina,
uma aventura, um aprendizado, até uma arte, à medida que nossa percepção se
modifica. A tensão do tédio e a tensão do desconhecido, as duas causas de
sofrimento relacionadas com o trabalho, são transformadas. Uma qualidade mais
fluente de atenção nos permite a realização de tarefas que antes nos pareciam
repetitivas ou desagradáveis. A monotonia diminui, do mesmo modo que a dor se
aplaca quando abandonamos uma resistência fútil a ela.
Sim, eu tenho um sonho...Um sonho em que os estudos
da psicologia na área do trabalho possam mostrar os caminhos a serem seguidos
na implantação de meios que possam tornar o local de trabalho em fonte de
satisfação simbólica e emocional, diminuindo o sofrimento, a carga de medo e
ansiedade relacionada a algumas tarefas e a falta de "sentido" que
permeia hoje o mundo do trabalho. Um sonho em que o direito busque a tutela de
outros aspectos implicados na relação de trabalho e force a realização desse
"sonho".
Christophe Dejours in A loucura do trabalho
aponta as causas da insatisfação e de desestruturação psíquica do trabalhador.
Há a insatisfação em relação ao conteúdo significativo da tarefa e quanto ao
conteúdo ergonómico desta (as exigências da tarefa, ou a "carga de
trabalho" é o que se denomina conteúdo ergonómico). A organização do
trabalho, concebida por um serviço especializado da empresa, estranho aos
trabalhadores, choca-se frontalmente com a vida mental, e mais precisamente,
com a esfera das aspirações, das motivações e dos desejos. Via de regra, quanto
mais a organização do trabalho é rígida, mais a divisão do trabalho é
acentuada, menor é o conteúdo significativo do trabalho e menores são as
possibilidades de mudá-lo. Correlativamente, o sofrimento aumenta. A
insatisfação proveniente de um conteúdo ergonómico (este entendido como
adaptação homem-máquina) inadaptado à estrutura da personalidade também é fonte
de sofrimento. Os efeitos desta carga e o sofrimento estão no registro mental e
se ocasionam desordens no corpo, não são equivalentes às doenças directamente
infligidas ao organismo pelas condições de trabalho. O conflito não é outro
senão o que opõe o homem à organização do trabalho (na medida em que o conteúdo
ergonómico do trabalho resulta da divisão do trabalho).
O autor analisa ainda o impacto da "ansiedade"
no local de trabalho, agrupando-a sob diferentes itens:
1. Ansiedade relativa à degradação do equilíbrio
psicoafetivo e do funcionamento mental: a primeira resulta da
desestruturação das relações psico-afetivas espontâneas com os colegas de
trabalho, de seu envenenamento pela discriminação e suspeita, ou de sua
implicação forçada nas relações de violência e de agressividade com a
hierarquia. A necessidade de descarregar a agressividade provoca a contaminação
das relações fora da fábrica, e em particular, das relações familiares. O
segundo tipo de ansiedade diz respeito à desorganização do funcionamento
mental: é o sentimento de esclerose mental, de paralisia da imaginação, de
regressão intelectual, de despersonalização, proveniente de um esforço para manter
os comportamentos condicionados.
2. Ansiedade relativa à degradação do organismo:
as más condições de trabalho colocam o corpo em perigo de duas maneiras: risco
de acidente de carácter súbito e de grave amplitude (queimaduras, ferimentos,
morte), doenças profissionais ou de carácter profissional, aumento do índice de
morbidade, doenças psicossomáticas. Nas condições de trabalho é o corpo que
recebe o impacto, enquanto na organização do trabalho o alvo é o funcionamento
mental. A ansiedade é a sequela psíquica do risco que a nocividade das
condições de trabalho impõe ao corpo.
3. Ansiedade gerada pela "disciplina da
fome": apesar do sofrimento mental que não pode mais ser ignorado, os
trabalhadores continuam em seus postos de trabalho expondo seu equilíbrio e seu
funcionamento mental à ameaça contida no trabalho, para enfrentar uma exigência
ainda mais imperiosa: sobreviver. Ansiedade da morte a que alguns autores deram
o nome de "disciplina da fome".
Sim, eu tenho um sonho...Um sonho em que o Direito
do Trabalho desça o seu olhar para esses outros aspectos da relação de trabalho
e possa contribuir para a formação de um mundo do trabalho mais humano,
o que significará um mundo mais humano, tal a força e o significado da
relação de emprego.
Eu sonho com um mundo onde a "prevenção"
seja a palavra de ordem, onde a humanização seja um objectivo em si mesmo e em
que não apenas o aspecto patrimonialista seja o foco de tutela do Direito do
Trabalho, e não apenas a indemnização seja o objecto de acções trabalhistas, e
não apenas a remuneração e seus desdobramentos sejam o conteúdo principal de
uma norma colectiva de trabalho. Eu sonho com um mundo onde o trabalho seja o
espaço para a criatividade, para a superação de desafios, para o
autodesenvolvimento e a criação pelo trabalhador de uma auto-imagem mais
satisfatória. Eu sonho com um mundo onde a cooperação e a sinergia substituam a
mortal competitividade, que envenena todos os relacionamentos, contaminando-os
e despersonalizando-os. Eu sonho com um mundo onde o trabalho tenha
significação e não seja apenas sinónimo de alienação, de desconexão e
desconforto.
E agora até mesmo essa singela tutela
patrimonialista do Direito do Trabalho é alvo do desmanche neoliberal...Estamos
voltando ao tempo da barbárie? A barbárie evoca sempre o desenfreado, a
ultrapassagem de um limite, ou seja, o gozo às custas do outro: a escravidão, o
assassinato, o estupro, a segregação...Não precisamos de mais polícia, mas
talvez apenas de uma nova organização social. Não precisamos de mais Códigos ou
de mais uma Declaração de Direitos do Homem, mas apenas de pessoas que ousem
concretizá-la...Talvez a Magistratura Trabalhista não tenha ainda percebido o
alcance de seu papel e de sua tarefa. Talvez ela não tenha percebido que também
pode e deve acalentar esse sonho, uma vez que seu saber é ao mesmo tempo
um saber técnico e um saber político...Sim, eu tenho um sonho... "Vejo
através dos olhos e não com eles", disse William Blake.
BIBLIOGRAFIA
DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de
psicopatologia do trabalho. Tradução de Ana Isabel Paraguay e Lucia Leal
Ferreira. São Paulo: Cortez-Oboré, 1987.
FERGUSON, Marilyn. A
conspiração aquariana. Tradução de Carlos Evaristo M.Costa. Rio de Janeiro:
Record, 3ª edição.
- Como escapar da loucura
-
Como escapar da loucura
Wanderley Codo
É fato. O trabalho enlouquece. Mas o que fazer para não
enlouquecer com o trabalho? Antes de responder a essa pergunta é preciso
entender por que o trabalho pode levar a problemas de saúde mental. A resposta
é curta: porque o trabalho nos causa muito prazer. A nossa vida é assim, a
sexualidade enlouquece, as relações como pai e mãe enlouquecem. Tudo aquilo que
é portador de muito prazer enlouquece.
Fácil de entender se atentarmos para o fato de que o prazer é um
modo de continuar sendo. O que dá prazer a um animal, inclusive aos humanos,
são as actividades que lhes permitem continuar sendo animais – comer, beber e
fornicar. A loucura é fruto da impossibilidade de continuar sendo, o risco de
ser eliminado.
