SOL

Salpicos

Cobra2 

Brilhantes bolinhas de luz, irregulares em forma e tamanhos, inundavam minha manta lisa, dum cinzento esverdeado, que me protegia,  de frio e  das moscas poisando e voando em redor; era o sol nascendo, passando seus ainda fracos raios por entre as folhas pequenas e espinhos longos de grande espinheira.  Abrigáramo-nos ali, chegados tarde a noite, para a passar, e prevenir  com a sombra que depois faria, certamente,  num dia que chegaria quente.

Madrugada, em terras da Caála, à beira da povoação, gado por ali pastando, bovinos que com seu porte inspiravam respeito, mais ainda a quem deitado no chão lhe pareciam muito maiores,  mirando-nos.

Receios, em aventura gostosa naquele mato, preparando acampamento para fazer refeições em fogueira de lenha achada, carregada em saco ou pano arrastado, durante  caminhada ao sol.

Em clareira do  terreno mais regular, se armava mesa, colocavam bancos em redor e, sobre caixas se fazia apoio de latas, garrafas e géneros necessários a cozinhar.

Vinham no meio das tarefas,  histórias de cada um, muitas inspiradas no lugar, outras em sítios idênticos, sempre surgindo em jeito de estoicismo, com desfecho de vitória, sobre medos ou situações imprevistas.

Cobra1Contava Ester, nascida e criada em Angola, com muitos períodos de tempo passados em povoação isolada, que por hábito, e para prevenir surpresas, sempre antes de se deitar, procurava em todos os cantos, a possível existência de uma cobra ou qualquer outro animal indesejado.   Tivera porém uma noite  de  pôr à prova a sua bravura e conhecimento  para  se livrar de uma "mamba" que lhe  caíra na cama, vinda do teto, desenrolada de trave de escura madeira, onde  morava silenciosamente.

De cobras, perigosas ou não, vêm sempre várias narrativas, algumas de arrepiar porque, à  parte o medo, infundem uma grande repulsa a muita gente,  pelo rastejar sinuoso e ausência de ruído que as denuncie, e aspeto viscoso, por vezes, embora as haja belas, salpicadas de cor.

Também houve quem  tivesse uma por perto, muito perto mesmo, enroscada no pedal de jeep, em viagem por "terras de fim do mundo".  Descobri-la a tempo e saber como proceder para a jogar longe, seria milagre para  poder depois contar...

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Madrinha

Foi um convite muito formal aquele, feito pelos pais da recém-nascida, que vinha embrulhada em manta parda de risca encarnada. Apesar do  tempo muito quente; protegiam-na assim pela fragilidade daquelas  duas horas de vida.

Nascera em cubata cuidada, ali mesmo, à beira da estrada de terra batida, junto ao quartel, quase  em terrenos militares.

Era filha de cabo angolano que no exército Português fizera carreira, como condutor do autocarro militar.

Com um propósito determinado, traziam no rosto uma expressão de felicidade, no pai um tanto diluída por acanhamento, na mãe por incómodo de parto tão recente.

Vestiam com esmero, ele uma farda impecável, ela uma saia de pregas, blusa de seda, um pouco  encoberta por pano garrido, pendendo dos ombros, por conforto e para algum  recato.

Cumpriam assim, com presença, a promessa  meses antes feita, de me convidar para madrinha deste sexto filho, que era menina e estava ali.

O tempo correu ligeiro e foi certinho para falar na Igreja, marcar data e fazer, para a Isabel, vestidinho todo de cetim branco, com muitos folhos, muitas rendas, fitas na touca.

Na cerimónia senti-me muito orgulhosa, ciente   da minha responsabilidade;   não me permitiu o destino, porém, que essa missão cumprisse e  por lá ficou a afilhada, crescendo  nesse enorme Lubango, criança, rapariga e agora mulher, com o nome de Isabel Luzia Pedro, como consta no batismo de que sou testemunha!

 SeLubango

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Já são cem!

 Cem

Visitei o Blogue há pouco, e foi então que reparei serem   noventa e nove os bocadinhos de mim que aqui pus em jeito de história vivida, para eu recordar também!

Com sítios por onde passei, gente que conheci e muito, muito de entusiasmo por tudo que aprendi, com a vida que ensinou, as dificuldades, desgostos, desilusões que ficaram, com esforço, no rol do determinado a esquecer.

Mas do bom que houve, tudo quanto passou à memória  se busca com prazer e nos deleita, se faz agora parar, para saborear lembranças...

