SOL

jerusalem

 

HISTÓRIA DE JERUSALÉM


Jerusalém, al-Quds al-Sharif (a nobre cidade santa), tem uma longa e rica
história acentuada por seu significado religioso, simbólico e estratégico.
Ela permanece como testemunha da vida e das culturas dos numerosos povos que
ali reinaram. A longa historia, sua importância central e o imaginário
espiritual da cidade deram origem a uma vasta literatura sobre o passado de
Jerusalém. E graça à emoção que a cidade suscita, poucos autores foram
capazes de resistir a colorir seus trabalhos com análises seletivas visando
a mostrar que grupos de pessoas tem mais direito sobre a cidade. o resultado
é que agora se pode achar diversas fontes de apoio a qualquer argumento, e
que há pouco consenso acerca de longos períodos da história da cidade. Na
verdade, há, provavelmente, poucos assuntos que tenham gerado tanta pesquisa
e análise mutuamente contraditórias. Portanto, uma revisão geral da história
de Jerusalém não deveria se deter sobre detalhes, mas ao contrário, tentaria
detectar as linhas gerais que se combinam para formar o legado de Jerusalém.
A diversidade e santidade da cidade, bem como seu potencial como um centro
de convergência de diversas civilizações e intelectuais, são a grandeza de
Jerusalém. É este legado que nós, que lidamos com Jerusalém presentemente,
devemos lutar para proteger.

A terra, o seu povo e a sua história

Há mais de 5000 anos, depois de um período de seca assolou a Península
Arábica, os cananeus, tribos dos árabes semitas, vieram se estabelecer nos
territórios a leste do Mar Mediterrâneo que formam, hoje, a Síria, o Líbano,
a Jordânia e a Palestina. Os Jebusitas, um subgrupo cananeu, fundaram
Jebus - Jerusalém- no lugar onde ele está localizada hoje e edificaram o
primeiro muro ao seu redor, dotado de 30 torres e sete portões.
Aproximadamente 2000 anos mais tarde, os filisteus, vindos de Creta,
chegaram na terra de Canaã. Misturaram-se com as tribos cananéias e viveram
na área sudoeste da moderna Palestina, sobre a costa do Mar Mediterrâneo na
área que agora se estende na Faixa de Gaza até Ashdod e Ashkelon. Os
cananeus deram aos territórios que eles habitaram o nome bíblico de "A Terra
de Canaã", enquanto os filisteus deram-lhe o nome de Filistina ou
'Palestina'.

Os cananeus descobriram que estavam numa localização estratégica e cercada
por poderosos impérios originários do Egito a sudoeste, através do Mar
Mediterrâneo a oeste, e Mesapotâmia e Ásia a nordeste. Mais de um milênio
antes do nascimento de Cristo, egípcios, assírios, babilônicos, persas,
mongóis, gregos e romanos cresceram ao redor da terra dos cananeus e
filisteus e a governaram por variados períodos de tempo. A posição
geográfica da área significava que ela servia tanto como uma ponte entre os
vários impérios regionais, como uma arena para lutas e conflitos entre eles.
Em conseqüência, os cananeus nunca puderam estabelecer um estado forte e
unificado, e suas organizações políticas tomaram a forma de cidades
independentes dotadas de governos ligados por relações federativas. Entre as
cidades costeiras mais proeminentes dos filisteus, cananeus e fenícios que
habitaram a área da atual Palestina estavam Beirute (Bairtuyus), Sidon,
Tiro, Acre, Ashkelon e Gaza. As cidades cananéias do interior incluíam
Jericó, Nablus (Shikim) e Jerusalém (Jebus). A religião dessas primeiras
civilizações da Palestina era centrada na natureza: o céu era o Deus Pai e a
terra era a Mãe Terra. Esses povos semitas de Canaã formaram a base do
tronco do qual descendem os palestinos de hoje.

Em termos de geografia, demografia, sociedade, economia e vida cultural,
Jerusalém tem sido o centro da Palestina e o grande ponto de encontro de
importantes corredores leste-oeste, norte-sul. De fato, desde os tempos das
civilizações mais primitivas da Palestina, Jerusalém tem sido a parte mais
importante e inseparável da Palestina. Assim, quem quer que controle
Jerusalém fica numa posição de dominação sobre a Palestina. Nela localiza-se
a raiz da turbulenta e conflituosa história da cidade de Jerusalém.

Por volta do século XVIII a.C., Abraão veio de Ur, no sul da Mesopotâmia,
para a terra de Canaã. Ele se estabeleceu nas cercanias do Vale do Jordão.
Visto que nem o velho e nem o Novo Testamento não haviam sido revelados
durante sua vida, Abraão não era nem judeu nem cristão, mas um crente na
unicidade de Deus. Ele é descrito no Gênese como tendo adorado "o mais alto
Deus". O Corão menciona que ele era um 'muçulmano', não na acepção moderna
de alguém que segue as leis reveladas no Corão, mas sim no sentido de Ter
entregue "sua submissão à vontade de Deus". Assim, cristãos, muçulmanos e
judeus ainda rogam por ele em todas as suas preces, como acreditam que Deus
lhes exortou a fazerem. Agar, a concubina de Abraão, lhe gerou seu filho
Ismael, de quem os atuais muçulmanos traçam sua descendência; entrementes,
sua mulher Sara gerou-lhe o filho Isaac, do qual os atuais judeus traçam sua
linhagem. Abraão se mudou para um lugar perto de Hebron (al-Khalil), onde
viveu pregando o monoteísmo. Quando morreu, Ismael e Isaac sepultaram-no na
mesma cova onde sua mulher Sara foi sepultada. Seu filho Isaac gerou Jacó
(Israel), que viveu na região de Harran (Aram).

Por volta de 1300 a.C., os doze filhos de Jacó (Israel) partiram para o
Egito. Eles se integraram aos egípcios e José, o mais jovem dos filhos de
Jacó, casou com a filha do sumo sacerdote. Originalmente um pequeno grupo de
pessoas, eles se multiplicara, e ganharam força durante várias centenas de
anos no Egito, tornando-se os israelitas. Foi no Egito que Moisés, 'o
fundador do judaísmo e o mais eminente legislador e também profeta para as
três religiões reveladas, nasceu e estudou filosofia egípcia, tornando-se
letrado em todas as ciências dos egípcios. Moisés, juntamente com seu povo
(B'nei Israel) deixaram o Egito por volta do século XIII a.C.. vagaram
durante 40 anos no Sinai, e durante esse tempo ele recebeu a lei divina
judaica no monte Sinai (Tur).

Após a morte de Moisés, Josué assumiu a liderança dos israelitas e os
conduziu para o oeste pelo rio Jordão até Canaã. A primeira cidade cananéia
que Josué conquistou foi Jericó, destruindo-a juntamente com seus
habitantes. Depois, ele assumiu o controle de Yashuu'(Bayt Ele), Likhish, e
Hebron, embora os filisteus tenham bloqueado o avanço do povo de Moisés rumo
à costa, na área entre Gaza e Jafa, enquanto os cananeus impediram-nos de
conquistar Jerusalém. Quando chegaram a Canaã, foram influenciados pelos
cananeus e imitaram seus ritos religiosos, especialmente na apresentação de
ofertas sacrificiais ao Deus Baal.

Nos 150 anos seguintes, os israelitas, filisteus e cananeus controlaram,
alternadamente, porções da área da moderna Palestina, com os cananeus
(jabusitas) controlando Jerusalém. Ma nenhum grupo foi capaz de consolidar o
controle sobre toda a área. Houve numerosas lutas entre grupos, sendo que
cada um mantinha sua própria cultura e sua própria independência.

Por volta de 1000 a.C., o rei dos israelitas, Davi, pôde subjugar os
pequenos estados de Edom, Moab e Amon. Durante sete anos ele fez de Hebron
sua capital, mas, depois transferiu o centro do poder para Jerusalém pelos
últimos 35 anos de seu reinado. Depois dele, poder passou para o seu filho
Salomão, que é famosos por ter erguido o lugar de adoração conhecido como o
Templo de Salomão. Para os judeus, esse templo tornou-se o centro da vida
religiosa e o símbolo básico de sua unidade. Tornou-se ainda um ponto de
peregrinação emocional para o povo judeu.

Com a morte de Salomão, seu reino foi dividido em dois: o Reino de Israel,
ao norte, composto por dez tribos, com Samaria (Sabastia) como sua capital,
e o Reino da Judéia, ao sul, composto por duas tribos, com Jerusalém como
sua capital. Lutas crônicas entre os dois estados e batalhas colocando-os
contra os cananeus e os filisteus, caracterizaram esse período da história
do Oriente Próximo.

Por volta de 720 a.C. os assírios, sob orei Sargão, destruíram o reino
israelita ao norte. Em 600 a.C. os babilônios, sob o comando de
Nabucodonozor, conquistaram o reino israelita sudeste, destruindo o templo
de Salomão em aproximadamente 586 a.C.. em ambos os casos, a maioria da
população foi levada para a Assíria e a Babilônia, na Mesopotâmia, como
escrava. Quanto a Jerusalém, tornou-se colônia babilônica. Por volta de 838
a.C., Ciro, rei dos persas, foi capaz de conquistar o império babilônico
(Mesopotâmia), prosseguiu em suas conquistas até que ocupou a Síria e depois
a Palestina, incluindo Jerusalém, permitiu que os escravos de Nabucodonozor
retornassem à Palestina, e o Segundo Templo foi concluído em 515 a.C.

Quando o império grego floresceu (eles ainda governaram Jerusalém durante
sete anos) a Palestina caiu sob o domínio do Egito (322-200 a.C.) e depois
por um certo período sob o governo dos selêucidas da Síria de 200 a 142
a.C.. Nesse ano, o rei Antióquio IV, que tinha danificado o Templo de
Salomão forçou os judeus a renunciarem ao judaísmo e a abraçarem o paganismo
grego. Por volta de 63 a.C., depois que os romanos subjugaram os seldjúcidas
na Síria, o general romano Pompeu assumiu o controle sobre Jerusalém. Com a
ajuda dos romanos, Herodes se tornou rei da Judéia no ano 40 a.C. seu
reinado durou até sua morte no ano 4 A.D. Durante esse tempo, o Templo de
Salomão foi reconstruído em Jerusalém e houve a perseguição, o processo de
crucificação de Jesus Cristo, depois do que, sobreveio a propagação da fé
cristã.

Na era de Tito, cerca de 70 A.D., os romanos infligiram aos judeus uma
derrota devastadora. Tomaram Jerusalém e queimaram o templo judeu de uma vez
por todas. Sob Adriano, várias décadas depois, os remanescentes finais da
população judaica foram subjugados e expulsos da Palestina. Os romanos
ergueram uma nova cidade sobre as ruínas de Jerusalém, a qual eles dominaram
de Aelia Capitolina, com referência ao imperador Aelius Adrianus. Cerca de
395 A.D., Jerusalém tornou-se uma cidade bizantina e cristã. Mas embora a
Palestina e seus habitantes se tornassem uma parte do império bizantino
política e religiosamente, a vida e a cultura dos cananeus locais
permaneceram voltadas para Jerusalém.

Após um breve período de controle pela Pérsia, no começo do século VII A.D.
a Palestina e o resto da Síria saíram do jugo dos romanos e caíram na esfera
do império árabe-islâmico. Jerusalém tornou-se a primeira direção das preces
dos muçulmanos (qibla) - 'o primeiro dos dois qiblas'- e a Palestina 'os
recintos que Deus abençoou'.

Em 638 A.D., o segundo califa, Omar ibn al-Khattab, chegou a Jerusalém. É
importante notar que pelo, aproximadamente, 1300 anos desde a chegada da
civilização árabe-muçulmana à Palestina, até o século em curso, Jerusalém
permaneceu árabe, do ponto de vista da língua, da cultura e da demografia.

Omar acreditava que Alá ordenara respeito à santidade a cidade de Jerusalém
e o respeito por Ahl al-Kitab (O povo do livro). De acordo com o islã, a
liberdade de culto a Ahl al-Kitab em Jerusalém é uma dádiva de Deus e, por
isso, não pode ser subtraída por mãos humanas. Assim, Omar não tomou a
cidade pela força, mas pelo contrário, instituiu a Convenção de Omar, um
acordo que determinava o controle muçulmano sobre a cidade mas reconhecia o
direito inalienável à liberdade de expressão para judeus e cristãos em
Jerusalém. Omar confiou as duas famílias árabes muçulmanas em Jerusalém as
chaves da Igreja do Santo Sepulcro. Ele agiu assim a fim de mandar uma
mensagem aos muçulmanos de que a igreja era um templo sagrado que não
deveria ser danificado, desrespeitado ou violado de nenhum modo, e como uma
resolução para rixas entre várias seitas cristãs sobre quem deveria
controlar a igreja. Das famílias árabes residentes na cidade, algumas se
converteram ao islã imediatamente, enquanto outras mantém até hoje sua fé
cristã. Entre essas famílias árabes cristãs e muçulmanas da velha Jerusalém
estão os Khalidis, os Alamis, os Nuseibehs, os Judahs, os Nassars e os
Haddads.

A lei muçulmana vigorou em Jerusalém e na Palestina desde o século VII A.D.
até o começo do século XX, excetuando o período das Cruzadas. Os cruzados
capturaram a cidade em 1099 A.D., viram-na libertada pelos aiúbidas sob
Saladino em 1187 A.D., e depois recapturaram-na em 1229 A.D. Cerca de 15
anos mais tarde, os muçulmanos outra vez ali restabeleceram seu governo, e a
cidade não saiu mais do seu controle até a ocupação britânica na I Guerra
Mundial, em 1917.

As dinastias islâmicas - ao omíadas, abássidas, os fatimidas os seldjúcidas,
os aiúbidas, os mamelucos, os otomanos e os hashimitas - respeitaram o
"status quo ante" instituído na Convenção de Omar ibn al-Khattab. Todos eles
participaram da reconstrução de Jerusalém, preservando a santidade de sua
herança e desenvolvendo seu legado islâmico e árabe. Essas dinastias se
esforçaram para reconstruir as mesquitas da Abóbada da Rocha e de al-Aqsa,
referenciadas no primeiro verso da Sura 17 do Qur'na. Finalmente, os
governantes árabes estavam ansiosos para dar a Jerusalém um status especial;
o primeiro califa omíada, Muaawiyah uniu sua identidade pessoal com
Jerusalém, denominando-se o califa de Bait al-Maqdis. O califa Abd al-Malik
ergueu, em 691, a magnífica abóbada (Qubbat al-Sakhra) sobre a rocha santa
de onde Maomé ascendeu para falar com Alá e onde Abraão quase sacrificou
Ismael. Também ergueu a Mesquita de al-Aqsa na parte sudeste da área de
al-Haram, al-Sharif, para substituir a construção em madeira da velha
mesquita. Estas duas última mesquitas foram restauradas e embelezadas pelos
governantes árabes subsequentes, mais recentemente pelo rei Fahd, da Arábia
Saudita, e o rei Hussein, da Jordânia.

 

Por Mahdi Abdul Hadi, professor de história e ciências políticas e autor de vários estudos sobre a Palestina. Vive em Jerusalém e fundou o Fórum do Pensamento Árabe em 1977. Antes, foi Secretário Geral do Conselho para Educação Superior na Cisjordânia. Actualmente, é presidente da Sociedade Acadêmica Palestina para o Estudo dos Negócios Estrangeiros.

1878

Source: Before Their Diaspora, Institute for Palestine Studies, 1984.

muro 

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hadiMahdi Abdul Hadi (b. Nablus, 1944) studied law at Damascus University in Syria becoming a lawyer on graduation.

In the 1970s Abdul Hadi and Yousef Nasser founded Al-Fajr newspaper to promote debate about the Palestinian issue. In 1977 he founded the Arab Thought Forum, a Palestinian think-tank that inspired and developed the National Guidance Committee. In the same year Abdul Hadi worked with Bir Zeit University to set up the first Palestinian public relations office. He also served as the elected Secretary General of the Council for Higher Education in the West Bank.

Abdul Hadi obtained his PhD from the Department of Peace Studies in the School of Social and International Studies at the University of Bradford in 1984, doing his dissertation on Palestinian-Jordanian relations and subsequently studied at the Harvard School of International Affairs where he was a fellow for one year. Following these studies he accepted the post of special advisor to the Ministry of Occupied Land Affairs in Amman, Jordan.

In 1987 Abdul Hadi founded the Palestinian Academic Society for the Study of International Affairs (PASSIA) to provide a forum for the "expression and analysis of a plurality of local and foreign perspectives".

Abdul Hadi has published numerous articles, monographs, and essays and has edited several publications, including, most recently, 100 Years of Palestinian History, A 20th Century Chronology (2001).

http://www.passia.org/

 

crime

 

A vida pregressa de Ariel Sharon

Sharon simplesmente decidiu aproveitar uma oportunidade “de ouro”, quando os olhos do mundo inteiro estavam fixos em Nova York e em Washington, para fazer “reinar a ordem” em Jenine: 13 mortos e cerca de 200 feridos, alguns em estado grave

Amnon Kapeliouk

Tanques e helicópteros de combate participaram da catastrófica operação: uma selvageria de 220 horas que aterrorizou os 45 mil habitantes da cidade

1 

Oito horas após os atentados terroristas de 11 de setembro, nos Estados Unidos, o primeiro-ministro israelita, general Ariel Sharon, mandava seus soldados e seus tanques invadir Jenine, uma cidade palestina autónoma que fica no norte da Cisjordânia, para fazer “reinar a ordem”. Nenhum acontecimento justificava tal expedição, que violava uma soberania palestina já muito enfraquecida pelas sucessivas incursões israelitas na zona A (autónoma). Sharon simplesmente decidiu aproveitar essa oportunidade “de ouro”, quando os olhos do mundo inteiro estavam fixos em Nova York e em Washington, para “surpreender os terroristas”.

Durante nove dias, o exército israelita fez o que quis em Jenine. Treze pessoas foram mortas e cerca de 200 ficaram feridas - dentre as quais, algumas dezenas de modo grave - nessa operação. Os tiros danificaram quatrocentos edifícios e destruíram várias dezenas. Uma das ruas dá a impressão de ter sido literalmente bombardeada. Tanques e helicópteros de combate Apache participaram dessa catastrófica operação: uma selvageria de 220 horas que aterrorizou os 45 mil habitantes da cidade.

O mesmo Sharon de sempre

Quando de sua eleição como chefe de governo, havia quem esperasse ver um “novo Sharon”, mais moderado, menos agressivo. Bobagem: era o Sharon de sempre

2 

O general Sharon ignora a resistência à ocupação e à repressão: conduz uma “guerra contra o terrorismo”. Por isso põe em prática as execuções sumárias (mais de cinquenta em um ano de Intifada>), a destruição de casas e dos campos, a derrubada de dezenas de milhares de árvores, principalmente oliveiras, e o confisco das terras palestinianas. Destruições de um lado, construções do outro: as das colónias israelitas criadas nos territórios ocupados. O bloqueio das cidades e das aldeias palestinianas provoca um desemprego sem precedentes, que atinge 50% da mão-de-obra. Numerosas mulheres palestinianas tiveram de dar à luz no chão, perto de barreiras israelitas cujos soldados se mostraram inflexíveis - dois bebés morreram ao nascer.

Agindo assim, Sharon continua, sem interrupção, uma vida inteiramente dedicada ao combate aos árabes. Das incursões além-fronteiras na década de 50, à frente da unidade militar 101 – de sinistra reputação – à sua política actual como primeiro-ministro, seu método não mudou: resume-se ao uso da força e da destruição e tem por base o desprezo pela vida de seus adversários árabes. Quando de sua eleição como chefe de governo, em fevereiro de 2000, havia quem esperasse ver um “novo Sharon”, mais moderado, menos agressivo. Desejo ingénuo: à frente do país estava o mesmo Sharon que se conhecia desde as operações de represália de há quase cinquenta anos.

Uma “competência” exorbitante

Uma de seus primeiros feitos foi em Qibya, na Cisjordânia, em outubro de 1953: com 600 quilos de explosivos, explodiu 45 casas com os moradores dentro

3 

Uma das primeiras dessas operações ocorreu na cidadezinha palestina de Qibya, na Cisjordânia, em outubro de 1953. Em represália a um ataque sangrento realizado por um grupo de palestinos infiltrados em Israel, o Estado-Maior exigira-lhe que explodisse algumas casas do vilarejo, afugentando os moradores. O jovem “Arik” Sharon preferiu outro plano: seus soldados levaram 600 quilos de explosivos e explodiram 45 casas com os moradores dentro. Sessenta e nove pessoas, a metade formada por mulheres e crianças, morreram sob os escombros. O número de feridos chegou a várias dezenas.

Não foi, de modo algum, um caso isolado: as operações conduzidas por Sharon por detrás das linhas do armistício com os países árabes terminavam, em geral, com um número muito alto de perdas do lado do adversário - muito mais do que o Estado-Maior ou o governo lhe haviam ordenado. Em fevereiro de 1955, o ataque que dirigiu contra um campo militar egípcio, em Gaza, provocou a morte de trinta e oito soldados egípcios, quase todos caídos numa emboscada armada por soldados de Sharon. Foi depois dessa afronta que o presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, decidiu concluir uma importante transacção de armas com o bloco soviético. Em dezembro do mesmo ano, um ataque contra as posições sírias, bem perto do lago de Tiberíades, resultou na morte de 56 soldados sírios. O primeiro-ministro à época, David Ben Gurion, um célebre “falcão”, ficou preocupado com os resultados “bons demais” do jovem e ardente oficial. O coronel Moshe Dayan explica-lhe: “O placar de Arik conta-se por dezenas de mortos. Ele nunca terminou uma operação com menos de várias dezenas de mortos nas fileiras do inimigo1.”

Destruição e devastação

Em 1955, o primeiro-ministro, David Ben Gurion, um célebre “falcão”, ficou preocupado com os resultados “bons demais” do jovem e ardente oficial

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No início da década de 1970, o general Sharon, comandante do sector sul do país, dirige a luta contra os fedayin na faixa de Gaza, ocupada por Israel desde 1967. Prepara uma lista de mais de cem palestinos “procurados” e os “liquida” sumariamente, um após outro. Na mesma época, expulsa manu militari, de modo cruel e sem ordem superior, milhares de beduínos da região de Rafah, ao sul da faixa de Gaza; suas casas foram arrasadas, seus poços tapados. Aliás, em Israel, alastrou-se uma onda de protestos contra essa “política imoral” que priva dos direitos elementares uma população sob ocupação.

No final de abril de 1982, em conformidade com o tratado de paz egípcio-israelita, termina a evacuação do Sinai. O último ato é escrito por Sharon, num papel à Nero (mas sem música…): a destruição completa da cidade de Yamit, construída durante a ocupação israelita da península. Decidindo (sozinho) que o Egipto não merecia possuir essa bela cidade, o ministro da Defesa ordena sua destruição. Alguns meses mais tarde, a guerra do Líbano (desencadeada em junho de 1982) permitiria compreender melhor o fio vermelho que une a destruição de Qibya à de Yamit e à devastação provocada pelo mesmo Sharon na capital libanesa - cidade onde se encontravam, logicamente, os quartéis-generais dos fedayin, mas também centenas de milhares de cidadãos, homens, mulheres, crianças que nada tinham a ver com esse conflito.

Até Reagan protestou

A invasão do Líbano e o cerco de Beirute (1982), com bombardeios diários à capital, custaram a vida de mais de 15 mil civis, libaneses e palestinos

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“A guerra do Líbano”, escrevem os jornalistas israelitas Zeev Schif (Haaretz) e Ehud Yaari (da televisão israelita), “nasceu no espírito tumultuado de um certo homem, resoluto e sem limites, que arrastou toda uma nação na busca vã de objectivos em parte imaginários; era uma guerra fundada em ilusões, seu percurso semeado de tramóias e seu fim inevitável estava cheio de decepções […]. Usando uma linguagem incisiva, seria possível afirmar que, durante a preparação dessa guerra e durante seus primeiros meses, aconteceu em Israel uma espécie de golpe de Estado de um tipo pouco comum […]. Ao invés de se apoderar de instituições que são o centro das decisões de Estado ou de dissolvê-las – como fazem os golpistas comuns – Sharon elaborou uma fórmula que lhe permitiu apoderar-se do processo de tomada de decisões. Privou as instituições democráticas de seu poder de controle e de supervisão e enfraqueceu os entraves que fazem parte do sistema do poder2.”

A invasão do Líbano e o cerco de Beirute (junho-agosto de 1982) custaram a vida de mais de 15 mil civis, libaneses e palestinos. Todos os dias, os aviões atacavam a capital. No início de agosto, os bombardeios intensificaram-se a tal ponto que o presidente Ronald Reagan protestou junto a Menahem Begin contra o que classificou como “actos inadmissíveis”. O primeiro-ministro israelita tomou, então, uma iniciativa sem precedentes: retirou de seu ministro da Defesa o poder de mandar a força aérea bombardear Beirute.

Responsabilizado pelo massacre

Em setembro de 1982, foi a vez dos campos de refugiados de Sabra e Chatila: mais de mil mortos palestinos, em sua maioria mulheres, crianças e velhos

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Em meados de setembro de 1982, duas semanas após a partida dos combatentes da Organização de Libertação da Palestina (OLP) da capital libanesa, Sharon e seus soldados ocupam-na, violando suas próprias promessas. Vinte e quatro horas mais tarde, os falangistas - uma milícia maronita de extrema-direita, aliada do Estado hebreu - entram, diante dos olhos e com a ajuda do exército israelita, bem como com a bênção de Sharon, nos campos palestinos de Sabra e de Chatila, ao sul da cidade. Os assassinos começam, então, a massacrar sistematicamente a população. Quanto aos soldados do general Sharon, estavam ao redor dos dois campos. Do QG israelita se avistava o cenário do massacre, um dos mais horríveis dos anais do conflito árabe-israelense3. Duas horas depois do início da matança, relatórios terríveis chegam ao comando israelita. Mas ninguém se mexe. A carnificina só pára quarenta horas mais tarde, com um balanço horroroso: mais de mil mortos, em sua maioria mulheres, crianças e pessoas idosas. Centenas de outros habitantes dos campos foram sequestrados pelos atacantes: vinte anos depois, continuam “desaparecidos”.

Uma comissão de inquérito israelita concluiu que o general Sharon foi pessoalmente responsável pelo massacre e recomendou que fosse destituído de suas atribuições de ministro da Defesa4. Assim, ele teve que abandonar esse cargo, tão cobiçado pelos militares.

As dúvidas de Ben Gurion

Philip Habib, o mediador norte-americano que organizado a retirada da OLP de Beirute, ficou furioso. “Sharon é um assassino, movido pelo ódio aos palestinos. Dei a Arafat garantias de que os palestinos [permanecendo em Beirute] não seriam tocados, mas Sharon não as cumpriu. Uma promessa desse homem não vale nada5.”

Sharon apresenta esse traço de carácter ao longo de toda a sua carreira militar e política. Mesmo David Ben Gurion, que admirava esse jovem e ousado militar, tinha dúvidas se “Arik” chegaria um dia a falar a verdade…


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(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Ler, de Uzi Benziman, Sharon ne s’arrête pas au (feu) rouge (em hebraico), Editions Adam, Tel Aviv, 1985, p.62.


2 - Ler, de Zeev Schif e Ehud Yaari, Guerre trompeuse (em hebraico), Editions Schocken, Tel Aviv, 1984, p. 380.


3 - Ler, de Amnon Kapeliouk, Sabra et Chatila – inquérito sobre um massacre, ed. Seuil, Paris, dezembro de 1982.


4 - “Uma responsabilidade - escrevia a Comissão Kahane - deve ser imputada ao ministro da Defesa por haver negligenciado o perigo de actos de vingança e de massacre por parte dos falangistas contra a população dos campos de refugiados e por não ter levado em consideração o perigo quando decidiu fazer os falangistas entrarem nos campos. Além disso, uma responsabilidade deve ser imputada ao ministro da Defesa por não haver ordenado as medidas apropriadas a fim de prevenir ou reduzir o perigo de massacre como condição para a entrada dos falangistas nos campos. Essas faltas constituem um não-cumprimento da missão de que o ministro da Defesa estava encarregado.”


5 - Ler, de Patrick Seale, Assad (tradução em hebraico), Editions Maarakhot (Tsahal, Ministério da Defesa de Israel), Tel Aviv, 1993, p. 383.



Em Le Monde Diplomatique:


http://diplo.uol.com.br/2001-11,a103



 

Relato de uma testemunha ocular do massacre de 1982 emsh Sabra e Shatila



Sou um médico holandês, vivendo actualmente no norte do País de Gales. No verão de 1982 eu trabalhava como enfermeiro em Beirute Ocidental que, à época, estava sob estado de sítio do exército israelita. “



Dr. Ben Alofs

 

O negociador americano Philip Habib tinha intermediado um acordo mediante o qual o exército israelita abster-se-ia de ocupar Beirute Ocidental, depois que os fedayeens (combatentes palestinos) palestinos tivessem partido. Um segundo aspecto fundamental do acordo era que os EUA garantiriam a segurança da população civil palestina remanescente. A evacuação, supervisionada por uma força de manutenção de paz internacional, seguiu tranquila e foi completada em 1º de setembro. Muito antes de 26 de setembro, a data que tinha sido acordada, a força de manutenção de paz internacional partiu entre 10 e 13 de setembro. No dia 3 de setembro, aconteceu a primeira violação do acordo Habib, quando as forças israelitas ocuparam Bir Hassan, na área suburbana ao sul de Beirute. Antes disso, Sharon havia afirmado que queria as forças de manutenção de paz fora de Beirute.

Depois do assassinato de Bashir Gemayel, o carismático e cruel líder dos falangistas, aliados de Israel, Ariel Sharon ordenou a invasão de Beirute Ocidental a pretexto da restauração da “lei e da ordem”. Contrariando essa afirmação, Beirute Ocidental estava perfeitamente tranquila naquele momento. A invasão foi uma séria violação do acordo Habib. Mas mais importante era que desde o início da ocupação de Beirute Ocidental, o exército israelita, sendo uma força de ocupação sob a Quarta Convenção de Genebra e o Protocolo 1, tornou-se responsável pela segurança da população civil sob seu controle.

Os jornalistas israelitas Zeev Schiff e Ehud Ya’ari descrevem como Sharon insistiu no envio de milicianos falangistas aos campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila [ver “Israel´s Lebanon War” (“A guerra libanesa de Israel”)]. Para realizar isso, Sharon tinha tido encontros em 15 de setembro com Elie Hobeika, Fadie Frem e Zahi Bustani (líderes das milícias), assim como com Amin e Pierre Gemayel, os líderes políticos do partido falangista. Os líderes do exército israelita, Sharon incluído, estavam muito bem a par do modo de agir dos falangistas, logo depois do assassinato do seu líder. Qualquer pessoa com um conhecimento mínimo dos sentimentos dos falangistas com relação aos palestinos sabia o que iria acontecer se eles tivesse permissão para entrar nos acampamentos de refugiados.

Tell al-Zaater” é um nome muito bem conhecido no Líbano e em Israel. Esse acampamento em Beirute Oriental, onde encontrei refugiados palestinos pela primeira vez em 1975, tinha sido sitiado durante 53 dias pelas milícias falangistas e das milícias maronitas “Tigres” no verão de 1976. Depois que os palestinos capitularam, a Cruz Vermelha Internacional, que deveria dar “salvo conduto” à população do acampamento, foi incapaz de impedir o assassinato de cerca de 1000 civis.

Os comandantes do exército israelita Eitan, Drori e Yaron fizeram comentários sobre como os falangistas estavam obcecados de vingança, falando de um “mar de sangue” e “kasash” (palavra árabe para “golpe” ou “corte”). Quando eles fizeram essas observações, Ariel Sharon deu luz verde aos falangistas para entrar em Sabra e Shatila. Eles assim o fizeram no anoitecer de 16 de setembro.

Enquanto o massacre estava sendo cometido, eu trabalhava no hospital de Gaza em Sabra. A situação era caótica e confusa. Muitos feridos foram levados ao hospital e nossa morgue encheu dentro de pouco tempo. A maioria das vítimas sofreram ferimentos a bala, mas uns poucos foram feridos por fragmentos de balas. Em 17 de setembro ficou claro que o “kataeb” (falangistas) e/ou as milícias de Saad Haddad (fundada e armada por Israel) estavam trucidando a população civil. Um garoto de 10 anos foi levado ao hospital. Ele tinha sido atingido por um tiro, mas estava vivo. Ele passou toda a noite ferido, deitado entre os corpos mortos de seus pais, irmãos e irmãs. À noite, os assassinos foram assistidos por holofotes israelitas.

Eu estava trabalhando com uma equipe de médicos e enfermeiros ingleses, americanos, holandeses e alemães. Tínhamos insistido em que a directoria do hospital palestino fugisse para a parte norte de Beirute Ocidental. No sábado pela manhã, 18 de setembro, fomos presos pelas milícias falangistas/Haddad. Eles nos forçaram a deixar nossos pacientes para trás e nos levaram para fora de Sabra e Shatila pela via principal. Passamos por centenas de mulheres, crianças e homens que tinham sido cercados. Vimos corpos na estrada e em pequenas passagens estreitas. Os milicianos gritavam para nós e nos chamavam de "Baader Meinhof". Um enfermeiro palestino que julgava que ficando connosco estaria em segurança, foi identificado e levado para trás de um muro. Um momento depois vieram os tiros.

Momentos antes de alcançarmos a saída do acampamento vi uma imagem que estará para sempre em minha mente: um monte enorme de terra vermelha com braços e pernas aparecendo. Junto do monte, uma escavadora militar com insígnias hebraicas. Um pouco fora do acampamento recebemos ordens de retirar as vestimentas hospitalares e fomos alinhados contra um muro. Foi nesse momento que um oficial do exército israelita passou num veículo militar. Ele salvou nossas vidas, ordenando aos milicianos que nos entregassem aos israelitas. Perto das fronteiras a sul a oeste dos acampamentos, vimos tanques e veículos militares israelitas.