Trabalho e linguagem são os dois modos que os humanos têm de
continuar sendo humanos, ou seja, de gerar e gerir significados. Significar é
humanecer. Por isso é prazerosa a lida com o verbo e o trabalho. Por isso são
portadores da loucura.
O oposto do prazer é o sofrimento. A loucura é um modo perverso
de se evitar o sofrimento. Assim, o histérico é histérico porque ama e o
objecto de seu amor desaparece, ao invés de viver o luto e desviar sua energia
afectiva para outro objecto, redirecciona a energia afectiva para si mesmo sob
a forma de sofrimento. O exemplo é sucinto, mas basta para lançar luz sobre o
que dizemos. Na busca por continuar sendo (a busca pelo prazer), somos
impedidos e, com isso, sofremos, iludimos o sofrimento com o adoecimento
mental.
O único prazer especificamente humano é significar, e
significamos por meio do verbo e do trabalho. Outros prazeres sentimos, é
claro, mas são os que os animais também sentem; como sexo, comer, beber,
dormir. Impedir o homem de significar é levá-lo ao sofrimento, é aumentar o
risco de doença mental.
Agora, fica claro por que o trabalho é prazeroso. Como portador
do sofrimento, pode enlouquecer. Outra vez um exemplo: ao fazer uma mesa, o
marceneiro preenche de significados o outro, a ele mesmo e ao mundo inteiro,
imprime seu modo de ser ao planeta, se reconhece, é marceneiro porque opera
como marceneiro. O operário de uma marcenaria, encarregado de bater um prego na
madeira perde de vista o significado de seu trabalho, o gesto criativo se
transforma em mero cansaço da repetição, tédio, enfim, sofrimento. Escapar
desse sofrimento pode implicar problemas de saúde mental, como ocorre com a
histeria em professores, a paranóia em digitadores, a depressão entre os
bancários.
A resposta à pergunta desse artigo está embutida na compreensão
que acumulamos sobre o trabalho, sumariada rapidamente. Evitar a loucura no
trabalho é evitar o trabalho que implica sofrimento. Evitar o sofrimento é
recuperar o prazer que o trabalho porta, sua capacidade de significar para o
mundo e para os homens.
Onde quer que o significado se aloje, ali estará uma chance de
prazer, de onde quer que seja expulso, implicará sofrimento.
“Meu trabalho é importante para mim mesmo. Com ele me sinto
útil, com ele minha vida ganha sentido.”
“Meu trabalho é importante para os meus. Com ele, minha família
se reconhece, se exerce.”
“Meu trabalho é importante para a sociedade. Com ele, os homens
e mulheres vivem melhor.”
“Meu trabalho transforma o mundo em que vivemos.”
Todos os significados se tornam possíveis no trabalho, assim
como o são para a linguagem. Por isso, as fontes de prazer são inesgotáveis
quando se trabalha. Por isso também o sofrimento pode assumir tantas formas, a
ponto de espantar o olhar menos atento.
- Esse trabalho é tão fácil, por que você não gosta?
- Por isso mesmo.
Ou então,
- Este trabalho exige tanto esforço, por que você gosta?
- Por isso mesmo.
A vida dos homens sempre foi assim. A diferença é que a
Psicologia do trabalho descobriu, tardiamente é verdade, que o válido para a
vida dos homens também vale para seu trabalho. Até porque trabalhar é o modo de
os homens viverem.
O capitalismo, por meio principalmente do taylor-fordismo,
transformou o trabalho em força de trabalho. A diferença entre coisa e outra é
que a força de trabalho é o trabalho sem o seu significado. O gesto se
transformou em tarefa. A missão de todos nós é a de recuperar o trabalho e
afastar a força de trabalho. Dar sentido ao nosso suor.
O taylor-fordismo já provou que é ineficiente para o
aumento da produtividade e da qualidade, abrindo espaço para outras formas de
organizar o trabalho que permitem a expressão e a participação do trabalhador.
Agora, sabemos também que é insalubre para a saúde mental de quem trabalha. Na
medida em que expulsa do trabalho o que ele tem de humano, impede que cada um
de nós se reconheça. Assim, afasta o homem do humano. Temos todos o direito de
ser.
Wanderley Codo é Coordenador do
Laboratório de Psicologia do Trabalho do Instituto de Psicologia da
Universidade de Brasília (UnB). Tem pós-doutorado na Universidade de Havana
(Cuba) e na London School of Economics (Inglaterra) na área de Psicologia do
Trabalho e Organizacional. É autor dos livros O trabalho enlouquece?, Saúde
mental e trabalho: Leituras e Educação: carinho e trabalho. Todos eles
editados pela Vozes.
- AS RELAÇÕES ENTRE TRABALHO E SAÚDE MENTAL.
-
AS RELAÇÕES ENTRE TRABALHO E
SAÚDE MENTAL.
Na relação do homem
com o trabalho, não somente se "ganha" como também se constrói a
vida, estabelecendo-se um status social que não se restringe ao ambiente
físico do trabalho. Pelo contrário, a actividade profissional é parte
inextricável do universo individual e social de cada um, podendo ser traduzida
tanto como meio de equilíbrio e de desenvolvimento quanto como factor
directamente responsável por danos à saúde.
Nos
estudos sobre as condições de trabalho, tem-se reconhecido cada vez mais a
existência de factores de agressão à saúde relacionados com o trabalho.
Deterioração, desgaste, envelhecimento precoce são implicações das diferentes
relações do homem com o seu trabalho (DEJOURS et Al, 1993) .
Inúmeras têm sido as
ocorrências de agravos à saúde mental relacionadas com o trabalho, cujas causas
básicas repousam nos factores subjectivos e psicossociais. A morbidade
psiquiátrica tem se revelado um importante dado a compor as estatísticas de
auxílio-doença no Brasil, podendo-se atribuir tal fato - pelo menos em parte -
às situações de tensão vivenciadas colectivamente no trabalho, as quais se
traduzem em adoecimentos individualizados (SELIGMANN SILVA, 1992).
Observados
a partir de uma perspectiva epidemiológica, os cruzamentos dos registros de
absenteísmo com as observações clínicas e os registros dos serviços médicos
permitem identificar duas situações distintas:
.: Ocorrência elevada
de crises desencadeadas por situações no interior das empresas e caracterizadas
por episódios clínicos agudos: “crises nervosas”, taquicardia, “distonia
neurovegetativa”, hipertensão arterial e até infartos cardíacos. Tais períodos
de crise são verificáveis justamente em situações de trabalho que exacerbam o
cansaço e a tensão emocional. São, portanto, reacções à ansiedade causada por
determinadas circunstâncias de trabalho.
.:Situações
em que há maior prevalência de distúrbios da esfera psíquica. Dizem respeito a
certos sectores de actividades, profissões ou formas de organização do trabalho
em que os riscos mentais se evidenciam em função de factores de risco que
interagem na situação de trabalho.
É necessário considerar que tais
problemas de morbidade têm carácter cumulativo e atuam tanto no nível
individual quanto em termos de colectivos de trabalho.
A conexão entre a instância
psíquica e os vários âmbitos das esferas sociais é assim sintetizada por
SELIGMANN SILVA (1992):
.: Há uma interacção
dinâmica e contínua entre instância psíquica (individual) e experiência laboral
(colectivo micro-social),
.: As
dinâmicas que se processam articulam vivências individuais que, pela via da intersubjetividade
(grifo da autora), atingem a instância colectiva;
.: O
sofrimento vivenciado pelos trabalhadores devido a essas conexões dá ensejo
para que, no nível colectivo, duas formações tenham lugar: o chamado sistema
colectivo de defesa contra o sofrimento e o sistema de resistência
emancipatória e de compromisso ético.
