Para Moçambique
De todos os dias da minha vida me vêm à lembrança episódios do passado que se atropelam e de serem tantos, de tão diferentes emoções terem causado, sinto agora uma imensa vontade de os recordar.
Tudo o tempo ameniza e as dificuldades já com sabor a superadas vêm lembrar-me que a alguém podem servir de ajuda.
Como morada de poucos dias, tínhamos, antes de embarcar para Moçambique, a casa da minha avó em Elvas, casa de família,"palácio" para as crianças, (eu era uma) que, com o desconto dado agora à imaginação infantil, nem seria assim tão grande...
A minha avó sempre árbitro das nossas brincadeiras, deixou em mim a mais doce recordação e a presente ideia do significado da palavra. Era uma senhora inteligente que, pela educação de menina daquela época aprendeu piano, disso tenho a certeza porque dava lições, de Francês, não sei, nunca ouvi falar...
Contava-se lá em casa que, numa hora de refeição, quando dois dos filhos já universitários tiravam dúvidas, ela dava a sua opinião, curiosamente acertada porque lia os compêndios deles nas horas vagas.
Dos avós, só ela conheci e toda a vida a lembrei, sempre com um sorriso de condescendência e ternura, inspirando-me uma grande admiração.
Íamos com ela à missa e era-me muito agradável aquele ritual que implicava roupa linda e um recato que nos dava direito ao elogio de meninos bem comportados. O meu mano porém, e por vezes, sem mesmo querer fazê-lo para não melindrar, queixava-se do peso que sentia ao servir de apoio à avó, pois o seu ombrito ficava mesmo à altura ideal de bengala. Eu era demasiado pequena! ...
Foi um bom tempo na minha vida. Não voltaria a vê-la, aquela relação foi-me muito grata.
Como alferes o meu pai oferece-se para Moçambique. Depois dos trâmites necessários, dos quais eu apenas me lembro das vacinas, aí vamos nós de bagagens feitas, que nessa altura ainda eram só organizadas pela mãe.
Radiantes é claro, ir num barco onde se dormia e tudo, era festa para tirar o sono da véspera! ...
Fomos no Pátria, um belo Navio na época, com salinha de crianças, baloiços, cinema e festas. Foi um delírio esta viagem.
Chegados a Lourenço Marques, terra linda e quente, de chão vermelho, fomos ao quartel com uma parada enorme e depois a casa de varanda imensa a toda a volta. Notava-se que Moçambique era uma terra diferente em usos porque tinha grande influência sul-africana.
Belas praias, grandes passeios feitos num Opel Baby comprado depois do meu pai tirar a carta; bem se notava que era o primeiro, tantas as amachucadelas...
Tudo de bom por lá, mas inesquecível mesmo foi o nascimento do meu irmão! No dia em que o vi ainda fiquei apreensiva pois tinha "argirol" na vista e estranhei aquela mancha escura. Dissipadas as dúvidas e com aquele lindo bebé para mim, a partir daí foi uma alegria continuada de afeição e partilha.
Por Moçambique comecei a descoberta das Províncias de Além Mar Portuguesas.