Após uma interrogação nos quartéis militares os falangistas nos levaram para o posto de comando avançado israelita distante apenas 75 metros (250 pés). Era um edifício de quatro ou cinco andares à margem de Shatila. (Algumas semanas mais tardes eu estive no andar mais alto. Oferecia umas vistas excelentes da destruição de Shatila). Os soldados israelitas estavam visivelmente pouco à vontade, confrontados com mais de 20 europeus e americanos. Perguntaram o que queríamos. Respondemos que queríamos voltar para o hospital de Gaza. Impossível, disseram-nos, perigoso demais. Finalmente, dois de nós tiveram permissão de voltar ao hospital com um passe em hebraico e árabe.

Certamente havia uma coordenação entre os israelitas e os milicianos. O controle era na maior parte israelita. Era impossível para eles ver exactamente o que estava acontecendo nos becos estreitos de Sabra e Shatila. Mas logo que o massacre começou, soldados israelitas entraram com relatos das chacinas. Nem uma única vez o comando militar israelita tentou pôr um fim na matança. Grupos de civis, saindo dos acampamentos com bandeiras brancas, eram mandados de volta.

Até na manhã do Sábado, 18 de setembro, quando fomos retirados dos acampamentos, vimos novos grupos de falangistas entrarem nos acampamentos sob supervisão israelita. Cerca de 20 minutos depois que havíamos passado por grandes grupos de mulheres, crianças e idosos na estrada principal de Sabra, ouvimos uma orgia de fogo de metralhadoras. Swee, um médica ortopedista, disse-me que uma mãe palestina tinha tentado dar-lhe sua filhinha, como se adivinhasse o que estava prestes a acontecer. A criança foi arrebatada das mãos de Swee e devolvida à sua mãe. No Domingo, 19 de setembro, voltei a Sabra e Shatila junto com dois jornalistas, um dinamarquês e um holandês. O exército libanês havia cercado o acampamento e tentado manter fora os jornalistas. Encontramos uma entrada. Todos nós ficamos profundamente chocados com a extensão da destruição e selvageria dos assassinatos. Os israelitas tinham ordenado aos milicianos para deixarem os acampamentos em algum momento do Sábado. Estes últimos tinham conseguido provocar mais uma terrível destruição e matança depois que fomos retirados dos acampamentos na manhã do Sábado. A Defesa Civil Libanesa tinha dado início ao recolhimento dos corpos que não tinha sido enterrados pelas escavadoras. Nunca saberemos quantas pessoas foram exactamente trucidadas durante aqueles terríveis dias 16, 17 e 18 de setembro de 1982. 1.500 talvez? 2.000? Ou até mais?

Quando as chuvas do outono começaram a cair no final de novembro, esgotos entupidos causaram alagamentos em Sabra e Shatila. O entupimento foi causado em parte pelos corpos que tinham se amontoado nos canos. Os corpos que foram recolhidos pela Defesa Civil Libanesa foram enterrados numa sepultura colectiva em Shatila. Uma grande sepultura colectiva num campo de golfe próximo, e outras sepulturas colectivas nunca iriam ser abertas. Proibidas pelo governo libanês e seu novo presidente Amin Gemayel, irmão de Bashir. O primeiro-ministro Begin disse: "Goyim mata goyim e acusam os judeus". É evidente que Hobeika, Frem e seus bandos foram directamente responsáveis pelo massacre. Mas isso nunca teria acontecido se Sharon voluntária e conscientemente não tivesse dado a autorização para a operação.

Sharon queria destruir os últimos remanescentes da infra-estrutura da OLP no Líbano a qualquer custo. Eu estava em Sabra e Shatila. Não havia "2.000-3.000 terroristas", como alegou Sharon. Os únicos "terroristas" restantes foram um número de meninos de 10 a 12 anos que tentaram proteger seus familiares com pequenos rifles usados para caçar aves. Se pelo menos uma centena de fedayeens estivesse na retaguarda, nada daquilo teria acontecido.

Quando alguém põe uma serpente venenosa no berço de um bebê e o bebê morre, a responsabilidade recai directamente sobre a pessoa que pôs a serpente no berço. Portanto, os comandantes israelitas Eitan, Dori e Yaron são directamente responsáveis. Mas acima de todos, Ariel Sharon. Ele era o chefe. Poderia ter impedido essa tragédia. Mas ele queria expulsar os palestinos de Beirute para a Jordânia, que era "o estado palestino", de acordo com Sharon. Deir Yassin revisitado. "Animais bípedes", foi como Begin chamou os palestinos em 1982. Eitan falava sobre "baratas numa garrafa". Essa desumanização dos palestinos foi e ainda é a causa do frio desprezo do exército israelita pela vida dos palestinos.

Os 400.000 israelitas que protestaram em Telavive devem ser louvados. Em Israel, pelo menos houve um inquérito sobre o massacre pela comissão Kahane. O juiz libanês de investigação Germanos, para sua vergonha, não pôde sequer determinar a identidade dos autores libaneses. As conclusões da comissão Kahane foram fatalmente invalidadas e Sharon apenas considerado indirectamente responsável e portanto inadequado para ser ministro da Defesa. Mas isso o torna adequado para ser primeiro-ministro de Israel? Como a Suprema Corte de Israel explica isso? É minha opinião, com base no que descrevi acima, que Ariel Sharon é um criminoso de guerra. Vítimas de crimes de guerra clamam por justiça. Essa é razão pela qual Augusto Pinochet deve ser processado, Radovan Karadzjic, Ratko Mladic e Slobodan Milosevic.

O assassinato de Intissar Ismael clama por justiça. Intissar Ismael era uma atraente enfermeira palestina de 19 anos com quem trabalhei no hospital Akka, em Shatila, na noite de 14 para 15 de setembro. Nosso sector estava tranquilo e ouvíamos o rádio. O apresentador do noticiário confirmou a morte de Bashir Gemayel. Pude ver o medo no rosto de Intissar. Tentei tranquilizá-la. Na manhã seguinte, às sete horas, deixei o hospital e tomei a estrada principal de Shatila.

De repente aeronaves militares israelitas trovejavam sobre os acampamentos a baixa altitude. No lado de fora dos acampamentos tomei um táxi para Ras Beirute.

Nos cantos das ruas vi jovens libaneses. Estavam armados e olhavam em direcção ao sul. O que eles estavam esperando? Seis dias mais tarde do que o planeado, voltei para o calcinado hospital Akka. O motorista de uma ambulância disse-me que Intissar tinha estado na residência das enfermeiras no departamento subterrâneo do hospital quando os falangistas entraram. Ela foi estuprada por um bando e depois assassinada. Seu corpo foi mutilado a ponto de ficar irreconhecível. Somente pelos anéis nos seus dedos seus pais puderam identificá-la.

Intissar clama por justiça. 2.000 pessoas inocentes clamam por justiça. Isso daria uma satisfação. Se Sharon – numa visita à Europa – fosse detido e transferido para a prisão de Scheveningen. Serei cínico demais quando digo que a Europa falha quando se trata de levar ao tribunal os crimes de guerra de Israel? E serei pessimista demais quando digo que Sabra e Shatila não foi nem o primeiro nem o último crime de guerra cometido por Ariel Sharon?





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Original em:


Media monitors Networks

http://www.mediamonitors.net/drbenalofs1.html

 

 

1881

Há mais de dois mil anos

O território da Palestina foi predominantemente habitado, durante séculos e séculos, por gerações sucessivas de árabes, que conviviam pacificamente com minorias de outras origens étnicas.

Em 1850 a população da Palestina era constituída por cerca de 400 000 muçulmanos,75 000 cristãos e 25 000 judeus, ou seja :

80% muçulmanos, 15% cristãos e 5% judeus.


O sionismo

Nos fins do sec. XIX um grupo de europeus decidiu-se a colonizar esse território. Conhecidos como “Sionistas” era constituído por uma minoria de extremistas dentro das colectividades judaicas. Queriam criar uma pátria judaica, pensaram inicialmente em localizar-se algures em Africa ou na América do Sul, acabando por escolher a Palestina para implantar essa colónia.

Tais imigrantes não causaram, de início, qualquer problema. Porém, à medida que aumentava a deslocação de sionistas para a Palestina – muitos com o desejo explicito de se apoderarem do território para fundar um estado Judeu – a população autóctone foi ficando cada vez mais preocupada. Como consequência acabou por haver lutas entre os dois grupos, com escalada das vagas de violência.


Projecto das Nações Unidas de repartição de terras

Finalmente, em 1947 as Nações Unidas decidiram intervir. Contudo, em vez de aderirem ao princípio democrático da “auto-determinação” assumido décadas antes por Woodrow Wilson, mediante o qual as próprias populações criam o seu estado e o seu sistema de governo, as Nações Unidas adoptaram a estratégia medieval de ser um povo estranho a dividir arbitrariamente a terra alheia.

Sob considerável pressão de destacados sionistas americanos, as Nações Unidas resolveram reservar 55% da Palestina para ali localizar um estado Judeu – apesar do facto da população respectiva apenas contar com 30% da população total, sendo proprietária de apenas de 7% da mesma.


A guerra de 1948

Quando estalou a inevitável guerra o seu desfecho era perfeitamente previsível, de acordo com relatórios desse tempo da espionagem norte americana. O exército dos sionistas era constituído por 90 000 homens treinados na Europa, equipados com moderno armamento, incluindo os mais modernos caças e bombardeiros. As forças árabes eram uma tropa de terceiro mundo, com 30 000 elementos mal equipados e mal treinados. O exército dos Estados Unidos, a espionagem britânica e a CIA concordaram inteiramente de que não haveria dúvidas quanto ao resultado do conflito.

No fins de 1948 o estado Judeu – que se tinha entretanto auto-designado Israel – tinha conquistado 78% da Palestina – muito mais do incluía a já de si generosa proposta das Nações Unidas.

Três quartas partes de um milhão de palestinianos tinha sido transformados em refugiados.

Mais de 400 cidades e vilas tinham sido destruídas e um novo mapa para o territorio era desenhado, no qual cada localidade, cada rio ou acidente topográfico receberia um novo nome hebraico.

Todos os vestígios da cultura palestiniana deveriam ser erradicados. De facto, durante várias décadas Israel e os Estados Unidos, seguindo as suas passadas, negaram a existência da sua própria população.

Golda Meir, primeiro ministro de Israel chegou de facto a dizer:

- A Pelestina é uma coisa que não existe!...


A guerra de 1967

Em 1967 Israel fez novas anexações territoriais.

A seguir à “guerra dos 6 dias” na qual as forças israelitas lançaram um ataque fulminante sobre o Egipto, Israel ocupou mais 22% da Palestina que se tinha escapado em 1948 – a Margem Oeste (West Bank) e a Faixa de Gaza.

Ocupou também áreas do Egipto (que entretanto foram devolvidas) e da Síria (Os Montes Golan. que permanecem ocupadas até aos dias de hoje).


A guerra de 1973

 ( conhecida em Israel como do “Yom Kippur “)

O Egipto e a Síria continuaram a reivindicar a devolução dos territórios ocupados por Israel em 1967.

Contudo os esforços diplomáticos nesse sentido falharam, tendo o presidente Egípcio

Anwar Sadat feito o aviso de que uma guerra teria lugar se Israel não devolvesse ao Egipto a península do Sinai e à Síria os Montes Golan.

Mas Henry Kissinger, bem como os Israelitas e os meios de informação americanos não lhe ligaram importância.

Essas atitudes foram erros estratégicos e contribuíram directamente para a guerra que eclodiu dia 6 de Outubro de 1973 com ataques coordenados do Egipto e da Síria contra forças Israelitas estacionadas nos territórios ocupados.

Não houve recontros no território Israelita, mas o impulso atacante criou frequentemente a ideia nos meios de comunicação estadounidenses que Israel estava cercado.

Israel tinha considerado que as suas posições eram inatacáveis, mas uma estratégia brilhante conhecida como “operação Badr” teve um sucesso impressionante.

O planeamento egípcio temeu que as baixas poderiam atingir os 30 000, mas no termo do dia 6 de Outubro as suas perdas foram apenas de 208 mortos.

Um especialista em história da guerra Trevor N Dupuy fez a síntese seguinte: A combinação de dum planeamento eficaz e completo com medidas de segurança cuidadosas, efeitos de surpresa e a eficiente execução de planos cuidadosamente elaborados, resultou numa das mais travessias aquáticas mais memoráveis nos anais da prática da guerra. De acordo com os que fora planeado, nenhum outro exército poderia ter feito melhor”.

Registaram-se desde logo solicitações de apoio maciço por parte dos Estados Unidos a Israel.

O presidente Nixon estava nessa altura profundamente envolvido pelo escândalo Watergate, pelo que as maiores pressões exercidas pelo lobby israelita foram feitas junto de Henry Kissinger.

A 12 de Outubro, o Embaixador Simcha Dinitz ameaçou Kissinger frontalmente de que “se uma ponte aérea não tiver lugar desde já com ajuda a Israel, ficarei sabendo que os Estados Unidos estão a renegar às suas promessas e à sua política, e teremos que tirar consequências muito sérias deste facto”.

Bernard e Marvin Kalb, biógrafos de Kissinger fazem a seguinte observação: “Dinitz não teve de acrescentar nada à sua mensagem. Kissinger entendeu rapidamente que os israelitas iriam manifestar-se publicamente e que um levantamente de sentimentos pró-israelitas teria um impacto desastroso numa já enfraquecida administração dos Estados Unidos”.

Nesse mesmo dia, empresários do petróleo enviaram um memorandum ao presidente Nixon expressando o seu alarme perante cortes repentinos na produção daquele produto e do seu aumento de preço se os EUA continuassem com políticas proteccionistas em relação a Israel. Não obstante Nixon e Kissinger ignoraram o alarme e puseram em marcha uma gigantesca operação aérea para abastecer Israel no dia seguinte, 13 de Outubro.

Quando, a 18 de Outubro, Nixon tentou serenar ainda mais os agitados apoiantes de Israel, requerendo ao Congresso 2.2 biliões de dollars de ajuda de emergência a Israel, a Arábia Saudita e outros estados produtores de petróleo impuseram um boicote total contra os Estados Unidos em retaliação pelo seu apoio a Israel.

Kissinger avaliou os prejuízos indirectos para os Estados Unidos dessas medidas em 3 biliões de dollars, elevando-se os custos directos derivados do aumento do preço do petróleo a 10 a 15 biliões de dollars. Esclareceu: "agravou a nossa taxa de desemprego e contribuiu para a maior recessão que tivemos no pós-guerra”.

Foi um preço muito caro que nos custou pagar, por um país que, supostamente, deveria beneficiar os interesses dos EUA.


O conflito actual

Há, portanto, dois temas que cionstituem o essencial da continuação do conflito e da escalada de violência no Médio Oriente:

Primeiro, existe o inevitável efeito desestabilizador de tentar manter um estado preferencialmente étnico, especialmente se a entidade exclusivista possui uma origem largamente colonial.

Como vimos a população original daquilo que é hoje o estado de Israel era constituída por 95% de muçulmanos e de cristãos.

E até agora aos refugiados desses dois grupos não lhes é permitido o regresso aos seus lares ali situados.

Os negociadores israelitas recusam-se até a discutir que seja, a aplicação desse direito garantido pelas Nações Unidas.

Segundo, a confiscação continuada de terra palestiniana na West Bank e em Gaza são motivo de resistência palestiniana.

Eram esses territórios ocupados que deveriam tornar-se o estado da Palestina de acordo com os tratados de paz de Oslo de 1993.

Entretanto, à medida que Israel continuou a anexar território e a instalar ali cidadãos seus, a população palestiniana revoltou-se.

O levantamento que assumiu a designação de “Intifada” (que em árabe quer dizer “abanão”) teve o seu início em Setembro de 2000 e ainda continua.


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Recomenda-se a leitura do livro "The Origin of the Palestine-Israel Conflict."


O texto acima foi retirado do site   http://www.ifamericansknew.org/history/


O site em referência é mantido por uma sociedade de judeus americanos de destaque intelectual que se opõem à política belicista de Israel.


2003

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A ANATOMIA DO RACISMO

Culpar a vítima’ tem sido o recurso comum dos culpados ao racionalizar e distorcer o horror do crime em si. Sejam esposas espancadas, crianças vítimas de abusos, ou palestinos há muito submetidos à brutalidade da horrenda ocupação militar israelita, o primeiro (e último) recurso de covardia está em difamar a vítima, acusando-a de ter provocado a crueldade merecida do crime.

O pré-requisito essencial, claro, é a total desumanização das vítimas e a eliminação de seus direitos e atributos mais básicos, assim como seus pedidos de protecção.

Inevitavelmente, a mistura resultante da vitimização é incrementada numa etapa posterior pela vulnerabilidade aumentada, pela distorção, e pela exclusão da protecção de aspectos humanos e imperativos morais.

Portanto, a última explosão de confrontos entre o exército de ocupação israelita e manifestantes civis palestinos transformou-se  no campo de recreio para a força total da "máquina giratória" israelita, no mais deliberado, concentrado e racista exercício de fraude e desumanização dirigido contra todo um povo.

A forma mais básica de fraude está em inventar uma simetria falsa entre o invasor e o invadido, entre opressor e vítima. A ‘violência’ do poderoso exército de ocupação israelita usando munição real, tanques e helicópteros (no mínimo), é equiparada à ‘violência’ dos civis palestinos protestando contra sua vitimização e continuada perda de direitos, terras e vidas.

Além disso, pede-se aos palestinos que sejam dóceis, que parem com a "violência", que ponham um fim ao cerco a Israel - como se o exército mais poderoso da região estivesse sendo "ameaçado" pela rejeição do povo desarmado à sua ocupação e brutalidade. A solução simples e óbvia, é claro, é a retirada do exército e o fim da ocupação.

Isto, ironicamente, é acompanhado de uma desvalorização dos direitos e vidas palestinos, pela tradução de nossa fraqueza objectiva na diminuição de direitos onde o poderoso determina os parâmetros de ‘justiça’ para o fraco.

A apresentação como um todo exibe constantemente a síndrome da ‘responsabilidade do homem branco’. Os palestinos devem ser ‘gratos’ por qualquer ‘oferta generosa’ que Israel escolha ‘garantir’ a eles, independente da injustiça e ilegalidade flagrantes da negociação israelita.

Tanto a extrema direita quanto a extrema esquerda em Israel (assim como nos EUA) têm adoptado esta abordagem condescendente, paternalista, para a paz.  Barak foi ‘muito longe’ em ‘oferecer’ aos palestinos quase 90% de suas terras com algumas ‘responsabilidades’ em Jerusalém, e aqueles palestinos ‘ingratos’ estão sendo ‘intransigentes’ e linha-dura.

Tendo comprometido 22% da Palestina histórica, nós não fomos convidados a ser parte da anexação ilegal de Jerusalém por Israel e de sua política de assentamentos, isto é, uma parceria nada sagrada (profana pela) para a violação da lei internacional e das resoluções relevantes da ONU.

Se não formos determinados na auto-negação, se não recusarmos o papel de bons nativos e não continuarmos rejeitando a versão unilateral israelita de "paz", que "oferece" a nós um estadozinho subserviente de isolados Bantustões sob o sistema de apartheid de Israel, então seremos forçados à submissão.

Afinal de contas, se pressão, ameaça e ‘queda-de-braço’ político não funcionam, a agressão militar absoluta pode produzir os resultados desejados, uma vez que ‘os árabes só entendem a língua da violência.’ Tácticas instantâneas ou políticas de pânico entram no jogo com rótulos tais como ‘terrorista’ ou ‘ditatorial’ ou palestinos ‘violentos’, na medida em que disfarçam a realidade do desejo humano palestino de resistir à subjugação e opressão como prova de tais distorções.

Uma situação típica é visível claramente: Arafat deve ‘controlar’ seu povo (nação de ovelhas?) e ‘ordená-los’ que se acalmem e aceitem sua escravização e repressão pelos israelitas, de outro modo ele não será mais um ‘parceiro da paz’ e não pode ser considerado um ‘líder.’

Ao mesmo tempo, Israel não pode negociar com Arafat, ou com os palestinos, porque são tradicionalmente ‘antidemocráticos’ e, portanto, não têm nada a ver com democracias ‘civilizadas’, como a de Israel e dos Estados Unidos.

Paralelamente, outros rótulos instantâneos e epítetos estereotipados são facilmente lançados como um exercício conveniente para reduzir o aspecto humano dos palestinos.

Os insultos históricos e familiares usados pelos oficiais e figuras públicas israelitas (incluindo baratas, vermes de duas pernas, cães) foram ampliados para incluir ‘cobras’ e ‘crocodilos.’

A redução de nossa característica humana a uma série de abstracções em nenhum lugar é tão sinistra quanto no jogo numérico. As vítimas palestinianas do fogo israelita são fornecidas diariamente como um número ‘X’ de mortos e ‘Y’ de feridos. Seus nomes, identidades, esperanças despedaçadas, e sonhos destruídos não são mencionados.

Ausente também estão a dor e a angústia de suas mães, seus pais, irmãs, irmãos e outros entes queridos que terão de viver a vida com a trágica perda.

A documentação visual do assassinato a sangue-frio do menino Muhammad al-Durra destruiu a complacência daqueles que se sentiam confortáveis com o anonimato dos palestinos e com a invisibilidade de seu sofrimento. Mesmo assim, diante da evidência irrefutável, a máquina de propaganda israelita tentou distorcer a verdade.

Primeiro, foi dito que ele foi morto por atiradores palestinos. Depois, que ele foi ‘pego no fogo-cruzado.’ A pior versão foi a descrição cínica do menino Muhammad como um ‘criador de casos’ ou um menino ‘malicioso’ que atraiu a morte para si mesmo como se a resposta adequada para uma criança vivendo sua infância fosse a morte deliberada. A última acusação envolveu uma questão: ‘O que ele estava fazendo lá?’. A verdadeira questão deveria ter sido ‘o que o exército israelita estava fazendo lá?’, no coração da Gaza palestina atirando em civis, inclusive uma criança e seu pai, que foram presos em flagrante tentando engajar-se no ato ‘provocativo’ de fazer compras juntos.

Notem a diferença, entretanto, quando dois agentes israelitas disfarçados, pertencendo aos notórios esquadrões da morte israelitas, foram mortos por manifestantes palestinos.

Nenhum palestino tentou justificar o ato. Ao contrário, ordens foram dadas para investigar e prender os responsáveis. Afinal de contas, deve existir algo como a lei e o processo devido.

Ao contrário, Israel deslocou seus tanques e exércitos, apertando o cerco e estrangulando as cidades, aldeias e campos de refugiados palestinos. Então trouxe seu helicóptero Apache e disparou sobre cidades palestinianas na mais  absurda e cruel forma de punição colectiva. Sua versão dos eventos apresentou os agentes israelitas como reservistas que por engano ‘se desviaram’ para Ramallah e então foram ‘linchados’ pela multidão. Referências ao ‘assassinato’ , ‘sede de sangue’ e ‘selvageria’ transformaram-se na tendência verbal predominante.

Embora ninguém vá concordar com a morte dos soldados, é importante entretanto, lidar com os fatos reais e o contexto:

Ramallah, uma cidade sob total cerco militar israelita, foi fechada a todos o movimento de entrada e saída da cidade. Apenas uma entrada foi aberta, inteiramente sob controle dos múltiplos pontos de controlo militar israelitas. Portanto,  ‘desviar-se’ para Ramallah iria requerer tentativas deliberadas e repetidas exigindo tenacidade, persistência e mesmo astúcia.

Os dois agentes israelitas foram claramente infiltrados e plantados no meio de uma marcha de protesto no coração da cidade. A ocasião era o funeral de um homem palestino, Issam Joudeh Hamad, de uma aldeia de Umm Safa, que tinha sido raptado por colonos israelitas e torturado até à morte de uma maneira horrível.

São cenas e fotografias horríveis do corpo, mais o testemunho dos médicos que o examinaram, que se exibidas aos olhos do mundo aumentariam os pontos dos palestinos e desumanizariam os israelitas. Algumas estações árabes me informaram que as imagens eram tão terríveis que evitaram usá-las.

A maioria das pessoas que participaram da marcha na sitiada cidade palestina de Ramallah conhecia a vítima, e alguns tinham visto o corpo. Os dois agentes israelitas disfarçados que tinham se infiltrado na marcha, foram reconhecidos pelos palestinos como membros dos ‘Esquadrões da Morte’ que tinham sido responsáveis por assassinatos e provocações.

Apesar do fato da polícia palestina ter tentado protegê-los, os dois foram mortos diante das câmaras.

Imediatamente isto se tornou uma justificativa imediata para chamar todos os palestinos de assassinos, e pela mais sistemática e venenosa campanha de ódio na história recente. Isto também foi usado como uma justificativa para os ataques aéreos israelitas sobre Ramallah e outras cidades palestinianas.

No emocionante apelo aos seus compatriotas (13 de outubro de 2000) para não explorar este incidente para justificar o racismo e o ódio existentes em Israel, o poeta israelita Yitzhak Laor documentou vários linchamentos de palestinos pelo exército e forças de segurança israelitas. Em todos os casos os perpetradores nunca foram punidos e nenhum ultraje moral foi expresso pelo público israelita, menos ainda o bombardeio de cidades israelitas!

O mesmo se aplica ao reino de terror dos colonos israelitas que atingem palestinos em suas próprias casas e cidades, com a protecção e conluio total do exército israelita.

Apresentados como ‘civis israelitas’ indefesos cercados pelos palestinos ‘hostis’, a natureza sinistra e letal da violência dos colonos, como extremistas armados em fúria, é com frequência ignorada. A ilegalidade dos assentamentos israelitas, o carácter fundamentalista extremista dos colonos armados, e os actos horríveis de rapto, tortura, assassinato e violência aleatória que são cometidos com impunidade raramente são mencionados. Por toda a parte, os palestinos continuam a ser responsabilizados.

O insulto mais flagrantemente racista é o roubo israelita de nossa humanidade como pais. Em uma tentativa de nos roubar nossos sentimentos mais básicos por nossas crianças, nós somos acusados de ‘enviar (nossas) crianças para a morte’, para ‘aumentar os pontos na mídia.’

O horror é posteriormente misturado pela total e inquestionável equaidade com a qual este grande insulto nacional é repetido por israelitas de todas as partes, sem qualquer distância crítica ou mesmo consciência da enormidade de tal acusação racista.

Quando crianças palestinianas se tornaram alvos dos atiradores israelitas e de outra violência do exército, o ministro da educação não teve outra opção a não ser fechar as escolas temporariamente, de modo a minimizar a exposição dos estudantes em seu caminho para a escola.

Isto foi imediatamente interpretado pela máquina giratória israelita como prova de que nós fechamos as escolas de modo a ‘liberar’ nossas crianças para sair e ‘criar distúrbios’, obstruindo portanto o caminho livre das balas israelitas.

A segurança do lar e as tentativas dos pais em proteger suas crianças não são nem consideradas. A maioria das crianças foram atingidas na cabeça ou na parte superior do corpo, principalmente com balas de alta velocidade. Os alvos mais comuns das balas de aço revestidas de borracha foram os olhos das crianças.

A política de atirar para matar (ou aleijar permanentemente) que tem sido empregada pelo exército israelita, clama pelas vidas de mais de 105 palestinos e feriu mais de 3.000 (muitos dos quais com danos irreversíveis). Os oficiais israelitas alegam que eles praticaram a moderação.

Claro eles podem fazer pior, eles podem cometer genocídio ou completar a limpeza étnica iniciada em 1948.

Ainda assim, é a segurança de Israel que está em jogo.

O  poderoso exército de ocupação de Israel encolhe-se de medo diante do clamor do povo palestino por justiça e liberdade.

O povo palestino não precisa de segurança em sua própria terra ou em suas próprias casas, uma vez que eles têm sido sistematicamente desumanizados pelos seus opressores, como a merecer o que quer que aconteça a eles.

Pior do que ser ‘não-existente’ (como no mito da ‘terra sem um povo para um povo sem uma terra’, que até Shimon Peres parece agora abraçar), nas mentes da narrativa oficial de Israel nós agora parecemos existir em um plano mais baixo, como espécies sub-humanas, destituídas das mais elementares qualidades e direitos que orientam a consciência e os valores morais da humanidade como um todo.

Tudo isto para aliviar a culpa e a responsabilidade do verdadeiro culpado.

Os apologistas da ocupação israelita devem encontrar um endereço alternativo para culpar pelo horror infligido aos palestinos, assim, quem melhor do que as próprias vítimas?



 

'Anatomy of Racism' por Hannan Ashrawi

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Hannan Ashrawi has served on the Palestinian Legislative Council and as a spokesperson for the Arab League. She is founder of the Palestinian Initiative for the Promotion of Global Dialogue and Democracy (MIFTAH) and author of This Side of Peace (1996).

 

 

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O sionismo aparece como um facto “revolucionário”: leva as pessoas a deixarem seu país para viverem uma vida radicalmente diversa, renunciando à sua origem social, à sua língua, às suas relações sentimentais, rompendo brutalmente com seu passado, para reconstruírem sua vida.

Os únicos precedentes paralelos são as Cruzadas e os emigrados que fundam os E.U.A. nos futuros Estados-Nação não estava previsto um lugar para os judeus. Eles eram “diferentes”. Mais e mais a deixar de largar tudo e construir um “lar nacional” animava os judeus.

Todos esses movimentos nacionais tinham uma matriz comum: voltados ao passado, cada povo cada povo cuidava de inventar um passado nacional glorioso pretendendo marcar por sua existência o retorno à uma “idade de ouro”.

Era natural que os primeiros sionistas na lógica dos movimentos nacionalistas da época tinham a tendência a ver num território nacional a solução do problema judeu e visualizar na sua vida num novo Estado um prolongamento da história judaica, após curta interrupção de 2000 anos.

Os velhos reinos judeus criaram a primeira comunidade centrada no Primeiro Templo. Após o retorno do exílio babilónico a segunda comunidade judaica instituiu-se em torno do Segundo Templo. Era chegado o momento de criar uma Terceira Comunidade, um Estado Judeu Moderno, um verdadeiro Terceiro Templo. O pensamento político sionista torna-se inseparável de uma mística religiosa. embora Herzl o autor do Estado Judeu não fosse movido por uma inspiração messiânica, o contacto das massas judaicas da Europa Central, convence-se que essa mística era essencial ao sionismo.

Outro elemento integra o desenvolvimento do nacionalismo judaico: o ideal socialista. Para os jovens judeus dos guetos da Rússia e da Polónia os evangelhos eram Marx, Tolstoi. O trabalho manual exerce uma atracção mágica sobre esses jovens que assistem seus parentes envelhecerem como comerciantes ou usuários. Todas essas aspirações resumem-se numa só: partir, não ser mais uma minoria sem defesa, à mercê da primeira tropa de cossacos que encontram no judeu o “bode expiatório” da incapacidade do Czarismo em atender às reclamações populares.

Deixar essa miserável existência que leva ao auto desprezo do corpo e do espírito. Trabalhar a terra e se libertar pelo contacto místico com ela, nossa mãe. Criar uma sociedade sem senhores e escravos onde todos serão iguais. Realizar isso no “seu” país, marchar nas esteiras dos antigos heróis de seu povo, ressuscitar uma comunidade judia, viver nos espaços dos relatos bíblicos, tal era o sonho. Esse sonho maravilhoso, exultante, conduziu inúmeros jovens judeus da Europa Central à uma província turca denominada Palestina.

Esse movimento de libertação, puro e corajoso, se propunha a criar uma sociedade harmoniosa onde a única luta a ser travada era a luta contra si mesmo, no meio de tanto entusiasmo um fato perdeu-se de vista: a Palestina já era um território habitado.

O sionismo político inicia-se com a obra de T. Herzl o Estado Judeu, que trata da “habitação dos trabalhadores”, da “aquisição de terras” dos “operários não qualificados”, tudo é previsto inclusive as cores da nova bandeira nacional.

Em toda obra de Herzl não há uma só menção sobre a existência dos árabes palestinos. Explica-se quando Herzl sonha com o “Estado Judeu” pensando em localiza-lo em qualquer lugar, Argentina, Canadá ou Uganda. Somente quando redige o último capítulo de seu livro verifica que só a Palestina como espaço do futuro “Estado Judeu” seria capaz de mobilizar emocionalmente as massas judaicas da Europa Central. Para ele, o “Estado Judeu” na Palestina se constituiria num “ponto firme da civilização contra a barbárie”, num posto avançado da Europa na Ásia”.

Segundo Chaim Weizmann – que se tornou primeiro presidente de Israel – no Congresso Sionista de 1931 admite que Herzl não ligava necessariamente o sionismo a um Estado Judeu, nem a Palestina como sede.

Weizmann nota que no 1° Congresso Sionista em 1897, quando Herzl admite a ideia da ressurreição de o povo judeu dar-se na Palestina, a fórmula “Estado Judeu” desaparece de suas declarações. O programa sionista adoptado pelo Congresso preocupa-se em “assegurar uma existência legal aos judeus na Palestina”.

Era a época do apogeu do imperialismo, aureolado de glória e idealismo quando os poemas de Kipling cantam o “fardo” do homem branco em territórios inóspitos. Cecil Rhodes era convertido em herói. Não se relacionava o ressurgimento da Ásia ou África com o surgimento dos nacionalismos europeus.

O sionismo no seu início não é somente o produto dos nacionalismos europeus, faz parte da última vaga da expansão imperialista. O sionismo apareceu cem anos depois, sem poder beneficiar-se do movimento da expansão europeia, trinta anos antes, para encontrar a resistência afro-asiática à sua presença em terra árabe.

Os sionistas, por ocasião do congresso da Basileia de 1897, não conheciam a Palestina, onde jamais puseram os pés. Só conheciam uma realidade: a Europa com seus “pogroms”, discriminações e terríveis presságios de futuras tragédias. Sabiam vagamente que a Palestina possuía alguns habitantes, mas isso na época não constituía um centro de preocupações.