Essas mesmas boas recordações em parte povoam  sonhos que queremos prolongar mas pouco resulta, por serem breves e se tornarem  esbatidos...

Ao dia-a-dia da realidade de hoje, juntei  um grande interesse por este cantinho de comunicação a que muitos temos direito e que usamos como melhor dele nos podemos servir.

Tarde, muito tarde já, aceitei-o como entretém, e aqui coloquei com dedicação, as palavras que me ajudam a partilhar as minhas emoções, mais coisas do passado  que novas ideias ou opiniões.

Assim, contei como nascida numa ilha florida cedo comecei a viajar e sem quase dar por isso, me apaixonei pelo mar... Ele me levou por essas terras de além, sempre com o contentamento de conhecer, de aventura e o prazer de gostar da vida em diferentes latitudes.

Foram saídas, muitas, para terras de África, numa e outra costa, no Oriente também, que cresci e me encantei, não deixando porém de lembrar sempre e regressar, de vez em quando, à então chamada " Metrópole". Como "Quartel-General" da família que era a minha, nesse tempo, em Elvas, uma casa antiga, de sacadas verdes, que davam para um Largo, ficava frente à velha Igreja da Senhora das Dores, esperava-nos.

De Moçambique trouxe a liberdade que se vive antes da idade escolar e colhi tudo que há de fantasia nas histórias infantis com lindos luares e muitas estrelas brilhantes...

De Macau, cidade cheia de China nos seus mistérios e estranhos costumes, veio comigo um saber novo de como aceitar diferenças.

Na adolescência, coube-me, como destino Angola, essa Angola que  dominou toda a minha vida e eu fiz durar, inebriada sempre pelo seu feitiço.

Completo assim cem “Posts”, partilha que fiz com todos, na minha ânsia de comunicar e ajudada por quem comenta.
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Era assim...

PostalJuntávamos tudo de donativos que se conseguiam em peditório, feito com alguma antecedência no comércio da terra.

Começava então o nosso pré Natal, ali no ginásio da escola, com lugar que ocupávamos frente a lotes de mercearia variada, arrumada em grande mesa, separada por qualidade designada no cartucho, que era embalagem de então.
Respeitando lista, colocávamos em cabaz pequeno, tudo que podia ser  reforço no lar, para melhorar uma ceia de família em dia especial, neste caso a consoada.

Lembro-me de, além dos comuns sacos de arroz e feijão, o embrulho de papel pardo conter bacalhau melhor, uma boa postinha por cada habitante da casa; casa humilde, claro, tecto para agregado de pouco soldo mensal.

Era-me  geralmente destinada a zona do castelo para a visita de bodo, e trouxe-me sempre uma imensa satisfação repetir o lugar que se me tornou familiar em anos consecutivos.

Trazia no regresso uma braçada de flores campestres, misturadas com azevinho que crescia junto à cerca, de bolinhas vermelho muito vivo;  uma mão cheia de goivos perfumados, colhidos em vaso da porta, lilases e rosados, oferecidos ali com sorriso de amizade.

Cumprir desta maneira um dever para com os mais desfavorecidos trazia sensação de direito a pensar então no nosso Natal, com as diligências necessárias para o armar da árvore, toda enfeitada por nós, com muita coisa brilhante de purpurina, papel de lustro e pratas dos chocolates, guardadas  entre as folhas dos livros e que nesta altura forravam pedaços de cartolina com formato de estrela; eram imensas, algumas enormes... e quanto orgulho nos trazia o efeito...

No presépio faziam-se pontes sobre riachos, lagos frente à manjedoura, cabana de tecto de palha, e o campo feito de musgo, tinha, espalhados, pastorinhos e lavadeiras.

Em tempo de contas feitas à demora do correio, mais lento então pela muita correspondência, era dever também, endereçar Boas Festas, em cartões escolhidos com critério, respeitando  destinatário.

Mesmo a tarefa de embelezar a capela do colégio, embora trabalhosa, tinha magia no perfume de incenso, das flores e os altares cobertos por toalhas de linho e rendas engomadas, traziam devoção à festa mais solene, a missa do galo.

Encantamento era tudo, aumentado  porém, na noite do dia vinte e quatro, quando colocados os sapatinhos na chaminé, e depois da  visita do Menino Jesus, embrulhados e com laços de fita, apareciam aqueles  presentes surpresa. Um brinquedo desejado, que se fez por merecer, e mais alguma coisa que aumentava o mistério daquela  noite longa!