Esses
dois sistemas colectivos são objecto de estudo de CHRISTOPHE DEJOURS, para quem
a organização do trabalho se encontra sobredeterminada pelas relações sociais
de trabalho. Em decorrência, os fenómenos intrapsíquicos, os intrasubjetivos e
as configurações assumidas no nível “micro” pelos colectivos de trabalho devem
ser pesquisados através de uma abordagem qualitativa, que também considere o
contexto macrossocial, de forma a articular os registros do singular e do
colectivo. Ante essa perspectiva ampla defendida pelo pesquisador, há que se
considerar sobretudo a diversidade de componentes da instância trabalho
e os níveis que ela alcança, do individual ao macrossocial. Em linha gerais,
podem ser apontados alguns dos aspectos envolvidos, os quais vêm sendo
estudados sob várias abordagens teóricas:
· O sistema colectivo de defesas
contra o sofrimento. É a linha de estudos encabeçada por DEJOURS, segundo a
qual os trabalhadores criam defesas colectivas a fim de tornar suportável a
permanência em situações de perigo no trabalho. É o caso, por exemplo, da ridicularização
do perigo verificada em situações de trabalho que põem em risco o trabalhador.
· A natureza e o conteúdo das
tarefas, envolvendo a esfera psicoafetiva, como as que exigem intenso
autocontrole emocional.
· A densidade do trabalho, em
especial a densidade das actividades cognitivas.
·
A estrutura temporal do trabalho, destacando a nocividade do sistema de turnos
alternados no que concerne à saúde psicossocial e também à saúde física.
· O controle, que tanto
incide na subjectividade (a dominação e a negação da autonomia) quanto no nível
colectivo — a cooperação pela “felicidade dissimulada”, tão bem analisada por
PAGÈS e colaboradores (1987).
· O ambiente físico, químico e
biológico onde decorre o trabalho, ou seja, condições desfavoráveis
repercutindo na saúde mental.
· As necessidades
psicológicas fortemente vinculadas à preservação da identidade social.
·
A singularidade individual.
A ABORDAGEM DE DEJOURS - A PSICOPATOLOGIA DO TRABALHO.
Do choque entre história
individual, com projectos, esperanças e desejos, e uma organização do trabalho
que os ignora, resulta um sofrimento, que se traduz em insatisfação,
medo, angústia do trabalho, enfim (DEJOURS, 1988).
Explicitando a relação entre o
aparelho psíquico e o trabalho, DEJOURS afirma que o bem estar psíquico provém
de um livre funcionamento em relação ao conteúdo da tarefa. Assim, se o
trabalho é favorável a esse livre funcionamento, existe o equilíbrio; se a ele
se opõe, será factor de sofrimento e de doença.
Nesse
âmbito é que se insere a psicopatologia do trabalho: o sofrimento está no
centro da relação psíquica do homem com o trabalho. Não se trata de eliminar
esse sofrimento da situação de trabalho nem tampouco eliminar o trabalho.
Dentre outras directrizes, a psicopatologia trata das consequências mentais do
trabalho mesmo na ausência de doenças. Especificamente, trata do impacto da
organização científica do trabalho sobre a saúde mental do trabalhador. Segundo
o autor, psicopatologia do trabalho é a análise dinâmica de processos psíquicos
mobilizados pela confrontação do sujeito com a situação de trabalho (DEJOURS,
1986).
O
autor aponta como principal factor determinante da psicopatologia do trabalho a
própria organização do trabalho, geradora de conflito na medida em que opõe o
desejo do trabalhador à realidade limitada do trabalho. A destruição desse
desejo se dá em função de dois pontos cruciais, o conteúdo das tarefas e as
relações humanas.
Sob
o domínio do modelo taylorista de produção, o trabalhador é submetido a um tipo
de trabalho de tarefas fragmentadas, com modo operatório e ritmo
preestabelecidos por outra pessoa. É um trabalho repetitivo e sob pressão, no
qual não sobra lugar para a actividade fantasiosa. Como consequência,
acumula-se a energia psíquica, transformada em fonte de tensão, astenia e,
posteriormente, patologia.
“Submetido
a excitações vindas do exterior (informações visuais, auditivas, tácteis, etc.)
ou do interior (excitações instituais ou pulsionais, inveja, desejo), o
trabalhador retém energia. A excitação, quando se acumula, torna-se a origem de
uma tensão psíquica, popularmente chamada tensão nervosa. Para liberar esta
energia, o trabalhador dispõe de muitas vias de descargas que são,
esquematicamente: via psíquica, via motórica e via visceral” (DEJOURS, 1993).
O
segundo elemento, as relações humanas, materializa-se na divisão dos homens. As
pessoas são divididas hierarquicamente pela organização do trabalho, sendo
comandadas e supervisionadas, tendo suas relações definidas e reguladas pelo
modelo de organização do trabalho. Nessa abordagem, DEJOURS ( 1986) aponta a
necessidade de flexibilizar a organização do trabalho de modo a conceder maior
liberdade de operação ao trabalhador, o qual passaria a atender seus desejos,
as necessidades do seu corpo e as variações de seu estado de espírito.
OUTRA ABORDAGEM DA RELAÇÃO ENTRE SAÚDE MENTAL E TRABALHO
Coordenando
um grupo interdisciplinar de pesquisa das relações entre saúde mental e
trabalho, WANDERLEY CODO aborda a questão sob um outro prisma no Brasil.
Segundo ele, tais relações são mais difíceis de detectar do que se poderia
supor e, nesse sentido, é um crítico mordaz de DEJOURS, na sua opinião um
pesquisador que desistiu de procurar os nexos entre saúde mental e trabalho,
substituindo a busca por um obscuro conceito de ideologia defensiva, que não é
ideologia, e muito menos capaz de defender alguém de qualquer coisa. (CODO,
1992)
Na
sua visão, o trabalho e seus efeitos são difíceis de detectar devido à
omnipresença do primeiro. Suas definições fundamentais são encobertas pelo modo
como o trabalho se organiza na sociedade. Além disso, as relações entre saúde
mental e trabalho se manifestam num plano individual estrito, apesar de
determinadas pela estrutura social.
O
autor chama a atenção para o papel do trabalho na produção da identidade. Ele
determina o tipo de troca que o homem estabelece com o seu meio (CODO, 1992).
Assim, o produto do trabalho tem papel importante nas relações entre saúde
mental e trabalho.
importante
nas relações entre saúde mental e trabalho.
Para
o autor, uma das poucas coisas que se sabe sobre saúde mental e trabalho é o
fato de que a consciência do risco é factor ansiogênico que potência o próprio
risco. A tónica da sua abordagem é a ruptura entre trabalho e afecto,
exacerbada pela organização científica do trabalho.
A
possibilidade da doença no trabalho surge no confronto do trabalho como valor
de uso e de troca. Esse carácter fica evidenciado numa pesquisa realizada com
bancários, cujos resultados permitiram relacionar estatisticamente a presença
de histeria e depressão com a ausência de produto de trabalho em alguns grupos
de função.