Herzl era um europeu, e suas ideias respostas a situações europeias. Os sionistas contemplavam o passado do povo judeu e não a paisagem da Palestina.

Sion e a menor colina de Jerusalém tornam-se símbolo religioso, local da palavra divina. A Estrela de David é o símbolo do novo movimento. O novo Estado escolhe a “menorah” o candelabro do templo, como símbolo agregado. Nesse universo simbólico não há espaço para o período não hebraico da história Palestina, muito menos para a herança gloriosa de outras nações semíticas irmãs.

Herzl procurava o apoio das grandes potências para seus projectos, daí dirigir-se ao Sultão da Turquia: “Se Sua Majestade, o Sultão, nos desse a Palestina, poderíamos comprometer-nos a estabilizar completamente a as finanças da Turquia. Para a Europa, constituiríamos ali um bastião contra a Ásia, seríamos a sentinela avançada da civilização contra a barbárie. Manteríamos , como Estado neutro, relações constantes com toda a Europa que deveria garantir nossa existência.” (T. Herzl, L’ Etat Juifs, Paris, Lipschutz, 1926, p. 95).

Eis o sionismo colocado no quadro das políticas imperialistas europeias. O texto aprovado significava no pensamento dos fundadores: visar a autonomia da Palestina judia sob a soberania do sultão com a garantia das grandes potências.

Outro traço da política de Herzl era especular com anti-semitismo e com o desejo de se desembaraçar da população judia, para promover a emigração à Palestina. Assim, em 1903, Herzl obteve do ministro czarista Plehve, organizador de “pogroms” iniciando uma tradição política em que a convergência do programa sionista com o dos anti-semitas, abertamente reconhecida por ele, tornava-se quase fatal. Plehve promete ao sionismo “apoio material e moral na medida em que certas de suas medidas práticas sirvam para diminuir a população judia na Rússia”, conforme relata Bernfeld (Le sionisme, étude de droite international public, Paris, Jouve, 1920, p. 399 ss.).

Isso leva Herzl a dizer que “até hoje meu partidário mais ardente é anti-semita de Petersburgo (hoje Leningrado) Ivan V. Simonyi conforme relata A. Chouraqui (T. Herzl, p. 141). Witte, Ministro das Finanças do Czar, explica a Herzl que “se fosse possível afogar no Mar Negro seis ou sete milhões de judeus, ficaria perfeitamente satisfeito com isso; mas como tal não é possível, nesse caso devemos deixa-los viver”. Quando Herzl observa que espera do governo russo certos estímulos, ele responde: “Mas damos aos judeus estímulos para emigrarem como, por exemplo, pontapés.” (Idem, p. 301 ss). Herzl reconhece “Objetar-me-ão razoavelmente que faço o jogo dos anti-seminitas quando proclamamos que constituímos um povo, um povo único.” (Idem, p. 259).

A realização do Estado sionista liga-se a um ato político inglês “A Declaração Balfour” de 2-11-1917. por que motivos a Inglaterra emitiu a Declaração Balfour? Para alguns anti-semitas, ela o fez para compensar os pretensos esforços dos judeus norte-americanos para arrastarem os E.U.A. para a guerra ou pelas vultuosas compras de títulos de guerra pelos judeus ingleses, ou pela teoria romântica, segundo a qual a “declaração” se deu como resposta à invenção de um poderoso explosivo por Heinz Weizmann utilizado pela Inglaterra. Como é inaceitável a tese de Chaim Weizmann segundo a qual isso se deu por obra da sedução exercida pelo Grande Retorno sionista no espírito dos ingleses impregnados pela Bíblia, como ela formula em Trial and Error, London, 1950, p. 226).

Sabia Weizmann que uma potência empenhada numa guerra de alcance mundial, não se moveria por razoes metafísicas para conferir aos sionistas um “Lar Nacional Judeu” na Palestina, daí escrever ele (ob. cit. p. 258), que “ao apresentar a vossa resolução, confiamos o nosso nacional e sionista ao Feoreign Office e ao Gabinete de Guerra Imperial, esperançados em que o problema seria considerado à luz dos interesses imperiais defendidos pela ‘Etente’”.

Os grandes motivos da “Declaração Balfour” foram outros. Foram os efeitos de propaganda esperados sobre os judeus dos Impérios Centrais e da Rússia na esperança de colher benefícios na futura liquidação do Império Otomano. Os judeus da Alemanha (onde esteve instalada a sede da Organização Sionista até 1914) e da Áustria-Hungria tinham sido conquistados para o esforço de guerra pelo fato de se tratar de combater a Rússia czarista, perseguidora dos judeus. No território russo conquistado, os alemães apresentavam-se como protectores dos judeus oprimidos, como libertadores do jugo moscovita. “Por demasiado tempo haveis sofrido o jugo de ferro moscovita”, declara na sua proclamação aos judeus da Polônia, o Alto Comando dos Exército Alemão e Austro-Húngaro em agosto/setembro de 1914. é irónico, depois da experiência que se seguiu – com o nazismo – ler esta violenta denúncia dos “pogroms” e do anti-semitismo czarista. Os partidos social-democrata alemão e austro-húngaro utilizavam também o álibi da luta contra o czarismo como reaccionário e anti-semita para justificarem seu apoio ao governo na guerra imperialista.

Por outro lado, a Revolução Russa reforçava as tendências derrotistas na Rússia. Atribuía-se aos judeus papel importante na Revolução Russa. Era fundamental dar-lhes motivos para apoiarem a causa aliada. Não constitui mera coincidência a “Declaração Balfour” surgir cinco dias antes de 7 de novembro (25 de outubro no calendário juliano) em que os bolcheviques tomaram o Poder. Um dos objectivos da “Declaração” era apoiar Kerensky. Pensava-se também na força dos judeus norte-americanos, pois os E.U.A. juntaram-se aos Aliados, daí ser necessário obter um esforço máximo quando neles predominava a tendência ao pacifismo. Isso confirmado pela Declaração de Lloyd George à Palestine Royal Commission em 1936: “Os dirigentes sionistas fizeram-nos a promessa firme de que se os aliados se comprometessem a der-lhes facilidades para o estabelecimento de Um Lar Nacional na Palestina, fariam o que estivesse ao seu alcance para mobilizar os sentimentos e o auxílio dos judeus à causa aliada através do mundo. Fizeram o melhor que podiam”, conforme G. Lencowski (The Middle East in World Affaird, Ithaca, 1962, p. 81 ss.). era necessário antecipar-se aos sionistas alemães e austríacos que negociavam com os seus governos uma espécie de “Declaração Balfour” conforme relata K. J. Herrmann (Political Response to the Balfour Declaration in Imperial Germany no Middle East Journal XIX, 3, 1965, p. 303-320).

Enquanto isso, as grandes potências manobravam junto a Hussein para uma revolta contra os turcos em troca de um grande reino árabe, no mesmo momento o acordo Sykes-Picot partilhava em 1916 na mesma região as zonas de influência entre a Inglaterra e França, essa utilizava suas relações com os libaneses para edificar a “Grande Síria” (incluindo a Palestina), não era mau dispor do Oriente Médio de uma população ligada à Inglaterra pelo reconhecimento e necessidade. Converter a Palestina em problema especial, atribuindo à Inglaterra uma responsabilidade particular, que era obter base sólida de reivindicação na partilha após a guerra. Weizmann insistiu no seu pedido à Inglaterra para que ela exercesse um protectorado sobre o futuro Estado Judaico (Trialand Error, p. 243). A vitória sobre o Império Otomano na Palestina e Síria permitiu a aplicação da “Declaração Balfour”.

Segundo Weizmann, até 1918 a questão árabe estava em segundo plano e os sionistas a tinham negligenciado. Porém, a fase de realização do sionismo coincide com o surgimento do movimento nacionalista árabe. Ainda era possível uma aliança entre o sionismo e o movimento nacional árabe, o dirigente árabe mais importante oferecia na época aos sionistas um Estado Autónomo reunido à Síria sob sua Coroa, 30 anos depois o Rei Abdullah, irmão de Faiçal, fazia o mesmo. Mas a direcção do movimento sionista instalada na Palestina após 1918 não aceitou. Nenhum de seus membros tinha a mais leve noção do que era o movimento nacionalista árabe, a união contra o imperialismo lhe parecia sem importância. Faiçal mostrara-se favorável ao estabelecimento de uma comunidade judaica na Palestina sob sua Coroa. No seu universo tribal, a raça se constituía em factor importante, ele considerava os judeus membros da família semítica. Numa de suas “Mensagens” ele desculpa-se por não poder comparecer a uma das assembleias da Organização Sionista por razões puramente circunstanciais, ajuntando que “tais manifestações são importantes para a compreensão entre duas nações unidas por tão antigos laços”. Em 1919 ele manifestara-se junto ao líder judeu norte-americano, Felix Frankfurter: “Sabemos que árabes e judeus são irmãos de raça. Faremos tudo que estiver ao nosso alcance para aceitarmos as propostas sionistas na Conferência de Paz e acolheremos de todo coração os judeus que juntarem-se a nós. O movimento judeu não é um movimento imperialista, é um movimento nacional. Creio verdadeiramente que, para atingir seus objectivos, cada um de nós precisa do outro.” O acordo Faiçal-Weizmann previ a formação de um grande Estado Árabe apoiado pela Organização Sionista e o apoio árabe à formação de um Estado Palestino. Isso jamais foi realizado. Faiçal colocou como condição a aceitação de suas pretensões a Síria junto à Conferência de Paz, fazia o acordo depender da outorga da independência árabe, sem o que não valia. Os franceses invadem Damasco, de põem Faiçal, reprimem o nacionalismo sírio e palestino. Mas em 1920, na Conferência de San Remo, as teses sionistas são aceitas pelas Grandes Potências.

A situação tem seu desfecho com o Mandato conferido à Inglaterra concedido pela Sociedade das Nações a 24 de julho de 1922, com a finalidade de criar um estado de coisas destinado ao estabelecimento de um Lar Nacional na Palestina aos judeus.

Algumas conclusões parciais se impõem. A realização de um projecto sionista iniciou-se depois, graças a um ato político obtido da Grã-Bretanha pela pressão da Organização Sionista. Com isso esperava a Inglaterra obter o apoio à sua política geral em relação aos judeus da Rússia e dos E.U.A., também em função de seus interesses no Oriente Médio após a decadência do Império Otomano. A Inglaterra conciliava o apoio ao projeto sionista com o apoio à dinastia hachemita. Os dirigentes sionistas ajudaram essa conciliação mantendo em hibernação a ideia de um Estado Judeu contentando-se em reivindicar direito para emigração de judeus à Palestina. Razão pela qual os palestinos árabes podem legitimamente considerar que a implantação de um elemento estrangeiro novo (o europeu) lhes foi imposto por uma nação europeia, graças à vitória militar de um grupo de nações europeias contra um outro grupo que aderira o Império Otomano.

A reivindicação da independência do Estado de Israel ante a Inglaterra tem como base a existência em 1943 de 539.000 judeus, ou seja, 31,5% da população total quando em 1922 a proporção não atingia a 11%. Essa imigração maciça só foi possível com o apoio inglês. Daí os dirigentes sionistas sob mandato inglês reclamarem o reforço do corpo de polícia britânica e se oporem a qualquer organismo representativo que diminuísse por pouco que fosse a autoridade do Alto Comissário.

Os mesmos acontecimentos que serviram de base para a instalação de um Estado Judaico serviram para desembaraçar os árabes do jugo turco. Porém, em vez do Estado Árabe unitário independente, eles assistiram a “balcanização” da região pelas potências ocidentais, divida a região entre a França e a Inglaterra. Enquanto, porém, as organizações nacionalistas árabes tinham como base de suas reivindicações as massas locais, as organizações sionistas tinham contra elas a maioria do povo do país onde queriam estabelecer um Estado soberano.

A Inglaterra publicara o Livro Branco em 1939 onde rechaça a ideia de um Estado Judeu englobando toda a Palestina ao mesmo tempo que limita a imigração e a venda de terras a sionistas. O nazismo tornou-se num elemento de pressão do judaísmo na Palestina, contrário ao Livro Branco e as limitações à imigração. Em fins de 1943 a população judia na Palestina atingia a 32%.

Isso possibilitava ao sionismo falar claro: “o fim do sionismo manteve-se inalterável desde Herzl: a transformação da Palestina numa pátria judaica, a fundação de um estado judeu. Por motivos de táctica política esse fim nem sempre foi abertamente enunciado. Mas o desenvolvimento da Palestina e do problema judaico em geral atingiram um tal grau de maturidade que se tornou falar claro”. (Weizmann, op. cit., p. 139).

No Livro Branco a Inglaterra tornava claro que o estabelecimento de um Lar Nacional Judeu na Palestina não significava impor a nacionalidade judia a todos os habitantes da Palestina, mas desenvolver a comunidade judaica já existente com o concurso de judeus de outras partes do mundo. A Organização Sionista decidiu aceitar o Livro Branco supondo que “se for aplicado oferece-nos um quadro para construir uma maioria judaica na Palestina e para levar a eventual fundação de um Estado Judeu”. (Idem, p. 361).

Foi com o acordo sionista sobre a interpretação da Declaração Balfour excluindo um Estado Judeu que foi apresentado na Liga das Nações o projecto do texto concedendo à Inglaterra o mandato sobre a Palestina que a Liga das Nações o rectificou a 24 de julho de 1922.

Com isso não concordava a facção “Revisionista” dirigida por Jabotinsky, no seio da Organização Sionista, pleiteava ela uma acção militar que constituísse o Estado Judeu nas duas margens do Jordão, sem levar em conta os árabes.

Bem ou mal a Inglaterra representou junto à comunidade judaica na Palestina o papel de Metrópole de uma colónia de povoamento, devido ao apoio ao crescimento da mesma, da mesma maneira como proteger a colonização britânica na América do Norte e a França a colonização francesa.

A primeira revolta dirigiu-se contra a Inglaterra, daí a formação das unidades terroristas do “irgun” e “Grupo Stern”, quando surge o “Programa de Baltimore” que pede um Estado Judeu sobre toda a Palestina e um exército judaico e a imigração ilimitada de judeus à Palestina. Isso fez passar ao segundo plano a questão árabe.

O que impressiona é ver jovens exaltados em quererem livrar “seu país” da tirania inglesa, não lembrarem que os “indígenas árabes” teriam algo a dizer também. Embora grupos árabes se dirigissem ao “Irgun” oferecendo-se para combater contra o imperialismo inglês. Porém, nesse momento a ideia de um Estado binacional entra em desuso ficando claro que no futuro estado instalado na Palestina judaizada pela imigração os árabes teriam que escolher entre a subordinação e a imigração.

Por isso em 1946 Martin Buber censurava o sionismo oficial em procurar firmar-se mais em acordos internacionais em vez de um acordo na região com os árabes interessados directos. Daí precisar ele que “o programa de Baltimore (nome de um Hotel americano onde se realizou a reunião da Organização Sionista) interpretado como reconhecendo o objectivo da ‘conquista’ do país mediante manobras internacionais, não só desencadeou a cólera árabe contra o sionismo oficial, mas tornou suspeitos todos os esforços tendentes a uma compreensão entre judeus e árabes” (Buber Toward Union in Palestina, Essays in Zionism and Jewish-Arab Cooperation, M. Buber, Jerusalém, Ihud Association, 1947, p. 7-13, Parte II).

Daí veio a Partilha decretada pela ONU, não aceita pelos árabes, que desencadeou a “Guerra de Independência” de Israel. Porém, é necessário entender que para as massas árabes aceitarem as decisões da ONU significava uma capitulação sem condições perante um diktat da Europa, do mesmo tipo que a capitulação dos reis negros ou amarelos do século XIX ante os canhões ocidentais apontados para seus palácios. A Inglaterra, como potência mandatária na Palestina, impedira uma ração indígena para expulsar esses colonos, ao mesmo tempo que dava a garantia falaciosa de que se tratava da implantação pacífica de alguns grupos perseguidos e inofensivos , destinados a permanecerem minoritários. Quando o designo real deles se revela, o mundo euro-americano com a U.R.S.S. queria impor aos árabes o fato consumado. Roosevelt e Truman não prometem que não tomariam nenhuma decisão a respeito da Palestina sem consultar judeus e árabes, em cartas a Ibn Seud de 5-4-45 e 28-10-46? Após a guerra a minoria árabe em Israel ficou sendo considerada quinta-coluna, daí a ampliação das medidas discriminatórias que estava sofrendo há tempos.

Isso leva-nos a uma conclusão particular. A implantação na Palestina de uma nova população de origem europeia, se deu em consequência de um movimento ideológico europeu, o sionismo. Alcançou sua finalidade: o domínio sobre o território onde se implantavam os imigrantes, graças à “Declaração Balfour” com força de Direito Internacional pela vitória dos Aliados sobre o Império Otomano, graças à força da comunidade judaica na Palestina, com sua capacidade de manipular técnicas modernas, armas e organização do poder de pressão que dispunha na Europa e América. Alie-se o sentimento de culpa europeu pelo genocídio cometido pelos nazistas, seus irmãos de cultura europeia, e seu desejo de se desculparem, sem grande mal, em detrimento dos árabes palestinos. No decurso do processo desejos, sentimentos e aspirações árabes não foram levados em consideração. O acordo Faiçal-Weizmann nascera morto, pois o primeiro não conseguira o apoio das massas árabes para suas reivindicações. Por outro lado, a história tem sua lógica interna: querer criar um Estado Judeu na Palestina árabe do Século XX só conduziria a uma situação colonial, com um tipo de racismo e afrontamento militar de etnias.

Fundamentar em direitos históricos a colonização sionista é não conhecer a história. o último Estado verdadeiramente independente da palestina desapareceu a 63 a.C. quando Pompeu se apoderou de Jerusalém.

Esse processo termina com a revolta de Bar Kochba contra o imperialismo territorial romano a 135. a população judia na Palestina diminuiu em consequência das deportações e da escravização, mas sobretudo pela emigração (já considerável muitos séculos antes da perda da independência) e pela conversão de inúmeros judeus ao paganismo, cristianismo e islamismo. É muito provável que os habitantes considerados árabes da palestina possuíam mais “sangue” hebraico do que a maior parte dos judeus da Diáspora (Dispersão) cujo exclusivismo religioso não impedia a absorção dos convertidos de origem diversa. O proselitismo religioso foi importante na própria Europa Ocidental, durante séculos, o mesmo ocorreu em outros locais durante longos períodos. Historicamente, bastará para nos convencermos disso evocar o estado judeu da Arábia do Sul no Século XI de base árabe meridional judaizada, o Estado judeu turco dos Khazars, no sudeste da Rússia nos Séculos VIII a X, os judeus assimilados da China, os judeus negros do Cochim, os Falashas da Etiópia. Admite-se que o grupo heterogéneo formado por todos os judeus do mundo permanecesse em contacto com o judaísmo religioso, fosse considerado dotado de caracteres permanentes a despeito de suas mudanças internas cabe perguntar: como seria possível atribuir-lhes direitos sobre um território determinado? Nesse caso poderiam os árabes reivindicar a Espanha.

O carácter colonial da implantação do sionismo na Palestina reside no fato de que o sionismo não desejava as riquezas do país, mas sim a substituição da mão-de-obra árabe pela judaica na Palestina. A compra de terras pela organização sionista dos latifundiários árabes, levou o “felah” à exclusão do processo produtivo, quando mais aumenta a compra sionista de terras, mais aumenta o número de camponeses árabes sem terra. é a colonização sionista que cria reativamente o nacionalismo árabe. Os camponeses árabes diaristas, despojados de suas terras, são base do problema palestino. Inimigo da assimilação judia o sionismo crê que possa similar os árabes a seu projecto.

A criação de uma central sindical ao mesmo tempo empresarial como a Histadruth, que integra o “trabalho judeu” nas suas fileiras, exclui o árabe, é um dos fundamentos de uma formação económico-social de “apartheid”. Trabalho “judeu” e produção “judia” são a base da Histadruth. Ela á responsável por 20% do produto bruto produzido.

Segundo o líder trabalhista sionista Tabenkin, o movimento operário sionista sofrendo concorrência da mão-de-obra árabe estabelece uma economia judia nova. o processo de autocriação de uma classe operária judia em Israel se dá pela expulsão da mão-de-obra árabe das colónias judias e a criação de uma economia sionista nova fundada sobre a colonização operária, por meio do fundo nacional e instituições associadas. Como a mão-de-obra judia é mais cara que a árabe, o empresário judeu é subsidiado pela Organização Sionista para aceitá-la.

Após proclamação do Estado de Israel verifica-se a espoliação metódica das terras árabes, assim publicava em 1948 uma “Proclamação de Urgência sobre as propriedades de pessoas ausentes”, elevada a lei em 1950 com o título “Lei Sobre a Propriedade de Pessoas Ausentes”. Considera-se ausente o camponês árabe em Israel que abandona seu domicílio antes de 1-8-48 ou que se instalou por qualquer razão naquelas áreas da palestina controladas por forças opostas ao estado de Israel entre 29-11-47 e a abolição do “estado de Emergência” instituído pelo governo em 19-4-48.

Muitos dos árabes “ausentes” se deveu ao temor do campesinato árabe à repetição do massacre da aldeia de Deir Yassin onde a “Irgun”, exército terrorista de Beguin, massacrou mais de 200 camponeses com mulheres e crianças. A lei permite ao governo declarar “zonas fechadas” por razoes de “segurança” qualquer área. Para se entrar ou sair tem que se ter uma justificação escrita passada pelo comandante militar. Muitas das zonas de aldeia foram declaradas “zonas interditas” depois de seus habitantes serem expulsos. Com isso, comodamente suas terras foram confiscadas. Com as “Leis de Emergência” em vigor, o Ministro da Defesa recebia poderes para declarar “zona de segurança” qualquer região de Israel dela expulsando todos os habitantes, dez dias depois a essa Declaração. Foi assim que foram expulsos à força os habitantes árabes camponeses, de duas aldeias da Galiléia, Ikret e Kfar Baram. Apelaram, ao Supremo Tribunal, antes que ele pronunciasse, o Exército dinamitou as casas dos aldeões. Em 1953 foi promulgada a “Lei Sobre a Propriedade Fundiária”, seis meses depois com base na lei foram confiscadas terras de 250 aldeias árabes. Para fixar a indemnização expropriatória fixou-se o preço do dunan (dez dunans valem 1 hectare) em vigor em janeiro de 1950, valendo cinco vezes menos que em 1953, quando a lei entrou em vigor. Em 1958 promulgou-se a “Lei de Prescrição”, uma emenda de leis otomanas que fixava em 10 anos o período segundo o qual poderia o camponês trabalhara a terra registrá-la em seu nome. A “Lei de Prescrição” estende para 20 anos o prazo, tornando impossível muitas vezes que o camponês registrasse a terra em seu nome, permitindo ao Estado de Israel pôr as mãos sobre uma superfície de terras árabes, que atingem muitos milhões de “dunans”. Surgiu a Lei de Ordenação Fundiária (desapropriação por interesse público) em 1943, com ela o governo apropriou-se de grande parte das terras árabes em volta de Nazaré, construindo uma cidade judaica.

Igual expropriação se deu na região onde se construiu a cidade judaica de Carmelo. Isso contraria a resolução das Nações Unidas de 29-11-47 que estipula: “Não se poderá a qualquer expropriação de terra de um árabe, no Estado Judaico, salvo em casos de interesse público. em todos os casos de expropriação, o Supremo Tribunal fixará o montante da indemnização que terá que ser paga integralmente antes de se proceder à expropriação”. Os bens religiosos (Wakfs) islâmicos foram expropriados pelo Estado que retirou da comunidade islâmica o usufruto dos mesmos, apoderando-se de sua administração, apossando-se de seus rendimentos. Os bens islâmicos produzem grandes lucros, porém a comunidade muçulmana em nada se beneficia, daí a estagnação de suas actividades religiosas e culturais.

No campo a implantação do “kibutz”, a exploração colectiva da terra por quem nela trabalha, se dá em terras de “refugiados” árabes onde se dá a exploração da mão-de-obra árabe, especialmente nas terras confiscadas. Nas mãos do capital bancário que o absorva o “kibutz” se torna uma exploração colectivista da mão-de-obra assalariada árabe das aldeias próximas. Quando instalado na fronteira, integra-se no Exército de Israel para vigiar a volta de “infiltrados”, são os “árabes expropriados, transformados em ‘refugiados’ e mortos como ‘infiltrados’”.

A estrutura colectivista do “kibutz” insere-se na mecânica da economia capitalista de Israel, eles são integrados no mercado capitalista e dele dependem. Ocupam mais de 70% da terra cultivada, seus componentes na sua maioria são mestres, contra-mestres e administradores. Se se suprimir a mão-de-obra assalariada árabe, eles desapareceriam na sua maioria. Na Galileia, foram instalados 20 “kibutzim” em terras expropriadas de camponeses árabes. Entre 1948 e 1953, foram instalados 370 novos “kibutzim”, em Nazaré foram expropriados 120 hectares de terras em 1956 para fundar “kibutzim”.

As “zonas ocupadas” pelo Estado de Israel têm como finalidade suprir a burguesia israelita de mão-de-obra a preço vil, explorando um trabalhador sem defesa sindical. Em suma, economia “autárquica” judaica fechada ao “árabe” palestino, expropriação do mesmo e sua transformação em “refugiado”, discriminação racial, criando um cidadão de segunda classe, o Estado Sionista procura realizar-se pelo expansionismo a pretexto de “defesa”. Os massacres de Sabra a Chatila mostram até que ponto o racismo pode levar ao extermínio, aliás os judeus sentiram-no em sua pele na Segunda Guerra Mundial. Seria o caso de não transformar os palestinos nos “judeus do Século XX”.


Por MAURÍCIO TRAGTENBERG


FONTE: Nova Escrita Ensaio - Ano IV - Nº 10


Publicado pela REVISTA ACADÉMICA - Boletim Informativo - No 22 - Março de 2003

 

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A ONU E A QUESTÃO DA PALESTINA



I – História



Quando a ONU foi criada em 1945, a Palestina era um território administrado pela Inglaterra, sob a forma de Mandato, recebido da Liga das Nações em 1922. Entre as questões que tinham que ser tratadas estava a de uma nação judaica na Palestina. O crescimento da imigração judaica para a Palestina encontrava forte objecção por parte da população árabe local, que em meados da década de 40 compreendia cerca de 2/3 de uma população no território de dois milhões. Tendo em vista a escalada da violência, a Inglaterra decidiu, em fevereiro de 1947, trazer a questão da Palestina à ONU.

Chamando a atenção para a "oportunidade de um assentamento inicial na Palestina", o governo inglês pediu a realização imediata de uma sessão especial da Assembleia Geral (AG), com o objectivo de se constituir um comité especial que deveria preparar um estudo preliminar sobre a questão da Palestina, que fosse submetido à posterior consideração dos membros da Assembleia Geral.

Na primeira sessão especial convocada pela AG, em 28/04/47, foi criado um comité especial sobre a Palestina. Cinco países árabes - Egipto, Iraque, Líbano, Arábia Saudita e Síria - tentaram sem sucesso incluir na agenda da sessão especial um item que tratasse "do fim do Mandato sobre a Palestina e a declaração de sua independência". O caso judeu foi apresentado pela Agência Judaica para a Palestina, enquanto o Alto Comité Árabe falou pelos árabes palestinos.

Na sessão especial, a AG criou o Comité Especial da ONU sobre a Palestina (UNSCOP), composto por 11 estados membros, para investigar todas as questões importantes relativos ao problema da Palestina e recomendar soluções que seriam discutidas na sessão de setembro de 1947. Durante o curso de suas actividades, o Comité Especial foi à Palestina, ao Líbano, Síria e Transjordânia, e visitou também os campos de refugiados na Europa, a qual tinha sido devastada pela II Guerra Mundial e tinha vivido a tragédia dos judeus europeus durante o nazismo.

Enquanto as organizações judaicas cooperavam com o UNSCOP, a liderança palestina do Alto Comité Árabe decidia não participar, alegando que a ONU tinha se recusado a tratar da questão da independência e não tinha conseguido separar o problema dos refugiados judeus da Europa da questão palestina. Os direitos naturais dos árabes palestinos eram claros e deveriam ser reconhecidos, disseram, e não podia ser objecto de investigação.

A liderança judaica sustentou diante do Comité Especial que a questão de um estado judeu na Palestina e a imigração não restricta eram indissociáveis. Os árabes, representados pela Liga dos Estados Árabes, buscaram a imediata criação de uma Palestina independente na margem ocidental do rio Jordão.

O Comité Especial terminou seu trabalho em 31/08/47, com seus membros concordando com a questão do término do Mandato, com o princípio da independência e com o papel da ONU. Mas não houve um consenso sobre um acordo para a questão da Palestina. A maioria do Comité (Canadá, Checoslováquia, Guatemala, Holanda, Peru, Suécia e Uruguai) recomendou que a Palestina fosse partilhada entre judeus e árabes, formando um estado árabe e outro judeu, com a internacionalização da cidade de Jerusalém sob a autoridade administrativa da ONU. As três entidades deveriam estar ligadas por uma união económica. O plano da minoria, submetido pela Índia, Irão e Jugoslávia, propôs uma estrutura federal independente compreendendo um estado árabe e outro judeu, com Jerusalém como capital da federação. A Austrália absteve-se de votar em qualquer dos planos apresentados, sustentando que as recomendações extrapolavam a competência do Comité.

O PLANO DE PARTILHA

Após dois meses de intensos debates, a AG aprovou, em 29/11/47, a Resolução 181, que deliberou sobre o Plano de Partilha com União Económica, conforme proposto pela maioria do Comité Especial. O Plano de Partilha, um documento detalhado anexo á resolução, previa o fim do Mandato, a retirada gradual das forças armadas britânicas e a definição de fronteiras entre os dois estados e Jerusalém. Determinava que a criação dos dois estados não deveria ultrapassar a 1°/10/48. A Palestina seria dividida em 8 partes: três que pertenceriam ao estado judeu e três ao estado árabe; a sétima, a cidade de Jaffa, deveria formar um enclave árabe dentro do território judeu; e a oitava parte, Jerusalém, com um regime internacional administrado por um conselho tutelar da ONU.

O Plano também determinou os passos a serem tomados antes da independência, tratando de cidadania, trânsito, união económica e da declaração a ser feita pelo Governo Provisório de cada um dos estados com relação ao acesso aos locais sagrados e aos direitos das minorias. Pela Resolução 181, a AG também criou a Comissão Palestina da ONU, para fazer cumprir suas recomendações e solicitar ao Conselho de Segurança (CS) que adoptasse as medidas necessárias para a implementação do Plano de Partilha.

A Agência Judaica aceitou a resolução apesar de sua insatisfação a respeito de questões como a imigração de judeus europeus e os limites territoriais propostos para o estado judaico. O Plano não foi aceito pelos árabes palestinos e pelos estados árabes sob a alegação de que ele violava o previsto na Carta da ONU, que garante às populações o direito de decidir sobre seu próprio destino. Eles disseram que a AG tinha endossado o Plano sob circunstâncias indecorosas da ONU e que os árabes da Palestina se oporiam a qualquer esquema que defendesse dissecação, segregação ou partilha de seu país, ou que concedesse direitos preferenciais e especiais e condição a uma minoria.

TÉRMINO DO MANDATO BRITÂNICO

A adopção da Resolução 181 foi seguida da eclosão da violência na Palestina. Uma vez que a situação se deteriorava, o CS convocou uma sessão especial da AG para o dia 16/04/48. No dia seguinte, o CS pediu o fim de todas as actividades militares e paramilitares na Palestina e no dia 23 foi criada a Comissão de Trégua, para supervisionar e ajudar no cessar fogo. A AG decidiu dispensar a Comissão Palestina de suas responsabilidades e indicou um mediador encarregado de promover um acordo pacífico em cooperação com a Comissão de Trégua. No dia 20 de maio, o conde Bernadotte, presidente da Cruz Vermelha sueca, foi escolhido pela ONU como mediador.

Em 14/05/48, a Inglaterra renunciou ao Mandato sobre a Palestina e desligou suas forças. No mesmo dia, a Agência Judaica proclamava a criação do Estado de Israel com os limites territoriais estabelecidos no Plano de Partilha. As hostilidades entre as comunidades árabe e judaica imediatamente se intensificaram e no dia seguinte tropas dos países árabes entraram no território para ajudar os árabes palestinos.

Após várias semanas, em 29/04/48 a luta foi suspensa, por intermédio de uma trégua proposta pelo CS, em 29/04/48. A trégua só produziu seus efeitos em 11/06 e foi supervisionada pelo mediador da ONU, com a ajuda de um grupo internacional de observadores militares, que ficou conhecido como Organização de Supervisão da Trégua da ONU (UNTSO). Apesar dos esforços do mediador, não se chegou a qualquer acordo e a luta eclodiu de novo em 8/07/48.

No dia 15 de julho, o CS decidiu que a situação na Palestina constituía uma ameaça à paz. Ordenou um cessar-fogo imediato e declarou o fracasso na construção da paz e exigiu o respeito imediato às medidas previstas no Capítulo VII da Carta da ONU. Na conformidade da resolução, a segunda trégua foi imposta. Naquela época, Israel controlava partes do território adjudicadas ao Estado Árabe pelo Plano de Partilha, assim como a parte ocidental de Jerusalém; e as forças árabes controlavam áreas adjudicadas ao Estado Judeu. Forças egípcias, iraquianas e jordanas tomaram partes de Gaza e da Margem Ocidental do rio Jordão, que incluía Jerusalém Oriental. Mais choques aconteceram em outubro de 1948 e março de 1949, e Israel ocupou outras áreas, algumas adjudicadas ao Estado Árabe e algumas ao Estado Judeu. Em 1950, a Jordânia trouxe a questão da Margem Ocidental (e Jerusalém Oriental) formalmente sob sua jurisdição, mas ainda pendente de solução.