 Brinquedos

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No Cais

 VeraCruz

Ficava-se ali acenando, entre gente que em despedida toma sempre expressão de incerteza, ansiedade e alguma tristeza. É a saudade que ronda, que começa cedo, por antecipação de sentimento esperado para tempos próximos.

Era uma Companhia de Caçadores que se preparara em Portalegre para fazer uma  comissão em Angola, e embarcava então no Vera Cruz. Ia esmeradamente fardada, no desempenhar duma missão que começava ali, mostrando a disciplina que aprendera em tempo de recruta, começando a saber cumprir, respeitar e conhecer patentes e hierarquias.

Fora um convívio de meses, para as famílias que, em circunstâncias semelhantes, se apoiavam e experimentavam os mesmos receios, e o nascer duma saudade nova. Essa  saudade  que esperavam se dissipasse em breve, quando, como se previa, uma viagem para Luanda as levasse, depois de definida e determinada a zona de intervenção da tropa recém embarcada.

Estive ali também, naquela manhã fria, no cais, vendo levantar ferro e afastar-se lentamente o barco, rumando a África, para terra que era nossa então! E fiquei lá, até só ver pontos iguais, alinhados pela amurada.

Sempre vieram, meses depois, notícias de bilhetes comprados, destino Luanda, com data marcada. Uma colaboração entre todos  que ficaram, geria já planos para casas alugadas na Maianga, quase todas vivendas pequenas, geminadas, que se distribuíram depois e deram início à formação de uma grande família.

De Janeiro deixamos o frio em Lisboa, e o meu  vestido castanho de fazenda de lã, quase queimava à chegada, ainda mal amanhecera, na cidade de São Paulo.

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Vila Franca

 

 RaidRibatejo

Em tempo de São Martinho lembramos terras do Ribatejo, festa do cavalo, expoente máximo em dias de exibições, concursos e raids  que têm história de há muito.

Rumar à Golegã é programa destes dias, ver cavalos e toiros é tradição antiga, seguida pelos amantes, que também já cumpri a preceito.

RaidSaía de Lisboa pela manhã. Em Novembro, por vezes acontecia um dia onze com sol brilhante, mas a maioria das viagens fi-las com chuvisco e tempo nublado, que, contudo, por ser altura de castanhas quentes, era assim bem apreciado.

CascoFerraduraSempre a horas para cumprir programa, percorria o espaço, preparado para o encanto das provas de alta escola, e sequências de passagens, provas e desfiles em que  o cavalo é  rei.

Dum Raid em Vila Franca de Xira tenho eu história que recebi de herança. Ouvi contada, e agora aqui relembro:

Era Proteu,  o nome do cavalo ruço, filho de Silfire e Gila, ferro Santos Jorge; vaidoso, me disseram ele ser, competia com garbo, obedecendo com dedicação e firmeza ao cavaleiro que o preparara para com ele formar equipa e levar a bom termo o desafio, cumprindo todas as exigências das regras, e suportando "estoicamente"  a dureza dos percursos.

Quatro etapas para percorrer, pelos  campos de Vila Franca, Santarém, Golegã e Salvaterra, mais uma prova complementar na Lezíria.

Foi-me  feito de viva voz o relato  desta aventura, mas ele vem na  revista DIANA  nº 140 de Agosto 1960.  Da história, com muitos anos passados já, sobre o primeiro Raid do Ribatejo, aqui fica a sua  lembrança!

 1Proteu

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Valeu a pena!

PaiNatalParece destinado a isto mesmo, ao desfolhar de páginas duma vida, o dia de Outono, cinzento pelo reflexo de céu carregado de escuras nuvens, arrastadas por vento forte, que tudo agita lá fora.

De repouso em maple pequeno, pensando passado, relembrando gente que povoou minha vida, vou buscar afectos, sentimentos, desgostos e trabalhos muitos, também.

De criança se criam desejos, se fantasiam futuros que o tempo ensina a limitar, trazendo realidades, por vezes difíceis.

Cresce-se descuidado por natureza que nos defende ou protege, mas breve a vida nos traz, com a idade, preocupações e cuidados.

Chegou cedo naquele ano o Outono, pelo menos pareceu-me; vinha de Angola e receava tempo frio, o arrefecimento assustou-me.

Habituei-me então a usar como abafo capote com gola de pele, bota de atanado e meia grossa feita à mão com fio de lã.