Cada
um na sua vertente, os autores aqui relacionados demonstram a existência de uma
intrincada relação entre saúde mental e trabalho. “É quando o trabalho inventa
o sofrimento que podemos entender sua lógica. Tarefa árdua [...] tarefa
promotora de cidadania, na medida em que transformaria os estudos sobre saúde
mental e trabalho em um instrumento de recuperação da dignidade do trabalho”
(CODO, 1992).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CODO, W. Cidadania, trabalho e
saúde mental: notas para um debate. Encontro Nacional da ABRAPSO. São
Paulo: Psicologia e Cidadania, 1993 (Conferência).
CODO, W., SAMPAIO, J.J.C.,
HITOMI, A.H., BAUER, M. O “mal estar do trabalho vazio” em bancários.
São Paulo: Vozes, 1992.
DEJOURS, C. A loucura do
trabalho. 3. ed. São Paulo: Cortez, 1988.
DEJOURS, C. Por um novo conceito
de saúde. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional. São Paulo, v. 14, n.
54, Abr./Mai./Jun. 1986.
DEJOURS, C., DESSORS, D.,
DESRIAUX, F. Por um trabalho, factor de equilíbrio. Revista de Administração
de Empresas. São Paulo, v. 33, n. 3, Mai/Jun. 1993.
PAGÈS, C., BONETTI, M., GAULEJAC,
V., DESCENDRE, D. O poder das organizações. São Paulo: Atlas, 1987.
SELIGMANN SILVA, E. A inter-relação trabalho—saúde mental:
um estudo de caso. Revista de Administração de Empresas. São Paulo, v.
32, n.4, Set./Out. 1992.
José
Armando Ansaloni
- Blogues a visitar
-
J
http://www.filhosdeumdeusmenor.blogspot.com/
http://sol.sapo.pt/blogs/ConscienciaIndependente/default.aspx
Peste Emocional
http://www.psicologia.com.pt/artigos/textos/A0329.pdf
Irei acrescentando.
- Conforto religioso
-
Já há muito tempo percebemos que neste país a
liberdade de expressão tinha sido metida na gaveta, bem como o projecto da autoria do deputado Francisco Torres, do
Partido Socialista, sobre o terrorismo psicológico, mobbing, ou ainda assédio
moral no trabalho, como preferirem. Sempre esperei que algum ilustre, da
Mossad, CIA, Judite, SIS e outras presenças democráticas, escrevesse por baixo
do post que transcrevi, oohh pah, essa treta não interessa ao país onde
predomina a mão-de-obra barata, onde as empresas políticas estão sobre o
domínio da economia paralela, onde os gajos que mandam à me*da os jornalistas
em frente das câmaras de televisão não levam processos disciplinares, pressinto
até que nem tenham assinado estes últimos dois, mandaram os piões da corporação,
não é verdade? E se lhe mandarem fazer um exame psicológico / psiquiátrico?
O ps /
governo ao aprovarem a nova lei em que a entidade patronal / gestores /
directores, poderem vasculhar a intimidade dum trabalhador através de
inspecções médicas, num médico que poderá ser de sua confiança, a propósito das
baixas, vem colocar o trabalhador numa posição fantástica.
Senão vejamos; não confiam nas inspecções feitas
pelos médicos da Segurança Social, mas irão confiar nas inspecções feitas por
médicos ou clínicas indicadas pelas empresas. Por outro lado um trabalhador
quando recorre a uma baixa médica, e a entidade patronal entende que seja
fraudulenta, é porque já existe uma deterioração das relações laborais, logo,
todo o nosso intimo poderá ser exposto, doenças, ou qualquer outro problema do
foro estritamente pessoal. Ou seja, o seu inimigo passa a dispor do resto das
armas que lhe faltavam para dar cabo dum operário, Dr., Eng. Electricista,
mecânico, informático etc. menos dum político é claro.
É claro que tudo isto se passa num país onde os
empresários sempre acharam que era mais fácil manobrar um ps do que um
presidente da republica.
Pois vamos todos nas próximas eleições votar
talvez.
Tenho um colega que compara o actual estado em
que se encontra o país, ao mesmo período em que esteve mergulhado os EUA no
tempo da lei seca. Acrescenta ainda que, é preciso tê-los no devido sítio para
enfrentar os lóbis, corporações e máfias instaladas.
Que ao que se diz, daria para construir duas
OTAS e dois TGVs, pois claro, mas a maioria de baixos salários suportará a
falta de tomates de outros.
Vem isto a propósito de não ter alinhado no
negócio claro, com contornos escuros, que estava montado na empresa onde
trabalhei, e terem sido os fornecedores desta, a darem instruções aos
directores de como despacharem-me administrativamente.
Acontece que este mundo não é desprovido de
ironia, e sou eu que lhes preparo actualmente as refeições, da qual se lambuzam
todos os dias ao almoço, não sei se aguarde pela época natalícia, ou por
qualquer outro evento em que estejam todos juntos. Curiosamente, os mesmos
fornecedores que lhes proporcionam uma vida regalada, estão agora a desembolsar
verbas que estão a ser aplicadas para se saber exactamente o que estão a fazer
neste momento. Isto que não saia daqui, que ninguém nos ouve, mas as
autoridades foram informadas em seu devido tempo, curiosamente, o que pressupõe
que estou também à vontade para levar a cabo dentro dos mesmos moldes o mesmo
processo.
Ah!!...
Sim gravações, tudo o que queiram...
Ou seja, estamos a lidar com coisas, que ao cão
ou ao gato ainda lhe dão um chuto, mas com pessoas fazem muito pior, resumindo
há um nome que lhes assenta que nem uma luva, filhos da p*ta.
Admiro e tenho o maior respeito por todos quantos
têm o (meu) Blogue como um dos seus favoritos, bem como todo aquele(a)s que têm
tido a paciência de o ir lendo. Já lá vão muitos anos, a bem dizer desde que
pagava 40 a 50 contos à PT por mês, de ligação à Internet, e desde o tempo em
que travei algumas lutas nesta mesma rede em favor da causa Timorense contra a
Indonésia, na verdade daqui a 50, 75, 100 anos saberão os nossos netos se todo
esse esforço, não foi um erro histórico, como sucedeu com o 1º de Dezembro de
1640.
Jesus Cristo declarou: “Nem só de pão vive o
homem, mas de cada palavra que brotar da boca de Deus” (Mat. 4:4). O Homem
nunca viveu só de pão; mesmo quando este é escasso, alimenta-se com esperanças
tardias que o sustentam e lhe dão a imagem de si próprio, vida e realidade.
Segundo a óptica neoliberal, a imagem não é apenas existencial e material, mas
largamente sexual.
Gerard Mauley Hopkins, no seu poema “ És na
verdade justo, Senhor”, considera a graça de Deus essencial para a vida e
proclama: “ Ó, Senhor da vida, envia chuva às minhas raízes!”
Como contraste de Hopkins, muitos homens de
Oakland dominados pelo medo e em estado de choque, após o terramoto de São
Francisco de 18 de Abril de 1906, procuraram conforto frenético no sexo, em
casas de alterne, “fazendo filas à porta destas, como na bilheteira de um
qualquer cinema que exibisse uma produção de Spielberg.” Comentou Walter J.
Peterson, chefe da polícia. Outros dirigiram-se para as igrejas a fim de orar. Um conforto religioso.
Eugene Ionesco, invocou “a liberdade absoluta da
imaginação” na escrita.
O que está escrito, qualquer semelhança com a realidade, é pura
ficção.
- Forclusão do feminino na organização do trabalho: um assédio de gênero
-
Forclusão do feminino na organização
do trabalho: um assédio de gênero
Female foreclusion in work organization: gender harassment
Marie-Grenier Pezé, dra.