As hostilidades criaram também uma crise humanitária importante, com quase 750.000 palestinos sendo expulsos de suas terras e tornando-se refugiados.

Durante as negociações entre as partes, o conde Bernadotte foi morto a tiros em setembro de 1948 no sector israelita de Jerusalém. Ralph Bunche, dos Estados Unidos, foi indicado Mediador Interino.

Entre fevereiro e julho de 1949, sob os auspícios da ONU, foram assinados acordos de armistícios entre Israel, de um lado, e Egipto, Jordânia, Líbano e Síria de outro. Os acordos que eram semelhantes no geral, aceitavam a instituição do armistício como um passo indispensável para o restabelecimento da paz na Palestina. Eles também esclareciam que o objectivo do armistício não era estabelecer ou reconhecer qualquer direito territorial ou tutelar, reivindicações ou interesses de qualquer das partes.

Em agosto de 1949, o CS pediu que os observadores da UNTSO supervisionassem o armistício. Eles ficaram baseados no Oriente Médio, de acordo com as decisões do Conselho.

Enquanto isto, em 11/05/49, Israel tornava-se membro da ONU. Ao aceitar Israel, a AG levou em consideração as declarações e explicações de Israel, feitas anteriormente diante do Comité Político Ad Hoc da Assembleia, com relação à implementação das resoluções 181 e 194. Tais declarações e explicações, entre outras coisas, referiam-se à internacionalização de Jerusalém, ao problema dos refugiados árabes e às questões de fronteira.

Em sua terceira sessão regular, em 11/12/48, a AG baixou a Resolução 194, que esboçava as formas de solução para o problema da Palestina. Seguindo sugestões contidas no relatório preparado pelo conde Bernadotte para encontrar uma solução para um quadro cada vez mais deteriorado na Palestina, a AG declarou que os refugiados que quisessem retornar as suas casas e viver em paz com seus vizinhos, teriam permissão de retorno em data a ser estabelecida o mais breve possível e que aqueles que preferissem não retornar deveriam receber uma compensação pela propriedade perdida. Pediu ainda a desmilitarização e a internacionalização de Jerusalém e a protecção dos locais sagrados da Palestina e livre acesso a eles.

A Resolução 194 também previa a criação de uma Comissão de Conciliação Tripartite da ONU para a Palestina, que deveria assumir as funções de Mediador da ONU pelo tempo que fosse necessário. A Comissão seria instruída a ajudar as partes a alcançarem um acordo final sobre todas as questões relevantes e a facilitar a repatriação dos refugiados, o reassentamento e sua reabilitação. Por decisão da AG, compunham esta Comissão a França, a Turquia e Estados Unidos. A Comissão de Conciliação tentou resolver os três maiores problemas, que eram a ocupação dos territórios, a questão dos refugiados e a posição de Jerusalém. A conferência realizada em Lausane em abril de 1949, em conversas separadas com os países árabes (Egipto, Jordânia, Líbano e Síria) e Israel, conseguiu um protocolo assinado separadamente por cada lado, concordando em adoptar as fronteiras estabelecidas na Resolução da Partilha como um início de discussão. No entanto, os encontros de 1949 da Comissão terminaram sem conclusão alguma, com os estados árabes condicionando o retorno dos refugiados como o primeiro passo para qualquer discussão e Israel insistindo na questão territorial como prioritária.

Os últimos esforços da Comissão para assegurar o retorno dos palestinos e o estabelecimento do regime internacional para Jerusalém também não tiveram sucesso. Desde 1951, a Comissão vem tentando garantir a total libertação das contas bancárias de refugiados árabes, bloqueadas em Israel. Em 1964, a Comissão completou a identificação dos bens de refugiados e mantém uma lista de tais bens.

Em relatórios periódicos submetidos à AG desde 1952, a Comissão frequentemente chama a atenção para o fato de que seus esforços para avançar na implementação da Resolução 194 dependem de mudanças na postura das partes. As previsões da resolução no que se refere ao direito de retorno dos refugiados palestinos vêm sendo reafirmados pela AG a cada ano desde 1948.

A GUERRA DE 1967 E A RESOLUÇÃO 242

Com a questão da Palestina sem uma solução definitiva, uma paz difícil pontuada por actos de violência e força, foi mantida na região até 1967, quando as questões do Oriente Médio chegaram a um ponto decisivo. Naquele ano, Israel veio a ocupar toda a região do antigo Mandato britânico da Palestina.

O conflito armado eclodiu em 1956, quando, em 29/10, Israel iniciou operações militares contra o Egipto, sendo apoiado depois pela França e Inglaterra. Em atmosfera carregada politicamente, o Egipto tinha nacionalizado o Canal de Suez em julho daquele ano. A crise terminou com um cessar-fogo pedido pela AG em reunião especial, a retirada das forças invasoras e o emprego da UNEF I, Força de Emergência da ONU, a primeira força de paz a ser utilizada pela organização.

A pedido do Egipto, a UNEF I retirou-se em maio de 1967. Em 5/06/67, as hostilidades recomeçaram entre Israel, de um lado, e Egipto, Jordânia e Síria, de outro. Na época foi pedido um cessar-fogo pelo CS que foi aceito pelas partes, Israel tinha ocupado o Sinai, a Faixa de Gaza, a Margem Ocidental, inclusive Jerusalém Oriental, e parte das Colinas do Golan, na Síria.

Uma vez assegurado o cessar-fogo, o CS baixou a Resolução 237 (de 1967), exigindo que Israel garantisse a segurança, o bem-estar e a estabilidade dos habitantes das áreas onde tinham acontecido as operações militares e que facilitasse o retorno das pessoas expulsas. Aos governos dos países envolvidos no conflito foi pedido que respeitassem cuidadosamente os princípios humanitários que governam a protecção de civis em tempos de guerra, conforme estabelecido na IV Convenção de Genebra, de 1949. Em sua quinta reunião de emergência, convocada depois de iniciado o conflito, a AG pediu aos governos e organizações internacionais que enviassem assistência humanitária de emergência para as populações afectadas pela guerra. A AG pediu que Israel revisse todas as medidas adoptadas e que desistisse de qualquer acção futura que pudesse alterar a condição de Jerusalém.

No dia 22/11/67, depois de muitas negociações, o CS aprovou, por unanimidade, a Resolução 242 (1967), que determina os princípios para um acordo pacífico no Oriente Médio. A Resolução diz que o estabelecimento de uma paz justa e duradoura deve incluir a aplicação de dois princípios: "a retirada das forças armadas de Israel dos territórios ocupados no recente conflito" e o "fim de todas as reivindicações ou estado de beligerância e respeito e reconhecimento da soberania, integridade territorial e independência política de cada estado na região e seu direito de viver em paz dentro de fronteiras seguras e reconhecidas, livre de ameaças ou actos de força". A resolução afirma a necessidade de se "alcançar uma solução justa para o problema dos refugiados". O Egipto e a Jordânia aceitaram a Resolução 242 (1967) e considerou a retirada israelita de todos os territórios ocupados na guerra de 1967 como uma pré-condição para as negociações. Israel, que também aceitou a resolução, declarou que as questões da retirada e dos refugiados deveriam ser acordadas somente através de negociações directas com os estados árabes e da conclusão de um tratado de paz abrangente. A Síria rejeitou a acção do Conselho, sustentando que a resolução tinha ligado a questão central da retirada de Israel às concessões exigidas pelos países árabes. A OLP criticou fortemente a resolução que, segundo seu entendimento, limitava a questão da Palestina a um problema de refugiados.

ASILO DE PALESTINOS NO LÍBANO

Cada vez mais o Líbano tornava-se o centro do conflito no Oriente Médio na década de 70. Muitos daqueles que tinham fugido das regiões norte e litorânea da Palestina em 1948, encontraram refúgio nos acampamentos nas cercanias das cidades libanesas de Tiro, Sidon e Beirute. Em 1970, uma outra onda de palestinos chegou da Jordânia e a intranquilidade foi crescendo no sul do Líbano. A situação ao longo da fronteira israelo-libanesa no início de 1972 tinha se deteriorado. Israel, dizendo que estava retaliando as incursões de comandos palestinos em seus territórios, atacou os campos de refugiados no Líbano. A pedido do Líbano, a UNTSO estabeleceu um cessar-fogo ao longo de toda a fronteira.

O sul do Líbano continuava tenso. Em março de 1978, forças israelitas invadiram a região, após uma incursão do comando palestino dentro de Israel. O CS pediu que Israel retirasse suas tropas do território libanês e, a pedido do Líbano, estabeleceu uma Força Interina da ONU (UNIFIL) no Líbano, com um mandato para confirmar a retirada das forças israelitas, restabelecer a paz e segurança e ajudar o governo libanês a restabelecer sua autoridade no sul do país. No entanto, quando os israelitas completaram sua retirada do Líbano, em junho de 1978, eles passaram para as milícias cristãs e outras apoiadas por Israel o controle de suas posições na região da fronteira.

O sul do Líbano permaneceu instável, com constantes trocas de tiros entre as milícias cristãs e as forças israelitas de um lado e elementos da OLP e do Movimento Nacional Libanês, de outro. Os esforços da ONU e dos Estados Unidos levaram a um cessar-fogo de facto, em julho de 1981, e a área permaneceu em relativa calma até maio de 1982. Então, após os atentados a diplomatas israelitas em Londres e Paris, Israel realizou ataques aéreos contra alvos da OLP no Líbano. O conflito eclodiu mais uma vez entre Israel e OLP.

Em 5 de junho, o CS exigiu uma suspensão imediata de todas as actividades militares dentro do Líbano e por toda a fronteira israelo-libanesa. A OLP reafirmou seu compromisso em parar todas as operações militares na fronteira e Israel informou ao Secretário Geral que a resolução do Conselho seria levada ao gabinete israelita. No dia seguinte, 6 de junho, forças israelitas invadiram o Líbano. As posições da UNIFIL no sul do Líbano foram ou destruídas ou ultrapassadas e mais tarde soldados israelitas alcançaram e cercaram Beirute. Continuando a se reunir em junho, julho e agosto de 1982, o Conselho exigiu que Israel levantasse seu bloqueio a Beirute para que os civis da cidade pudessem ser abastecidos. Israel autorizou o emprego de observadores militares da ONU, conhecidos como Grupo Observador de Beirute, para monitorar a situação dentro e fora da cidade.

Em agosto, durante o cerco de Beirute Ocidental pelas forças israelitas, França, Itália e Estados Unidos, a pedido do Governo do Líbano, enviaram à cidade uma força multinacional para ajudar na partida ordenada e segura de integrantes da OLP do Líbano. A evacuação das forças palestinas de Beirute completou-se em 1/09/82 e a força multinacional retirou-se nas duas semanas seguintes.

As tensões cresceram enormemente com o assassinato, em 14/09/82, do presidente eleito do Líbano, Bashir Gemayal. No dia seguinte, unidades de soldados israelitas se dirigiram para Beirute Ocidental. Em 17/09/82, centenas de civis palestinos, inclusive mulheres e crianças, foram massacrados nos campos de refugiados de Sabra e Shatila pelas milícias cristãs libanesas, que entraram na cidade com o apoio das forças israelitas. O CS condenou "o massacre criminoso de palestinos civis em Beirute" e o governo do Líbano exigiu o retorno da força multinacional.

Contingentes da França, Itália e Estados Unidos e mais tarde uma pequena unidade inglesa, voltaram a Beirute no final de setembro de 1982. A força multinacional enfrentou sérios obstáculos em sua tarefa e sofreu pesadas perdas. Itália, Inglaterra e Estados Unidos retiraram seu pessoal no início de 1984, seguidos pela França em 31/03/84, terminando, assim, o esforço multinacional de 19 meses.

Em junho de 1983, choques eclodiram na parte oriental do Líbano entre diferentes facções palestinas, trazendo sofrimento para os civis palestinos. Então, o foco da tensão entre palestinos transferiu-se para o norte do Líbano, nas cercanias da cidade de Trípoli. Finalmente as partes firmaram um acordo que previa um cessar-fogo e a saída do presidente da OLP, Iasser Arafat, e dos militantes armados leais a ele. Em resposta a um pedido dele, o secretário geral decidiu, por razões humanitárias, autorizar o uso da bandeira da ONU nos navios que retirariam os militantes da OLP de Tripoli. A operação de retirada foi realizada em 20/12/83 e milhares de palestinos tiveram que buscar refúgio na Tunísia, Iêmen e outros países. Desde então, a OLP manteve seu quartel-general em Túnis.

Em janeiro de 1985, o governo israelita anunciou que alguns soldados israelitas continuariam a operar na "zona de segurança" no sul do Líbano e a actuar como conselheiros para o chamado "Exército do Sul do Líbano" e permaneceu como uma política de Israel. O CS tem estendido regularmente o mandato da UNIFIL e a força continua a operar no sul do Líbano.

CRESCE O RECONHECIMENTO DOS DIREITOS PALESTINOS

A atenção internacional durante os anos 50 e início dos anos 60 se centrava basicamente no problema dos refugiados palestinos e no conflito entre os estados. Após a guerra de 1967, a questão da Palestina começou a ser compreendida dentro de um contexto mais amplo. Havia um renascimento da actividade de palestinos em busca de seus direitos nacionais. A OLP, que tinha sido criada em 1964, adoptou um novo Estatuto em 1968. O documento declarava que a comunidade internacional não tinha conseguido se desincumbir de suas responsabilidades e conclamava à luta para a conquista dos direitos palestinos.

Em dezembro de 1969, a AG reconheceu que "o problema dos refugiados palestinos árabes era decorrência da negativa a seus direitos inalienáveis, de acordo com a Carta da ONU e com a Declaração Universal dos Direitos Humanos". Em setembro de 1974, 56 estados membros propuseram que "a questão da Palestina" deveria ser incluída como um item da agenda da AG. Eles observaram que a questão da Palestina e a condição e destino do povo palestino não eram submetidos á AG como um item em separado há mais de 20 anos. A proposta foi aceita e a questão da Palestina é, desde então, parte da agenda da AG.

A Resolução 3236, de 22/11/74, reafirmou os direitos inalienáveis do povo palestino, que incluía o direito à autodeterminação sem interferência externa, o direito à independência nacional e soberania e o direito de retorno e propriedade. Desde então, os direitos do povo palestino, conforme expostos pela AG em 1974, têm sido reafirmados a cada ano.

Também em 1974, a AG convidou a OLP a participar de suas sessões na condição de observador, como representante do povo palestino.

Em 1975, a AG se envolveu mais directamente com a questão da Palestina ao criar o Comité sobre o Exercício dos Direitos Inalienáveis do Povo Palestino. O Comité deveria preparar um programa que capacitasse os palestinos de exercerem seus direitos inalienáveis e, em 1976, as recomendações do Comité foram divididas em duas partes: uma referente ao direito de retorno de palestinos às suas casas e bens e a outra que tratava dos direitos a autodeterminação, independência nacional e soberania.

O CS discutiu o relatório do Comité mas não foi capaz de chegar a uma decisão devido ao veto dos Estados Unidos, um membro permanente do Conselho. O Conselho trouxe a questão em outras ocasiões mas sem chegar a uma decisão.

Durante o ano de 1993, o Comité monitorou a situação dos direitos dos palestinos e apresentou suas conclusões à AG e ao CS. Seu programa de seminários, simpósios e outras actividades, ajudou a aumentar a consciência da questão palestina a nível internacional e focalizou seus esforços na necessidade de se alcançar um acordo de paz baseado no exercício dos direitos inalienáveis do povo palestino.

INTIFADAH (O Levante)

No início de dezembro de 1987, após um incidente em Gaza, os palestinos da Cisjordânia e Gaza se rebelaram contra a ocupação israelita. Os palestinos continuaram com sua intifadah (levante) nos anos seguintes, chamando uma atenção internacional sem precedentes para suas aspirações nacionais e para sua oposição manifesta à ocupação.

As condições no território palestino em mais de 20 anos de ocupação, inclusive o confisco de terra, assentamentos para colonos judeus e restrições às liberdades civis, contribuíram para a eclosão da intifadah. Palestinos de todas as camadas sociais - jovens, comerciantes, trabalhadores, mulheres e crianças - desde então vêm se envolvendo em demonstrações públicas, boicotes económicos, greves e protestos com pedras.

O Comité para o Exercício dos Direitos Inalienáveis do Povo Palestino, o Comité Especial para Investigar Práticas Israelitas que Afectam os Direitos Humanos do Povo Palestino e de Outros Povos Árabes dos Territórios Ocupados, e as Agências de Auxílio da ONU para os Refugiados Palestinos no Oriente Próximo (UNRWA), têm seguido a situação muito de perto.

Esses organismos apresentam relatórios sobre as violentas medidas, inclusive o uso de munição verdadeira contra manifestantes e surras punitivas, adoptadas pelas autoridades de ocupação. Bem mais de 1.000 palestinos foram mortos e milhares feridos durante a intifadah. Milhares de palestinos foram detidos, outros tantos transferidos para as prisões de Israel e muitos deportados do território palestino ocupado. Os relatórios descreviam exemplos de maus tratos e tortura na cadeia, uso letal de gás lacrimogénio, uso excessivo de munição verdadeira, surras e outras medidas violentas. As autoridades de ocupação também recorreram cada vez mais a várias formas de represália colectiva, como a demolição de casas, a imposição de prolongados toques-de-recolher e medidas económicas restritivas.

O sistema educacional sofreu uma interrupção, quando escolas e universidades foram fechadas por grandes períodos e o ensino informal foi proibido. Os serviços sociais foram reduzidos e as organizações civis foram proscritas. Segundo diziam os relatórios, milhares de árvores produtivas foram postas abaixo e a colheita destruída. Actos de violência e agressão por parte dos colonos israelitas aumentaram, tornando-se cada vez mais graves. Diante deste quadro, os palestinos tentaram por todos os meios vencer as dificuldades económicas depositando mais confiança em sua própria economia.

O CS, a AG e o secretário-geral respondiam com grande preocupação às medidas adoptadas pelas autoridades de ocupação contra a intifadah. Desde o início do levante, começando com a Resolução 605 (1987), de 22/12/87, do CS, a questão de como garantir a segurança e protecção dos palestinos nos territórios ocupados recebeu especial atenção , nos termos da IV Convenção de Genebra para a Protecção de Civis em Tempos de Guerra.

Várias medidas iniciadas no CS a este respeito não foram adoptadas devido à falta de consenso entre os membros permanentes. No entanto, em 20/12/90, o CS unanimemente solicitou ao secretário-geral que efectuasse novos esforços para monitorizar e observar a situação dos civis palestinos vivendo sob ocupação e pedia que Israel aplicasse a IV Convenção de Genebra a todos os territórios ocupados. Israel, no entanto, rejeitou a aplicabilidade legal da Convenção, enquanto afirmava que a respeitava de facto.

BUSCA POR UM ACORDO DE PAZ

Durante os anos 70 e 80, foram realizados esforços com e sem a ONU para retomar e concluir um processo de paz, com o objectivo de resolver o beco sem saída diplomático do Oriente Médio e alcançar uma paz abrangente na esteira da guerra israelo-árabe de 1973. Imediatamente após a eclosão das hostilidades, em outubro de 1973, o CS unanimemente aprovou a Resolução 338, pedindo uma trégua imediata e o fim de toda a actividade militar. A resolução pedia que as partes começassem a implementar a Resolução 242 "em todas as suas partes" imediatamente após o cessar-fogo. Também conclamava as partes a iniciarem imediatamente e durante o cessar fogo, negociações para o estabelecimento de uma paz justa e duradoura no Oriente Médio.

Em dezembro de 1973, realizou-se uma Conferência Internacional de Paz em Genebra, sob o patrocínio da ONU e com a participação da União Soviética e Estados Unidos. Egipto, Israel e Jordânia também participaram mas a Síria se recusou a participar. Após três reuniões, a Conferência foi suspensa por tempo indeterminado mas concordava que o trabalho deveria continuar por intermédio de um Grupo Militar de Trabalho.

O Grupo desempenhou um papel importante na busca de acordos entre Israel e Egipto sobre a retirada dos exércitos, em janeiro de 1974 e outubro de 1975. Também se envolveu na conclusão de um acordo entre a Síria e Israel para retirada de tropas, em maio de 1974. Esses acordos foram cumpridos com a assistência das forças de paz da ONU: UNEF II, no sector Egipto-Israel, da Força Observadora da Retirada da ONU (UNDOF), no sector Israel-Síria.

De 1974 a 1977, foram realizados esforços em vários níveis para promover a retomada do processo de negociação. O CS repetidas vezes solicitou às partes que implementassem a Resolução 338. Pedidos para retomar a Conferência de Paz de Genebra foram feitos diversas vezes pela AG. No início de 1977, após uma visita ao Oriente Médio, o secretário-geral relatou ao CS que diferenças fundamentais entre as partes tinham impedido um acordo sobre a retomada da Conferência. A dificuldade mais imediata tinha sido quanto à participação da OLP, que havia sido rejeitada por Israel.

Em novembro de 1977, surgiu um novo elemento na situação do Oriente Médio, quando o presidente egípcio, Anwar al-Sadat, visitou Jerusalém. Como consequência, abriram-se negociações directas entre Egipto e Israel, com a mediação dos Estados Unidos, que levaram à assinatura, em setembro de 1978, de dois esboços de acordos de paz, conhecidos como os Acordos de Camp David. Apesar da forte oposição da maioria dos países árabes e da OLP, os acordos resultaram na assinatura de um tratado de paz entre os dois países em março de 1979. O tratado levou á retirada do exército israelita do Sinai em abril de 1982.

Em 1/09/82, depois da invasão do Líbano por Israel e da retirada dos militantes da OLP de Beirute, o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, pediu um governo autónomo para os palestinos dos territórios ocupados, em associação com a Jordânia, dizendo que essa associação oferecia a melhor oportunidade de "um paz durável, justa e permanente". Ele também pediu um congelamento na construção de novos assentamentos israelitas. Sua iniciativa de paz estava baseada na fórmula "paz para a terra", das resoluções 242 e 338 do CS.

Naquele mesmo mês, a 12a. Conferência de Cúpula da Liga dos Estados Árabes, realizada em Fez, no Marrocos, fazia uma declaração pedindo a retirada de Israel dos territórios ocupados desde 1967, o desmantelamento dos assentamentos israelitas nos territórios ocupados, reafirmava o direito palestino à autodeterminação e pedia o estabelecimento de um estado palestino independente depois de um período de transição sob o controle da ONU. A Declaração de Fez também pedia que o CS garantisse a paz "entre todos os estados da região, inclusive o estado palestino independente". Mais tarde, naquele mesmo ano, a AG aceitou o plano de paz árabe.

Enquanto isso, a AG, preocupada com que uma solução justa para a questão da Palestina não tinha sido ainda alcançada, decidiu, em 1981, convocar uma conferência internacional para discutir a matéria. A Conferência Internacional sobre a Questão da Palestina realizou-se no escritório da ONU em Genebra, de 29/08 a 07/09/83. Dela participaram representantes de 137 estados - sendo 20 como observadores - assim como da OLP. Esta iniciativa não recebeu o apoio de todas as partes: Israel, Estados Unidos e outros países expressaram sua oposição à realização da Conferência. A Conferência aprovou por aclamação uma Declaração sobre a Palestina e um Programa de Acção para Conquista dos Direitos Palestinos. O programa recomendava medidas a serem tomadas pelos estados, pelos órgãos da ONU e pelas ONG's. A Conferência também concluiu ser essencial que uma conferência internacional de paz para o Oriente Médio fosse realizada, sob patrocínio da ONU, com a participação em igualdade de condições de todas as partes envolvidas no conflito israelo-árabe.

Ainda naquele mesmo ano, a AG endossou a Declaração e acolheu o pedido da Conferência de Genebra para a realização de uma conferência internacional de paz para o Oriente Médio. Durante os anos 80, a AG reafirmou a convocação para a realização da conferência proposta.

Em dezembro de 1988, a AG, reunindo-se em Genebra para ouvir uma declaração do presidente da OLP, Iasser Arafat, expressou um apoio sem precedentes para a realização da conferência de paz proposta. A Resolução 43/176 da AG, aprovada por 138 a 2, com duas abstenções, convocou a realização da Conferência Internacional de Paz no Oriente Médio, sob patrocínio da ONU, com a participação de todas as partes envolvidas no conflito, inclusive a OLP em pé de igualdade, e os 5 membros permanentes do CS, e tinha por base as resoluções 242 e 338 e os legítimos direitos nacionais do povo palestino, principalmente o direito à autodeterminação.

Esta reunião da AG foi realizada depois de uma reunião importante, em novembro de 1988, do Conselho Nacional Palestino (PNC), na Argélia. Motivado em parte pelo afastamento da Jordânia de todos os vínculos administrativos e legais com a Cisjordânia, o PNC emitiu dois documentos inovadores. O primeiro foi um Comunicado Político que afirmava a determinação do PNC de buscar um acordo político abrangente sobre a questão da Palestina dentro dos princípios da Carta e das resoluções da ONU; o segundo era a Proclamação de Independência do Estado da Palestina, no qual o PNC anunciava a criação do Estado da Palestina, com Jerusalém como sua capital, na conformidade das determinações do direito internacional, inclusive da Resolução 181 da AG, que tinha deliberado a partilha da Palestina em um estado árabe e outro judeu. Com estes dois documentos, a OLP reconhecia, de fato, o Estado de Israel. Arafat afirmou isto explicitamente em dezembro, perante a AG em Genebra, reconhecer "o direito de todas as partes envolvidas no conflito do Oriente Médio de existir em paz e segurança ... inclusive os Estados da Palestina, Israel e outros vizinhos, de acordo com a Resolução 242."

Várias propostas foram apresentadas em 1989: Israel adoptou uma iniciativa de paz, baseada em suas posições anteriores, e que incluía eleições; o Egipto propôs os princípios de conexão com um possível processo de paz e com qualquer que fosse o resultado das eleições nos territórios palestinos ocupados; e o secretário de estado americano, James Baker, apresentou sua resposta ao plano israelita, que continha quatro princípios para os avanços do processo de paz no Oriente Médio, princípios que eram baseados nas resoluções 242 e 338, do CS, que não previam o controle permanente da Cisjordânia e Faixa de Gaza por Israel ou uma entidade palestina independente. Por seu turno, o CS concordou, em uma declaração proferida por seu presidente em 20/12/90, que uma conferência internacional, na época apropriada, devia facilitar os esforços para se alcançar um acordo negociado para o conflito israelo-árabe e uma paz duradoura.

Em 1991, mudanças globais como o fim da guerra fria, os ajustamentos da política externa das grandes potências e a Guerra do Golfo com suas consequências, também afectaram a situação no Oriente Médio. O processo de negociação foi retomado a sério no mês de outubro, com a convocação da histórica Conferência de Paz para Oriente Médio, em Madrid, sob a presidência conjunta dos Estados Unidos e União Soviética. Um representante do secretário geral da ONU participou do evento como observador.

A fórmula das modalidades do processo de paz era complicada e transparente, pois, a pedido de Israel, as negociações deveriam ser directamente entre as partes, enquanto que, ao mesmo tempo, inaugurava-se o processo com a aparência de uma conferência internacional. Isto abriu caminho para uma negociação bilateral com Israel e estados árabes (Líbano, Jordânia e Síria) e os palestinos, que estavam incluídos na delegação palestino-jordana. Além disso, em janeiro de 1992, iniciaram-se negociações multilaterais simultâneas sobre os aspectos regionais de várias questões por todos os participantes e outros estados interessados. E, tendo em vista que a ONU não era participante, as bases da conferência foram as resoluções 242 e 338, do CS.

Em 1992, a ONU foi convidada pelos co-patrocinadores, Estados Unidos e Federação Russa (antiga União Soviética), a participar das negociações multilaterais como participante efectivo. O secretário-geral indicou, em 1993, Chinmaya Gharekhan como seu representante especial nas conversações multilaterais no Oriente Médio, cuja tarefa era coordenar o papel da ONU nos Grupos de Trabalho sobre o Controle de Armas e Segurança Regional, Água, Meio-Ambiente, Desenvolvimento Regional e Económico e Refugiados.

Em meados de 1993, parecia que as conversas bilaterais tinham se complicado em várias questões políticas e de segurança. Parecia não haver progresso na solução de questões importantes entre os israelitas e palestinos, Síria, Jordânia e Líbano, respectivamente. No entanto, sem que a maioria soubesse, senão um pequeno grupo, conversas secretas entre Israel e OLP aconteciam na Noruega.

No final de 1992, a secreta "conexão Oslo", originalmente incentivada por um cidadão norueguês juntamente com um funcionário da OLP e um intelectual israelita, avançou sob a orientação do ministro norueguês do Exterior, Johan Joergen Holst. As conversações de Oslo terminaram ao final de agosto de 1993 e a notícia de um acordo israelo-palestino foi revelado a um mundo atónito e esperançoso.

Em 10/09/93, Israel e a OLP trocaram correspondências de mútuo reconhecimento. A OLP reconhecia o direito de Israel existir e Israel reconhecia a OLP como representante do povo palestino. Três dias mais tarde, em 13/09/93, em uma cerimónia na Casa Branca, Washington, na presença do presidente Bill Clinton e do ministro russo do Exterior, Andrei V. Kozyrev, representantes dos israelitas e da OLP assinaram a Declaração de Princípios Disposições de Governo Autónomo Provisório. Após a assinatura do documento, o primeiro-ministro israelita, Itzhak Rabin, e o presidente da OLP, Iasser Arafat, apertaram as mãos.

O acordo histórico abriu caminho para um governo autónomo palestino, prevendo a retirada de Israel e a criação de um governo palestino autónomo provisório, primeiro na Faixa de Gaza, e na Cisjordânia, na cidade de Jericó e, mais tarde, em toda a Cisjordânia. Outras questões delicadas, futuras fronteiras e o status da Palestina seriam objecto de futuras negociações, que deveriam se iniciar em até dois anos após a retirada israelita da Faixa de Gaza e da região de Jericó. Esta retirada marca o início de um período interino de 5 anos, ao fim dos quais espera-se que as negociações levem a um acordo permanente, com a implementação das resoluções 242 e 338, do CS.

A assinatura da Declaração de Princípios foi bem recebida pelo secretário geral da ONU, Boutros Boutros-Ghali. Um dos efeitos práticos do acordo foi a intensificação do papel operacional da ONU no fornecimento de assistência ao povo palestino.

Enquanto o envolvimento crescente da ONU para implementar a paz se torna mais claro à medida que a década avança, não há dúvida de que a comunidade internacional tem demonstrado uma grande vontade de apoiar e participar da nova era nas relações israelo-palestinas. Isto é visto não só como uma resposta mundial às necessidades económicas e de fomento do povo palestino, mas também como uma resposta do corpo político que é a AG.

Na sessão de 1993 da AG, a resolução que durante muitos anos convocou, de uma forma ou de outra, a reunião de uma conferência de paz sob os auspícios da ONU, foi substituída por outra intitulada "Acordo de Paz da Questão Palestina", que expressava apoio à Declaração de Princípios e reafirmava vários dos princípios que devem nortear um acordo final. A resolução reafirma a responsabilidade permanente da ONU em relação á questão da Palestina e pede que o secretário geral continue a envidar esforços com as partes para a promoção da paz na região. A resolução intitulada "Processo de Paz do Oriente Médio", incorporando os novos avanços, foi patrocinada por mais de 100 países e recebeu uma maioria sem precedentes. Ao mesmo tempo, a resolução sobre a intifadah, que a AG vinha adoptando a cada ano desde 1988 foi adiada.

Após negociações extensas e difíceis a respeito da implementação da Declaração de Princípios, Israel e a OLP deram seu primeiro passo mais importante em 4/05/94, no Cairo, com a conclusão de um acordo sobre a autonomia de Gaza e Jericó. O acordo previa a retirada de Israel da Faixa de Gaza e da área de Jericó e, pela primeira vez, garantia aos palestinos medidas de autonomia. Os palestinos obtiveram o controle de sua política interna e questões diárias, inclusive eleições, recolhimento de impostos e aprovação e cumprimento da legislação; foi criada uma Autoridade Palestina, com 24 membros, gozando de poderes legislativos e executivos. Os palestinos também poderiam criar sua própria força policial de mais de 9.000 guardas.

O acordo marcou o começo de um período interino de 5 anos para a negociação de uma solução para a condição do território palestino ocupado.



II – Questões



REFUGIADOS PALESTINOS

As hostilidades que se seguiram à criação do Estado de Israel em 1948, resultaram em quase 750.000 refugiados palestinos. A maior parte fugiu para a Margem Ocidental, ocupada pela Jordânia. Outros foram para a Faixa de Gaza, ocupada pelo Egipto, para a Jordânia, Líbano, Síria, Egipto e até para mais longe. A guerra de 1967 resultou ainda em outro deslocamento de mais de 500.000 palestinos. Destes, cerca de 240.000 eram refugiados que estavam sendo expulsos pela segunda vez.

Em novembro de 1948, a AG baixou sua primeira resolução, que previa assistência aos refugiados palestinos. Em resposta a um relatório do Mediador Interino, Ralph Bunche, de que "a situação dos refugiados agora é crítica", foi criada a agência de auxílio aos refugiados palestinos, a UNRPR. Durante sua breve existência, ela canalizou a assistência de emergência aos refugiados da Palestina através das agências de voluntariado internacionais.

Em 11/12/48, a AG declarava na Resolução 194, que os refugiados que quisessem retornar às suas casas e viverem em paz com seus vizinhos deveriam ter a permissão de fazê-lo em data a ser marcada o mais rápido possível e que aqueles que não quisessem retornar deveriam ser compensados pelos bens perdidos. A Resolução criava a Comissão de Conciliação para a Palestina, que deveria, entre outras coisas, facilitar a repatriação dos refugiados, o reassentamento e a reabilitação económica e social. Os esforços da Comissão para garantir o retorno seguro dos palestinos não obtiveram resultados.