Naquela manhã chovia de mansinho quando saí de casa, com o propósito de continuar o programa de actividades de preparação para um Natal "Novo", feito de sonho de crianças e emoção dos mais velhos.

PaiNatalO lar que abrira havia pouco tempo, acolhia então uma dezena, entre homens e mulheres, de pessoas de geração passada que em tardes de conversa pausada e longa, produzia também, em trabalhos manuais, artigos de artesanato, talhados em cortiça e pau, ou rendas de motivos tradicionais, arte apreciada por todos, desde há muito, quer se destinasse a coberta de cama ou toalha de rosetas.

Tudo se destinava ao mesmo, uma exposição na sala de estar, enfeitada para o efeito, e que se inaugurava em vésperas do Natal.

Estendeu-se no chão, sobre soalho encerado, papel pardo, de cenário chamado, e, com orientação de artista voluntário, um enorme Pai Matal, de barbas brancas e saco de prendas, começou a aparecer... Ergueu-se depois e pregou-se em parede alta caiada, no fundo de palco improvisado.

Tinha bem mais de dois metros de altura e foi novidade grande no teatro da Festa.

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Da terra

Viver perto do chão que se semeia e cultiva, traz-nos imenso apreço por quem o trabalha e vive de sol a sol tratando-o para  produzir, e  criando  gado, o deixa por ali pastando.

Pelos campos, ver pomares e hortas, vinhas e olivais, dá sempre sensação de fartura e riqueza, orgulho para quem cuida e colhe.

Por todo esse País, terras cheias de verde, sempre com poesia, em paisagem bucólica, como postal antigo, há frescura de sombra de árvore e regato por perto.

 Geres

De conhecimento meu, porém, porque de lá tenho vários anos passados, é o Alentejo que me encanta, nas suas lidas duras sob sol quente. Ou em frias e secas madrugadas de Outono, debaixo de oliveira generosa, apanhando azeitona.

DaTerraEmbora mudado, como tudo parece estar, voltar a terras alentejanas planas  e douradas, depois de ceifa feita, mesmo por máquina agora, o restolho aquecido, tem um cheiro especial; e as gentes, porque juventude não está por ali, principalmente conversando à sombra, recordando, têm sempre um conto para dizer, do tempo que acham ter sido o seu.

E foi o tio Manel quem lembrou que naquele mesmo campo, tinha então  quinze anos apenas, era encarregado de fazer  distribuição da merenda pelos trabalhadores:  meio casqueiro, e o conduto variava, podia ser chouriço, toucinho ou farinheira, ou ainda duas sardinhas, para cada um, que ele assava mesmo ali, em fogueira de cavacas no chão.

AguadeiraDepois era a sesta, pequena mas merecida e esperada, hora de repouso com alguma conversa, a modos de folguedo, e a aguadeira a passar por todos, oferecendo água fresca de cântaro húmido de barro vermelho.

Em dias mais longos, por trabalho acrescido, o sol já posto, a hora mais fresca pedia "comer" quente e lá ia o tarro de cortiça com as sopas ou um bom cozido de grão com vagem.

É  parte da vida do tio Manel, quando rapazola, que agora é dono daquela mesma terra, lavrador e próspero criador de gado, casado com a tia Ana, filha do patrão.
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Baía das Pipas

Olhava o Mar, onde lá longe o Céu o toca e o Sol desaparece devagarinho, prateando as águas, desta praia aqui, quando o pensamento me fugiu para terras de África e lá veio, envolta em espuma tão branca também, a lembrança do mesmo, banhando areias mais quentes...

Foi em serão de família, um de muitos, quando amigos e parentes reunidos marcavam convívio idêntico, que o plano se fez para, em sexta-feira bem próxima, se rumar ao litoral, a praia grande, de muita pesca e fina areia.

A semana custou a passar para as crianças impacientes; os adultos, porém, ocuparam-na com os preparativos que, apesar de poucos, deram muito prazer...

Era tardinha já, quando se deu início a viagem de descida da Serra da Leba, por estrada moderna, serpenteada, fosca pela penumbra do sol-posto.

Com os carros  em caravana, seguia-se tendo cuidados de apoio e ajuda a quem necessitasse, porque era novo, para alguns, o caminho.

BaiaPipasDurou o trajecto, e a noite, praticamente caía, quando o piso, muito solto, avisou da chegada. Os filhos que dormiam já, acordaram e buscaram na sacola seus baldes e pás começando, indiferentes ao adiantado da hora, a fazer montinhos de areia, não fosse o tempo faltar, tantas as actividades que traziam para cumprir!