Hôpital Max Forestier. 303, Av. De la République, 92200 Nanterre França. E-mail:
mariepeze@free.fr
RESUMO
Neste
artigo é proposta uma discussão para ajudar a compreender a temível
eficácia do assédio moral no trabalho. Para tanto é discutida a questão
da construção "identitária", que depende do reconhecimento que se
dirige sobre o fazer, a identidade é inseparável dos gestos técnicos
efetuados pelo sujeito. Esta também é uma questão de gênero de
pertencimento a um sexo. Em psicodinâmica do trabalho, uma atenção
particular é dada à construção dos coletivos de trabalho que soldam um
grupo em torno de regras da profissão. A cooperação necessita um
ajustamento dos procedimentos singulares de execução da tarefa, mas
também uma confrontação de posições éticas de cada um, sobre a base de
uma confiança partilhada e, portanto, de uma cooperação possível.
Entretanto o assédio moral se tornou uma verdadeira estratégia de
gerenciamento, baseada na radicalização das novas formas de organização
do trabalho que favorecem a virilidade defensiva, que parecem ter
transformado profundamente as relações nos grupos de trabalho e
radicalizado os sistemas de defesa construídos para resistir.
Palavras-chave: Psicodinâmica do trabalho, organização do trabalho,
assédio moral, gênero, construção "identitária"
ABSTRACT
This
paper proposes a discussion to help understand the fierce efficacy of
moral harassment in the workplace. For this, the issue discussed is
that of identitary construction, which depends on the acknowledgement
directed on doing, since identity is inseparable of the technical
gestures conducted by the subject. This is also a gender issue, of
belonging to a sex. In work psychodynamics, a special attention is
given to the construction of work collectives which weld a team to
professional rules. Cooperation needs an adjustment of particular
procedures for carrying out a task, but it is also a confrontation of
each individual's ethical positions, based on shared trust and,
therefore, of possible cooperation. Nevertheless, moral harassment
became a real management strategy, based on the radicalization of the
new forms of work organization which favor defensive virility, which
seem to have deeply transformed the relationships within the work teams
and radicalized the defense systems built to resist it.
Key words: Workplace psychodynamics, work organization, moral harassment,
gender, identitary construction.
É habitualmente a construção de um corpo erótico no
entrelaçado das identificações que apaixona o psicanalista. Mas limitar seu olhar terapêutico
à construção do corpo erótico através dos acasos da história infantil enquanto
que o trabalho (sua regulamentação, seu custo, seus efeitos psíquicos e orgânicos) penetra
fortemente o material clínico é manter uma postura ilusória.
Uma
psicanalista durante uma consulta «Sofrimento e trabalho» pode esperar
ver o assédio moral evocado na prática clínica. A presença na mídia
desta nova denominação deu uma forte força às queixas das vítimas, a
criação de uma rede especializada de escuta e de cuidados, lhes deu
doravante uma legitimidade social. Do que se trata essa legitimidade
psicopatológica? É necessário lembrar-se que o assédio moral
(Hirigoyen, 1998) é um procedimento técnico de destruição e não uma
síndrome clínica.
Nós privilegiaremos aqui a definição de Michèle Drida :
"O assédio é um sofrimento infligido no local de trabalho de maneira durável, repetitiva e/ou sistemática
por uma ou várias pessoas a uma outra pessoa, por todos os meios relativos às relações,
à organização, aos conteúdos ou às condições de trabalho, mudando a
sua finalidade, manifestando assim uma intenção de prejudicar ou mesmo de destruir." (DRIDA, et al.
1999).
Como
compreender a temível eficácia do assédio moral sem compreender o jogo
identitário ligado à situação de trabalho? O que confere ao trabalho
sua dimensão propriamente dramática é sua ligação com a construção
"identitária". Quando a escolha da profissão está de acordo às
necessidades psicossomáticas de um sujeito, quando as modalidades do
seu exercício permitem o livre jogo de funcionamento mental e da
construção pulsional individual, o trabalho ocupa um lugar central na
manutenção de uma economia psicossomática durável (DAVEZIES 1993).
Porque o reconhecimento do trabalho se dirige sobre o fazer, a
identidade é inseparável dos gestos técnicos efetuados pelo sujeito.
Atos de expressão da postura psíquica e social do sujeito dirigido ao
próximo (DEJOURS, DESSORS, MOLINIER, 1994), eles se ancoram na nossa
infância pela cópia, pois a identificação aos modelos amados e
admirados, na tradição das profissões transmitidas pelo aprendizado,
entrelaçando as ligações estreitas entre atividade do corpo e o
pertencimento a um coletivo de trabalho. Enfim, eles traduzem nossa
identidade de gênero, nosso pertencimento a um sexo.
O ASSÉDIO
MORAL, UMA ESTRATÉGIA DE GERENCIAMENTO SEXUADO
"Enquanto você não parar de escalar, os degraus não cessarão de
subir ao mesmo tempo que seus passos avançam" Kafka, O processo
Os
gestos de uma profissão são a fonte fundamental de estabilização da
economia psicossomática, oferecendo à excitação pulsional uma saída
socialmente positiva ao valor da sublimação. Tornar sua execução
aleatória, paradoxal, humilhante, dia após dia, tem efeitos traumáticos
sobre a psique. A subordinação própria à definição jurídica de contrato
de trabalho prende o assalariado numa toxicidade contextual
experimental. Com efeito, o aparelho psíquico só pode se afrontar a uma
situação excessiva fonte de excitação graças a duas grandes vias de
expressão: o pensamento, que permite trabalhar o "excesso" intrapsíquico,
o movimento,
que descarrega o corpo do excesso de tensão. Numa situação de assédio,
a repetição das humilhações aos novatos, os vexames e as ***ções
paradoxais têm valor de destruição psíquica e suspendem todo trabalho
do pensamento. A impossibilidade de demitir-se sob pena de perder seus
direitos sociais barra a descarga sensório-motora. O impasse criado
nestas duas grandes vias de escoamento das excitações traumáticas
convoca fatalmente a ruína depressiva e a via somática mais ou menos a
longo termo. Nós veremos mais adiante como, tocando os gestos da
profissão, nós ferimos fatalmente as pessoas na sua identidade.
A
situação do assédio, quando interrompida a tempo, pode manter um
parêntese obscuro na vida do sujeito. Quando ocorre por um tempo
excessivo, as seqüelas psíquicas (neurose traumática, ruína
ansio-depressiva, acessos delirantes), acometimentos orgânicos
(amenorréias, câncer de seio, de ovário entre as mulheres) podem ser
definitivos e constituem um problema de sobrevivência individual e de
saúde pública maior.
Em
psicodinâmica do trabalho, uma atenção particular é dada à construção
dos coletivos de trabalho que soldam um grupo em torno de regras da
profissão. A cooperação necessita um ajustamento dos procedimentos
singulares de execução da tarefa, mas também uma confrontação de
posições éticas de cada um, sobre a base de uma confiança partilhada e,
portanto, de uma cooperação possível. Uma análise aprofundada da
situação de impasse descrita pelos pacientes assediados coloca em
evidência o isolamento do sujeito. Isolamento de fato num posto sem
equipe, isolamento subjetivo num posto onde o coletivo de trabalho não
existe verdadeiramente, onde falta cooperação, e mais ainda a
solidariedade. Suportar o trabalho deixa o sujeito sozinho com seus
mecanismos de defesa individuais, privando-o do recurso das estratégias
coletivas de defesa. Estas últimas, destinadas a fazer frente ao
sofrimento no trabalho, são específicas a cada local profissional,
produzidas, estabilizadas e construídas coletivamente. Se o sujeito
isolado não pode beneficiar-se delas, ele pode ser atingido, ou servir,
pelo seu estado, de bode expiatório dos outros.