Quando as esperanças de um retorno imediato dos refugiados às suas casas extinguiram-se, a AG tomou providências mais duradouras. Em dezembro de 1949, foi criada a UNRWA para substituir a UNRPR e actuar na questão dos refugiados em colaboração com os governos locais.

Em maio de 1950, a UNRWA, a partir de seus escritórios em Beirute, cuidou das operações em conjunto com as agências internacionais de voluntariado. Em seus primeiros anos de trabalho, a UNRWA concentrou-se em fornecer ajuda sob a forma de alimento, abrigo e roupas. A Agência adaptou seu programa de anos para o atendimento das necessidades dos refugiados.

Hoje, a educação para as crianças palestinas absorve cerca de 50% dos fundos da Agência; mais de 18% dos gastos da UNRWA são destinados aos serviços de saúde e 11% aos serviços sociais e de ajuda. Mais de 390.000 crianças estavam inscritas nas 641 escolas fundamental e preparatória da UNRWA no período escolar 1992-93. Em 1993, a UNRWA desembolsou US$306 milhões para seu programa regular e especial.

Em 1993, a UNRWA atendeu a mais de 2.8 milhões de refugiados registrados - quase a metade da população palestina estimada. Menos de 1/3 daqueles registrados vivem em campos de refugiados nos territórios ocupados e em países árabes. Os serviços de auxílio da Agência providenciam alimentos, cobertores, roupas e pequenas quantidades em moeda corrente para aqueles que não têm a possibilidade de ganhar o próprio sustento. Sob a orientação da Organização Mundial de Saúde, a UNRWA fornece serviços médicos preventivos, curativos, de reabilitação. A educação está ligada à UNESCO, a agência para a educação da ONU

O papel humanitário fundamental da UNRWA ganhou mais importância nos anos recentes, em razão dos acontecimentos no Líbano e da intifadah na Cisjordânia e Faixa de Gaza, assim como pela Guerra do Golfo de 1991, e os prolongados bloqueios do território palestino ocupado desde então.

Em meados dos anos 70, o início da guerra civil no Líbano resultou em elevadas perdas e sofrimento para libaneses e palestinos e a UNRWA foi forçada a mudar seu centro de actividades para Beirute. A emergência libanesa, provocada pela invasão israelita de 1982, criou as condições de trabalho mais difíceis para a Agência e levou à criação da operação de emergência para lidar com a crise enfrentada pelos palestinos no país. No final dos anos 80, o conflito em Beirute tinha provocado considerável destruição nas instalações da UNRWA e nos abrigos de refugiados.

A intifadah, com seus consequentes embates, assim como toques-de-recolher, fechamento de áreas militares e outras medidas punitivas impostas pelas autoridades israelitas, determinou perdas económicas e comerciais importantes no território. A Agência ampliou as destinações de seu fundo de emergência para financiar urgentemente actividades necessárias no território ocupado.

O número de funcionários estrangeiros servindo a UNRWA no território ocupado palestino aumentou de 15 para 51 entre 1988 e 1993. Eles significavam uma medida de protecção internacional, ajudando a relaxar situações tensas, evitando maus tratos a pessoas vulneráveis, reduzindo a interferência no movimento de ambulâncias e facilitando o fornecimento de comida e ajuda médica durante os toques-de-recolher.

Depois da assinatura da Declaração de Princípios, em 13/09/93, a UNRWA, reconhecendo que a solução do problema dos refugiados é uma das questões a serem tratadas mais tarde, dentro da estrutura de uma solução permanente nas negociações sobre a Cisjordânia e Gaza, apresentou um nova e importante iniciativa, o Programa de Implementação da Paz. As prioridades do Programa devem melhorar a vida económica e social dos refugiados palestinos na Cisjordânia e em Gaza. Os projectos incluem construção e desenvolvimento social, empréstimos, programas de treinamento, geração de impostos, melhoria das escolas e dos centros de actividades para mulheres e jovens e tratam dos complexos problemas de saúde ambiental. A UNRWA trabalha em cooperação com o Bando Mundial, outras agências da ONU e com ONG´s locais e internacionais e com as autoridades palestinas. Todas essas actividades buscam contribuir para a sustentação deste momento de mudança positiva que se iniciou com a assinatura da Declaração de Princípios.

A UNRWA sempre reconheceu que é uma agência temporária e ad hoc. No contexto da Declaração de Princípios e do surgimento da autoridade palestina, que terá competência em todos os sectores nos quais a UNRWA opera, a Agência, com sua equipe palestina de cerca de 20.000 funcionários, está se centrando em regiões nas quais os palestinos logo assumirão a responsabilidade.

O Comissário Geral da UNRWA, falando no Comité de Política Especial e Descolonização da AG, em novembro de 1993, afirmou que, apesar das enormes responsabilidades da UNRWA nos próximos anos, "nós temos um sentimento concreto de que estamos chegando a um fim na tarefa que nos foi confiada há 40 anos atrás. A partir de agora, nossa preocupação principal será completar esta tarefa da forma mais proveitosa possível."

ASSENTAMENTOS ISRAELITAS EM TERRITÓRIO PALESTINO OCUPADO

No início de 1971, houve evidências do surgimento de uma política israelita de construir assentamentos em territórios árabes e palestino ocupados desde 1967. A partir de 1977, a construção dos assentamentos foi acelerada e continua até esta data. Hoje, existem cerca de 120.000 colonos na Cisjordânia, não incluindo Jerusalém Oriental, e 4.000 na Faixa de Gaza.

Ao levar a questão em março de 1979, o CS reafirmou a aplicabilidade da IV Convenção de Genebra, que proíbe assentamentos em território ocupado, e declarou que a política e prática israelitas em relação aos asssentamentos não tinham "validade legal e se constituem em séria obstrução para se conseguir uma paz abrangente, justa e duradoura no Oriente Médio". O Conselho pediu a Israel que não adoptasse qualquer medida que pudesse alterar a condição legal, a natureza geográfica e a composição demográfica dos territórios árabes ocupados desde 1967. Pediu, ainda, que Israel não transferisse parte de sua própria população para os territórios ocupados. Criou ainda uma Comissão Tripartite do CS para examinar a situação referente aos assentamentos israelitas.

Em julho de 1979, o Conselho deplorou fortemente a falta de cooperação de Israel com a Comissão na preparação de seu relatório, e enfatizou a necessidade de enfrentar a questão dos assentamentos existentes. Conclamou "o governo e o povo de Israel a interromperem, rapidamente, a criação, construção e planeamento de assentamentos".

Em junho de 1980, após as tentativas de assassinato contra as três maiores cidades palestinas, o Conselho pediu que os estados não fornecessem a Israel qualquer tipo de assistência que pudesse ser utilizada especificamente em conexão com os assentamentos israelitas. Havia uma grande preocupação uma vez que os colonos judeus nos territórios ocupados tiveram permissão de portar armas, o que os capacitava a praticar crimes contra a população árabe civil.

A AG, em 1983, solicitou que o secretário geral preparasse um relatório abrangente sobre o impacto actual e futuro dos assentamentos israelitas sobre as condições de vida dos palestinos. O relatório de 1984 do secretário geral sobre o impacto directo dos assentamentos judaicos concluiu que a política israelita de ocupação, em particular a criação de assentamentos, tinha um impacto negativo sobre a vida social e económica dos palestinos nos territórios ocupados. Relatórios posteriores chegaram a estas mesmas conclusões.

Em 1992, após a chegada ao poder do Partido Trabalhista, houve esperança de uma alteração significativa na política de assentamentos. A plataforma do Partido prometia que novos assentamentos não seriam criados e que os existentes não seriam expandidos, salvo aqueles da "Jerusalém Maior", do Vale do Jordão e das Colinas do Golan. Os assentamentos nestas duas últimas regiões eram considerados "assentamentos de segurança", porque se opunham aos "assentamentos políticos" que tinham sido criados dentro e em volta dos centros populacionais palestinos. Mas, além das regiões mencionadas, o novo governo continuou às voltas coma construção ou acabamento de cerca de mais 11.000 novas unidades dentro dos territórios, com a capacidade de abrigar 50.000 novos colonos israelitas. A área de Jerusalém Maior, que actualmente abrange de 100 milhas quadradas irradiando-se da Cidade Velha, continua a se aberta para assentamentos.

A Declaração de Princípios de 13/09/93, afirma que a questão dos assentamentos deve Ter a posição de negociação permanente, que devem começar no início do terceiro ano depois do começo do período interino. Neste meio tempo, Israel, terá autoridade administrativa e legal sobre os assentamentos e seus habitantes, e será responsável por sua segurança.

A POSIÇÃO DE JERUSALÉM

A Resolução 181, da AG, sobre a partilha, previa uma Jerusalém desmilitarizada como uma entidade separada, sob a égide do Conselho Tutelar da ONU, que esboçaria um estatuto para Jerusalém e indicaria um governador. Haveria eleição directa para uma legislatura. Este estatuto permaneceria em vigor por 10 anos quando então seria devidamente examinado pelo Conselho Tutelar, com a participação dos cidadãos através de um referendo.

As hostilidades que se seguiram impediram a implementação da resolução. Israel ocupou o sector ocidental de Jerusalém e a Jordânia ocupou o sector oriental, inclusive a Cidade Velha. Desta forma, acabou nascendo uma divisão de Jerusalém de facto.

Mas, pela Resolução 194, de 11/12/48, a AG reafirmou o princípio da internacionalização e dos direitos existentes. Os estados árabes, recusando-se a reconhecer Israel, não aceitaram. Israel também ignorou a resolução e estendeu sua jurisdição para a parte de Jerusalém que tinha sido ocupada. Em 23/10/50, Israel declarou Jerusalém sua capital e estabeleceu órgãos governamentais na parte ocidental da cidade. A Jordânia, por seu lado, caminhou no sentido de formalizar seu controle sobre a Cidade Velha; no entanto, a legislação jordana salientava que esta acção não prejudicava o acordo final da questão palestina.

A guerra de junho de 1967 alterou radicalmente a situação. Como consequência, Israel ocupou Jerusalém Oriental e a Cisjordânia. Desde então, várias mudanças demográficas e físicas foram introduzidas e tanto a AG como o CS em várias resoluções têm declarado inválidas as medidas adoptadas por Israel para mudar a condição de Jerusalém. A Resolução 252/68, do CS, é explícita neste particular. Israel foi convocada a, urgentemente, "revogar todas as medidas já adoptadas e a desistir imediatamente de agir no sentido de modificar a condição de Jerusalém". Essas duas posições foram reafirmadas pelo CS diversas vezes.

Quando Israel começou a actuar no sentido de unificar sua capital, o CS baixou a Resolução 476/80. Como Israel não cumprisse as determinações da resolução, o CS baixou a Resolução 478/80, na qual reiterava sua posição de que todas as acções que alteravam a condição da cidade eram nulas e sem efeito e pedia que os países que tinham representações diplomáticas em Jerusalém se retirassem de lá. A AG também considerou a acção de Israel uma violação ao direito internacional, o qual não interferia na aplicabilidade continuada da IV Convenção de Genebra. Esta compreensão, afirmada pela AG em dezembro de 1980, foi reafirmada nos anos seguintes.

Durante os anos 80, as várias resoluções da ONU trataram da questão de Jerusalém, no sentido da inadmissibilidade de aquisição de território pela força e da aplicabilidade da IV Convenção de Genebra para os territórios palestinos ocupados por Israel desde 1967. Jerusalém foi considerada pela AG e pelo CS como parte dos territórios ocupados.

Mais recentemente, como a comunidade internacional, e em particular o CS, continuasse preocupada com a questão da Palestina, duas resoluções sobressaem como acções importantes do CS. A primeira é a Resolução 672/90, baixada em 12/10/90, após a violência ocorrida na Haram al-Sharif, em Jerusalém, onde a mesquita de Al Aqsa, o terceiro templo mais sagrado do Islam, foi ocupada. O Conselho, depois de condenar "principalmente os actos de violência cometidos pelas forças de segurança israelitas, que resultaram em mortos e feridos", exigiu que Israel "cumprisse fielmente suas obrigações e responsabilidades legais previstas na Convenção de Genebra, referente à Protecção de Civis em Tempos de Guerra, de 12/08/49, que se aplica a todos os territórios ocupados por Israel desde 1967".

A aplicabilidade da IV Convenção de Genebra à Jerusalém foi reafirmada pelo CS em 20/12/90, quando expressou grave preocupação com a deterioração da situação "em todos os territórios palestinos ocupados por Israel desde 1967, inclusive Jerusalém", e pediu que Israel a cumprisse.

Hoje, a população judaica oficialmente registrada da Jerusalém Oriental anexada, é de cerca de 160.000 e ultrapassa a população palestina que se conta em cerca de 155.000. O Departamento de Estado americano observa em seu último relatório ao Congresso dos Estados Unidos que o governo israelita não adoptou qualquer medida para suspender ou reduzir a construção em Jerusalém Oriental.

Pelos termos da Declaração de Princípios sobre as Negociações para um Governo Autónomo Provisório, assinado por Israel e OLP em 13/09/93, a questão de Jerusalém deve ser objecto de negociações permanentes no começo do terceiro ano do período provisório.

Em sua mais recente sessão, em dezembro de 1993, a AG determinou, mais uma vez, que a decisão de Israel de impor suas leis, jurisdição e administração sobre a Cidade Sagrada de Jerusalém era ilegal e, portanto, nula e sem efeito.

OS DIREITOS HUMANOS NOS TERRITÓRIOS OCUPADOS

Pela primeira vez, o CS expressou sua preocupação com os direitos humanos da população civil nos territórios ocupados por Israel durante 1967, em sua Resolução 237 (1967), que, entre, outras coisas, recomendava aos governos dos países envolvidos o respeito fiel aos princípios humanitários previstos na IV Convenção de Genebra, de 1949. A Convenção, no que se refere à protecção de civis em tempo de guerra, proíbe a transferência forçada de habitantes de um território ocupado e a migração dentro do território da população civil do poder ocupante. A Convenção também trata de outros assuntos, como o tratamento de pessoas protegidas de um território ocupado e das que estejam presas; proíbe a imposição de penas colectivas. Israel é parte da Convenção.

Em dezembro de1968, a AG criou um Comité Especial, composto por três membros, para investigar práticas israelitas que violavam os direitos humanos do povo palestino e de outros povos árabes dos territórios ocupados, e pediu que apresentasse relatórios sempre que surgisse a necessidade. O governo israelita, desde o início, se recusou a dar permissão para que o Comité Especial visitasse os territórios ocupados para cumprir com a obrigação de investigar. Israel alegou que a resolução criando o Comité Especial era discriminatório e que tentou descaracterizar o Comité.

Desde 1970, o Comité Especial tem apresentado à AG relatórios anuais, e, a partir de 1989, eles passaram a ser complementados com dois relatórios periódicos adicionais. Sem acesso direito aos territórios ocupados, os membros decidiram basear seus relatórios em entrevistas feitas durante visitas aos países vizinhos, e assim avaliar a situação dos direitos humanos nos territórios ocupados. Os territórios considerados pelo Comité Especial são Cisjordânia, inclusive Jerusalém Oriental, a Faixa de Gaza e o Golan sírio ocupado.

Os relatórios documentaram a situação dos direitos humanos nos territórios ocupados, inclusive incidentes ligados à intifadah, administração de justiça, tratamento dos detidos, dos civis, medidas contra as liberdades fundamentais e as actividades dos colonos israelitas que violavam a legislação internacional.

Eles afirmavam que, principalmente na última década, Israel continuou com sua política de anexação de facto, por intermédio de medidas como a construção ou expansão de assentamentos, confisco de propriedades, transferência de cidadãos israelitas para os territórios ocupados, deportação de palestinos e o incentivo ou constrangimento para que os palestinos abandonassem sua pátria. Tais acções, segundo os relatórios, violaram as obrigações de Israel como membro participante da IV Convenção de Genebra.

O relatório do Comité Especial de novembro de 1993, que abrange o período se setembro/92 a agosto/93, sustenta energicamente que, apesar de o processo de paz continuar, houve uma piora sistemática da situação dos direitos humanos nos territórios ocupados. Durante o período em questão, segundo o relatório, a população civil continuou a sofrer pesadas perdas em razão das medidas empregadas pelas autoridades israelitas para reprimir a intifadah. No mesmo período, foram relatados perdas cada vez maiores de vidas, principalmente entre crianças, resultado em grande parte do uso continuado de unidades secretas, do relaxamento das normas para fogo aberto e do uso crescente de munição de verdade.

Ainda de acordo com o relatório, a tensão física e psicológica que a população dos territórios ocupados suporta formou o ingrediente básico para uma série de medidas repressivas sem precedentes tomadas pelas autoridades israelitas no ano passado. No final de 1992, o exército começou a realizar novas formas de punição colectiva, que consiste na destruição de bairros inteiras com artilharia pesada durante buscas de pessoas procuradas. Várias pessoas inocentes foram deixadas sem tecto, como resultado das buscas, que tinham por objectivo capturar um punhado de fugitivos.

O aumento da violência nos territórios ocupados e em Israel levou as autoridades israelitas, em 31/03/93, a imporem um bloqueio total dos territórios ocupados. O bloqueio trouxe grandes sofrimentos para os palestinos e privou cerca de 120.000 deles dos meios de sobrevivência. Houve um impacto negativo na situação da saúde nos territórios ocupados, uma vez que a maior parte das instituições médicas que atendem os palestinos está localizada em Jerusalém. Estudantes foram impedidos de ir às aulas nos locais onde não residem e mais de 25% da população estudantil não conseguiu se registrar a tempo nas escolas e universidades. O acesso aos locais sagrados para muçulmanos e cristãos também foi afectado pelo bloqueio.

Além disso, o relatório observa que a população palestina dos territórios ocupados sistematicamente tem negado o acesso às fontes de água. A política deliberada de pressão económica, tal como destruição de árvores, embaraço administrativo e fiscalização de impostos, continuou. A administração da justiça caracteriza-se pela falta do processo legal devido e por uma frequente ausência de salvaguardas legais para a população árabe. A prática da tortura e de maus tratos durante os interrogatórios e depois da sentença continuou.

O relatório também expressou preocupação com a deportação, por Israel, em dezembro de 1992, de mais de 400 palestinos que passaram o ano seguinte vivendo em condições sub-humanas e insalubres nas fileiras militares no sul do Líbano, antes de serem repatriados em dezembro de 1993. Esta acção foi energicamente condenada pelo CS, que reafirmou a aplicabilidade da IV Convenção de Genebra aos território palestino ocupado e exigiu que Israel garanta a segurança e o retorno imediato de todos os deportados.

Em fevereiro de 1993, pela primeira vez a Comissão de Direitos Humanos da ONU decidiu indicar um Enviado Especial para verificar as violações aos direitos humanos nos territórios árabes ocupados, inclusive a Palestina. Em setembro de 1993, René Felber, o ex-presidente da Confederação Suíça, foi escolhido como Enviado Especial. Ele foi convidado a visitar os territórios ocupados em janeiro de 1994 - a primeira pessoa com um mandato oficial da Comissão dos Direitos Humanos que obteve tal permissão - e foi capaz de conversar livremente com as pessoas que ele quis ver. Em relatório de janeiro de 1994, o Enviado Especial pediu que as autoridades palestinas e israelitas, como questão de prioridade, "adoptem medidas para conter a violência, que pode representar a mais séria ameaça ao processo de paz".

Mas, a violência eclodiu de novo: em 25/02/94, a morte de 30 muçulmanos dentro da Mesquita de Ibrahim, no Hebron, por um colono israelita, dando origem a ataques contra colonos por palestinos, foi universalmente condenada e trouxe grande preocupação quanto ao futuro do processo de paz, renovando pedidos para alguma forma de protecção internacional para os palestinos.

Reagindo ao massacre, o CS, em 18/03/94, exigiu medidas que garantissem a segurança e protecção de civis palestinos nos territórios ocupados, inclusive a presença internacional temporária. Condenando fortemente o massacre, o CS exigiu que Israel continue a adoptar medidas, inclusive o confisco de armas, que impeçam actos de violência por parte de colonos judeus.

A ASSISTÊNCIA DA ONU

É consenso que a busca de um acordo abrangente, justo e duradouro no Oriente Médio, deva ser acompanhado de um papel efectivo por parte da comunidade internacional na promoção do desenvolvimento económico e social dos territórios ocupados.

Há 45 anos a UNRWA vem prestando inestimáveis serviços básicos ao povo palestino, assim como muitos departamentos e organizações da ONU contribuíram com sua experiência para melhorar as condições económicas e sociais do povo palestino. Eles enviaram missões, realizaram estudos e forneceram ajuda. Em 1993, a ONU forneceu serviços e implementou projectos especiais na Cisjordânia e em Gaza, num total aproximado de US$250 milhões. A UNRWA, o Programa de Desenvolvimento da ONU (UNDP) e o UNICEF (Fundo das ONU para auxílio às crianças), tiveram uma presença operacional no território palestino ocupado, fornecendo assistência humanitária e de desenvolvimento. Também fazem parte do esforço outras organizações, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento da ONU (UNCTAD) e a UNESCO.

A assistência ao povo palestino tornou-se o mais importante de tudo à luz da intifadah palestina, que começou em dezembro de 1987. As autoridades israelitas impuseram medidas restritivas duras que levaram à posterior desorganização da vida económica e social no território ocupado.

Os recentes avanços na região tiveram um impacto devastador sobre a actividade económica palestina. A expulsão dos trabalhadores palestinos dos países do Golfo Pérsico como consequência da Guerra do Golfo, de 1991, resultou em um novo fluxo de refugiados palestinos para a Jordânia, e numa extensão menor para a Cisjordânia e Gaza e, na quase eliminação das remessas financeiras enviadas por esses trabalhadores, que ajudavam a sustentar muitas famílias no território. Finalmente, o bloqueio do território ocupado instituído por Israel em março de 1993, resultou em uma taxa de desemprego de 40% da força de trabalho palestina.

Ressaltando a ênfase da ONU na ajuda como um componente vital na busca da paz, e desejando galvanizar até esforços maiores e mais coordenados por parte do sistema da ONU, das ONGs e dos países doadores, o Comité sobre o Exercício dos Direitos Inalienáveis do Povo Palestino convocou em abril de 1993, na sede da UNESCO, em Paris, o Seminário da ONU sobre Ajuda ao Povo Palestino.

O Seminário propôs uma ordem de discussões para troca de opiniões sobre vários aspectos da ajuda e contou com a participação de representantes de 17 departamentos da ONU, 67 governos e 19 ONGs. A situação no território ocupado palestino, conforme descrita por diversos especialistas, era sinistra. A ajuda internacional fez-se especialmente necessária no desenvolvimento do sector industrial para criar e aumentar as instituições de apoio ao desenvolvimento do sector privado, emprego, projectos geradores de rendas, construção de infra-estrutura e para treinamento de gestão.

Entre as conclusões tiradas pelos participantes do Seminário, estava a de que "a política económica de Israel para o território ocupado resultou em seu subdesenvolvimento (e que) Israel tinha usado seu controle ... para impedir ou criar obstáculos no caminho dos projectos assistenciais". Mas uma outra conclusão afirmava que a comunidade internacional tinha uma expectativa crescente de que um "novo limiar tinha sido alcançado e que o povo palestino logo seria capaz de assumir seu próprio futuro e exercer sua economia, assim como tomar suas decisões políticas".

Em setembro de 1993, com a assinatura da Declaração de Princípios, e com o entusiasmo que cercou o evento, a conclusão do Seminário de Paris poderia parecer profético. A assinatura, com efeito, detonou uma renovação dos esforços internacionais para identificar e levantar os fundos necessários para o desenvolvimento e reconstrução da Cisjordânia e Gaza. Em 1/10/93, realizou-se em Washington uma conferência maior, onde os vários governos se comprometeram em doar US$2.5bilhões para o povo palestino. O secretário geral da ONU, Boutros-Ghali, criou uma Força Tarefa de alto nível para o desenvolvimento de Gaza e Jericó e um pouco depois apresentou um plano de acção chamado "Apoio à Transição: Uma Resposta Imediata da ONU para o Período Interino na Cisjordânia e Faixa de Gaza". A meta mais importante da resposta da ONU foi fornecer uma espécie de ajuda que proporcionaria aos palestinos um novo sentido de oportunidade e concretamente reforçaria o processo de paz.

A Força Tarefa era composta de antigos funcionários das três agências da ONU que tinham capacidade operacional nos territórios ocupados - UNRWA, UNDP e UNICEF. A ajuda a ser coordenada por essas agências durante o primeiro ano do período de transição objetivaria a duas conquistas principais: apoiar a capacidade da nova autoridade palestina de assumir responsabilidades nas áreas de educação, saúde, serviços sociais, geração de renda, hospitais, etc., e melhorar a infra-estrutura dos serviços básicos físico e social.

Essas três agências no passado trabalharam e continuarão trabalhando em estreita colaboração, em todas as esferas complementares de acção durante o período de transição. A UNDP fortalecerá seu apoio à expansão da base económica, da administração pública e civil, construção de prédios, gestão de recursos humanos e o papel das mulheres nas futuras instituições palestinas e governo. O UNICEF continuará a apoiar a melhoria dos serviços de educação e saúde para crianças e mulheres. Também estimulará as actividades comunitárias e mobilizará legisladores e formadores de opinião com a finalidade de melhorar as condições das crianças e mulheres. A UNRWA reforçará seu aparato de saúde, serviços sociais e de auxílio, assim como a saúde ambiental e programas geradores de rendas.

Em março de 1994, a AG criou o posto de Coordenador Especial nos Territórios Ocupados, conforme recomendado pelo secretário-geral, para servir como ponto de convergência de toda ajuda económica, social e outras da ONU para os territórios ocupados palestinos. O Coordenador trabalhará para assegurar uma abordagem unificada do desenvolvimento económico e social, e estará em contacto permanente com as agências especializadas da ONU, Banco Mundial, ONGs e comunidade doadora.



Traduzido por Mónica Muni

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DPI/1481
Departamento de Informação Pública
01/10/94


A Palestina

Comissão Justiça e Paz

CNIR/FNIRF

Portugal, 2002


pal

"O que está acontecendo na Palestina, não é justificável por nenhuma moralidade ou código de ética. Certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir o orgulho árabe para que a Palestina fosse entregue aos judeus parcialmente ou totalmente como o lar nacional judaico."

Gandhi



 

 

 

Introdução

 

Palestina é o nome do território situado entre o Mediterrâneo a oeste, o rio Jordão e o Mar Morto a este, a chamada Escada de Tiro a norte (Ras en-Naqura/Roch ha-Niqra, fronteira com o Líbano) e o Wadi el-Ariche a sul (fronteira com o Sinai, tradicionalmente egípcio). Com 27.000 Km2, a Palestina é formada, de um modo geral, por uma planície costeira, uma faixa de colinas e uma cadeia de baixas montanhas cuja vertente oriental é mais ou menos desértica.

A Palestina foi habitada desde os tempos pré-históricos mais remotos. A sua história esteve geralmente ligada à história da Fenícia, da Síria e da Transjordânia, limítrofes. Talvez por causa da sua situação geográfica – faz parte do corredor entre a África e a Ásia e ao mesmo tempo fica às portas da Europa – a Palestina nunca foi sede de um poder que se estendesse para além das suas fronteiras. Pelo contrário, esteve quase sempre submetida a poderes estrangeiros, sediados na África, na Ásia ou na Europa. Em regra geral, foi só sob as potências estrangeiras que ela teve alguma unidade política.

 

 

De fins do II milênio a.C. a meados do Século XIX

 

Para melhor compreender a situação actual da Palestina, convém fazer um esboço da sua história a partir do II milénio a. C..

A Palestina esteve organizada em cidades-estado sob a hegemonia egípcia durante uma boa parte do II milénio a. C.. A situação mudou nos últimos séculos desse milénio. Chegaram então à Palestina sucessivas vagas de imigrantes ou invasores vindos do norte e do noroeste, das ilhas ou do outro lado do Mediterrâneo. Os historiadores costumam designá-los com a expressão "Povos do Mar". Esses povos parecem ter-se fixado sobretudo ao longo da costa. Os mais conhecidos entre eles são os Filisteus que se fixaram sobretudo no sudoeste (costa oeste do Neguev e Chefela). Aí fundaram vários pequenos reinos (Gaza, Asdod, Ascalão, Gat e Ekron). Paralelamente aos reinos filisteus, constituíram-se primeiro o reino de Israel no norte da Palestina e depois o reino de Judá, mais pequeno, na zona de baixas montanhas do sul. Durante a maior parte da sua existência, Israel teve como capital Samaria. Hebron foi a primeira capital de Judá, mas depressa cedeu o lugar a Jerusalém.

Entre os antigos povos da Palestina, os Filisteus foram talvez os que maior influência exerceram até aos últimos séculos da era pré-cristã. Com efeito, não deve ter sido por acaso que o seu nome foi dado a toda a região, a Palestina, isto é, o país dos Philisteus. Com o sentido que se tornou habitual, o nome já está documentado nas Histórias de Heródoto em meados do séc. V a. C. Apesar da sua importância na antiguidade, conhecem-se muito pouco os Filisteus e a história dos seus reinos. A razão óbvia dessa ignorância é a inexistência de uma biblioteca ou de bibliotecas filistéias comparáveis ao Antigo Testamento. Praticamente tudo o que se sabe ou se pensa saber sobre os Filisteus se baseia nos escritos bíblicos. Por conseguinte, a posteridade só conhece os Filisteus na medida em que eles estão em relação com Israel, com Judá, ou com os judeus. Além disso, são vistos através dos olhos daqueles que foram os seus concorrentes e, não raro, seus inimigos declarados. De fato, a posteridade, de maneira geral, não se interessa pelos Filisteus nem os estuda por si mesmos, mas só por causa da sua relação com a história bíblica. Tudo isso deformou a visão que se tem deles, do lugar que ocuparam e do papel que desempenharam, aparecendo os Filisteus como um elemento marginal na história da Palestina antiga. Esse erro de perspectiva influencia, sem dúvida alguma, a visão corrente que se tem da actual Palestina, da sua composição étnica e da sua situação política.

Os vários reinos palestinenses1, filisteus e hebraicos, coexistiram durante séculos. Ora guerrearam entre si, ora se aliaram para sacudir o jugo de alguma grande potência do momento. A primeira vítima desse jogo foi Israel, conquistado e anexado pela Assíria em 722 a. C. Desde então até 1948 não houve nenhuma entidade política chamada Israel. Os reinos filisteus e o reino de Judá continuaram a existir sob a dependência da Assíria, a grande potência regional entre o séc. IX e fins do séc. VII a. C., cujo território nacional se situava no norte da Mesopotâmia, no actual Iraque.

No fim do séc. VII a. C., o Egipto e a Babilónia, a outra grande potência mesopotâmica, com a sede no sul do Iraque atual, disputaram os despojos do Império Assírio. Tendo a Babilónia levado a melhor, a Palestina ficou-lhe submetida durante cerca de oito décadas. De um modo geral, as histórias, focadas como estão em Judá, falam só da conquista desse reino por Nabucodonosor, da deportação para a Babilónia de parte da sua população, da destruição de várias das suas cidades, nomeadamente de Jerusalém com o templo de Iavé (597 e 587 a. C.). Deve-se no entanto reparar que os reinos filisteus de Ascalão e de Ekron, conquistados por Nabucodonosor respectivamente em 804 e em 803, tiveram um destino semelhante.

Em 539 a. C. a Palestina passou com o resto do império babilónico para as mãos dos Persas Aquemênidas. Sabe-se que estes entregaram a administração do território de Judá, pelo menos de parte dele, a membros da comunidade judaica da Babilónia. Em 331 a Palestina foi conquistada pelo macedónio Alexandre Magno. Após a morte deste, ficou primeiro sob o domínio dos Lágidas ou Ptolomeus que tinham a capital em Alexandria, no Egito (320-220 a. C.). Depois passou para a posse dos Selêucidas sediados em Antioquia, na Síria (220-142 a. C.). Entre 142 e 63 a. C, os Asmoneus, uma dinastia judaica, com Jerusalém como capital, conseguiu não só libertar-se do poder selêucida, mas até impor o seu domínio praticamente em toda a Palestina, e também nos territórios filisteus. Nessa altura a grande maioria dos judeus já vivia fora da Palestina, encontrando-se dispersos em todo o Próximo Oriente. A dispersão deveu-se sobretudo à emigração e, numa medida muito menor, às deportações de 597 a 587. Os principais centros judaicos fora da Palestina eram então Alexandria e Babilónia. Profundamente helenizados, os judeus de Alexandria liam as suas Escrituras em grego, e a eles deve-se a coletânea de escritos que se tornará o Antigo Testamento cristão.

Em 63 a. C., a Palestina passou a fazer parte do Império Romano dentro do qual não teve sempre o mesmo estatuto. Por voltas de meados do séc. I da era cristã, os judeus da Palestina tentaram libertar-se do domínio romano. Houve primeiro várias sublevações locais. Em 66 a revolta generalizou-se. Em 70 os Romanos conquistaram Jerusalém e destruíram o templo judaico. Os judeus da Palestina voltaram a revoltar-se em 131. Após ter esmagado a revolta, em 135, o imperador Adriano fez de Jerusalém uma colónia romana, Colonia Aelia Capitolina, da qual os judeus estiveram excluídos durante algum tempo. Com a ruína do templo e o fim da autonomia judaica na Palestina desapareceu a maioria dos grupos político-religiosos nos quais o judaísmo, sobretudo o judaísmo palestinense, estava então dividido. Praticamente só ficaram em campo dois grupos: o farisaísmo e o cristianismo, recém-formado. Os dois grupos acabaram por separar-se e evoluíram de maneira independente, em concorrência e, não raro, em conflito. O farisaísmo deu origem ao judaísmo rabínico, isto é, o judaísmo actual.