Era agora a lua imensa a deixar-nos orientar naquele extenso areal. Ficamos junto a barracões que serviam de apoio a pescadores locais e lá para dentro transportamos a bagagem que era pouca e se resumia a fatos de banho, toalhas e chapéus, protecção essencial a dias que seriam de inteira comunhão com a natureza, ali bem cheia de sol.

Depois de espaços destinados às camas de chão, de colchão improvisado para o descanso, ficar à porta, usando toda a tranquilidade no fresco em noite de luar, encheu-nos a alma...

O amanhecer faz-se cedo naquelas paragens e é pena perder-se, por isso é levantar e tomar o mata-bicho feito ali, em mesa corrida.

BaiaPipasDo apoio "logístico" se encarregou a tia que, com experiência de anos feita, gerindo casa de família grande, nada nos deixou faltar. Uma despensa cuidada, ao modo  e gosto de gente africana, não deixa esquecidas as "vicânguas" (torresmos) e
Ginguba (amendoim) para  na hora da Cuca, crescidos petiscarem em fim de tarde.

Ia saco de pano-cru com fuba (farinha de milho), para pirão, acompanhamento de "Calulu" que se faria, certamente, acrescentado  com peixe seco, o fresco que se pescasse.

Pescadores desportivos, os nossos, subiram arribas que ficam mais além, e a partir do alto fizeram a pescaria; regressaram a meio da manhã, e traziam já peixe farto, para caldeirada que eles próprios prepararam.

Não são longos os dias, mas enchiam-se com tanta actividade que sabia bem começar o repouso com um serão de jogos.

Faziam-se com a participação de todos, muito entusiasmo e imaginação.

Voltar ao Lubango é passar a zona semi-desértica de Moçamedes até às faldas da serra, antes de subir ao planalto, e poder desfrutar uma viagem maravilhosa!
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Andar por aí...

Almourol 

Sempre com suas maravilhas, cada qual a seu jeito, por situação ou costume singular, encontram-se a cada passo, por este Portugal recheado de paisagem, com sua História em todos os monumentos, nos lugares também, tudo para vermos com atenção, nós e os outros, os que nos visitam e por cá se encantam, vindos de longe ou de perto.

Lisboa aí está, mostrando-se, inundada de sol, um sol que dura ainda e deixa, enfeitadas de brilho, suas originais fachadas pombalinas da Baixa e Avenidas.

Sem muito se procurar  encontram-se, porque estão ali, recantos muito curiosos, oferecendo beleza a quem  se propõe subir e descer calçadas, porque foi sobre colinas erigida  esta cidade antiga, cheia de tradição.

Por sítios de todo o País nos podemos demorar, desde o litoral às terras altas do Norte, descobrindo sempre o que ficou por reparar em passagem anterior. E é assim, para rever, que começamos no  Algarve, perto de Tavira, numa terra de seu nome: Santa Luzia, com Verão quente e mar de calmas água invadindo-a, convidando a passeio de barquinho, levado pela brisa suave.

Do Baixo Alentejo trazemos na ideia a nostalgia do Guadiana banhando a pitoresca cidade de Mértola, vista por quem ainda tem na lembrança Alcoutim, ali perto e tão autêntico.

E da raia de Espanha, viramos para o interior, por Beja de alvo casario e vamos a Évora, tão contada cidade velha. Mas é um roteiro grande por vilas e aldeias, seguindo por caminhos do terço Sul de Portugal; depois vamos subindo... Ficara-nos para trás o Castelo de Palmela, e na paixão que tenho por Castelos, vem-me à lembrança o de Almourol,  gravado para sempre nas minhas imagens de infância, quando de comboio, na linha do Leste, como por magia, do rio ele se erguia, tal e qual acontece nos  conto de fadas...

Passado o Tejo, já no litoral, acima de Lisboa, vamos chegar à Ericeira, terra  de pescadores, onde uma saída por mar marca a nossa História, com o embarque da Rainha Dona Amélia para Inglaterra, exilada.

Pela costa, junto ao  mar, passamos Santa Cruz, e vamos visitar   Peniche, dentro de muralhas e com seu cais de pesca, importante de há muito.

A Lourinhã, na vizinhança da praia da Areia Branca, tem também ali por perto, o Forte de Paimogo.