A
precariedade tende a neutralizar a mobilização coletiva, a produzir o
silêncio e o "cada um por si". O medo de perder seu emprego induz as
condutas de dominação e de submissão. É necessário constatar que a
manipulação deliberada da ameaça, da chantagem, do assédio tem sido
utilizada como um método de gerenciamento para desestabilizar, incitar
o erro e permitir o afastamento por uma falta ou incitar a demissão.
Alguns se queixam do assédio que alguns meses antes eles viram ser
exercido sobre outro sem intervir ou, muito pior, para guardar seu
lugar e contribuindo para que isso acontecesse.
Nestas situações, o sofrimento ético resulta, de um lado, da
pulverização da auto-estima, e ainda da culpabilização às avessas do outro sem que
ele tenha sido defendido.
Para
conjurar o risco de descompensação psíquica, a maior parte dos sujeitos
constrói defesas específicas. A vergonha é superada pela interiorização
dos valores propostos, pela banalização do mal no seu exercício dos
atos civis comuns (DEJOURS 1999). O cinismo no mundo do trabalho é
então considerado equivalente à coragem, à força de caráter. A
tolerância à injustiça e ao sofrimento infligido ao outro é construída
em valores viris, em ideologias defensivas da profissão. Um homem, um
verdadeiro homem, deve para ter sucesso chegar a ignorar o medo e o
sofrimento, o seu e o do outro. A virilidade social se mede pela
capacidade de exercer sobre os outros violências anunciadas como
necessárias, num sistema de construção social do masculino que desperta
o medo de ser castrado, submetido, passivo, afastado, privado de seus
atributos. Quanto mais as condições de trabalho se endurecem, mais as
defesas se enrijecem, chegando a haver uma exacerbação das atitudes
viris.
O machismo induzido pela organização do trabalho não fica no vestiário quando se
deixa o local de trabalho. Para mantê-lo a postos é necessário, por vezes, colocar um impasse sobre
sua vida afetiva. A organização do trabalho, quando ela exige defesas adaptativas, pode afetar a organização
mental do sujeito até mesmo na sua construção erótica, nas suas relações afetivas.
A falta de reciprocidade nas relações intersubjetivas entre os homens e as mulheres no trabalho é
levada para a vida no lar. O "fora do trabalho" traz também marcas de deformações de comportamentos
sexuais no trabalho. "(...) pelas suas observações, suas condutas, as mulheres fragilizam a negação
do medo colocando em perigo sua base principal :o prestígio viril" (MOLINIER, 1997).
DELPHES OU « A CONFUSÃO
ORGANIZADA » :
O primeiro
encontro com o sujeito assediado é carregado de olhares múltiplos: encontro com o sujeito, sua estrutura
psíquica, sua organização do trabalho, sua forma de descompensação. Estes níveis
de escuta intrincados exigem concentração, formação especifica sobre a organização
psíquica individual e a organização do trabalho. Esta investigação psicodinâmica
é um momento privilegiado, podendo conduzir o sujeito à compreensão dos mecanismos específicos
utilizados contra ele, ao descolamento da história do trabalho e da história singular, à verbalização
e à perlaboração dos afetos reprimidos. O paciente passa por uma provação porque a entrevista
é longa, o retorno a uma cronologia de acontecimentos laborais, a catarses dolorosas.
Delphes
cai sobre ela mesma, hesitante, conta sua historia sem cronologia, sem
lógica ao ponto que eu mesma me perco pouco a pouco. Um grande
sofrimento surdo do corpo e a palavra aleatória desta mulher, mas eu
não chego a nada com o material que ela traz. Eu tento algumas questões
para inserir alguns pontos de sinalização precisos sobre este
itinerário profissional. Eu custo a acreditar que o funcionamento
intelectual e imaginário desta jovem mulher engenheira poderia estar
tão alterado. A descompensação ansioso-depressiva é grave. Há alguma
coisa a mais, da ordem do verdadeiro e do falso, do real e do irreal,
do justo e do injusto que ela não sabe mais situar. Ela está no limite
da perda da realidade, desorganizada psiquicamente. O tempo passa e o
sentimento de visco psíquico persiste ao ponto que eu decido terminar a
entrevista que durou duas horas. Duas horas!
Nos dias
que se seguem, chega uma primeira carta, depois outras. Começa então uma correspondência unilateral,
uma vez que eu não respondo. Eu recebo páginas numeradas que se acumulam. Eu me torno a depositária
de um espaço psíquico onde se anuncia uma reconstrução identitária. Da massa disforme
inicial emergem pouco a pouco os contornos de uma vida de mulher. Delphes se extrai, diz ela, da "confusão
organizada"
onde ela estava perdida. Observando o fio condutor das cartas desde o
início, o desaparecimento das faltas de acordo, de gênero, a aparição
de espaço entre palavras onde elas estavam coladas, o retorno de uma
cronologia dos acontecimentos. No fundo, Delphes descreve o trabalho
com a minúcia de uma verdadeira profissional e a impecável
representação de mulher que lhe é imposta. Esta correspondência de
vários meses permitirá a elaboração multidisciplinar2
de um atestado argumentando o assédio de gênero e suas conseqüências psicopatológicas, apoiando
o médico do trabalho na sua diligência de colocar restrições à paciente "todas as tarefas
na empresa que podem trazer perigo imediato" (artigo R 241-51-1 do código do trabalho francês).
Contratada
numa grande empresa com um diploma universitário técnico em engenharia
elétrica e informática, a paciente descreve um percurso profissional
satisfatório no seio da empresa antes de 1990. Ela é autônoma na gestão
da sua tarefa, sua hierarquia direta confia nela. Ela gosta muito de
aprender. No contrato, seu chefe de serviço lhe precisou, entretanto,
que como era uma mulher, e portanto uma mãe em potencial, ela não teria
o mesmo salário que os homens.
Desde
1990, as ameaças de afastamento foram freqüentes. A organização do
trabalho se radicaliza. De "nós trabalhamos para a pátria-mãe" passaram
a "nos iremos trabalhar como os japoneses". O ambiente de trabalho foi
ficando mais duro. As horas de trabalho aumentaram, ela precisava
freqüentemente se mudar. Ela era, entretanto, a única que possuía um
antigo contrato tratado diretamente. Cedo ela deve gerir dois tipos de
contrato de trabalho ao mesmo tempo. A necessidade de adaptação ao
trabalho é constante. Em 1983, ela trabalha à mão, sobre papel vegetal,
com lápis HB, caneta Rotring®; em 1999, ela trabalha diretamente com o computador, olhar sobre a tela, com o mouse.
Cada contrato demanda uma reflexão, sobre evolução, a utilização e a proteção
do material vendido. Os tempos de realização só diminuem. Trabalhar rápido com as pessoas que
nem sempre tem a competência necessária se torna uma ilusão.