Graças à cristianização do império romano, a Palestina, palco dos acontecimentos fundadores do cristianismo, adquiriu uma grande importância para o mundo cristão, sobretudo para os cristãos que se encontravam dentro do império romano. Por isso durante o período bizantino (324-638) a Palestina conheceu uma prosperidade e um crescimento demográfico notáveis. Durante esse período a esmagadora maioria da sua população tornou-se cristã. Em 614 os Persas Sassânidas invadiram a Palestina, onde causaram grandes estragos. Ocuparam-na até 628, ano em que os Bizantinos a reconquistaram, mas por pouco tempo.

Com efeito, dez anos mais tarde, em 638 toda a Palestina passou para o domínio arábico-muçulmano. Este exerceu-se através de uma sucessão de dinastias, de origens, de etnias e com capitais diferentes. A primeira dessas dinastias, a dos Omíadas (660-750), com a capital em Damasco, foi uma das que mais marcou a Palestina, nomeadamente com a construção do Haram ech-Cherife (o Nobre Santuário/Esplanada das Mesquitas) no lugar que ocupara outrora o templo judaico, tornando Jerusalém na terceira cidade santa do islamismo. Seguiram-se os Abássidas (750-974) e os Fatimidas (975-1071), com as capitais respectivamente em Bagdá e no Cairo. Entre 1072 e 1092 a Palestina esteve sob os Turcos Seldjúcidas, que então tinham a sede em Bagdá.

Embora não tenha dado origem a uma imigração popular e, por conseguinte, não tenha mudado a composição étnica e a demografia de maneira apreciável, o regime árabo-muçulmano teve como consequência a arabização e a islamização da Palestina. A arabização2, nomeadamente da população cristã de língua aramaica, língua aparentada com o árabe, deu-se muito depressa. Não se pode dizer o mesmo da islamização. Apesar de o islamismo se apresentar como o acabamento da tradição bíblica, partilhada pelo cristianismo, pelo judaísmo e pelo samaritanismo, o processo de islamização da população palestinense (cristã, judaica e samaritana) parece ter sido muito lento. Em 985, após três séculos e meio de regime islâmico, o geógrafo árabe-muçulmano de Jerusalém, conhecido pelo nome de el-Maqdisi ("o jerosolimitano") lamenta-se de que os cristãos e os judeus são maioria na sua cidade natal. O que el-Maqdisi escreve a respeito da Jerusalém de fins do séc. X valia para o conjunto da Palestina e continuou provavelmente a valer durante cerca de mais dois séculos e meio.

Organizada com o intuito declarado de arrancar o túmulo de Cristo das mãos dos "infiéis", a primeira cruzada terminou, em 1099, com a conquista de Jerusalém e, no ano seguinte, a criação do Reino Latino de Jerusalém. Este manteve-se até 1187, tendo sido então conquistado pelo curdo Saladino, o fundador da dinastia ayúbida. Aos Ayúbidas seguiram-se os Mamelucos, primeiro turcos (1250-1382) e depois circassianos (1382-1516). Os Ayúbidas e os Mamelucos tiveram a capital no Cairo. Segundo a maioria dos especialistas da questão, foi durante o período mameluco que teve lugar a grande vaga da islamização popular da Palestina. Desde então até à segunda metade do séc. XX, os muçulmanos constituíram a esmagadora maioria da população. Do ponto de vista numérico, o segundo grupo era constituído pelos cristãos, seguidos, de muito longe, pelos grupos dos judeus e dos samaritanos. Em 1517 a Palestina passou para o poder dos Turcos Otomanos, cuja capital era Istambul.

 

Desde meados do Século XIX

Começos do sionismo

O judaísmo conserva a esperança de que um dia todo o povo judaico disperso "regressará" ao que chama "a Terra/País de Israel", onde se reunirá e viverá como nação, observando rigorosa e integralmente a Lei divina. A nação judaica será assim "inteiramente liberta da servidão" das outras nações. A "redenção de Israel" transbordará, estendendo-se a todos os seres humanos e ao mundo inteiro. Tudo isso será obra de Deus, não do povo. Com efeito, a tradição religiosa vê na dispersão (diáspora) ou no exílio (termo mais corrente, embora historicamente inadequado) o castigo divino pelos pecados do povo, ao qual por conseguinte só o próprio Deus pode pôr fim. Durante muitos séculos a utopia da "redenção de Israel" não transbordou do âmbito religioso, que é a sua matriz. Deu origem a peregrinações e a imigrações individuais ou de pequenos grupos que não modificaram o estatuto político da Palestina nem a sua composição étnica, a qual, apesar das numerosas mudanças políticas e religioso-culturais, parece ter permanecido relativamente estável desde fins do II milénio a. C. até fins do II milénio da era cristã.

A situação começou a mudar no século XIX. No contexto do triunfo das ideologias nacionalistas e da ideia do estado nacional, surgiu entre os judeus laicos da Europa central e oriental um movimento nacionalista secular cujo objectivo era a criação de um estado dos judeus, sendo este considerado como o único meio de assegurar a identidade e a sobrevivência da nação judaica, assim como de lhe garantir um lugar ao sol entre as demais nações. Para os seus partidários, o dito estado tomou de certo modo, sob uma forma secularizada, o lugar que a utopia da "redenção de Israel" ocupa na tradição religiosa. Contrariamente à reunião de "Israel" da utopia religiosa, o estado projectado pelos nacionalistas judeus não tinha necessariamente a Palestina por cenário. Com efeito, o seu principal promotor, Teodoro Herzl (1860-1904)3, encarou a possibilidade de o criar na Argentina. Falou-se também de Chipre, da África oriental e do Congo. Diga-se de passagem que a liberdade na escolha do futuro "território nacional" de que deram mostras os nacionalistas judaicos se explica pelo fato de se viver então na Europa no apogeu do sonho colonialista. Consideravam-se colonizáveis todos os territórios situados fora da Europa. Colonizá-los era tido por uma obra benemérita, pois era "civilizá-los".

Os nacionalistas judaicos não tardaram a optar pela Palestina. Essa escolha, embora não fosse necessária, era natural e particularmente mobilizadora, por causa da ligação do judaísmo à Palestina e da atracção que ela exerce mesmo sobre muitos judeus que não são religiosos ou originários desse país. O nacionalismo judaico tomou assim o nome de sionismo, palavra que deriva de Sião, um dos nomes de Jerusalém na Bíblia. Repare-se também que a escolha da Palestina se enquadrava nos projectos coloniais das potências europeias, sobretudo da Grã-Bretanha e da França, que preparavam a partilha dos despojos do império otomano decadente. Foi sem dúvida por isso que o projecto sionista vingou.

Durante décadas o sionismo foi um movimento de intelectuais askenazes4 laicos, sem base popular. Houve componentes do judaísmo, nomeadamente as grandes comunidades sefarditas5 da África do norte, que estiveram praticamente à margem desse movimento até à década de 1930 ou ainda mais tarde. No entanto, o sionismo acabou por provocar profundas divisões nas diferentes componentes do judaísmo, religioso e secular, askenaze, sefardita e pertencente a outros grupos. Embora se tenham atenuado ou transformado, essas divisões subsistem ainda hoje.

Para a maioria esmagadora dos rabinos da Europa central e oriental que se encontraram confrontados com ele, o projeto dos sionistas de criar o estado dos judeus, apoiando-se para isso nos seus próprios meios políticos, diplomáticos e económicos, era a negação da esperança na "redenção de Israel" por iniciativa e obra exclusivas de Deus. Por isso, condenaram o sionismo como uma manifestação de orgulho, o pecado por excelência. O partido Agudat Israel (União/Associação de Israel) fundado em Kattowitz (Silésia, Polônia) em 1912, Encarnou essa posição. O dito partido propunha-se reunir todos os judeus fiéis à Lei para se oporem ao nacionalismo sionista considerado como uma ameaça mortal para o "autêntico judaísmo". No entanto, na década de 1930, o Agudat Israel mitigou, por pragmatismo, a sua oposição ao sionismo, aceitando que a Palestina se tornasse o refúgio para os judeus europeus perseguidos. Em 1948 reconheceu de fato as instituições do Estado de Israel. Participou em todas as eleições legislativas israelitas6 e em vários governos. No entanto, algumas facções minoritárias não aceitaram a mudança de orientação. Além de persistirem na negação da legitimidade religiosa do Estado de Israel e na recusa de qualquer colaboração com ele, tornaram-se críticos acérrimos da sua política. Entre os pequenos grupos representantes dessa tendência, o dos Neturei Karta (Guardiães da Cidade) é actualmente o mais conhecido.

Uma minoria entre os judeus religiosos da Europa central e oriental aceitou bastante cedo colaborar com os sionistas. Um dos primeiros expoentes desta posição foi o rabino Isaac Jacob Reines (1839-1915), nascido em Karolin, na Bielorússia. Na origem, essa posição tinha sobretudo por objectivo não deixar aos seculares o monopólio do socorro prestado aos judeus pobres e perseguidos. Encarnou-a o Mizrahi (Centro Espiritual) fundado em Vilnius (Lituânia) em 1902. Segundo essa corrente do judaísmo religioso, nada impede a colaboração com o sionismo, pois este não é incompatível com a tradição. A razão que ela dá funda-se, paradoxalmente, no carácter inteiramente materialista e político do sionismo. Dado o seu teor, o sionismo não pode fazer concorrência à esperança messiânica, que se situa num plano completamente diferente. A idéia da coexistência pacífica do judaísmo religioso e do sionismo depressa cedeu o lugar a uma integração da ideologia sionista dentro do sistema religioso tradicional. O autor dessa integração foi o rabino Abraão Isaac Hacohen Kook (1865-1935) nascido em Griva na Letônia, primeiro Rabino-Mor askenaze da Palestina (1921-1935). Contrariamente aos seus homólogos do Agudat Israel, o rabino Kook vê no sionismo um instrumento de que Deus se serve para dar início à "redenção de Israel", e no Estado dos judeus a aurora da redenção ou do reino de Deus. Os principais herdeiros actuais desta concepção do sionismo são o Partido Nacional Religioso e o Guch Emunim (Bloco da Fé), que reúne os opositores mais irredutíveis à devolução de qualquer parcela da Cisjordânia e da Faixa de Gaza conquistadas por Israel em 1967, assim como os colonizadores mais zelosos desses territórios.

O sionismo provocou também clivagens entre os judeus secularizados. Uns abraçaram-no com mais ou menos entusiasmo e agiram ou não em conformidade, outros serviram-se dele para diferentes fins, outros olharam-no com indiferença e outros ainda rejeitaram-no terminantemente, por razões políticas, morais, culturais ou sociais. Além dos anti-sionistas religiosos, os autênticos adversários do sionismo são ainda hoje judeus seculares, o que é natural, na medida em que a questão diz diretamente respeito a uns e a outros.

O sionismo tornou-se popular entre os judeus, sobretudo entre os judeus seculares, da Europa oriental e central a partir de 1881 por causa dos numerosos ataques e pilhagens (pogroms, em russo) de que aí foram vítimas entre esse ano e 1921. De fato, foi a Europa oriental que forneceu os contingentes de emigrantes judeus que então foram instalar-se na Palestina. As duas primeiras vagas da emigração coincidiram aliás com as duas primeiras vagas de pogroms, que tiveram lugar respectivamente em 1881-1884 e em 1903-1906. A esmagadora maioria dos emigrantes era gente pobre e perseguida. Dirigiam-na intelectuais das classes médias. Estes fizeram financiar a operação por membros da burguesia judaica ocidental, europeia e norte-americana, ansiosa por desviar da sua porta uma imigração popular judaica que iria contrariar os seus desígnios de "assimilação" nos países respectivos.

 

 

A Primeira Guerra Mundial e a Palestina

A Primeira Guerra Mundial teve consequências decisivas para a Palestina. As potências aliadas não esperaram pelo fim da guerra para preparar o desmantelamento e a liquidação do império turco, aliado da Alemanha. Procurando aproveitar-se do nacionalismo árabe, a Grã-Bretanha prometeu ao cherife Hussein de Meca o seu apoio para a criação de um estado árabe independente tendo por fronteira ocidental o mar Vermelho e o Mediterrâneo, em troca da revolta árabe contra a Turquia. De fato, a Palestina, que faz parte do território do anunciado estado árabe, era cobiçada ao mesmo tempo pela Grã-Bretanha e pela França, mas as duas potências admitiram o princípio da sua internacionalização nos acordos secretos de Sykes-Picot de 16 de Maio de 1916. Esse fato não impediu a Grã-Bretanha de prometer no ano seguinte, na chamada Declaração Balfour, à Federação Sionista que faria todo o possível para o estabelecimento de "um lar nacional para o povo judaico" (a national home for the Jewish people) na Palestina. Para os sionistas, o circunlóquio "um lar nacional para o povo judaico" designava um estado judaico ou um estado dos judeus. O movimento sionista evitava o termo "estado", falando antes de "lar nacional" ou de "pátria", para não exacerbar a oposição turca ao projecto.

De fato, as forças britânicas, às quais se renderam as forças turcas em Jerusalém a 9 de Dezembro de 1917, terminaram a ocupação da Palestina em Setembro de 1918. A Palestina ficou então sob administração militar britânica, a qual foi substituída por uma administração civil a 1 de Julho de 1920. Entretanto, na Conferência da Paz reunida em Paris, em Janeiro de 1919, as Potências Aliadas decidiram que os territórios da Síria, do Líbano, da Palestina/Transjordânia e da Mesopotâmia não seriam devolvidos à Turquia, mas passariam a formar entidades distintas, administradas segundo o sistema dos Mandatos. Criado pelo artigo 22 do Pacto da Liga das Nações a 28 de Junho de 1919, o sistema dos Mandatos destinava-se a determinar o estatuto das colónias e dos territórios que se encontravam sob o domínio das nações vencidas. O dito documento declara que "algumas comunidades outrora pertencentes ao Império Turco atingiram um estado de desenvolvimento" que permite reconhecê-las provisoriamente como nações independentes. Em relação a essas nações, o papel das potências mandatárias seria ajudá-las a instalar a sua administração nacional independente. O mesmo documento estipula ainda que os desejos dessas nações devem ser uma consideração principal (a principal consideration) na escolha da potência mandatária. Na conferência de San Remo a 25 de Abril de 1920, o Conselho Supremo Aliado repartiu os Mandatos para essas nações entre a França (Líbano e Síria) e a Grã-Bretanha (Mesopotâmia, Palestina/Transjordânia). O Mandato para a Palestina, que incorpora a Declaração Balfour sobre o estabelecimento do "lar nacional para o povo judaico", foi aprovado pelo Conselho da Liga das Nações a 24 de Julho de 1922, tornando-se efectivo a 29 de Setembro do mesmo ano. Ao abrigo do disposto no art. 25 do Mandato para a Palestina, o Conselho da Liga das Nações decidiu a 16 de Setembro de 1922 excluir a Transjordânia de todas as cláusulas relativas ao lar nacional judaico, e dotá-la com uma administração própria. De fato, o território que os sionistas pretendiam para nele estabelecer o seu estado era bastante mais vasto do que a Palestina. Abarcava também toda a parte oeste da Transjordânia, o planalto do Golã e a parte do Líbano a sul de Sidão.

 

Pelo gesto e pelo mapa, não lhes basta a Palestina.

Como previsto, todas essas nações se tornaram efectivamente independentes no curso das três décadas seguintes: O Iraque (Mesopotâmia) a 3 de Outubro de 1932; o Líbano, a 22 de Novembro de 1943; a Síria, a 1º de Janeiro de 1944 e, finalmente, a Transjordânia, a 22 de Março de 1946. A única excreção foi a Palestina.

O obstáculo que fez descarrilar o processo da independência da Palestina foi a adopção pela Liga das Nações, seguindo nisso as pegadas da Grã-Bretanha, do projecto sionista da criação do "lar nacional para o povo judaico" nesse país.

 A Organização Sionista Mundial tinha entretanto amadurecido esse projecto e tinha-lhe granjeado apoios muito sólidos, vindo-lhe o principal da Grã-Bretanha. Esta expressou o seu patrocínio ao projecto sionista na já referida Declaração Balfour. Trata-se de uma carta que A. J. Balfour, Ministro dos Negócios Estrangeiros, escreveu, a 2 de Novembro de 1917, ao Lorde L. W. Rothschild, representante dos judeus britânicos, e, por seu intermédio, à Federação Sionista. Numa altura em que a Palestina ainda era oficialmente território turco, o Governo de Sua Majestade Britânica declara à Federação Sionista ver com bons olhos o estabelecimento de "um lar nacional para o povo judaico" nesse país e compromete-se a fazer todo o possível para facilitar a realização desse projeto. A carta acrescenta uma ressalva segundo a qual "nada deverá ser feito que prejudique os direitos cívicos e religiosos das comunidades não-judias que existem na Palestina". As ditas "comunidades não-judias" constituíam então um pouco mais de 90 % da população. De fato, em 1918, a Palestina tinha 700.000 habitantes: 644.000 árabes (574.000 muçulmanos e 70.000 cristãos) e 56.000 judeus.

A Declaração Balfour era originalmente um compromisso que a Grã-Bretanha assumia, por razões que lhe eram próprias, para com a Federação Sionista. Mas entretanto ela recebeu o aval das Principais Potências Aliadas e foi incorporada no Mandato para a Palestina, aprovado pela Liga das Nações a 24 de Julho de 1922. Com efeito, o essencial da Declaração Balfour é citado explicitamente no § 2 do preâmbulo do dito documento. É ainda reforçado no § 3, graças a dois elementos que não constavam na Declaração Balfour, isto é, a menção da ligação histórica do povo judaico com a Palestina e a ideia da reconstituição do seu lar nacional nesse país. Dos vinte e oito artigos do texto do Mandato seis têm por objecto o estabelecimento do lar nacional judaico ou medidas com ele relacionadas. O art. 2, que é o primeiro de carácter programático, começa assim: "A (Potência) Mandatária terá a responsabilidade de pôr o país em condições políticas, administrativas e económicas que assegurem/garantam o estabelecimento do lar nacional judaico (of the Jewish national home), como está estipulado no preâmbulo...". Outros cinco artigos tratam de medidas destinadas a realizar esse programa. Essas medidas dizem respeito: ao papel de conselheira de uma "Agência Judaica apropriada" nos diferentes domínios de governo (art. 4); às facilidades que devem ser concedidas aos judeus nas questões relativas à imigração, assim como no que respeita à sua instalação no país, inclusive nas terras do Estado ou nos baldios (art. 6); às facilidades que devem ser concedidas aos judeus na obtenção da nacionalidade (art. 7); à concessão de obras e serviços públicos à Agência Judaica (art. 11b); à imposição do hebraico como língua oficial ao lado do inglês e do árabe (art. 22), embora os judeus fossem então só um pouco mais de 11 % da população. A Palestina tinha nessa altura 757.182 habitantes, dos quais 83.794 eram judeus.

Sem excluir formalmente o objectivo normal do tipo de Mandato aplicado aos países árabes do império otomano, que era levar à plena independência a população que então os habitava, o Mandato para a Palestina tinha outro objectivo, que lhe era próprio, isto é, promover a criação de um lar nacional judaico – subentenda-se a criação de um estado judaico – com gente que, na sua maioria esmagadora, estava ainda espalhada pelo mundo e, por conseguinte, deveria ser trazida de fora. O seu documento fundante não deixa dúvidas de que o objectivo prioritário do Mandato para a Palestina – para não dizer o seu verdadeiro objectivo – era criar o lar nacional judaico. É verdade que o documento também menciona as comunidades não-judaicas então existentes na Palestina e os seus direitos cívicos e religiosos – não refere os seus direitos políticos – mas as suas menções vêm em segundo lugar e expressam-se sob a forma de ressalvas feitas às medidas destinadas a implementar o projeto sionista.

Graças ao Mandato para a Palestina, o patrocínio do projecto sionista, que era um elemento da política britânica, tornou-se política oficial da Liga das Nações. Esta não só deu ao projecto sionista a caução internacional mas forneceu-lhe também os meios para a sua realização. A Grã-Bretanha, a quem o Conselho Supremo Aliado (isto é, os vencedores da guerra) confiara o Mandato da Palestina, era sem dúvida alguma a potência mais indicada para implantar a política da Liga das Nações em relação a esse país. De fato, a administração britânica procurou cumprir fielmente enquanto pôde a missão que lhe fora confiada.

Por seu lado, as organizações sionistas aproveitaram as infra-estruturas administrativas e económicas que o Mandato pôs à sua disposição para acelerar a realização do projecto de criação do Estado judaico na Palestina. Para isso intensificaram a imigração dos judeus da Europa oriental e central, em três vagas principais: em 1919-1923, 1924-1928 e 1932-1940. Em 1931 os judeus eram 174.610 de um total de 1.035.821 habitantes da Palestina. Em 1939, já são mais de 445.000 e em 1946 atingem o número de 808.230 de um total de habitantes da Palestina respectivamente de 1.500.000 e de 1.972.560. Por outro lado, o Fundo Nacional Judaico, isto é, o fundo da Organização Sionista Mundial para a compra e o desenvolvimento da terra, intensificou a aquisição de terras. Estas tornavam-se "propriedade eterna do povo judaico", inalienável e que só podia ser arrendada a judeus. No caso das explorações agrícolas, até a mão de obra devia ser exclusivamente judaica. Por fim, os sionistas criaram em pouco tempo as principais estruturas do futuro estado, nomeadamente um exército clandestino (a Haganá).

A maneira como os vencedores da Primeira Guerra Mundial decidiram o destino da Palestina, servindo-se para isso da Liga das Nações, é quase uma caricatura da duplicidade e da prepotência que não raro caracterizam as relações internacionais. De fato, há especialistas do Direito Internacional que questionam a legalidade das decisões da Liga das Nações em relação à Palestina em nome das regras que ela própria fixara. Assim, apesar de ter classificado a Palestina num grupo de nações às quais reconhecia imediatamente a independência formal e prometia a independência efectiva a curto prazo, a Liga das Nações impôs-lhe um Mandato cujo objectivo prioritário não era a instalação da administração palestina nacional, como previa o documento que instituiu o sistema dos Mandatos, mas, sim, a criação do "lar nacional judaico" com gente que ainda estava espalhada pelo mundo. Ora, este objectivo não só contrariava o processo de transição para a independência política efectiva da Palestina, mas era incompatível com o próprio princípio da sua independência com a população que ela então tinha, princípio esse que a Liga das Nações admitira previamente. Por outro lado, tendo nomeado a Grã-Bretanha para potência mandatária sem ter consultado os palestinos, o Supremo Conselho Aliado não respeitou a regra fixada pelo Pacto da Liga das Nações, segundo a qual os desejos das comunidades submetidas a esse tipo de Mandato deviam ser uma consideração principal na escolha da potência mandatária (art. 22)7.

  

 

Mandato britânico (1922-1948)

 

Os palestinos viram no patrocínio que deram primeiro a Grã-Bretanha e depois a Liga das Nações ao projecto sionista de criação do lar nacional judaico na Palestina a negação do seu direito à independência. Ora, tanto a Grã-Bretanha como a Liga das Nações, explícita ou implicitamente, não só lhes tinham reconhecido esse direito, mas também lhes tinham prometido o seu gozo pleno a curto prazo. Por isso, além do mais, os palestinos sentiram-se defraudados. Naturalmente, opuseram-se ao projecto da criação do lar nacional judaico na Palestina desde o primeiro instante – logo que tiveram conhecimento da Declaração Balfour – e tentaram, por todos os meios, impedir a sua realização, pois temiam que dela resultasse a sua submissão, não só política mas também económica, aos sionistas, passando assim do domínio turco para o domínio judaico, com um intervalo britânico. Apresentaram protestos contra a Declaração Balfour à Conferência de Paz de Paris e ao Governo Britânico. A primeira manifestação popular contra o projecto sionista teve lugar a 2 de Novembro de 1918, primeiro aniversário da Declaração Balfour. Essa manifestação foi pacífica, mas a resistência depressa se tornou violenta, expressando-se em ataques contra os judeus que degeneravam em confrontos sangrentos. Houve motins em 1920, durante a Conferência de San Remo que distribuiu os Mandatos, em 1921, 1929 e 1933. De um modo geral, as erupções de violência eram cada vez mais graves à medida que o Mandato se prolongava e a colonização sionista se estendia e fortalecia. Os acontecimentos desenrolavam-se segundo uma seqüência que se tornou habitual. A potência mandatária respondia aos motins nomeando uma comissão real de inquérito, cujas recomendações reconheciam a legitimidade das reivindicações palestinas e levavam a anunciar ou a esboçar tímidas medidas tendentes a satisfazê-las. Mas, dado que contrariavam o objetivo primordial do Mandato, essas medidas ficavam letra morta ou eram depressa esquecidas. E o ciclo recomeçava.

A resistência palestina culminou na revolta de 1936-1939. Em Abril de 1936, distúrbios locais entre árabes e judeus degeneraram numa revolta generalizada dos palestinos. A revolta já não visava só a colonização sionista. Dirigia-se sobretudo contra as autoridades britânicas, o poder estrangeiro, de quem os palestinos exigiam a constituição de um governo nacional. As autoridades britânicas ripostaram com uma repressão violenta e os sionistas com represálias.

Os palestinos começaram uma greve geral a 8 de Maio de 1936 coordenada pelo Alto Comité Árabe, que era composto por representantes dos principais partidos. Terminaram-na em Outubro do mesmo ano como resposta ao anúncio de mais uma Comissão Real de Inquérito. A trégua foi de pouca dura, a revolta não tardando a recomeçar. Tendo chegado à conclusão de que os palestinos não renunciariam à independência, os britânicos encararam em 1937 a hipótese de dividir a Palestina em dois estados, um árabe e o outro judaico. Essa solução não satisfazia nenhuma das partes. Os palestinos não renunciavam a uma parte do seu território. Os sionistas, que viam com razão nesse plano um desvio da política oficial não só britânica mas também internacional, ainda não aceitavam a ideia de criar o estado judaico só numa parte da Palestina, o que aparentemente significaria renunciar à reivindicação da totalidade do país. A revolta palestina continuou e durou até 1939. Considerando inviável o plano de divisão da Palestina, os britânicos fazem marcha atrás e propõem no "Livro Branco" de 1939 a criação de um só estado para árabes e judeus, no prazo de dez anos. O mesmo documento propunha o fim da imigração judaica dentro de cinco anos e limitava a 75.000 o número de imigrantes durante esse prazo de tempo. Além disso, previa uma regulamentação estrita da compra de terras pelas organizações judaicas. Esse conjunto de medidas implicava que os árabes constituiriam um pouco mais de dois terços dos cidadãos do Estado da Palestina. O peso dos dois povos na administração do Estado seria proporcional à sua importância numérica. As autoridades mandatárias tentaram executar as recomendações do "Livro Branco" de 1939, mas sem verdadeiro êxito.

O "Livro Branco" de 1939 confirmou a viragem na política britânica já esboçada dois anos antes. Ao abandonar a ideia da criação de um estado judaico, as autoridades mandatárias romperam com a política seguida até então. Isso representava um sério revés para os sionistas. Estes tiveram que adoptar uma nova estratégia, a qual comportou três elementos principais. Promoveram a imigração ilegal, tarefa essa facilitada pelo genocídio judaico que a Alemanha nazista estava então a perpetrar na Europa central e oriental. Nessas circunstâncias a Palestina aparecia como o lugar de refúgio para os judeus europeus, sobretudo do centro e do leste. Além disso, os sionistas procuraram obter o apoio dos Estados Unidos (EEUU) para substituir o apoio britânico. Alguns grupos armados lançaram-se numa campanha de guerrilha contra as autoridades britânicas e os árabes.

  

Nessa altura a Haganá não era o único grupo armado judaico. Havia também o Irgun e o Stern8, que se destacaram na guerrilha pela sua violência.

  

Entre as numerosas acções realizadas pelo Irgun contra as autoridades britânicas, a mais conhecida é o atentado do Hotel King David em Jerusalém, onde estava instalada a administração governamental. A explosão de uma ala do edifício, no dia 22 de Julho de 1946, custou a vida a 91 pessoas, das quais 86 funcionários (britânicos, árabes e judeus).

Declarando-o inviável por ter duas missões inconciliáveis, a Grã-Bretanha renunciou ao Mandato e remeteu a questão da Palestina para a sucessora da Liga das Nações, a Organização das Nações Unidas (ONU), em Fevereiro de 1947. A 29 de Novembro de 1947 a assembleia Geral da ONU, retomando uma idéia que já tinha sido proposta dez anos antes, aprovou a resolução 181 que recomendava a divisão da Palestina em dois estados, um judaico e o outro árabe. Os dois estados estariam unidos do ponto de vista económico. Jerusalém (incluindo Belém) não pertenceria a nenhum dos estados, mas formaria um corpus separatum sob a jurisdição da ONU. Passados dez anos haveria um referendo entre os habitantes da cidade sobre o seu regime. O plano deveria entrar em vigor dois meses depois do fim do Mandato que a Grã-Bretanha fixou para o dia 15 de Maio de 1948.

 

 

A criação do Estado de Israel (14 de Maio de 1948)

e suas conseqüências para o povo palestino

Como já o tinham feito em 1937 e pelas mesmas razões, os palestinos opuseram uma recusa formal ao plano de divisão. De fato, a ONU mostrou-se incapaz de o aplicar. Não se tendo previsto nada para substituir as forças britânicas, a sua retirada deixou os árabes e os judeus frente a frente. Os judeus asseguraram as posições dentro dos territórios que o plano da ONU lhes concedia e procuraram ocupar outros. A 14 de Maio de 1948, véspera do fim do Mandato e da retirada das últimas forças britânicas, os judeus proclamaram o Estado de Israel. A partir do dia 15 a guerra alargou-se com a entrada na Palestina de uma coligação de forças regulares transjordanianas, egípcias e sírias, ajudadas por contingentes libaneses e iraquianos.

Israel tinha já em 1948 uma enorme vantagem sobre a coligação árabe. O seu exército era mais numeroso, estava melhor treinado e melhor equipado. Além disso, Israel tinha o apoio das grandes potências e a simpatia da opinião pública ocidental. Os combates cessaram praticamente no dia 7 de Janeiro de 1949, graças à intervenção da ONU. Entre 23 de Fevereiro e 20 de Julho desse mesmo ano, os países árabes implicados na guerra, excepto o Iraque, assinaram armistícios com Israel.

Em 14 de novembro de 1948, Calouste Gulbenkian, exigiu dos chairmans das grandes companhias do petróleo — "convidados" a seu apartamento no Hotel Avis, em Lisboa — a inclusão de um item de última hora nos acordos com alguns governos e banqueiros.

Os territórios ocupados por Israel no fim da guerra constituíam cerca de 78% da Palestina. Tornaram-se, de fato, o território do Estado de Israel. Ficaram fora dele a cadeia de baixas montanhas do centro e do sul da Palestina, a chamada Cisjordânia, assim como a Faixa de Gaza. Jerusalém ficou dividida: a parte oeste da cidade extra-muros ficou do lado de Israel; a cidade antiga e o bairro extramuros a norte ficaram do lado árabe. Israel declarou Jerusalém sua capital, decisão essa ignorada pela comunidade internacional, pois ia contra a Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU de 1947, que recomendava a internacionalização da cidade. No dia 11 de Maio de 1949, o Estado de Israel foi admitido na ONU. A 24 de Abril de 1950, a Cisjordânia com a parte de Jerusalém sob domínio árabe foi anexada à Transjordânia, que passou a chamar-se Reino Hachemita da Jordânia. A Faixa de Gaza ficou sob administração militar egípcia.

Entre setecentos a novecentos mil palestinos do que se tornou o território de Israel, isto é, a esmagadora maioria da sua população autóctone, encontraram-se na situação de refugiados. Uns fugiram de suas casas aterrorizados com a aproximação das forças judaicas.

O pânico que se abateu sobre a população palestina foi criado em boa parte pelos massacres cometidos pelas forças judaicas em vários pontos do país. O mais conhecido é o de Der Yassin, que era então uma aldeia na vizinhança de Jerusalém. As suas terras estão hoje ocupadas por Giveat Chaul, um bairro da cidade. A 9 de Abril de 1948, um comando do Irgun e do Stern entrou em Der Yassin e massacrou mais de cem pessoas, homens, mulheres e crianças. A notícia desse massacre provocou a fuga de cerca de 100.000 pessoas da região de Jerusalém. Outros palestinos foram expulsos à força. Entre os vários casos conhecidos, os de maiores proporções tiveram lugar em Lida (a atual cidade de Lod) e Ramlé. Uma escaramuça com tropas árabes ocorrida no dia 12 de Julho de 1948 serviu de pretexto ao exército de Israel para uma violenta repressão que custou a vida a 250 pessoas, algumas das quais eram prisioneiros desarmados, assim como para a expulsão de cerca de 70.000 pessoas, algumas das quais já eram refugiadas.  A ordem de expulsão foi dada pelo próprio Primeiro-Ministro, David ben Gurion. Os seus executores foram Igal Alon e Isaac Rabin. A Galiléia foi a região do território de Israel onde ficaram mais palestinos. As zonas de maior densidade populacional palestina ficaram sob administração militar até 8 de Dezembro de 1966.

A 11 de Dezembro de 1948 a ONU aprovou a resolução 194 que reconhece aos refugiados palestinos o direito de regressarem aos seus lares ou de serem indemnizados, se assim o preferirem. Apesar de o preâmbulo da resolução que o admitiu na ONU mencionar explicitamente a aplicação desta resolução, Israel recusou-se e continua a recusar-se a aplicá-la. Apressando-se a arrasar as aldeias palestinas que tinham sido esvaziadas dos seus habitantes (o número habitualmente avançado é de cerca de 500 localidades) e distribuindo as suas terras aos imigrantes judeus, Israel tornou impossível o regresso de uma boa parte dos refugiados aos seus lares. A esmagadora maioria dos refugiados amontoou-se em acampamentos na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, na Jordânia, na Síria e no Líbano. No dia 1º de Maio de 1950 a ONU criou a UNRWA, a agência internacional que se ocupa deles.