 RecantoPeniche

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O ganso

Ganso 

Seria um bom nome de história para crianças, mas não será do ganso, mas delas que me proponho contar coisas, coisas de “lana-caprina", como são quase todas em que pego para falar aqui. Simples todas elas sempre, para as quais este nome escolhi, mas verdades vistas ou vividas, passadas ou do presente, de que gosto de falar...

Nas traseiras da casa, há um quintal que, não sendo muito grande, aos olhos dos netos, pelo que já me apercebi, é imenso...

PavãoChegam sempre ansiosos, trazendo planeadas proezas enormes, para, além muros, fazer ingressos por essa mata, buscando brincadeiras em que é indispensável visita ao charco, com  rãs que em criação vão aumentando, descobrir tocas novas onde coelhos bravos, aproveitando o defeso, fazem crescer seus filhotes, assustados, correndo sempre.

Porém, neste rectângulo de terra junto à casa, os prazeres e afazeres são muitos, com os animais a que as crianças dão atenção, mimos e comida também.

É ritual, a ordem do cumprimento que começa por dar festas à gata, camarões à tartaruga, assobios aos canários, conversa aos periquitos que tentam ensinar a falar...

Logo à saída o lago de peixes vermelhos, sempre ansiosos por gente que distribua comida, tarefa  feita por escala e seguida da pergunta: «quem dá hoje?»

Lá fora, com duas "capotas" por companhia, o ganso que, não sei porquê, tem a preferência de todos, vai comer à mão e, embora esteja enorme, não mete respeito a ninguém, nem sequer aos mais pequenos...

GaloSegue-se o casal de aves de capoeira, com um galo muito vistoso, e volumoso, que mete algum medo quando se empertiga todo, protegendo a galinha. Um par de garnisés, anda por aí, mas estranhamente, não desperta grande interesse na pequenada.

Mas o pinto pedrês e o patinho amarelo, esses sim, são enlevo maior e é difícil fazer entender que precisam de comer e de liberdade também...

Depois o solar do pavão, que encanta com suas longas penas de cores brilhantes, mas que é admirado, apenas...

Curiosa a reacção das crianças com os animais, imprescindíveis na sua educação.

 Patinho

Manifestam um grande desejo de os ter por perto, pedem para os levar para casa, e só se resignam, à partida, com a promessa de  voltar em breve. Vir  para  conviver, conhecer  seus hábitos, alimentá-los, é prazer que associam e partilham com a natureza. Apreciável o entusiasmo que desperta o assistir ao crescimento e desenvolvimento das espécies, sempre com comentários inteligentes e oportunos.

Mas também da terra, do crescer das plantas, o semear e colher, trás dedicação e impaciência, quando as cenouras demoram a "engordar" ...

Ganso

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De mim

São férias acabadas, nestes meados de Setembro, mês que veio com grandes tardes de Verão, quente mas com um ventinho arrastando o Outono que por aí chegará ligeiro, fazendo cair as folhas, e mudando a feição do mar com as "marés vivas".

Crianças e adolescentes também, num rancho de netos que encheu a casa, estiveram por aí, em despedida de folguedos e tolerâncias nas horas a respeitar, especialmente no recolher...

E é sempre um descobrir de temperamentos, preferências gostos, tendências e teimosias também...

O quintal do avô, o campo de eucaliptos e pinheiros, nos arredores, um charco com rãs, em terreno perto, tocas de coelhos bravos para espreitar, tem mistérios e sabor a liberdade.

Notável a influência que tem este período da vida nas lembranças que ficam para sempre, sabemos nós agora, e por isso as tentamos colorir com muito espírito e fantasia, para mais tarde recordar...

Associadas vêm logo imagens de confraternização idêntica quando antes de avós fomos pais e ouvimos embevecidos, hoje, as narrativas de aventuras passadas, algumas das quais nos escaparam até.

E também, de fim de férias, vestindo já roupagem  "velhinha", aí nos chegam à ideia tempos de início de aulas, com ansiedades e receios que foram nossos, quando a idade não permitia ainda desmistificar situações que se nos afiguravam tão complicadas...

Colégio1O Colégio ficava mesmo por trás da casa e, de tão perto ser, não justificava acompanhamento ou transporte, por isso o trajecto pequeno fi-lo com muitas cautelas, e chegar com êxito ao grande portão, pareceu-me fantástico.

Em uniforme de Verão ainda, juntei-me a um bando de meninas que tinham a minha altura; falavam inglês, embora fossem chinesas, pois era proibida qualquer outra língua.