Ela nunca teve a escolha da tarefa que deveria realizar. O trabalho era aquele que
os homens não haviam escolhido. Delphes deve conceber um sistema automático em seis meses. O sistema a
ser realizado é aquele que ninguém quis fazer, previam, conforme lhe disseram, que seriam necessárias
no máximo, 600 linhas de cálculo. Ela fez uma avaliação e totalizou de fato 1.400 linhas
de cálculo. Isto significa encomendar o material para dois sistemas e não para um só, 12 meses de
trabalho. Ela coloca em questão a prescrição da hierarquia, sua tarefa de trabalho parece sempre
mais importante que a dos homens porque ela não esconde as dificuldades reais. Ela tem que se virar.
RADICALIZAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO
DO TRABALHO E A VIRILIDADE DEFENSIVA
Delphes
assume há muito tempo as funções de um cargo superior, mas com um salário inferior, ela
precisou esperar cerca de seis anos para receber a promoção. Ela não tem o diploma universitário
de engenheira plena e enquanto mulher não tinha apoio da hierarquia. Os outros que não tem o mesmo cargo
à sua volta lhe dizem "é porque você dorme com o chefe que você passou para este cargo!".
A partir da promoção, ela
precisa se afirmar, ter um perfil de autoridade. "Na empresa, eles consideram o estresse como um estimulante. O estresse
é então vivamente estimulado para que cada executivo o provoque afim de obter melhores resultados."
Os executivos masculinos lhe transmitem esta filosofia que ela deve doravante aplicar: "Você está lá
para incitá-lo. Quando nós estamos na casta superior, é para obedecer". Seu chefe direto a
incita a práticas gerenciais: "Nós iremos dar alguém para você treinar diretamente. Você
tem a proteção da hierarquia". Se afirmar em cima de qualquer um consiste em "fazer pressão" sobre
alguém que ocupa um nível hierárquico inferior, lhe dar metas irrealizáveis, sem meios e
com pouco tempo para realizá-las e lhe dizer que é uma competição. Fazer também a pressão
quando as pessoas entram em férias. Afirmar sua autoridade sobre os outros passa por este tipo de relações
"viris" enquanto que "meu conceito de autoridade enquanto mulher passa pela relação",
afirma a paciente, "pela cooperação, por considerar o outro e suas competências profissionais".
A
nova organização do trabalho parece ter transformado profundamente as
relações nos grupos de trabalho e radicalizado os sistemas de defesa
construídos para resistir. Os homens encontram certamente as mesmas
dificuldades que Delphes em termos de constrangimento de tempo, de
trabalho feito sem os meios adequados. No entanto, eles parecem
suportar "esta confusão organizada" pela interiorização massiva dos
novos valores da empresa e a adesão a uma ideologia defensiva da
profissão baseada sobre o cinismo. Sabemos que "são as
ideologias defensivas da profissão que produzem a expressão especifica
da virilidade no trabalho, no inicio essencialmente voltadas à defesa
contra o sofrimento, se mostraram num segundo tempo utilizáveis para
aumentar a produtividade." (DEJOURS 1988). Podemos então fazer
a hipótese que a oscilação da estratégia defensiva em ideologia, passe por um programa de ação
coletiva específica. Além disso, uma técnica de interrogatório pesado sobre o assalariado é
introduzida como método específico de gerenciamento. Praticada a dois, ela responde aos métodos de
desestabilização do interrogatório policial: nível verbal elevado e ameaças, chuva
de questões sem possibilidade de serem respondidas, clima de acusação sistemática, falsas saídas,
duração prolongada da entrevista, porta deixada aberta para todos ouvirem. Isso é feito para se
obter o rebaixamento emocional do assalariado e de todos aqueles que escutaram.
Estas
técnicas pesadas são valorizadas pelos homens. O exercício autorizado
da agressividade é um sistema de governo dos homens que solda o
coletivo de trabalho em torno de uma radicalização defensiva. "A defesa transformada em um fim em si, a luta contra o sofrimento se transforma
em alienação, impedindo todas as possibilidades de expressão individual, em proveito de uma indiferenciação
dos membros do coletivo" (MOLINIER 1997). O perigo é projetado fora do grupo sobre um bode expiatório,
no ataque exterior da diferença: "o deficiente", "o negro", "a mulher". Sendo a única mulher na
equipe, o assédio de Delphes se torna inexoravelmente sexista.
A REPRESÃO DE SI
Pede-se a Delphes que se ocupe dos clientes estrangeiros que têm reconhecidamente
posições machistas diante das mulheres. Sua percepção do trabalho é fina : "Trata-se
de contratos feitos pelo pessoal de venda, é traduzi-los em trabalho real, para os técnicos onde a técnica
evolui sem parar, para satisfazer os clientes de raízes e de expressões socioculturais diferentes". É
então a ela que são confiadas as mediações difíceis porque ela se desdobra nas suas
qualidades relacionais de antecipação, de mediação, de empatia. Em resumo, suas qualidades
"femininas" inerentes à condição de mulher. Um dos chefes lhe afirma sarcasticamente que ela foi
escolhida para colocá-la em situações delicadas com os homens que vêm de países onde
as mulheres são maltratadas. De fato, os clientes indianos, paquistaneses, indonésios, egípcios,
chineses se dizem todos honrados de trabalhar com uma mulher ocidental. Os homens estrangeiros em situação
de aprendizado se preocupam, sobretudo em não decepcioná-la. Desde o início, as competências
de formadora que ela utiliza são invisíveis porque são ligadas à "natureza feminina" e não
originadas de seu trabalho e de suas competências pessoais.
A ideologia defensiva da profissão enaltece diante das mulheres uma posição de
poder e de conhecimento. "(...) o desprezo das mulheres, o machismo, encontram assim uma potente alavanca na contribuição
que traz à negação da vulnerabilidade dos homens"
(MOLINIER 1997). A mulher é por natureza inferior, psicologicamente e
intelectualmente. Esta afirmação é confirmada por afirmações picantes,
que Delphes escuta dia após dia: "Somente uma mulher perguntaria estas
coisas!", "Se isso acontece, é por culpa da mulher", "para uma mulher
você é muito bem paga !", "Corte seus cabelos, é como se fazia com as
há sistematicamente problemas...", "De todas as maneiras, não é
necessário procurar, tem somente uma mulher na parada...". Ela está
esgotada, não pesa mais do que 45 kg. Uma tecnóloga em plena atividade,
a menos adaptada, uma demanda incessante para assumir horas extras são
ainda fatores agravantes do seu esgotamento. Não é mais informada das
reuniões: reunião de lançamento, reunião sobre o desenvolvimento dos
negócios, reunião com os mecânicos. Contrariamente aos outros chefes,
ela não tem um computador exclusivo, ela trabalha no de qualquer outro
colega. Ela é colocada como invisível, excluída pelo boicote
subterrâneo presente.
A solidão fica maior sobre os planos intelectual e intersubjetivo. O mecanismo de defesa que ela desenvolve
para resistir é a repressão.
Ao contrário do recalque que permite, num processo inconsciente, não
considerar nossos desejos e os conflitos que eles suscitam em nós, a
repressão é um trabalho consciente e constante do ego, um esforço
voluntário e deliberado para deixar de lado as representações
conflituosas e os afetos correspondentes. A repressão educativa é um
exemplo perfeito: pelo gesto, palavra, olhar, trata-se de pesar sobre
as expressões motoras e verbais de uma criança, de indagar sua
espontaneidade e seus ímpetos pulsionais. Ainda mais longe, de pesar
sobre o pensamento e as fantasias desenvolvendo então as limitações
funcionais do ego (PARAT, 1991). Delphes tenta se fazer pequenina, se
apagar. A única mulher num coletivo de homens, ela não pode partilhar
sua feminilidade. Ela só usa calças, ela suprime as bijuterias, seu
cabelo é neutro. Os bloqueios à formação, a falta de estabilidade dos
cargos propostos, a desqualificação constante de seu trabalho a impedem
de encontrar uma saída que valorize seu funcionamento pessoal.