Desde a criação do Estado de Israel, o conflito que o opõe aos palestinos tem sido o epicentro de um conflito entre Israel e o conjunto dos países árabes, com fortes repercussões mundiais. Esse conflito foi, em particular, a causa, ou pelo menos a ocasião, da emigração da maioria esmagadora dos judeus dos países árabes para a Palestina/Israel a partir dos últimos anos da década de 1940. As circunstâncias variaram ligeiramente segundo os países. De um modo geral, pode dizer-se que uns emigraram por causa da hostilidade de que o conflito os tornou alvos nos seus respectivos países e os outros foram "puxados" ou "empurrados" por Israel, desejoso de multiplicar o mais rapidamente possível a sua população judaica por razões nacionalistas, militares e económicas, repovoando assim o território que havia sido praticamente esvaziado da sua população palestina. De fato, os "judeus orientais" depressa se tornaram maioria em Israel, mas o aparelho de estado e o poder económico ficaram bem firmes nas mãos dos askenazes. A importância numérica entre os dois grupos mudou entretanto a favor dos askenazes com os numerosos imigrantes vindos, nas últimas décadas, das repúblicas soviéticas, antes e depois da dissolução da União Soviética.

 

 

A guerra de 1967 e as suas consequências


A crescente mancha da invasão judia sobre a Palestina

Desde o fim da Guerra de Suez, em 1956, forças internacionais separavam os exércitos de Israel e do Egipto e garantiam a liberdade de navegação no Golfo de Akabá. A 19 de Maio de 1967, o Secretário-Geral da ONU, U Thant, decidiu retirá-las, a pedido do Presidente do Egito Gamal Nasser. No dia 22 de Maio, Nasser fechou o Golfo de Akabá aos barcos israelitas. Israel ripostou no dia 5 de Junho com uma guerra-relâmpago durante a qual ocupou toda a Península do Sinai (egípcia) a Faixa de Gaza (sob administração militar egípcia) a Cisjordânia juntamente com Jerusalém Oriental (anexadas pela Jordânia em 1950) e o Planalto do Golã (sírio). Israel anexou a parte de Jerusalém recém-ocupada.

A chamada "Guerra dos Seis Dias" fez mais refugiados palestinos, da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, alguns dos quais o eram pela segunda vez. Calcula-se que o seu número foi superior a 50.000. A maioria foi para a Jordânia. Os restantes foram para o Egito, a Síria e outros países.

No dia 22 de Novembro de 1967, o Conselho de segurança da ONU aprovou a resolução 242 que se propunha formular os termos para uma paz justa e duradoura no Próximo Oriente, baseada no respeito pelos princípios da Carta da ONU e na inadmissibilidade da aquisição de territórios pela guerra. A resolução ordena a retirada das forças armadas israelitas dos territórios ocupados no recente conflito9 em troca do reconhecimento pelos estados árabes do Estado de Israel dentro das linhas do armistício de 1949. Além disso, a resolução ressalta a necessidade de garantir a liberdade de navegação através das águas internacionais da área e de dar uma solução justa ao problema dos refugiados. Longe de se retirar dos territórios recentemente ocupados, como exigia a resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, Israel começou logo a colonizá-los com cidadãos seus.

 

 

De 1967 a 1995

 

A história do conflito israelo-palestino desde 1967 é um rosário de planos de paz abortados, de esperanças frustradas e, como nos períodos anteriores, de violência, sangue, destruição e lágrimas. Referiremos só, rapidamente, os fatos, os acontecimentos e as datas que nos parecem mais marcantes e susceptíveis de ajudar a compreender a situação actual.

Começaremos por assinalar uma mudança nos papéis desempenhados pelos intervenientes no conflito. A anexação da Cisjordânia pela Jordânia em 1950 e a passagem da Faixa de Gaza para a tutela do Egito levaram a uma espécie de eclipse do povo palestino. A situação mudou a partir de 1967. O povo palestino voltou a tomar em mãos o seu destino. Por mais que se tenha esforçado por negar a sua existência, Israel teve finalmente que reconhecer o povo palestino não só como povo, mas também como "interlocutor/inimigo" inevitável. Encarnou as aspirações nacionais palestinas a Organização de Libertação da Palestina (OLP) uma coligação de partidos ou grupos que havia sido criada em Jerusalém, em 1964. Tal como foi formulada em 1968, a Carta da OLP, na linha do que sempre fora a política palestina, propunha-se como objectivo a criação do Estado da Palestina em todo o território nacional. Isso implicava o desaparecimento do Estado de Israel. A carta da OLP considerava os judeus que viviam na Palestina antes da "invasão sionista" como palestinos com pleno direito à cidadania, como os demais habitantes: muçulmanos, cristãos e de outras religiões ou etnias.

A chefia da OLP esteve na Jordânia até 1971. Derrotada no conflito armado que a opôs ao Governo Jordaniano (Fevereiro e Setembro de 1970) a OLP foi expulsa desse país em 1971, instalando-se então no Líbano. Na sequência desses acontecimentos, alguns grupos palestinos, que se apelidaram "Setembro Negro", lançaram-se numa campanha de guerrilha internacional, cujas rações mais espectaculares foram os numerosos desvios de aviões comerciais e o atentado contra os atletas israelitas que participavam nos Jogos Olímpicos de Munique a 5 e 6 de Setembro de 1972.

No dia 6 de Outubro de 1973, o Egito e a Síria tentaram, em vão, reconquistar militarmente cada qual os territórios conquistados por Israel em 1967. No dia 22 do mesmo mês, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 338 que reafirma a validade da Resolução 242 e apela para um cessar-fogo e para negociações com vistas a "instaurar uma paz justa e duradoura no Próximo Oriente". Os combates cessaram três dias mais tarde.

No mês seguinte, a Liga Árabe, reunida na Cimeira de Argel (26 a 28 de Novembro de 1973) declarou a OLP único representante do povo palestino. Desde 1970 a assembleia Geral da ONU afirmava regularmente o direito do povo palestino à auto-determinação. No dia 13 de Novembro de 1974, Yasser Arafat fez um discurso na assembleia Geral da ONU. Esta reconheceu aos palestinos o direito à independência e concedeu à OLP o estatuto de observador. A ideia da criação do Estado da Palestina só em parte do território nacional, já abordada em Junho de 1974, foi aceite no 13º Conselho Nacional Palestino, de 12 a 20 de Março de 1977.

No dia 17 de Setembro de 1978, foram assinados os acordos de Camp David entre o Egipto, Israel e os EEUU. Israel devolveu o Sinai ao Egipto. Paralelamente à retirada do Sinai, que terminou a 25 de Abril de 1982, Israel intensificou a colonização da Cisjordânia e do Golã. Em conformidade com os acordos de Camp David, o Egipto e Israel começaram, a 25 de Maio de 1979, negociações sobre um estatuto de autonomia para os palestinos da Cisjordânia e de Gaza, não escondendo Israel a intenção de anexar esses territórios no termo dos cinco anos previstos para a autonomia.

No dia 6 de Junho de 1982, Israel invadiu o Líbano com a intenção declarada de expulsar de lá a OLP. Nos termos de um cessar-fogo negociado sob a égide dos EEUU, as forças da OLP foram evacuadas do Líbano entre 10 e 13 de Setembro desse ano, mudando-se a sua chefia para Tunes. Foi então que se deram os massacres de Sabra e de Chatila. Entre os dias 15 e 16, o exército de Israel ocupou a parte ocidental de Beirute. No dia 16, forças libanesas (milícias cristãs aliadas de Israel) entraram nos campos de refugiados palestinos de Sabra e de Chatila e mataram homens, mulheres e crianças (Embora se utilizem da palavra "cristãs", essas organizações israelitas, "milícias cristãs", não têm o aval, nem a mais remota participação da Igreja Católica, ou das outras Igrejas Cristãs). Os soldados israelitas que cercavam os campos assistiram aos massacres sem intervir. Segundo a comissão de inquérito oficial israelita houve 800 mortos; segundo a OLP, terá havido 1500.

  

A dita comissão israelita concluiu que Ariel Sharon, então Ministro da Defesa, foi indirectamente responsável pelo sucedido.

No dia 9 de Dezembro de 1987 rebentou a primeira Intifada (insurreição) em Gaza e na Cisjordânia contra a ocupação.

No dia 31 de Julho de 1988, o rei Hussein da Jordânia anunciou oficialmente que rompia "os vínculos legais e administrativos" do seu país com a Cisjordânia, renunciando à pretensão de soberania sobre esse território que havia sido anexado pelo seu avô em 1950.

No 19º Conselho Nacional palestino, reunido em Argel, a OLP proclama o Estado da Palestina no dia 15 de Novembro de 1988, aceita as resoluções do Conselho de Segurança da ONU 181, 242 e 338 e reafirma a condenação do terrorismo.

Na sequência da chamada "Guerra do Golfo", houve a Conferência Internacional de Madrid (inaugurada no dia 30 de Outubro de 1991) e as primeiras negociações bilaterais entre Israel e três dos seus vizinhos árabes (Jordânia, Síria e Líbano). Os palestinos ainda não tiveram a sua delegação própria. Fizeram parte da delegação jordaniana.

Negociações secretas entre israelitas e palestinos tidas em Oslo, no Inverno de 1992-1993, levaram finalmente ao reconhecimento entre Israel e a OLP a 9 de Setembro de 1993. A 13 do mesmo mês Yasser Arafat e Isaac Rabin assinaram em Washington a "Declaração de Princípios sobre as Disposições Interinas de 'Auto-Governo'". A dita declaração determinava a entrega de parte da Cisjordânia e da Faixa de Gaza aos palestinos, entrega essa concebida como a primeira etapa de um processo que deveria desembocar, no prazo de cinco anos, na solução do conflito que opõe os palestinos e os sionistas/israelitas desde há quase um século. De fato, Yasser Arafat entrou em Gaza no dia 1º de Julho de 1994 e o exército de Israel terminou a retirada das cidades palestinas, excepto de Hebron, em Dezembro de 1995. Os palestinos viram nesse fato o começo da realização do sonho de um estado palestino independente, embora só em cerca de um quinto da sua pátria e dividido em duas partes (Cisjordânia e Faixa de Gaza) separadas pelo território de Israel. Incluindo Jerusalém Oriental, a Cisjordânia tem uns 5.850 Km2. A Faixa de Gaza tem uns 365 km2.

 

 

Desde 1995

 

No dia 23 de Outubro de 1998, Israel e a Autoridade Palestina assinaram o memorando de Wye River que previa a entrega à Autoridade Palestina de mais 13% do território da Cisjordânia no prazo de três meses, mas passados menos de dois meses, a 18 de Dezembro, Israel suspendeu a sua aplicação.

No dia 4 de Maio de 1999 terminou o período da autonomia palestina previsto na "Declaração de Princípios". Sob a instigação do Presidente dos EEUU, Bill Clinton, Yasser Arafat e Ehud Barak assinaram, no dia 4 de Setembro do mesmo ano, o memorando de Charm ech-Cheikh, que redefinia o calendário para a aplicação do memorando de Wye River e, além disso, estipulava a abertura de dois corredores seguros entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, a libertação de mais um grupo de prisioneiros palestinos e o começo das negociações sobre todas as questões ainda em suspenso. Tudo isso ficou letra morta. Bill Clinton convocou de novo Yasser Arafat e Ehud Barak com os quais se reuniu em Camp David de 11 a 24 de Julho. As negociações avançaram, mas não se chegou a um acordo. Seguiram-se ainda outras tentativas de negociações instigadas igualmente por W. Clinton, prestes a terminar o seu mandato. A última dessas tentativas teve lugar em Taba (Egito) de 21 a 27 de Janeiro de 2001, dias antes de os israelitas escolherem Ariel Sharon para seu primeiro-ministro em vez de Ehud Barak.

Resumindo: Os acordos de Oslo não criaram a dinâmica de paz que deles se esperava. Praticamente não se foi além da aplicação do que se previa que fosse só a sua primeira fase. É verdade que Israel se retirou das oito zonas urbanas da Cisjordânia e de cerca de 80% da Faixa de Gaza, deixando assim a maioria esmagadora dos palestinos sob a jurisdição exclusiva da Autoridade Palestina10. Repare-se, no entanto, que as oito zonas urbanas da Cisjordânia são ilhas num mar israelita11. Não havendo contigüidade territorial entre elas, estão isoladas umas das outras. Em condições "normais", essa situação obstrui seriamente a circulação de pessoas e bens e, por conseguinte, todas as atividades, nomeadamente a atividade econômica, dos palestinos. Em situações de "crise", ela permite ao exército israelita reocupar em poucos minutos, e com poucos meios (uns quantos tanques e buldózeres) as cidades palestinas ou sitiá-las, encarcerando nelas os seus habitantes. Pelo contrário, os colonos israelitas continuaram a evoluir à vontade num espaço aberto, dispondo para isso de uma moderna rede rodoviária própria, que não só lhes permite circular na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, mas também os liga ao território de Israel. Longe de parar, como deveria ter acontecido em conformidade com o espírito do "Processo de Oslo", a colonização, sobretudo da Cisjordânia, intensificou-se. Cresceram os Assentamentos de Colonos já existentes e criaram-se outros novos. Para esse efeito, confiscaram-se mais terras. Isto e o não-cumprimento por parte de Israel de outros acordos levaram os palestinos a perder a confiança no "processo de Oslo". A frustração, à altura da imensa esperança que o dito processo havia suscitado, levou os palestinos à beira da explosão. A visita de Ariel Sharon, então chefe da oposição israelita, à Esplanada das Mesquitas em Jerusalém, no dia 28 de Setembro de 2000, serviu de rastilho. O horror do que desde então se passa na Palestina tem ecoado ruidosamente em todo o mundo dia após dia, graças aos meios de comunicação social.

  

 

Algumas conclusões e reflexões

 

Para terminar, algumas conclusões e reflexões. Começaremos por um apanhado dos pontos de divergência fundamentais que existem atualmente entre a Autoridade Palestina e Israel.

1 – A questão dos refugiados. Israel recusa-se a aplicar a Resolução 194. Aprovada pela assembléia Geral da ONU a 11 de Dezembro de 1948 e reafirmada todos os anos, essa resolução reconhece aos refugiados o direito de regressarem aos seus lares ou de serem indenizados, se assim o preferirem. Israel nega-se até a reconhecer a sua responsabilidade moral e legal pela existência dos refugiados. Durante décadas "legitimou" essa recusa dizendo que os palestinos abandonaram as suas casas por ordem dos países/exércitos árabes, que lhes teriam prometido o regresso dentro de pouco tempo. Ora, os estudos dos chamados "novos historiadores" israelitas da última década confirmaram o que os historiadores palestinos sempre disseram e os bons conhecedores da questão sabiam há muito, para não falar das vítimas: Essa versão da origem do problema dos refugiados palestinos é uma invenção da propaganda israelita. Por isso, Israel funda agora abertamente a recusa do regresso dos refugiados no que é, e sempre foi, a verdadeira razão: O regresso dos refugiados mudaria a composição étnica de Israel, que se "arriscaria" a deixar de ser um estado majoritariamente judaico. Ora, foi precisamente para evitar esse "perigo" que Israel expulsou muitos dos refugiados de suas casas.

Os refugiados palestinos são, de fato, muito numerosos. A 30 de Junho de 1999, a UNRWA recenseava 3.600.000. Não entram nesse número os que se tornaram refugiados em 1967 (mais de 50.000) e os seus descendentes. Sabe-se que existem mais umas centenas de milhar de palestinos que foram deslocados e não constam nas listas da UNRWA.

2 – Jerusalém Oriental. A parte oriental de Jerusalém foi conquistada em 1967. O plano da internacionalização de Jerusalém (na sua totalidade, indo até Belém) tendo sido aparentemente abandonado, a parte oriental da cidade é um dos territórios ocupados em 1967, que a Resolução 242 do Conselho de Segurança ordena devolver. O fato de Israel a ter anexado e de lhe ter alargado as fronteiras não muda de forma alguma o seu estatuto do ponto de vista da legalidade internacional. Essas medidas foram aliás declaradas nulas repetidas vezes pelas instâncias da ONU. No que se pode considerar um gesto de boa vontade, a Autoridade Palestina aceita ceder a Israel a soberania sobre partes de Jerusalém Oriental, nomeadamente o chamado "Muro das Lamentações", o único vestígio das construções ligadas ao templo judaico que se conhece12. Por ser o lugar do antigo templo judaico, do qual nada é visível, Israel opõe-se à soberania palestina sobre a Esplanada das Mesquitas, a qual com o santuário do Domo do Rochedo e a Mesquita de El-Aqsa, bem visíveis, é o terceiro lugar santo do islamismo.

3 – Assentamentos de Colonos. No decurso dos 35 anos de ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, Israel criou mais de duas centenas de Assentamentos de Colonos sobretudo na Cisjordânia. Para esse efeito, apoderou-se de todos os recursos hídricos e da maioria das terras da Cisjordânia: umas declarou-as baldias e as outras, nomeadamente as que pertenciam aos refugiados ou a outras pessoas ausentes em 1967, confiscou-as. Calcula-se que há hoje 200.000 israelitas a viver na Cisjordânia e outros tantos em Jerusalém Oriental, ao lado de cerca de 2.000.000 de palestinos. Na Faixa de Gaza há 6.900 israelitas, que dispõem de cerca de 20% do território, ao lado de cerca de 1.200.000 palestinos, dos quais cerca de 70% são refugiados. 33% dos palestinos da Faixa de Gaza vivem nos campos de refugiados administrados pela UNRWA. Superpovoada, a Faixa de Gaza é um dos territórios do mundo com maior densidade demográfica.

A instalação de cidadãos civis do estado ocupante num território ocupado é explicitamente proibida pela IV Convenção de Genebra relativa à Proteção das Pessoas Civis em Tempo de Guerra que Israel assinou. Por isso, a colonização israelita de Jerusalém Oriental e dos demais territórios ocupados foi muitas vezes declarada ilegal pelas instâncias da ONU (Conselho de Segurança e assembléia Geral). Nas mesmas ocasiões as ditas instâncias internacionais exortaram Israel a anular todas as medidas tomadas no sentido da colonização dos territórios ocupados.

Ainda é preciso assinalar algumas imagens correntes do conflito israelo-palestino que deformam completamente a realidade.

1 – Embora haja uma imensa admiração pelas proezas de Israel, nomeadamente pelas suas façanhas militares, tende-se não raro a pensar que as partes envolvidas no conflito israelo-palestino têm forças mais ou menos iguais. Ora, isso é inteiramente falso. Israel é uma grande potência militar não só regional, mas também mundial. Tem um dos exércitos mais poderosos do mundo.

    

"E ele está fazendo isso com zelo religioso. Ele está propondo uma nova religião de exclusivo e militante nacionalismo em nome do qual, qualquer atrocidade se transforma em um ato de humanidade a ser recompensado aqui e no futuro. Os crimes de um homem desorientado e intrépido, estão sendo observados sob o olhar da sua raça, com uma ferocidade inacreditável."

Gandhi

Tem também um poder económico apreciável. Além disso, seja qual for o seu governo ou a política seguida, tem disposto e continua a dispor, incondicionalmente, do apoio económico diplomático e político dos EEUU, seja qual for o partido da sua administração. Ora, como se sabe, os EEUU são actualmente a única super potência e agem como donos incontestados do mundo. Pelo contrário, os palestinos são na sua maioria um povo de refugiados sem nada que se compare, nem de muito longe, com os trunfos de Israel. Aliás, a incipiente infra-estrutura económica palestina foi em grande parte destruída por Israel nos últimos meses. Dada a imensa desigualdade das forças, é quase impossível que haja autênticas negociações entre as duas partes. De fato, Israel tem agido e continua a agir como quem quer, pode e manda, com a certeza de que os palestinos terão de acabar mais uma vez por vergar a espinha e aceitar as suas condições, apanhar as migalhas que eles se dignam atirar-lhes. Longe de reconhecer a imensa injustiça que cometeu e continua a cometer para com os palestinos, Israel tem agido e age para com eles com uma prepotência e uma arrogância imensas, particularmente chocantes porque vindas de pessoas que sabem, ou deviam saber, melhor do que ninguém o que é ser vítima da injustiça. Esse comportamento tem provocado e provoca cada vez mais uma humilhação indizível nos palestinos. Do ponto de vista humano, é porventura isso o que mais profundamente os fere.

A desproporção abissal entre as forças em presença explica a diferença na natureza das armas usadas e nas formas de combate adotadas por cada uma das partes, deitando cada uma mãos dos meios de que dispõe. À desproporção nas forças em presença corresponde naturalmente a desproporção na grandeza da violência e do terror semeados por cada uma das partes, no número de vidas destruídas e na importância dos danos materiais causados.

2 – Não é raro que os meios de comunicação social apresentem os palestinos como os iniciadores do conflito que os opõe a Israel, isto é, os agressores. Ora, isso é pôr a realidade do avesso. Na melhor das hipóteses, os meios de comunicação social apresentam as duas partes como se estivessem num pé de igualdade do ponto de vista jurídico e moral. Ora, isso é falso. Dêem as voltas que quiserem, mas o fato insofismável é que Israel é o ocupante e os palestinos são os ocupados. Israel é o opressor e os palestinos são os oprimidos. Os palestinos lutam para se libertar da ocupação e da opressão. Israel luta para perpetuar a ocupação e a opressão. Os palestinos, autóctones da Palestina, não invadiram a terra de ninguém, não colonizaram ninguém. Foram, sim, as vítimas de um processo de colonização clássico, do qual, em última análise, as potências européias vencedoras da Primeira Guerra Mundial – a Grã-Bretanha em primeiro lugar – assim como os EEUU são em grande parte os responsáveis. Como costuma repetir o Patriarca Latino de Jerusalém, Monsenhor Michel Sabbah, a ocupação israelita é, no caso presente, a violência fundamental. É ela que engendra as outras violências de que tanto se tem falado nestes últimos tempos. Ao reconhecerem o Estado de Israel, quando dos acordos de Oslo, os palestinos renunciaram aos cerca de 78% da sua pátria de que o dito Estado os despojou em 1948-1949. A única coisa que reclamam é a devolução dos cerca de 22% da Palestina que Israel conquistou em 1967 para neles criarem o seu estado, ao lado do Estado de Israel. Assiste-os em toda a linha a legalidade internacional, cuja aplicação não fazem senão exigir. Não deve esquecer-se que a dita legalidade internacional, na realidade, consagrou em boa parte fatos consumados impostos pela força, que sempre beneficiaram os israelitas e lesaram os palestinos. A criação de um estado árabe ao lado de um estado judaico na Palestina foi recomendada pela resolução 181 da assembléia Geral da ONU de 29 de Novembro de 1947. Repare-se que a ONU atribuía ao estado árabe 43% do território, não os 22% que os palestinos hoje reclamam. A justiça mais elementar exige que os refugiados palestinos possam regressar a suas casas, se assim o desejarem, ou sejam indenizados pelo que perderam. Foi isso mesmo o que ordenou a Resolução 194 do Conselho de Segurança da ONU de 1948, Resolução essa que tem sido reafirmada pelas instâncias da mesma organização internacional dezenas de vezes. A retirada de Israel da Cisjordânia/Jerusalém Oriental e da Faixa de Gaza foi ordenada pela resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU de 1967.

Teoricamente, essas decisões da ONU deveriam ser executadas pura e simplesmente, sem regateios. As negociações, caso as houvesse, normalmente deveriam ter só por objeto as questões práticas relativas à execução das ditas decisões. Claro que quando há boa vontade, em particular no mundo mediterrâneo, são sempre possíveis acomodamentos e arranjos.

Entre os inumeráveis conflitos que ensangüentaram e ensangüentam o mundo no último século, o que opõe israelitas e palestinos é um dos mais duradouros e, sem dúvida, o que mais eco encontra no mundo, pelo menos no mundo que é herdeiro da tradição bíblica por intermédio do cristianismo, do islamismo e do judaísmo. Os simples cidadãos que somos, com maior razão se não somos nem israelitas nem palestinos, sentimo-nos completamente impotentes perante ele. Há uma coisa que podemos fazer, porventura a única. É oferecer a nossa simpatia e a nossa solidariedade não aos que querem eternizar a injustiça, mas àqueles, israelitas e palestinos, que procuram pôr-lhe fim, pelo menos na medida em que isso ainda é possível.

 



Os direitos sobre qualquer imagem ou texto que aborde a brutalidade israelita contra o povo e a Nação Palestina são de domínio público, pois são provas de crimes de contra a humanidade.

http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/palestina.html 

 


NOTAS:

1 Usamos palestinense em relação com a Palestina antiga, palestino em relação com a Palestina moderna.

2 Adoção da língua árabe, da forma árabe dos nomes pessoais e da era da Hégira.

3 Nasceu em Budapeste, mas passou a maior parte da vida em Viena.

4 Askenaze qualificou primeiro o judaísmo da Alemanha com as suas tradições próprias, estendendo-se depois ao judaísmo de toda a Europa central e oriental. O termo designa de maneira genérica os judeus da Europa central e oriental ou de lá originários.

5 Sefardita no sentido próprio qualifica os judeus da península ibérica e os seus descendentes. Depois da sua expulsão, os judeus ibéricos dispersaram-se sobretudo nos países mediterrâneos, mas também nos Países Baixos, na Grã-Bretanha e, finalmente, nas Américas. Na linguagem corrente, a palavra sefardita aplica-se freqüentemente, de maneira inadequada, a todos os judeus não askenazes. Como a sua grande maioria vivia nos países mediterrâneos e nos países árabe-muçulmanos do Próximo e Médio Oriente (Iraque, Iêmen, Irã, etc.) os judeus não-askenazes também são muitas vezes chamados "judeus orientais".

6 Distinguindo entre o antigo Reino de Israel e o Estado de Israel, pretende-se dois nomes de nacionalidade diferentes, respectivamente israelita e israelense, como forma de se justificar a proposta da ONU de 29 de novembro de 1947; mas, por considerarmos essa maneira um exagerado eufemismo, preferimos — nesta versão em português do Brasil — somente o nome israelita.

7 O que mais se pareceu com uma consulta dos palestinos foi a chamada Comissão King-Crane. Os norte-americanos Henry C. King e Charles R. Crane efetuaram de fato uma missão na Palestina e consultaram os seus habitantes em Junho-Julho de 1919. No seu relatório, King e Crane recomendaram profundas modificações no projeto sionista, mas a Grã-Bretanha e a França, que haviam boicotado a missão, não fizeram caso dessas recomendações.

8 Menahem Beguin e Isaac Chamir, que serão mais tarde primeiros-ministros de Israel, estiveram ligados a estes grupos. O primeiro dirigiu o Irgun a partir de Dezembro de 1943. O segundo foi um dos chefes do Stern.

9 Há uma divergência sutil entre os textos inglês e francês da resolução, ambos oficiais. O primeiro fala "dos territórios" ("des territoires") e o segundo "de territórios" ("from territories"). Israel só tem em conta a versão inglesa que lhe permitiria eventualmente guardar parte dos territórios conquistados em 1967. Afirmando a inadmissibilidade da aquisição de território pela guerra sem qualquer restrição, o segundo considerando da resolução parece excluir tal interpretação.

10 Esses territórios, sobretudo o da Cisjordânia, foram divididos, de forma complicadíssima, em três zonas: A (com administração palestina exclusiva); B (com administração civil palestina e ocupação militar israelita); e C (administração israelita exclusiva).

11 Na Cisjordânia, a zona A representa 17,2% do território; a zona B 23,8%; e a zona C 59%. Os mapas da Cisjordânia onde figuram estas divisões são com freqüência comparados à pele de um leopardo.

12 A ironia do destino quer que essas construções tenham sido obra do idumeu (palestino) Herodes Magno.

 

beirute 

Parte IV: 1967-2000

 

No início de 1967, o ciclo sírio-israelita de violência voltava a ficar fora de controle. Informado de que Israel pretendia atacar a Síria (informação talvez fornecida pela Rússia, que acreditava que os EUA queriam derrubar o Baa’th na Síria e isolar Nasser), Nasser solicitou a retirada das tropas das Nações Unidas e remilitarizou o Sinai. Em maio, o Egipto bloqueou o estreito de Tirana, fornecendo um casus belli para Israel, que já se encontrava em estado de prontidão.

As forças militares do Egipto, da Síria e da Jordânia estabeleceram um comando unificado, sob a liderança de Nasser. No início de junho, o governo americano concluiu que não havia solução política para a crise e que a acção militar israelita era inevitável. Sem endossar oficialmente tal acção, o governo Johnson comunicou suas opiniões ao governo israelita através de canais informais. Esta garantia foi um elemento importante na decisão do gabinete israelita de lançar a guerra em 5 de junho.

A Guerra dos Seis Dias, como é conhecido este momento do conflito árabe-israelita, teve consequências profundas para o mundo árabe. Um ataque surpresa das forças israelitas destruiu as forças aéreas do Egipto e da Síria, enquanto em terra Israel atacava posições egípcias no Sinai e em Gaza. A Jordânia tomou o governo internacional de Jerusalém e bombardeou Tel-Aviv; em resposta, Israel atacou e capturou toda a margem ocidental do Rio Jordão, incluindo Jerusalém, capturando ainda as Montanhas de Golan, pertencentes à Síria.

A guerra de 67 foi um divisor de águas na história do conflito árabe-israelita. Exacerbou a disputa colocando a corrida ao armamento e a formação militar em um nível totalmente diferente e agravando a discórdia bilateral entre Israel e os estados árabes cujos territórios ficaram sob seu controle. Um clima de humilhação e desespero prevalecia nos estados árabes, que sofreram uma derrota devastadora que não podia mais ser atribuída aos antigos regimes corruptos. O envolvimento, intervenção e competição dos dois super-poderes no conflito também assumiu novas proporções” (Rabinovich, 1984, p. 53).

Em consequência da ocupação israelita da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, mais meio milhão de palestinos deixaram suas casas, elevando para 1,5 milhão o total de palestinos refugiados (ONU, II, cap. VI) – sendo aproximadamente 350.000 os que ficaram no Líbano, vivendo em campos para refugiados que se tornaram verdadeiros distritos das grandes cidades libanesas, em condições semelhantes às das favelas brasileiras.

De dezembro de 1968 a agosto de 1970, manteve-se a guerra de atrito. O impasse permanecia: Israel podia derrotar três estados árabes em seis dias e tomar grandes territórios no Sinai, Margem Ocidental e Golan, mas não podia infligir uma derrota total ao mundo árabe ou usar sua vitória militar para ditar um acordo de paz. Os territórios tomados passavam a ser itens negociados como garantias para obter a paz. No mundo árabe, a OLP ganhava sua autonomia, tornando-se um actor importante no futuro do conflito.

Para os árabes, Israel era o agressor e tinha que ser punido. Contavam com apoio da União Soviética e grande número de países islâmicos e do Terceiro Mundo. Seus esforços concentravam-se na ONU, porém como a posição israelita era apoiada pelos Estados Unidos, nada podia ser feito (além de vagas resoluções sobre a desocupação dos territórios, o que nunca foi realmente exigido de Israel).

A resistência palestina, entretanto, tornava-se mais significativa. Com a permissão do Rei Hussein da Jordânia, a OLP passou a usar este país como base, formando um Estado dentro de um Estado e intensificando suas operações contra Israel: bombardeamentos através da fronteira jordana e libanesa; sabotagem dentro de Israel; violência contra alvos israelitas e judeus fora do Oriente Médio. Estas actividades tiveram um papel crucial no estabelecimento da OLP no mundo árabe e na familiarização da comunidade internacional com a Questão Palestina. Em setembro de 1970, sendo expulsa da Jordânia, a OLP estabeleceu-se no território libanês, construindo não apenas uma estrutura política e militar, mas também assistencial e educacional.

O momento seguinte do conflito árabe-israelita foi a guerra de outubro de 1973, referida pelos árabes como Guerra do Ramadão e pelos israelitas como Guerra do Yom Kippur. Esta Guerra foi concebida e iniciada por Anwar al-Sadat, presidente egípcio após a morte de Nasser em 1970, que acreditava que a crise energética do início dos anos 1970 havia aumentado a influência internacional dos árabes e poderia ser usada para forçar Israel a um acordo; para este processo iniciar-se, seria essencial uma operação militar. O plano egípcio visava atravessar o canal de Suez e controlar sua margem oriental, ao mesmo tempo em que a Síria efectivava uma ofensiva em Golan para atrair as forças israelitas. O avanço inicial sírio e egípcio teve sucesso, mas o contra-ataque israelita logo se mostrou mais eficiente: Israel atravessou o Canal e invadiu o Egipto, expulsando ainda os sírios das montanhas de Golã. A Arábia Saudita envolveu-se no conflito, impondo, junto com o Iraque e a Líbia, o boicote à venda de petróleo aos apoiantes de Israel. A União Soviética ajudou o Egipto a evitar uma derrota militar decisiva, enquanto os Estados Unidos sentiam que o momento deveria ser usado para estimular o movimento de ocidentalização do Egipto.

A Guerra terminou inconclusivamente com o cessar-fogo imposto pelos norte-americanos em 24 de outubro de 1973. Em Golan, Israel havia ganhado mais território; no sul, tinha o controle de grande parte do território egípcio, porém os egípcios dominavam a margem oriental do Canal de Suez. Politicamente, a vitória não foi egípcia nem israelita: em Israel, havia um grande número de mortos, feridos e prisioneiros de guerra; houve um declínio interno da força do governo e enfraquecimento da posição de Israel regional e internacionalmente, acompanhado de um aumento da influência árabe no mundo.

Uma importante consequência da Guerra de Outubro foi que provocou o fim do impasse que prevalecia desde 1967 entre Israel e Egipto, levando-os a participar do processo de paz promovido pelos Estados Unidos – que fornecera armas para Israel no meio da guerra e ao mesmo tempo salvara o Egipto de uma derrota total. Com o adiamento da questão da autonomia palestina, tornaram-se possíveis os acordos de Camp David em 1978, que selaram a paz entre Egipto e Israel.