Fiquei embaraçada mesmo, e, apesar de pôr toda a minha atenção, vi-me completamente perdida, querendo perceber o que diziam, quando apenas palavras soltas e frases curtas me haviam entusiasmado para querer frequentar aquele Ensino absolutamente britânico.

Foi pois um princípio de ano lectivo de adaptação total, ao espaço, ao idioma, colegas, professoras, e regras.

Mas os livros eram lindos, cheios de figuras e poesia, o de leitura, principalmente, e a ele tanto me dediquei em dias seguintes que o decorei; valeu-me uma passagem ao ano imediato, no final desse primeiro período.

Os meninos da casa, agora, preparam também o começo de uma nova etapa no caminho do futuro: em anos mais adiantados uns, outros dando os primeiros passos na senda da vida, com alguma  apreensão  e muita curiosidade.

Colégio2 



 

 
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Varatojo

Varatojo 

No Varatojo, em Igreja de convento secular onde se assiste à Missa de Domingo, o ritual é hoje  diferente, porque os tempos mudando, levaram a solenidade e trouxeram uma nova maneira de acompanhar, com outras vozes nos cânticos clássicos, ao som de viola e instrumentos de percussão, a visita àquele templo antigo, cheio de História.

Na freguesia de S. Pedro e quinta de Santo António de Torres Vedras, no cimo dum monte de encosta coberta de tojo verde, encontra-se o convento de Varatojo, construído em 1470, reinado de D. Afonso V e por ele mandado erigir  em honra de Santo António e S. Francisco. Teria o próprio monarca colocado a primeira pedra do que seria mais tarde seu refúgio em horas de desilusões e abatimento por frustradas acções guerreiras.

Varatojo 

Edificado com o auxílio de lavradores, que emprestando seus carros eram dispensados de pagar tributo, ali veio a surgir um magnífico edifício que desempenharia através dos séculos, diversos grandes serviços religiosos.

Concluído e entregue à Ordem Franciscana, na pessoa de Frei João da Póvoa, acolheria catorze religiosos, e seu primeiro guardião Frei Álvaro de Alenquer.

Varatojo 

O Mosteiro tornou-se Casa de Noviciado e de Estudos, e em 1680  foi Novo Seminário.
Frei António das Chagas instituiu aquele Mosteiro como real Seminário, e ali se instruíram célebres apóstolos missionários.

Seria depois colégio feminino, em 1880, dirigido por religiosas franciscanas hospitaleiras. Fechado em 1910, daria lugar a um albergue para idosos desvalidos; a Igreja estava entregue à irmandade de Santo António. Representando episódios  da vida deste Santo, encontram-se  na capela-mor, maravilhosos painéis em azulejo.

 Varatojo

E é ali, sob o peso da nossa  História, em ambiente de união de passado e presente, que se assiste à consagração da eucaristia, onde hoje, noviços de agora, com seus hábitos franciscanos, expressam sua entrega, e são monges, vivendo  no Convento; gentes de longe, buscando sua Fé, e oferecendo sua tradição no cantar, vindos de terras que foram Portugal.

 Varatojo

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No Zoo - Com Pequenos

Decorria o ano de 1884 e nascia o Jardim Zoológico, inaugurado, com pompa, no Parque de São Sebastião da Pedreira, donde viria a sair, mudando para Palhavã, que era propriedade contígua. Já em 1904 voltaria a mudar, dessa vez definitivamente, para o Parque das Laranjeiras, onde hoje o encontramos, o mais belo da Europa, para orgulho deste País velhinho...

Zoo«Voltar ao Jardim Zoológico sempre», é meu lema e traz imagens de anos diferentes, acompanhando pequenos de várias gerações, com recordações minhas também, das visitas que fiz em menina, sempre com o mesmo entusiasmo.

Desta vez fui com crianças de seis e dois anos, uma festa que começou no comboio, por cuja paragem não se conseguiu passar sem o apanhar de partida, para viagem curta mas de muitos encantos.

Pouco ficou por ver, por de nada prescindirem miúdos atentos e curiosos, querendo seguir todas as indicações dos caminhos, que levam aonde tudo "é divertido" ou novidade...

E para quase tudo houve um comentário de aceitação e apreço, por conhecimento adquirido e confirmado ali, "ao vivo" e esclarecido naquela altura, por gente em quem confiam.