Em
paralelo, as regras da empresa estipulam que não se pratique nenhuma
discriminação em relação aos empregados em razão da sua raça, sua
religião, suas opiniões políticas ou de seu sexo, que todos se engajem
e tratem os outros com dignidade, respeitando plenamente a vida privada
dos colegas.
Pela
falta de referencias para pensar o que vem do exterior, do campo
social, Delphes acredita que a causa de seu sofrimento seja
intrapsíquica e se responsabiliza, portanto. Ela começa uma
psicoterapia e encontra um espaço para pensar suas dificuldades.
Passado um certo tempo, ela encontra um esquema explicativo. Eles, os
homens, têm uma lógica que ela não compreende. Ela fica então
enfraquecida, não confiável, insuficiente, impotente. Por esta posição
feminina defeituosa, confrontando a hipótese de um masoquismo
inconsciente, ela se convence da legitimidade do poder dos homens. Esta
aceitação da interiorização de uma posição enfraquecida tem efeitos
positivos em termos de benefícios secundários pois ela autoriza um
"deixa disso". Ela decide pedir tempo parcial porque a sobrecarga
crônica de trabalho deixou marcas na sua vida privada. Seus dois filhos
têm dificuldades. Ela faz também um pedido de utilização de bônus,
previsto no contrato. Ela é convocada pelo seu diretor de recursos
humanos que lhe assinala que ela é a primeira a reclamar seus bônus,
mesmo que isto esteja previsto no contrato, que isto não deveria ser
sabido, que ele "não tem que gerenciar ainda
mais os dias para recuperação dos bônus destas damas".
A não convergência na prática social dos homens e das mulheres sobre o
tempo fora do trabalho fica caricatural diante do pedido de tempo
parcial e de utilização dos bônus. O pedido é incompreensível para seu
chefe, que lhe faz doravante críticas cotidianas.
A partir desta
data, seu trabalho é desqualificado. Ela faz os trabalhos que ninguém quer fazer. A descompensação
está presente sob a forma do esgotamento profissional, mas combatida sem trégua para manter o trabalho
e não desabar. O estado geral se agrava. Os sintomas físicos começam sempre pelas vertigens: "Tudo
gira em torno de mim, eu me torno transparente, eu não escuto mais nada
de fora, eu não sinto mais minhas pernas e a vontade de chorar está lá.
Eu vejo grandes buracos negros diante de mim. Eu tenho a forte sensação
de estar em perigo, eu não tenho mais forças, mais vontade de comer e
às vezes tenho idéias suicidas".
Quando
voltou de férias, em setembro, ela tinha seu novo contrato, mas ela não
aparecia mais no organograma. O chefe não era um executivo e lhe
exprime além disso seu incômodo diante dela. Os membros da equipe se
dirigem, no entanto, a ela quando surge alguma dificuldade. O mau
funcionamento do coletivo de homens deve ser suportado pelas mulheres. "30 homens diante
de uma mulher deve ser uma situação muito tranqüilizadora para escapar do conflito" diz Delphes,
que deve gerir psiquicamente esta contradição: suportar as imagens de vaginas de mulheres peladas em destaque
na tela de descanso dos computadores de seus colegas e permanecer como mediadora compreensiva.
Ela é sem trégua o centro das atenções
diante da equipe. O chefe vem lhe falar se encostando nela e lhe dizendo a 25 cm de sua boca. "Este
homem que se encosta quando fala, é o horror tanto que cheira mal. Isto
ocorre diversas vezes, quanto mais eu me afasto mais ele se aproxima de
novo. Ele cheira mal, ele é grosseiro, ele não escuta. Eu lhe digo que
não sou surda, que desejo mais distância entre nós." Seu chefe de serviço, a quem ela se queixa das telas
pornográficas e do gestual fora de lugar do chefe direto, lhe responde: "Isto é sempre assim e eu não
posso mudar nada".
Ela
se concentra sobre a tarefa que lhe é prescrita. Ela começa a avaliar o
volume de trabalho, o cronograma de tarefas, o programa de computador
necessário, os colegas que podem ajudá-la. O colega ocupado de estudos
se recusa a lhe comunicar as informações. A ela é imposto um novo prazo
muito curto. O planejamento e a gestão deveriam ser assumidos pelo
chefe direto. Nada foi feito. Uma vez mais, lhe é confiada uma tarefa
que ela não pode executar, lhe é fixado um objetivo impossível de
atingir. O assédio é manifesto: desqualificação do cargo, sobrecarga de
trabalho, ***ções paradoxais, fracassos pelos objetivos
irrealizáveis. As conseqüências da alteração de sua relação com o real
do trabalho são maiores sobre seu equilíbrio psicossomático. No dia
seguinte, as dificuldades graves fazem seu médico decidir afastá-la por
tempo prolongado.
FORCLUSÃO DO FEMININO E ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO:
Vários meses se passaram. Novamente ela vem me ver porque eu devo lhe dar
um certificado de apoio à ação do médico do trabalho atestando sua incapacidade devido ao
perigo imediato. Ela diz que se sente melhor desde que está em licença médica, que seus transtornos
desapareceram, que seu corpo se recuperou: "até minha menstruação voltou!". Eu lhe pergunto:
"Você não tinha mais menstruação?".– Sim. "Desde quando?". Ela fica perturbada,
precisa refletir longamente para lembrar o começo da amenorréia, suas interrogações para
sua ginecologista que lhe repetia "isto pode voltar" . Ela encontra a data no seu prontuário médico:
1989. Nós nos remetemos ao período da radicalização na organização do trabalho,
a acentuação das ideologias defensivas viris tinham começado com a designação de um
bode expiatório, sobre o ataque sistemático ao feminino.
Para
ter uma chance de encontrar as condições propicias ao reconhecimento de
suas qualidades profissionais e à realização de si no trabalho, Delphes
deveria compor com a economia erótica de seus colegas homens. Muitas
mulheres fracassam nesta luta que as dilacera interiormente entre sua
identidade de mulher e sua identidade no campo social. O problema é
quando isto faz perder sua feminilidade. A descompensação depressiva e
somática de Delphes resulta deste conflito. Ela recusou endossar o
arsenal machista, não demonstrou sua capacidade de trazer uma
contribuição entusiasta ao funcionamento da estratégia viril e se viu
excluída. O desaparecimento da sua menstruação assinala o assédio de
gênero ao nível somático, pontuando a função erótica reprimida. À
virilidade anexada pelo vocabulário agressivo e sumoso, o gestual
invasivo, os comportamentos agressivos, as telas pornô que solicitam a
economia erótica masculina nas suas pulsões parciais, Delphes parece
responder pela neutralização de sua identidade sexuada até no nível
somático.
Na perspectiva psicossomática, a descompensação testemunha geralmente a fragilidades
das possibilidades de representação, do transbordamento das capacidades de ligação da psique,
de uma situação de impasse para o sujeito. "A somatização é um processo pelo qual
o conflito que não pode encontrar saída mental vai desencadear no corpo desordens endócrino-metabólicas,
ponto de partida de uma doença orgânica" (DEJOURS 1993).
Sabemos que as rela&c