Os conflitos entre Israel e os palestinos, entretanto, continuaram. Em 1982, as forças israelitas invadiram o Líbano para acabar com a presença da OLP naquele país. À época, a moderação de Arafat, que passava a pregar a convivência com os israelitas, era uma ameaça para os objectivos expansionistas de Israel, portanto novas atitudes militares teriam de ser tomadas. Desta vez, os israelitas ocuparam boa parte de Beirute, onde a destruição foi incalculável – somente nos primeiros anos da década de 1990 a cidade passou a ser reconstruída e a recuperar parte de seu antigo glamour.

O motivo que detonou a invasão, chamada pelos israelitas de “Operação Paz para a Galiléia”, foi a tentativa de assassinato do embaixador israelita em Londres – apesar de que durante os seis meses que a precederam, a média já oferecia numerosas predições sobre o acontecimento. Seus objectivos eram: destruir a infra-estrutura militar da OLP no sul do Líbano e eliminar sua capacidade de bombardear o norte de Israel; prevenir-se contra a possibilidade de a Síria lançar uma nova guerra; ajudar a reconstruir o governo central libanês ajudando o aliado israelita Bashir Gemayel; melhorar sua posição no processo de paz destruindo a base territorial autónoma da OLP no Líbano e estabelecendo uma relação normal com um segundo estado árabe.

A acção proposta pelo ministro da defesa Ariel Sharon deveria ser curta, porém teve a duração de vários meses. Ao invés de se deter numa faixa de 40 quilómetros Líbano adentro, como propunha o plano apresentado ao público (e aos demais membros do Gabinete israelita), o exército israelita continuou sua invasão até Beirute, onde procurou destruir as bases da OLP através de um constante bombardeio aéreo, naval e de artilharia. A cidade foi sitiada por 70 dias. Às vezes, os bombardeamentos israelitas pareciam aleatórios e indiscriminados, porém às vezes demonstravam incrível precisão. A estratégia israelita era “decapitar” o movimento palestino matando seus líderes, conduzindo uma “caçada humana aérea” a Arafat e sua entourage.

Perdendo o apoio dos líderes libaneses, que viam Beirute em convulsão devido à guerra entre Israel e a OLP, Arafat decidiu abandonar Beirute com a condição de que uma força de paz multinacional fosse destinada a proteger as famílias palestinas remanescentes. Com a mediação do enviado norte-americano Philip Habib, a Síria e a Tunísia concordaram em receber os militantes palestinos, e em 21 de agosto, uma força multinacional composta por 350 soldados franceses desembarcou em Beirute. A evacuação palestina começou no mesmo dia e no dia 26 chegava a Beirute o restante das tropas estrangeiras, compostas por 800 marines norte-americanos. Até o final do mês, aproximadamente 8.000 guerrilheiros palestinos, 2.600 soldados do Exército de Libertação da Palestina e 3.600 soldados sírios tinham sido evacuados de Beirute ocidental.

A estratégia israelita fracassou ao deixar o Líbano em convulsão, permitindo a entrada dos sírios, e ao reforçar a identidade e a ligação dos palestinos que, apesar de exilados, logo se reagrupariam novamente e com mais força (expulsa do Líbano, a cúpula da OLP recebeu asilo na Tunísia). Além disso, o aliado israelita Bashir Gemayel foi assassinado logo após ter assumido o governo e nenhum outro líder libanês recebeu a aprovação do governo sionista – inclusive seu irmão e sucessor, Amin Gemayel, que não contava com a simpatia israelita por seu perfil acomodacionista e menos radical.

Avaliando as consequências da Guerra, o governo israelita anunciou que 344 de seus soldados foram mortos e mais de 3.000 foram feridos, enquanto centenas de soldados sírios e mais de 1.000 guerrilheiros palestinos foram mortos e 7.000 capturados. Estimativas libanesas, compiladas de fontes da Cruz Vermelha Internacional e de relatórios policiais e hospitalares, indicam em 17.825 o número de libaneses mortos, a grande maioria constituída de civis mortos nos bombardeamentos israelitas, e mais de 30.000 feridos (Cedarland, “The 1975-1990 War”).

Temendo a permanência de dois mil militantes palestinos da OLP nas áreas sul e oeste de Beirute, Israel decidiu tomar também esta parte da cidade, provocando imensa destruição e mortandade. Sob a vigilância e permissão do exército israelita, as milícias falangistas massacraram os acampamentos palestinos de Sabra e Chatila, deixando cerca de 2.700 palestinos mortos, segundo a Cruz Vermelha Internacional (Mc Bride, 1983, p. 176), o que deu um novo rumo à guerra – Israel foi forçado a concordar com a retirada de suas forças do Líbano, onde seriam substituídas por novos contingentes da força internacional. O massacre também provocou a renúncia do ministro da defesa Ariel Sharon, apontado por relatório da câmara de deputados israelense como responsável pelo massacre de Sabra e Chatila (Rabinovich, 1985, p. 154).

Em maio de 1983, com a mediação do Secretário de Estado norte-americano George Schultz, um acordo entre Israel e o Líbano efectivou a saída das forças israelitas de Beirute, porém o entendimento sobre o retorno à normalidade no sul permaneceu não efectivo porque as tropas sírias tampouco deixaram o Líbano (pelo acordo, todas as forças estrangeiras deveriam deixar o país), além de não haver interesse para Israel na retirada de suas forças do sul do Líbano.

O trabalho das forças israelitas no sul do Líbano era complementado pelo do Exército do Sul do Líbano, milícia comandada pelo Major Saad Haddad, que passou a controlar o sul do país sob instrução e comando israelita. A região tornou-se uma área de conflito permanente, opondo a guerrilha de resistência libanesa, capitaneada pelo movimento islâmico Hizbollah, à milícia pró-israelita e ao próprio exército israelita. (Esta situação perdurou até maio de 2000, quando o movimento Hizbollah conseguiu impor aos israelitas uma retirada unilateral e provocou a desarticulação do ESL.) Em setembro de 1983, o exército israelita finalmente se retirou da região central do país, mantendo-se apenas ao sul do Rio Awali.

Actualmente, nos territórios ocupados em 1967 por Israel (Gaza e Cisjordânia), predomina um regime de total falta de liberdade e respeito com as populações locais, a quem são negados todos os direitos de expressão e organização política: Toda organização, incluindo organizações de ajuda mútua, conselhos de estudantes, etc., é proibida. As cortes religiosas muçulmanas (Sharia) perderam sua legitimidade e direito de operação, os sindicalistas são sistematicamente detidos ou expulsos. Em outras palavras, a liberdade, liberdade total de expressão e organização prevista na Declaração dos Direitos Humanos (liberdade de organização política, demonstrações, assembleias e qualquer outra forma de actividade política não-violenta) é totalmente negada aos palestinos sob a ocupação israelita.

Além da falta de liberdade política, há ainda a questão da exploração do trabalho, pois aos palestinos são oferecidos os piores empregos e salários mais baixos do que os pagos aos israelitas – situação que predomina até hoje nos territórios ocupados e também dentro de Israel. Esta situação, aliada à falta de vontade israelita em cumprir os acordos de paz firmados, levou no final dos anos 1980 ao surgimento da intifada, a “revolta das pedras” palestina contra a ocupação e as políticas desumanitárias de Israel. Tendo seu auge de 1987a 1991, o movimento recuou com os acordos de Oslo, que acenaram com uma possibilidade de resolução do conflito através da boa relação entre os líderes Yasser Arafat e Ytzak Rabin. O final dos anos 1990, porém viram uma guinada à direita no governo israelita – primeiro com Benyamin Netanyahu, que recuou nos acordos firmados em Oslo, e posteriormente com Ariel Sharon, conhecido entre os árabes como o “carniceiro de Beirute”, que rompeu toda conversação com os palestinos implantando uma violentíssima política de repressão nos territórios ocupados. Aliada à recusa de Israel em aceitar as três exigências que os palestinos fazem para encerrar a luta de resistência (desocupação dos territórios; direito de retorno; Jerusalém como capital palestina), a repressão israelita aos árabe-palestinos reacendeu a intifada em setembro de 2000, encerrando por completo as possibilidades de solução do conflito segundo os parâmetros estabelecidos nas conversações do início dos anos 1990.





libano 

Parte III: 1948-1967





Com o fim do mandato e a proclamação do Estado de Israel em maio de 1948, os sionistas continuaram a ocupar territórios árabes, provocando a entrada na Palestina dos exércitos regulares dos países vizinhos (Síria, Líbano, Transjordânia e Egipto), dando origem à guerra de 1948 ou primeira guerra árabe-israelita – conflito conhecido ainda como a Guerra da Palestina (para os países árabes), a Guerra de Independência (para os judeus), ou ainda o Desastre (para os palestinos), embora a história mostre que de fato trata-se de uma Guerra de Colonização.

A intervenção dos países árabes mostrou-se totalmente ineficiente diante da superioridade militar das forças israelitas – que além de serem bem equipadas com armas adquiridas dentro e fora da Palestina durante o período de mandato, eram mais bem treinadas, sendo formadas a partir de vários grupos armados como a Brigada Judaica, a Haganah, a Palmach, a Stern e a Irgun. Em dezembro de 1948, o exército egípcio havia sido empurrado para o sul e Israel avançou para o Deserto do Sinai, evacuando-o após pressão internacional; no norte, as forças israelitas derrotaram as pequenas forças libanesas e sírias e capturaram parte do Líbano, evacuando esta área após o armistício que pôs fim aos conflitos em 1949.

Ao final da guerra, Israel tinha se apoderado de uma área duas vezes maior do que a designada pelas Nações Unidas, ocupando quase todo o território da Palestina – com excepção da Margem Ocidental (ou Cisjordânia, ocupada pela Legião Árabe da Transjordânia) e da Faixa de Gaza (ocupada pelo exército egípcio). O Estado dos palestinos, previsto pela ONU, não veio a se tornar uma realidade, e seu território foi dividido entre Israel, Transjordânia e Egito (Talal, 1981, p. 63).

Segundo Itamar Rabinovich, foram os seguintes os factores que determinaram a vantagem israelitas no conflito: liderança única, ao contrário dos Estados árabes; sociedade e população mobilizadas para o esforço de guerra; obtenção de armas da Checoslováquia; capacidade de movimentação rápida das forças (Rabinovich, 1984, p. 45). Benis Morris também ressalta a superioridade militar e administrativa dos sionistas sobre os árabes (Morris, 1987, p. 7).

Com o avanço israelita, a população local em cada área sucessivamente conquistada abandonava suas aldeias e cidades, em pânico diante do terror que os grupos para-militares sionistas espalhavam entre a população palestina. A agressiva e desumana estratégia israelita, arrasando aldeias inteiras com seus bulldozers, queimando e destruindo plantações e celeiros, e trucidando a população civil, provocou um êxodo de refugiados para os países vizinhos – especialmente Líbano e Transjordânia. “O estupro tornou-se uma arma usada para aterrorizar os civis árabes na Palestina. O estupro de mulheres árabes seria notado em várias outras atrocidades sionistas após Deir Yassim. Tendo em vista a sensibilidade árabe sobre o estupro, não é surpreendente que muitos civis palestinos depois se lembrassem do medo do estupro como o motivo principal para seu êxodo” (Palumbo, 1987, p. 54).

Um relatório da ONU estima em 726.000 o número de palestinos refugiados resultantes dessas hostilidades ao final de 1949 – cerca de metade da população local (processo de expulsão do povo palestino de suas terras iniciara-se de fato com a espiral de violência dos anos 1930, que precipitou a fuga em massa das classes alta e média árabes das grandes cidades, especialmente Haifa, Jaffa e Jerusalém, e suas comunidades rurais satélites, porém só tomou proporções alarmantes nos anos 1948-49, e posteriormente em 1967 [ver Kodmani-Darwish, 1997; Palumbo, 1987; Morris, 1987]).

Depois que Israel se estabeleceu como um Estado para ‘o povo judeu’ e não o Estado para seus cidadãos, os palestinos foram relegados juridicamente ao status de ‘não-judeus’. Assim, ser palestino nas duas primeiras décadas da existência de Israel significou ou o exílio (...) ou uma existência subalterna indecente em Israel (...)” (Said & Hitchens, 1988, p. 3)

Essa política premeditada de expulsão da população local palestina, feita inicialmente através da pressão económica e a partir de 1947 através das armas, vem sendo reconhecida pelos próprios historiadores israelitas (os chamados revisionistas) como uma característica intrínseca do sionismo. Apesar das atrocidades cometidas pelos grupos paramilitares sionistas serem bem conhecidas e relatadas por testemunhas, por historiadores e por organismos internacionais, ainda há alguns historiadores israelitas e pró-sionistas que afirmam que estes grupos não desempenharam papel importante na expulsão dos palestinos de suas aldeias, como Benis Morris, considerado um revisionista: “apenas um número extremamente pequeno, insignificante, de refugiados deste período fugiu devido a ordens de expulsão ou ‘conselhos’ forçados para este efeito da Haganah, IZL [Irgun] ou LHI...” (Morris, 1987, p. 59). Esta tese não encontra fundamento na realidade e é criticada inclusive por outros historiadores israelitas. (Na mesma linha de raciocínio de Bennis Morris, a autora norte-americana Joan Peter argumenta em From time immemorial que os palestinos são na realidade árabes dos estados vizinhos, que vieram à Palestina entre 1946 e 1948 atraídos pela prosperidade do assentamento sionista. Esta obra foi completamente refutada por Norman Finkelstein em “Desinformation and the Palestine Question: The Not-so-Strange Case of Joan Peter’s From Time Immemorial” [In: SAID & HITCHENS, 1983]).

Os anos compreendidos entre o final da década de 1940 e os dias de hoje testemunharam a manutenção do conflito entre israelitas e árabes – especialmente palestinos. Visões simplistas reconhecem, nesse período, várias guerras entre árabes e israelitas – como a de Itamar Rabinovich, que identifica sete guerras entre novembro de 1947 e junho de 1982. Essas classificações, embora funcionais para os propósitos do relato histórico, obscurecem o fato de que na realidade trata-se da mesma guerra que vem sendo travada desde os anos 1930, quando a colonização sionista da Palestina tornou-se definitivamente conflituosa com a sociedade árabe local. Desta forma, o mais recomendável é considerar que a guerra árabe-israelita é a mesma desde os anos 1930, porém com diversos ciclos de violência, sempre provocados por um único conflito: a expansão sionista versus a resistência palestina e dos vizinhos árabes de Israel.

Feita esta importante ressalva, pode-se utilizar para fins analíticos a classificação proposta por Rabinovich, que aplica o termo guerra a cada um dos momentos de erupção de violência, embora o próprio autor reconheça a perenidade do conflito ao afirmar:

Não se percebeu imediatamente que a guerra [de 1948], em vez de decidir o conflito, contribuiu para sua perpetuação e exacerbação.” (Rabinovich, 1984, p. 46)

São os seguintes os sete momentos principais do conflito árabe-israelita, segundo Rabinovich:

1) guerra civil de facto entre adopção do plano de partilha da ONU em novembro de 1947 e fim do mandato em 14/5/1948;

2) guerra em grande escala de 15/5/1948 até a assinatura do armistício em janeiro de 1949;

3) guerra de Suez, outubro de 1956;

4) guerra de junho de 1967 (Guerra dos Seis Dias);

5) guerra de atrito entre dezembro de 1968 e julho de 1970;

6) guerra de outubro de 1973;

7) guerra do Líbano, junho de 1982.

A estes se pode adicionar um oitavo ciclo de violência, iniciado em 1987 e mantido até os dias de hoje, caracterizado pela resistência palestina à ocupação israelita dos territórios de Gaza e Cisjordânia, que veio a ser conhecida como intifada – a revolta das pedras.

Ao longo da década de 1950 os antagonismos mútuos foram traduzidos em atos políticos, econômicos e militares como boicote árabe a produtos israelenses, fechamento do golfo de Tirana e do Canal de Suez aos navios de Israel, infiltração armada através das fronteiras e ataques israelenses sobre Jordânia, Faixa de Gaza e Síria. Todos os personagens envolvidos sentiam que se aproximava o ‘segundo round’ do conflito: para os árabes seria uma guerra destinada a destruir o Estado de Israel; para este, uma guerra calculada para antecipar um ataque árabe e fortalecer sua posição estratégica.

Em 1956, Israel, em coligação com a França e Inglaterra e armado pela primeira, atacou o Egito, procurando impedir sua ascensão a potência regional sob o comando de Gamal Abdel Nasser, líder de um forte nacionalismo pan-árabe e aliado à URSS. Eram três os objectivos estratégicos israelitas: atingir o canal de Suez para abrir caminho para a operação anglo-francesa; destruir o exército egípcio no Sinai; e capturar Sharm el-Sheikh, ponto ao sul do Sinai que domina os Estreitos de Tirana.

O que foi inicialmente uma vitória militar de Israel, que com o domínio total dos ares levou somente quatro dias para atingir seus objectivos, tornou-se uma vitória política para Nasser, que continuou no poder. Sob forte pressão dos EUA e da União Soviética, que não podiam aceitar que passos tão decisivos fossem dados em área de seu interesse sem sua autorização, os ingleses e franceses foram obrigados a retirar-se do Egito e no ano seguinte Israel evacuou a Faixa de Gaza e o Deserto do Sinai. Para Albert Hourani, “esse foi um dos raros episódios em que a estrutura de poder no mundo ficou claramente revelada: a hostilidade de forças locais atraiu potências mundiais de segundo escalão em defesa de interesses próprios, só para darem de cara com os limites de sua força quando desafiaram os interesses das grandes potências. (Hourani, 1994)”

As principais consequências desta etapa da Guerra foram a consolidação do poder regional de Israel e o reforço da imagem de Israel como cabeça-de-ponte ocidental entre os árabes. Os problemas levantados em 1947 não foram solucionados, e novos actores internacionais envolveram-se na questão, o que levaria dez anos depois a um novo conflito.

Um factor importante foi o crescente domínio político da Síria pelo Baa’th, partido que defendia a ideia de que a nação árabe fosse formada por um único Estado, tornando a posição radical em relação a Israel num instrumento explícito de sua política doméstica e regional. A influência do partido espalhou-se por Líbano, Jordânia, Iraque e países da Península Arábica. Além disso, esta época marca a reafirmação da Questão Palestina como principal questão do conflito e a aparição da OLP no cenário internacional.




Terra

 

Parte II: 1929-1948

 

Em 1929 ocorreu o primeiro conflito grave, causado por uma disputa religiosa entre judeus e muçulmanos em Jerusalém, seguida de confrontos em Jerusalém e Hebron que deixaram mais de duas centenas de mortos. Em 1936, os palestinos começaram uma greve geral, repetindo-se em escala muito maior a sequência dos eventos de 1929 de violência árabe e resposta britânica. Paralelamente a esses eventos, os sionistas estruturavam seu poderio militar – através da Haganah, órgão de defesa oficial, e dos grupos para-militares dissidentes Palmach, Irgun e Stern, que adoptaram tácticas terroristas. (Mackay, 1995, p. 19; Garfinkle, 1984, p. 32)

Após a Segunda Guerra Mundial, o movimento de judeus imigrantes para a Palestina aumentou significativamente. Os sionistas começavam a batalha contra a Inglaterra, atacando seus postos e tomando suas armas para o conflito que viria a seguir, ao mesmo tempo em que faziam gestões junto à Checoslováquia para a aquisição de mais armamento (Kurzman, 1970, p. 19-25). Com o fracasso dos planos de partilha propostos pelos ingleses, o assunto foi levado às Nações Unidas. Em maio de 1947 instalou-se a Comissão Especial das Nações Unidas para a Palestina (UNSCOP), que terminou suas investigações em agosto. A proposta da comissão foi levada a votação em assembleia presidida pelo representante brasileiro na ONU, Ministro Oswaldo Aranha, em novembro de 1947 (Dodd & Sales, 1970, p.78-80).

Colocado em votação o plano de partilha da UNSCOP, o resultado foi o esperado, uma vez que as grandes potências haviam decidido seus votos favoravelmente à partilha: 33 países votaram a favor, 13 votaram contra e 10 se abstiveram. “Na Palestina, os judeus foram para as ruas e dançaram toda a noite na euforia da realização bíblica”, relata o historiógrafo sionista Dan Kurzman (1970, p. 25).

Entre os treze países que votaram contra a partilha estiveram os países árabes, que declararam em seguida que não se sentiriam obrigados a cumprir a determinação da Assembleia, uma vez que esta contrariava os princípios da Carta das Nações Unidas. O representante do Líbano, o futuro presidente Camille Chamoun, denunciou em seu discurso as manobras de bastidores efectuadas por representantes sionistas para angariar votos de países menos importantes, o que reverteu o resultado esperado:

Eu posso bem imaginar a que pressões, a que manobras o seu senso de justiça, igualdade e democracia foi exposto durante as últimas 36 horas. Eu posso também imaginar como vocês resistiram a todas essas tentativas para preservar o que temos de mais querido e sagrado nas Nações Unidas, a manutenção dos princípios da Carta e a salvaguarda da democracia e dos métodos democráticos da nossa Organização. Meus amigos, pensem nestes métodos democráticos, na liberdade de voto que é sagrada a cada uma das nossas delegações. Se nós tivéssemos que abandonar isto pelo sistema tirânico de abordar as delegações em seus quartos de hotel, em corredores e ante-salas, ameaçá-las com sanções económicas ou dar propinas e fazer promessas para compeli-las a votar de uma forma ou outra, pensem no que a nossa Organização tornar-se-á no futuro.” (ONU, II, cap. IV)

Em função de seu papel como presidente da Assembleia e por ter se declarado favorável ao Plano de Partilha, Oswaldo Aranha é considerado pela historiografia oficial israelita como um defensor de Israel. Dan Kurzman, por exemplo, define-o como “amigo dos sionistas”, preferindo não levantar a hipótese de que ele apenas estivesse favorecendo a posição dos Estados Unidos e Inglaterra, conforme de fato foi orientado a fazer pelo Ministério das Relações Exteriores, ou de que tenha vislumbrado a possibilidade de que os judeus deixassem de imigrar para o Brasil e que “Copacabana voltasse a ser carioca” (Lesser, 1955, 22), uma vez que parte da Terra Santa se tornasse território judaico.

Para os sionistas, a partilha era vista como um compromisso provisório, até que fossem dadas as condições para a realização total do sonho sionista. Isto fica claro nas palavras de Ben-Gurion, que assim qualificou sua aceitação do esquema de partilha defendido pelos ingleses no final dos anos 30:

O Estado judeu que agora é oferecido para nós não é o objectivo sionista. Dentro desta área não é possível resolver a questão judaica. Mas pode servir como uma etapa decisiva em direcção à grande implementação do sionismo. Irá consolidar na Palestina, no menor tempo possível, a real força judaica que irá nos levar a nosso objectivo histórico. (...) O Estado judeu terá um exército fora do comum – não tenho dúvida que o nosso exército estará entre os mais espectaculares do mundo – e assim estou certo que não seremos impedidos de nos assentarmos no resto do país, mesmo que fora do acordo e entendimento mútuo com os vizinhos árabes.” (Finkelstein, 1995, p. 15)

Quanto às estratégias sionistas para lidar com a previsível resistência árabe, eram baseadas num consenso sobre a questão árabe marcado por três premissas inter-relacionadas: 1) o movimento sionista não deveria esperar nem buscar a aquiescência dos árabes palestinos; 2) o sucesso da empresa sionista seria dependente do apoio de uma (ou mais) Grande(s) Potência(s); 3) o conflito da Palestina deveria ser resolvido no enquadramento de uma aliança regional subordinada aos interesses da(s) grande(s) potência(s).

Em protesto contra a partilha de seu país, o Alto Comité Árabe Palestino, formado pelas famílias de notáveis palestinas, convocou uma greve geral. Proliferavam os combates entre judeus e palestinos, uma vez que com a partida progressiva dos ingleses, as forças paramilitares judaicas podiam operar mais livremente. “Sabotagem, ataques a instalações militares e a captura de armas inglesas por estes grupos tornaram-se uma característica principal da cena palestina, ao lado da proliferação dos confrontos entre árabes e judeus.” (ONU, II, cap. V)

Com os eventos levando a região rumo a um grande conflito armado, a Inglaterra anunciou que terminaria o mandato em 15 de maio de 1948 – vários meses antes do que fora definido no plano das Nações Unidas – e apressou a retirada de seu pessoal. Nessa retirada, acusados pelas forças paramilitares judaicas, os ingleses deixaram para trás boa parte de seu material bélico, que foi apropriado pelos sionistas (mesmo a bibliografia sionista não esconde este fato, porém o reinterpreta: “Enquanto os agentes da Haganah usavam todos os meios possíveis para canalizar armas e equipamento militar americanos para a Palestina, para a batalha de sobrevivência que ocorreria, eles trabalhavam não menos febrilmente para obter material de uma fonte mais perto de casa – o exército britânico. E enquanto os britânicos gradualmente evacuavam o país, a Haganah encontrou oportunidades crescentes para aliviá-los de sua carga massiva de chumbo e ferro” [KURZMAN, 1970, p. 53, grifos meus).

Ao passo que a Inglaterra rapidamente desembaraçava-se da Palestina, entretanto, a ONU era incapaz de substituí-la como autoridade efectiva, permitindo ao movimento sionista estabelecer controle sobre o território que formaria o Estado judeu. Escritos dos líderes sionistas indicam que sua política declarada era ocupar, durante o período da retirada britânica, o máximo de território possível além das fronteiras designadas pelo Plano de Partilha da ONU. Durante estes meses, as forças judaicas ocuparam cidades e áreas importantes no território destinado para o Estado árabe, assim como grande parte de Jerusalém, que deveria ser internacionalizada.





BOMBA

 

Parte I: 1897-1929

A execução de parte das metas do sionismo, com amplo apoio inglês e norte-americano norte-americano, é sem sombra de dúvida o factor mais importante na manutenção do estado de guerra no Oriente Próximo desde o início do século até os dias de hoje. Este movimento originou-se no final do século XIX, tendo como seu momento fundador o Congresso da Basileia, em 1897, sob a liderança de Theodor Herzl.

O sionismo é decorrente da emancipação dos judeus em todos os países após o nascimento do Estado-nação moderno, garantindo-lhes direitos civis e igualdade política e legal. Esta emancipação política trouxe um problema aos judeus: a ameaça de dissolução de sua identidade, cultura e solidariedade social, e em resposta a isso houve vários tipos de posicionamento (Garfinkle, 1984, p.12), entre os quais o sionismo destacou-se negativamente.

Apesar de a Palestina ter sido escolhida por seu significado religioso e histórico para o judaísmo, o movimento sionista é secular – trata-se na verdade de uma ideologia política. Ao contrário dos outros nacionalismos, porém, o sionismo, em suas formulações anteriores a 1948, referia-se a uma terra distante e que não pertencia àquela “nação”, dispersa pela Europa e América, o que implicou na criação de um movimento que, antes de nacionalista, era na verdade colonialista:

O fato de que o sionismo de Herzl nasceu fora do país designado torna-o único entre os movimentos nacionais modernos, e estabeleceu as condições para o conflito com a população local. Enquanto os judeus sentiam que eles iam para casa na sua terra ancestral, os habitantes árabes da Palestina viam o plano sionista como uma forma de colonialismo europeu. (Zilkha, 1992, p.9)”

O historiador judaico-americano Norman Finkelstein, em importante obra sobre o assunto, identifica o ‘consenso ideológico’ em que se desenvolve a crença sionista. Para o autor, um dos elementos centrais deste consenso é a ideia de que a Palestina deveria um dia conter uma maioria judaica, provou ser o principal obstáculo para qualquer reconciliação com os árabes.

Para o autor, a análise sionista da questão judaica adoptou o raciocínio do anti-semitismo, que invocava o mesmo argumento para justificar o ódio aos judeus:

De fato, a prescrição que o sionismo propôs para a situação judaica também estava inscrita na lógica do anti-semitismo. O sionismo político não desejou combater o anti-semitismo, mas encontrar um modus vivendi com este. Propôs que a nação judaica resolvesse a questão judaica estabelecendo-se em um Estado que ‘pertencesse’ a ela. Para conseguir isto, os judeus teriam que se constituir em algum lugar como a maioria.” (Finkelstein, 1995, p. 8)

A futura protecção prometida pela liderança sionista à minoria árabe não excluía – de fato, ela pressupunha – que, em princípio, o Estado pertenceria ao povo judeu:

O sionismo desejou estabelecer um Estado que o povo judeu poderia alegar inteiramente como sendo seu. Em um Estado assim concebido, os não judeus, mesmo desfrutando os direitos de cidadania, poderiam esperar figurar, na melhor das hipóteses, como uma excrescência no corpo político. (...) A liderança sionista não tinha nenhuma ilusão de que seu projecto não teria que ser imposto sobre a extensa maioria árabe ou que sua implementação poderia ser cumprida sem a violação egrégia das normas democráticas.” (Finkelstein, 1995, p. 12)

Esta formulação sionista levou às duas questões políticas que prevaleceram durante o mandato britânico: a partilha e a transferência de população. Para o movimento sionista, a pátria ‘histórica’ dos judeus incorporava toda a Palestina, incluindo a Transjordânia, as Montanhas de Golã e o sul do Líbano (embora ainda haja facções sionistas defendendo que o ‘Sião’ estende-se dos rios Nilo ao Eufrates).

Com o apoio britânico, o assentamento judaico na Palestina tornou-se cada vez mais forte com a intensificação das ondas imigratórias – ou aliyah (‘ascensão’) (Garfinkle, 1984, p. 25). Em 1909 o Yishuv (‘assentamento’), como os esforços sionistas eram conhecidos, estabeleceu o primeiro kibbutz (pl.: kibbutzin), assentamento colectivo inspirado pelo socialismo. Em 1914, havia 14 kibbutzin e uma cidade judaica também havia se estabelecido (Tel-Aviv); havia 500.000 árabes na Palestina e 85.000 judeus, dos quais 12.000 em áreas rurais. Segundo o estudioso Muhammed Muslih:

Estes novos imigrantes, que se estabeleceram em assentamentos no campo, eram europeus ignorantes e insensíveis aos costumes árabes na Palestina. Por exemplo, após estabelecer suas colónias, bloqueavam os direitos costumeiros de pastagem às vilas adjacentes, tomavam os carneiros que ultrapassavam as fronteiras e multavam os árabes que eram seus donos. Tais condutas levaram a violentos conflitos entre árabes e judeus. Os árabes sentiam-se alienados das terras que cultivaram por séculos.” (Muslih, 1988, p. 4)

Com o término da Primeira Guerra Mundial e o fim do domínio turco, ocorreram diversos congressos árabes na Palestina, manifestando a rejeição do plano inglês de formação de um governo proporcional às religiões, a insistência na forma de governo nacional baseado na maioria simples, a abolição do princípio do lar nacional judeu, o fim da imigração judaica e a não separação da Palestina dos vizinhos árabes.

Estas demandas, no entanto, vieram a fracassar devido à política britânica de franco apoio à imigração judaica, ao crescente poderio militar do movimento sionista na Palestina e às divisões internas entre as famílias, classes sociais e seitas religiosas árabes. Como os objectivos das comunidades árabe e judaica divergiam, no final da década de 1920 começou o ciclo de violência que até hoje não terminou – devido, em grande parte, ao fato de a maior parte do movimento sionista nunca ter tentado entender a sensibilidade árabe ou vir a termos com as demandas políticas árabes. O sionismo, como se desenvolveu nos primeiros tempos na Europa, era infelizmente ignorante das reais condições da Palestina (Garfinkle, 1984, p. 26). De fato, Herzl tinha pronunciado triunfalmente o slogan “Para um povo sem terra, uma terra sem povo”, ignorando, segundo publicação da ONU sobre a questão, “o fato de que bem mais do que meio milhão de palestinos, na virada do século, viviam na Palestina, que era sua casa.” (ONU, I, cap. II)

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ANDRÉ GATTAZ

http://www.andregattaz.com.br/

Doutor em História pela Universidade de São Paulo; editor do Palestina Livre

A história contemporânea da Palestina foi marcada por uma colonização estrangeira que afectou o 'modus vivendi' de todo o Oriente Próximo – a colonização judaica baseada no sionismo político, ideologia vinculada a um projecto de expulsão dos habitantes nativos da área (em sua maioria muçulmanos, mas também cristãos e judeus árabes), para o assentamento de colonos estrangeiros (judeus provenientes da Europa e EUA, especialmente ashkenazim leste-europeus).

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O Manifesto está no título !

Considerando que existem dois lados na questão Palestiniana, o lado em que está o povo que sofre de ambas as partes e o lado dos governos-estados que de um e outro território continuam a manter um estado continuo de guerra e agressões, deve ficar claro que aqui estamos com o povo, com os desprotegidos, do lado dos prisioneiros em terra própria, pela libertação definitiva e acordos imediatos, pelo entendimento e pela paz, há que acabar com todo o tipo de guerra, há que eliminar o armamento e é tempo de viver em harmonia em terra que deveria ser um símbolo de Paz !

 

Yusuf Islam - Wild world

 

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Now that I've lost everything to you

You say you wanna start something new

And it's breakin' my heart you're leavin'

Baby, I'm grievin'

But if you wanna leave, take good care

Hope you have a lot of nice things to wear

But then a lot of nice things turn bad out there



Oh, baby, baby, it's a wild world

It's hard to get by just upon a smile

Oh, baby, baby, it's a wild world

and I'll always remember you like a child, girl


You know I've seen a lot of what the world can do

And it's breakin' my heart in two

Because I never wanna see you a sad girl

Don't be a bad girl

But if you wanna leave, take good care

Hope you make a lot of nice friends out there

But just remember there's a lot of bad and beware



Baby, I love you

But if you wanna leave, take good care

Hope you make a lot of nice friends out there

But just remember there's a lot of bad and beware

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