Saboreando o passeio com prazer, numa tarde maravilhosa, desfrutando de um lugar lindo, amplo, de sombras de arvoredo frondoso, flores cuidadas e aves passeando, debicando aqui e ali, esperou-se pela hora de ver o "som" dos golfinhos, dizia o Diogo, a quem "show" assim lhe pareceu soar...

À Sofia, mais que animais em movimento, encantou-a um enorme cartaz, onde o macaco desenhado se lhe afigurou mais familiar, por assim o conhecer dos seus livros de histórias.

Da visita à Quintinha, com póneis, cavalinhos de verdade, à medida deles, trouxeram uma enorme vontade de um dia experimentar montá-los.

Por bem cuidado que está, aquele Jardim, com esmero também no tratamento dos animais, permite-nos até mostrar às crianças a alimentação de cada espécie.

 Tigre 

O teleférico, encanto maior, para idades de querer viver aventura, teve de se repetir.

O dia de mil fantasias, continuou em delírio por todos os caminhos, alamedas senhoriais e ladeiras, serpenteando por entre espaços, habitat de animais que, com suas características, e temperamentos, mais ou menos agitados, ou mesmo muito tranquilos, em suas horas sonolentas, despertou curiosidades, e fez inventar contos fantásticos...

MiudoO entardecer fez pousar cabecitas cansadas na almofada das cadeiras do transporte, e o sono chegou logo, povoado certamente de bons sonhos.

Fecharam-se atrás de nós os enormes portões pesados, de ferro verde, mas fica sempre a promessa de voltar, para ter tempo de ver algo que passou, ou conseguir, sem pressas, passear por ali, admirando os belos jardins do palácio do Conde de Farroco!
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Santa Cruz da Costa Oeste

RanchoTerra de praias, apetecidas todas por lindas que são,  trazem para ver o mar, onde o  têm mais perto, gentes de povoações vizinhas.  De há muitos anos, e modos diferentes, em viagens curtas, aqui vinham buscar saúde, apanhar timidamente banhos de sol e mergulhar em águas do Oceano, como  é de tradição, cumprindo recomendação antiga.

E todos os meses de Agosto, havia dias de festa, começados pela manhã com grupos de gente dos arredores, chegando em transportes diversos, merenda aviada, para almoço na praia.

Havia depois bailarico, sempre ansiosamente esperado. Traziam concertinas, pandeiros, ferrinhos, bilhas e abanos, os ranchos de mocidade, para fazer música, e enchiam o largo, para noite de arraial, anunciado por foguetes.

Como outrora, em dia feriado, de Corpo de Deus, voltaram a festejar na rua, com danças e cantares, grupos vindos de aldeias  do concelho, esta segunda-feira Santa.

O largo junto à praia, onde as ondas batendo se fazem ouvir e o cheiro a maresia chega, trazido pela brisa, acolheu quem chegava dos arredores para, dando continuação a festejos antigos, aqui vir mostrar de suas modas a tradição.

Rancho 

Foi um regalo vê-los chegar, desfilando em cortejo com carros de bois enfeitados de palmas, montando burros, e usando carroças de varais para transportar gente vestindo a rigor, trajos de outros tempos. Autênticos muitos deles, tirados de arca de família, em tecido que já não há, rendas feitas à mão, bolsas de retalhos fechando com nastro, pendendo no pulso, como se usava, para levar dinheiro. Cabazes de verga que o tempo escureceu, traziam broa e azeitonas, o garrafão empalhado ainda, vinha com vinho da região.

RanchoEm estrado baixinho, posto no meio do empedrado, sucediam-se as valsas a dois e quatro passos, corridinhos do Oeste, choutiços e a "carrasquinha", exibidos pelos Ranchos da Mugideira, Campelos, Varatojo,  A-dos-Cunhados.

E assim ouvi cantar...
Não amo os teus anéis
Nem os brincos das orelhas,
Amo esses teus olhos
Debaixo das sobrancelhas!

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Para fazer música, dos instrumentos imaginados por nossos avós, curiosos, alguns, vinha fazendo parte do conjunto uma garrafa com um garfo no gargalo, agitado a compasso; um tronco, onde cortes feitos ao longo produzem som, quando percorridos por um ferrinho, com energia, e  serve assim, de acompanhamento grave. 

Nas letras de cantigas, a poesia popular, maravilhosa na sua ingenuidade, mas brejeira, por vezes também, leva-nos, em seus autênticos contos de amores passados, aos romances sonhados, nas quadras do folclore, onde, às voltas de uma modinha se chama " ENLEIO".

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