Olhava o Mar, onde lá longe o Céu o toca e o Sol desaparece devagarinho, prateando as águas, desta praia aqui, quando o pensamento me fugiu para terras de África e lá veio, envolta em espuma tão branca também, a lembrança do mesmo, banhando areias mais quentes...
Foi em serão de família, um de muitos, quando amigos e parentes reunidos marcavam convívio idêntico, que o plano se fez para, em sexta-feira bem próxima, se rumar ao litoral, a praia grande, de muita pesca e fina areia.
A semana custou a passar para as crianças impacientes; os adultos, porém, ocuparam-na com os preparativos que, apesar de poucos, deram muito prazer...
Era tardinha já, quando se deu início a viagem de descida da Serra da Leba, por estrada moderna, serpenteada, fosca pela penumbra do sol-posto.
Com os carros em caravana, seguia-se tendo cuidados de apoio e ajuda a quem necessitasse, porque era novo, para alguns, o caminho.
Durou o trajecto, e a noite, praticamente caía, quando o piso, muito solto, avisou da chegada. Os filhos que dormiam já, acordaram e buscaram na sacola seus baldes e pás começando, indiferentes ao adiantado da hora, a fazer montinhos de areia, não fosse o tempo faltar, tantas as actividades que traziam para cumprir!
Era agora a lua imensa a deixar-nos orientar naquele extenso areal. Ficamos junto a barracões que serviam de apoio a pescadores locais e lá para dentro transportamos a bagagem que era pouca e se resumia a fatos de banho, toalhas e chapéus, protecção essencial a dias que seriam de inteira comunhão com a natureza, ali bem cheia de sol.
Depois de espaços destinados às camas de chão, de colchão improvisado para o descanso, ficar à porta, usando toda a tranquilidade no fresco em noite de luar, encheu-nos a alma...
O amanhecer faz-se cedo naquelas paragens e é pena perder-se, por isso é levantar e tomar o mata-bicho feito ali, em mesa corrida.
Do apoio "logístico" se encarregou a tia que, com experiência de anos feita, gerindo casa de família grande, nada nos deixou faltar. Uma despensa cuidada, ao modo e gosto de gente africana, não deixa esquecidas as "vicânguas" (torresmos) e
Ginguba (amendoim) para na hora da Cuca, crescidos petiscarem em fim de tarde.
Ia saco de pano-cru com fuba (farinha de milho), para pirão, acompanhamento de "Calulu" que se faria, certamente, acrescentado com peixe seco, o fresco que se pescasse.
Pescadores desportivos, os nossos, subiram arribas que ficam mais além, e a partir do alto fizeram a pescaria; regressaram a meio da manhã, e traziam já peixe farto, para caldeirada que eles próprios prepararam.
Não são longos os dias, mas enchiam-se com tanta actividade que sabia bem começar o repouso com um serão de jogos.
Faziam-se com a participação de todos, muito entusiasmo e imaginação.
Voltar ao Lubango é passar a zona semi-desértica de Moçamedes até às faldas da serra, antes de subir ao planalto, e poder desfrutar uma viagem maravilhosa!